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O mais delicioso fruto de todas as cinco partes do mundo

Ha dias que têem apparecido ao jantar umas fructas, que dizem ser as mais mimosas d’aquella região. Chamam-lhes os inglezes mangusteen, e os portuguezes mangustões. Para exprimirem a sua delicadeza dizem «quem não provou nunca o mangustão não sabe o que ha de bom no mundo»! São como uma pequena maçã, ou uma grossa ameixa, de côr arroxada, e com uma casca muito espessa, que contém uma especie de geléa esbranquiçada, adocicada e agradavel, mas que não é comparavel a nenhuma das nossas aromaticas e saborosas fructas. Tambem o côco bem fresco não é desagradavel e o seu leite é muito apreciado, attribuindo-se-lhe grandes virtudes para a saude. Tentei beber um copo d’aquelle liquido, turvo, enjoativo e insipido, mas não o consegui. 
mangustões
No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Regalei-me a comer uma grande porção de mangustões, que é, sem contradicção, o mais delicioso fruto de todas as cinco partes do mundo, mas não se aclimata fóra d´aquella zona. (…)

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo. 1854

Outra fruta importada das regiões do Sul é o mangostão que os chineses chamam de sán-tchôk-kuó. A fruta possui uma casca espessa e bastante resistente, se não estiver bem madura, sendo de cor arroxeada. Essa casca é usada pelos tintureiros como mordente para a cor preta. Apesar de ser a fruta mais apreciada das regiões tropicais, no entanto, pouco há que se aproveite num mangustão, pois os seus gomos extremamente suculentos, aromáticos e de apreciável sabor agridoce, não são mais que camadas tegumentares que envolvem umas duríssimas sementes das quais se não despegam. 

Chinesices de Luís Gonzaga Gomes. 1994    

A Rua do Matapau

Rua do Matapau Rua do Matapau 
Rua do Matapau Rua do Matapau 
Rua do Matapau Rua do Matapau
Rua do Matapau

Donde vem este nome? Mata-pau, como se sabe, é uma planta da familia das gutíferas. Que espécie de gutíferas eram essas? Eram tangerinas, como indica o nome chinês dessa rua: - Kat Chai Kai, i. é, Rua da Tangerina. Aos vendedores de tangerinas dava-se o nome de Matapáus, os quais estabeleceram nesse local as suas lojas ou barracas. 

A 22 de Julho de 1828, o Procurador do Senado Joaquim José Ferreira da Veiga publicou um edital, proibindo a abertura de uma casa de despejo para o negócio, no chalé de António Pereira no Matapau, por ser chamariz de vadios com perigo para os vizinhos. 

António Pereira, filho do Cons. Manuel Pereira e de Ana Pereira Viana, era casado com Aurélia Susana Viana Mendes, filha de Mateus Mendes e de Maria Mendes, de quem teve onze filhos. A 5 de Novembro de 1834, arderam todas essas barracas, segundo consta do offcio do Procurador de Macau, António Pereira, do dia seguinte, aos mandarins do distrito: «Verificou-se no incêndio de ontem à noite, tudo o que eu e meus antecessores disseram ao Snr. Mandarim, de que as barracas da Praia Pequena e outras deram ocasião ao incêndio, pelo qual perigavam a existência do estabelecimento, as vidas e os bens; e com efeito os haos (lojas) chinas de muitas e valiosas fazendas, os matapaus e todas as propriedades chinas da beira-mar incendiaram-se; e a minha própria casa principiou a incendiar-se, sendo de tudo a causa as barracas do mar». 

Pedia que não se construíssem ali mais. 

A 17 do mesmo mês o Procurador insistia com o mandarim Tsó-tang que os matapaus, que estavam dentro da cidade, se mudassem para Patane. A 19-1-1835, o Procurador João de Deus Castro chamava a atenção do mandarim para o perigo de incêndio dessas barracas; e a 8-1-1836, o Procurador Francisco José de Paiva insistia no mesmo assunto, dizendo que os chinas estavam construindo barracas junto à propriedade de António Pereira no Matapau. 

Toponímia de Macau, Ruas com nomes genéricos de P. Manuel Teixeira. 1979

Apesar de matapau ser o nome de uma árvore, também é certo que em patuá significa carpiteiro. É essa a explicação dada por Ana Maria Amaro e Francisco Maria Bordalo e, assim, parece fazer mais sentido o perigo de incêndio... 

Hoje, poderíamos chamar-lhe Rua dos Chilreios ...

Um chinês tem de tornar-se rico

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Ruas de João de Almeida e do Campo
28 de Março de 2015

Se se dissesse a um chinez que na Europa basta ás vezes escrever um livro para o escriptor fazer a sua reputação, e ás vezes a sua fortuna, se se lhe dissesse, por exemplo, que entre nós a um homem que escreveu uma cartilha para se aprender a ler, toda uma nação lhe rendeu homenagem, fazendo-lhe uma apotheose como se fez a João de Deus, e que esse homem não ficou rico, os chinezes teriam para nós apenas um sorriso de desprezo, porque a unica maneira de se manifestarem as grandes intelligencias, segundo elles, é um homem tornar-se rico, em pouco tempo, seja por que meio for.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898

Os Chinas acodem sempre onde haja dinheiro, e esperança de ganho, indifferentes a qualquer outro sentimento de orgulho ou amor nacional.

Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa de Carlos José Caldeira. 1853 

Nuvens de incenso, estátuas de várias divindades nos altares, pátios com vasos e plantas, um tigre de papelão com dezenas de velinhas aos pés e uma espécie de forno em que os fiéis, para demonstrar aos deuses o seu apego aos bens materiais, queimam maços de dinheiro. O dinheiro, obviamente, é falso – as notas douradas são emitidas pelo Banco do Inferno -, mas isso é coisa que os deuses desconhecem. Sempre práticos, os meus chineses! 

Disse-me um adivinho, Em Viagem Pelos Mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani. 2014

A China é como um pequeno terramoto sem fim

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Sidney D. Gamble, China. 1917-1927
1 e 2: cozinhas ambulantes; 3. vendedor de gelados
4. vendedor de ovos; 5: venda de chá
6. vendedor de bichos da seda
7. vendedor de amendoim; 8. vendedor de alhos
9. barbeiro; 10. adivinho.

Muitos vendedores ambulantes percorrem as vias publicas de Macau, como em toda a China. Trazem as suas mercancias em cabazes, ou balsas, suspensos atrás e adiante n'um bambu, que põem aos hombros. Em geral, vendem comesainas e apregoam a sua fazenda em altos berros e com entonações caracteristicas. Ha tambem por lá bufarinheiros.

Nas praças e nas ruas inslallam-se vendedores, os quaes exhibem o seu negocio sobre bancas, ou n'uma esteira estendida no chão. Apparecem varios charlatães, como dentistas, adivinhos. Diremos, por ultimo, que atravancam as ruas cozinhas ambulantes e as respectivas mesas para refeições ao ar livre; tendas de ferros velhos e alfarrábios, de alfaiates remendões, sapateiros reles; quitandas de bolos e refrescos, etc, etc.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897 

José Carlos foi morar para o centro popular, onde o mercado tinha as suas bancas. Era muito ruidoso, as lojas de comidas e de géneros abriam as suas portas desde a manhã e nos tabuleiros, nos vasos, expõe-se o gengibre, empilham-se os pauzinhos de incenso de todos os tamanhos, apresentados em molhos como legumes secos. Chapéus cónicos, calças de ganga, cabaias e blusões de motard, luvas enormes como há nos drug-stores americanos, ervas doces, medicinais e macabras, pós unguentos, corais falsos, jades de pacotilha, tudo o que pode enganar o comprador, oferecido com um palavreado mandarim, cantonês, inglês, do qual só se compreendem aqui e ali duas palavras mas que não juramos serem essas, é como um pequeno terramoto sem fim, de objectos, de vozes, de sons. Sons de campainhas, de sinos, de timbales; de carroças e automóveis, de pés, de gritos, tudo o que a vitalidade duma raça usa para sobreviver e inundar a terra da sua presença, tudo nos atordoa, como uma grande prova da fancaria humana que troca os seus sinais de cobiça, de fome, de prazer. 

A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís, 1999

A Deusa Kun Iam abriu o cofre

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No 26º dia do 1º mês do calendário lunar, os templos da Deusa da Compaixão não fecham as portas e na Avenida Coronel Mesquita, perto da meia-noite, muitos são os crentes a aguardar a sua vez para entrar no maior templo de Macau dedicado a Kun Iam, enquanto ouvem os toques no gongo de quem, lá dentro, já cumpriu todos os rituais.

Parece que os devotos se multiplicam em cada ano que passa, pois é mais difícil dar um passo dentro do templo e o fumo não ajuda nada; falta o ar, faz chorar e tossir. Só os fiéis previdentes, protegendo o nariz, a boca e os olhos com máscaras faciais e com óculos de natação ou com viseiras de soldador, fazem as suas rezas sem pressa.

Todos querem prestar homenagem à divindade, acendendo pauzinhos de incenso, oferecendo fruta, flores, lingotes de ouro feitos de papel dobrado, retribuindo, assim, as bençãos recebidas durante o ano que findou. E, claro está, todos querem também contrair novos empréstimos para atrair a fortuna e a prosperidade nos negócios durante o ano da Cabra, neste dia em que a deusa abre os cofres e os deixa à disposição dos devotos. 

Por isso, queima-se uma fortuna em dinheiro do Inferno numa enorme fogueira, que não é dia de se usar o forno; e tanta riqueza vai assim direitinha ao céu. A fé diz que do Além virá a recompensa e que, quanto mais se oferece, mais se recebe. Por isso, os devotos chegam carregados de sacos e, alguns, até, trazem malas de viagem e carrinhos de mão repletos de dinheiro válido no outro mundo. 

O sonho de todos é a abastançadizia Tiziano Terzani que conheceu bem a alma chinesa, explicando que prece dirigida aos deuses com mais frequência é a de ficar rico. Aqui se vê que assim é. No Ocidente, tudo é diferente; os crentes fazem promessas e pedidos relacionados com a saúde, o amor, o trabalho. Também não poderia ser de outra forma; as divindades não têm cofres e consta que são, até, bastante pobres...      

16 de Março de 2015

Um chinês não diz a hora do nascimento a ninguém

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É certo que bagate quer dizer feitiço. Mas como se opera, como se atinge o seu objectivo? Ninguém é estranho ao desejo de convencer, desarmar e repelir o outro. Ninguém fica indiferente ao combate de duas vontades, seja pelo elogio, a sedução ou, se preferirem, o massacre puro e simples. Bagatear quer dizer levar alguém ao estado de inacção, deixando de constituir estorvo ou perigo. Em Macau pai sin ian quer dizer afugentar os inimigos. A palavra pai traduz um rito religioso, ou um rito aplicado à vida quotidiana em que nada de anormal acontece. Mas o bagate está lá.

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999


Conhecer a hora de nascimento de uma pessoa significa possuir uma arma contra ela. Esse dado pode ser usado para lhe ocasionar desgraças, para analisar a sua personalidade e prever as suas reacções numa situação particular. Por isso, muitos políticos asiáticos escondem a sua hora de nascimento ou indicam uma que não é a verdadeira.

Toda a gente sabe que Deng Xiaoping nasceu a 22 de Agosto de 1904 (ano do dragão!), mas ninguém sabe exactamente a que horas. Esse é um dos maiores segredos da China. Mao Tsé-Tung e Chu En-Lai não conseguiram fazer o mesmo. Nos anos 20 ambos viviam em Xangai e consultaram – quem sabe se por brincadeira, se por acreditarem – o astrólogo mais famoso dessa cidade, um tal Yuan Shu Shuan.

Quando em 1949 os nacionalistas fugiram da China e foram refugiar-se em Taiwan, entre as montanhas de documentos que levaram consigo também iam as fichas com os horóscopos de todos os clientes do Mestre Yuan, que ele conservara diligentemente. Os das personalidades que entretanto se tornaram famosas foram publicados. Com base na hora de nascimento que Mao e Chu haviam indicado ao Mestre Yuan, um astrólogo de Taiwan, em 1962, vaticinou que morreriam ambos no mesmo ano, 1976. E assim aconteceu.

Uma vez que é do conhecimento geral que na Ásia muitas decisões políticas são tomadas com base na astrologia, os serviços secretos de vários países da região têm ao seu serviço peritos, cuja tarefa é prever aquilo que os astrólogos dos seus adversários possam pensar e sugerir em determinadas situações, perante certas alternativas. É sabido que os vietnamitas, os indianos, os coreanos do Sul e os chineses dispõem de uma secção de «Astrologia» nos seus serviços de contra-espionagem. (…)

A história do mundo está cheia de profecias e de prodígios, mas a impressão dominante, sobretudo no Ocidente, é de que isso são coisas do passado. Na Ásia, porém, o oculto ainda serve para explicar os factos do quotidiano, pelo menos tanto quanto a economia, e até há pouco tempo, a ideologia.

Na China, na Índia ou na Indonésia, aquilo a que chamamos superstição continua a ser um facto do quotidiano (...); a escolha do nome para um filho, a compra de um terreno, a venda de um lote de acções, a reparação de um telhado, uma data de partida ou uma declaração de guerra são decisões que dependem de critérios que nada têm que ver com a nossa lógica. 

Tiziano Terzani em Disse-me um adivinho, Em Viagem Pelos Mistérios do Extremo Oriente. 2014

A face Han

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Largos do Senado e de S. Paulo, Ruas da Palha e de S. Paulo

Estou sentado no largo em frente ao Leal Senado. (…) Estou numa praça aberta aos gestos e aos ruídos, onde os demónios também não se sentirão à vontade, entre triciclos puxados por velhos e pacientes chineses. Outros, não menos velhos, coçam os dedos dos pés e lêem jornais. (…)

Sou mesmo capaz de afirmar que o queixo daquela jovem chinesa, sentada num banco ao lado do meu, conseguirá derrotar todos os espíritos malignos. Ninguém me disse. Não foi preciso. Sei reconhecer uma face Han quando a vejo, o nariz pequeno e achatado, parecido com as imagens esculpidas nas margens do Yang Tsé Kiang, na Estrada da Seda, ou nas pequenas imagens de terracota que se vendem aos turistas, em Cantão. 

Inominável segredo de António Augusto Menano. 1993

Visitei também um dia uma fabrica de fiação de seda, sita na rua do Hospital. É um estabelecimento importante e pareceu-me soffrivelmente installado. Emprega grande quantidade de raparigas chinezas, geralmente de uma fealdade inexcedivel. Nem a frescura da mocidade...

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896

Em Emília Andrade havia essa soberba natural que caracteriza a mulher de Macau que ía à Ópera coberta de diamantes, fosse casada ou viúva. A preguiça era nelas uma forma de distinção. (…) De molares altos que, pelo visto, cresciam com a idade, como acontece com as orelhas dos homens brancos. (…)

Emília Andrade era exemplo desse cruzamento de sangues, e algo havia de enigmático nela para lá da fisionomia que, até aos trinta anos, foi arrebatadora. Depois, os molares desenvolveram-se no rosto demasiado seco de carnes, o andar tornou-se arrastado, perdendo a graça deslizante. (…) Olhos de chinesa que, quando se ria, se reduziam a um traço negro e lhe davam um ar de máscara. 

A Quinta essência de Agustina Bessa-Luís. 1999

São differentes as physionomias dos naturaes do meio dia da China, pois que se verifica ali a existencia de quatro grupos de população, cujos traços geraes são conhecidos pelas denominações de: Punti, Hakka, Hiaolo e Tankia. 

Formando o Punti o grosso da população de Kuong-tung (Cantão) e Kuong-si, bem poderemos dizer que os chins de Macau na sua generalidade apresentam os caracteristicos d'esta sub-raça. A cabeça n´estes é quasi espherica, apresentando um pequeno achatamento na parte anterior. As faces são carnudas; a boca rasgada; os labios grossos e descorados; o nariz achatado; os olhos bastante distanciados entre si, de cor escura, semi-abertos e obliquos.

Quanto a barba, têem pouquissima ou quasi nenhuma. O cabello é preto, abundante e corredio; a tez trigueiro-pallido-esverdeada. Ha ainda alguns, cruzados com malaios, que apresentam os mesmos traços geraes, com a differença de terem os beiços mais trombudos, e a côr da cara mais bronzeada. Por excepção vêem-se chins de tez alva, nariz aquilino, etc, porém, é raro que não tenham olhos de amendoa, permitta-se-nos a expressão.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França. 1897

A côr da pelle é em geral muito trigueira por estas partes; mas ha gente branca e até muito branca, principalmente em o norte do imperio; caras redondas, maçãs do rosto proeminentes, olhos pequenos, e nariz achatado …mas acham-se assim mesmo bellos olhos, escuros, - azues ou verdes, não; e narizes aquilinos, quando ha mescla de sangue estrangeiro. As mãos é que, em geral são lindas, e os corpos airosos.

Um passeio de sete mil leguas, cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo. 1854

Na penumbra dos pagódes

templo de Lin Fong 23Como são as orações dos chineses nos pagodes? Dificil é dizer, na verdade. Em primeiro lugar, pelo desconhecimento da língua, e em segundo lugar, porque eles não se prestam, fàcilmente, a transmitir-nos certas particularidades íntimas do seu modo de ser, com receio que os redicularisemos. Entretanto, valendo-nos da amabilidade duma pessoa amiga muito em contacto com a vida chinesa de Macau, aproveitamos a oportunidade para arquivar o texto que nos foi apresentado, como a principal oração que os chinas dirigem aos espíritos bons, quando presisam um grande favor,

Hómê-tó-fat-san-cam-sec 
Siong-hou-Kong-fú 
Mou-tang-lan 
Pac-hou-iung 
Si-tó-cam-mok 
Cheng-chang-si-toi-hoi 
Cong-chung-fá-fat 
Mou-sou-iat -fá-Pou-sat 
Chung-iec-mou-pin 
Sipa-pat-iung-tou-chung-sang 
Tó-chung-cau-pan-ham-lang 
Pai-pei-ong 
Ná-mó-sai-fong-cat-loc-sai-cai-tai-chi-tai-pei

Hómê-tó-fat 
Ná-mó-kung-sai-iam-Pó-sat 
Ná-mó-kung-sai-iam-Pó-sat 
Ná-mó-tai - sai-chi-Pó-sat 
Ná-mó- tai-sai-chi-Pó-sat 
Nd-mó-tai-sai-chi-Pó-sat 
Ná-mó-cheng-chieng-Pó-sat 
Ná-mó-cheng-chieng-Pó-sat 
Ná-mó-cheng-chieng-Pó-sat 
Kau-pan-lin-fá- wai-fú-mou-fá-hoi-kiu-fat-iung- mou-sang-pat-hoi-Pó-sat-wai-pund-lei. 

Hómê-tó-fat e Mou-sou-iat-fá-Pou-sat, são nomes de divindades invocadas. Quanto à tradução desta oração, cuja transcrição para a nossa língua já é susceptível de erros insuperáveis, devido à impossibilidade de reproduzir na nossa pronúncia os tons musicais da língua chinesa -como melhor forma que encontramos para exprimir esta dificuldade - não passa duma tentativa de reprodução da ideia que encerra, em conseqüência da forma como chegou ao nosso conhecimento. 

A ideia, parece ser esta: Hómê-tó-fat, pensai bem no serviço que vos é implorado, Oh vós, que alumiais sem luz, que ides tão longe, empunhando o cerro doirado, boiando pelo grande mar! Vós, Mou-sou-iat-fá-Pou-sat, luz natural, que nascestes sem asas nem cauda mas que passastes, voando, por dezoito jardins, até chegar à montanha onde viestes a éste mundo, fazei acabar todas as armarguras no maior socego. Peço por todo o mundo Presente, grande paz e grande harmonia.

As preces repetidas três vezes, são rogos dirigidos a reis mortos, pedindo protecção. A parte final era uma espécie de invocação a Kun-lam -a deusa da Misericórdia- para que ela fizesse abrir tôdas as flores de lotus que, contemplando o Santo, o fizessem vir em nosso auxilio. A interferência da flor de lotas é explicada pelo facto de a lenda dizer que a Santa Maria China do Pagode da Barra, veiu ali ter boiando sôbre o Iotus, a flôr mística do Oriente. 

Tudo isto foi dictado por uma religiosa ou bonza chinesa - acrescentam as informações que nos foram prestadas - e tudo se esvae na indecisa penumbra dos Pagodes...

Cênas da Vida de Macau de Jaime do Inso. 1927 (apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950)

Imagem do Templo de Lin Fong

As árvores em miniatura

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Jardim Lou Lim Ioc

No meu regresso entrei no pequeno jardim publico, que tinha antigamente a fórma de um jardim symetrico e regular, medido e traçado a compasso, e que o meu collega Brito tentou transformar em jardim e parque moderno, á ingleza. Está muito limpo e varrido, e é este o seu unico merito, tendo muito pequena área e sendo vulgares as plantas que o adornam. 

Um guarda e jardineiro mostra-se como a medo, e offerece a figura a mais extraordinaria e original que é possivel imaginar. É um china, um verdadeiro china de rabicho, mas vestido de cabaia e calção encarnados! Soube depois que para aquella pittoresca toilette fora aproveitado um panno de mesa, ou uns velhos reposteiros, que havia nas obras publicas. 

Mais extravagante do que aquella figura só ali vi a de muitas plantas em vasos, e a que a paciencia e teimosia do chinez contrafizera por muito tempo, até obrigal-as a tornarem a forma de um dragão, de uma ave, de um mandarim ou mandarina, etc. Para a similhança ser maior, addicionavam-lhes pequenas cabeças de porcellana, e olhos de vidro reluzentes.

Parece que o chim se compraz em contrariar a natureza. Pois pode admittir-se uma laranjeira, um pinheiro de vinte e trinta annos de idade, vivendo em um pequeno vaso de barro?! (…)

A concorrencia era pequena, e por entre os passeiantes perpassava, mephistofelico, o guarda do jardim com a sua cabaia encarnada. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Não queremos deixar de fallar nos jardins de «Fa-ti», fronteiros á cidade de Cantão. Vêem-se ali em sete oito jardins contiguos, milhares de plantas em viveiros, e das quaes se faz uma grande exportação. Mas o que chama a nossa attenção pela originalidade, são as arvores minusculas a que uma pachorrenta mutilação impoz a forma humana, em todas as posições possiveis, ou a de animaes e objectos da vida commum, cujas formas lhes são dadas por meio de arames, para onde pacientemente são dirigidos os pequenos ramos durante o seu crescimento. 

Para obterem as arvores anãs procedem da seguinte fórma: na parte superior da planta onde um ramo se bifurca, applica-se terra vegetal segura por tiras de panno que se conservam sempre humidas. No fim de um anno corta-se o ramo pela parte inferior e transplanta-se, porque então já tem lançado raizes na terra que á roda se lhe applicou. São então frequentemente podadas, e de modo que se lhes impeça que cresçam, e que brotem novos rebentos. As plantas assim tratadas, comquanto pequeninas, produzem flores e fructos de tamanho natural, a ponto de ser preciso especal-os para que o tronco não rache; de facto, é bonito ver por exemplo uma laranjeira carregada de formosos fructos, e que não tem mais que palmo e meio de altura.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898

Tambem sobre barcos há jardins ambulantes, n´esse mesmo estylo de mau gosto que é particular á China. Não podem ahi ter essas ruas de areia encarnada, esses kioskos também pintados de vermelho, essas pontes egualmente ornadas de balustrada escarlate (é a côr que predomina nos jardins!) não lhes cabem ahi as grutas e ruinas artificiaes, e os seus lagos são as águas do tigre que lhe circulam o jardim; mas encontram-se lá, como na terra firme, as laranjeiras plantadas em pequenos vasos, e dando óptimas tangerinas; as faias e os carvalhos dentro de grandes vasos de pedra, tornando-se anões pela cultura, porque é uma das grandes paixões d´este povo extravagante o modificar a natureza a seu bel-prazer.

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo. 1854

Apesar de serem muito populares os bonsai, parece terem sido os chineses e não os japoneses os primeiros a cultivar árvores em vasos. «Penjing» ou «pensai», chamam-lhe.

O destino no rosto e o feng shui

macau
Rua de Camilo Pessanha

O processo de ler o destino no rosto das pessoas desenvolvera-se na China, a partir da prática da medicina. Os pacientes, principalmente as mulheres, não deixavam que lhes tocassem, e os médicos tinham de perceber quais eram os seus achaques olhando simplesmente para eles, sobretudo para a cara. De tanto observarem doentes e mais doentes, século após século, os chineses tornaram-se capazes de determinar, por exemplo, que uma pequena mancha vermelha numa das faces era sinal de disfunção cardíaca e uma ruga por baixo do olho esquerdo indicava problemas de estômago. Do mesmo modo, mais tarde ou mais cedo, alguém percebeu que todas as pessoas ricas tinham uma curvatura especial no nariz, enquanto as pessoas dotadas de poder tinham um sinal no queixo. Daí nasceu a ideia de que o destino está escrito no corpo. Basta saber olhar para ele.

Nas orelhas, os chineses liam o carácter de uma pessoa, na testa viam a sorte até aos 32 anos, e nos olhos até aos 40. Nas sobrancelhas viam os sinais da vida emotiva, no nariz o destino dos 40 aos 50 anos, e na boca a boa e a má sorte no período derradeiro da vida. Na prega dos lábios, que de facto se altera com o tempo, os chineses liam tudo aquilo que um homem desejara ser e aquilo em que se tornara. (...)

A arte do feng-shui nasceu na China, mas é hoje prática comum em grande parte da Ásia. Quando qualquer coisa não funciona bem – um casamento, um negócio ou uma fábrica -, o primeiro pensamento de um asiático é que há algo errado com o feng-shui e consulta um especialista. Há alguns anos, um casino de Macau que acabara de abrir não conseguia atrair clientes. Segundo o homem do feng-shui, o motivo estava na cor do telhado, que era vermelho como um caranguejo morto, em vez de verde como um caranguejo vivo. O telhado foi pintado e o negócio seguiu de vento em popa.

Anedotas deste género têm tirado ao feng-shui parte da sua antiga respeitabilidade. Mas não reduziram a sua popularidade, e o número de pessoas que hoje, na Ásia, a conselho de especialistas em feng-shui, muda a posição dos móveis, a cor das paredes do escritório ou a forma da porta de casa para tornar a sorte mais propícia aumenta constantemente.

Até os seríssimos ingleses do Hong-Kong Shangai Bank, quando decidiram construir a nova grande sede de Hong Kong, para evitar sarilhos com o feng-shui, recorreram a um dos mais conhecidos peritos da colónia. Durante a fase de projecto desse edifício futurista em vidro e aço, o arquitecto Norman Foster teve de se manter em contacto permanente com aquele «mestre das forças da natureza», agir de acordo com os seus conselhos e ter em conta as suas recomendações. Muitos pormenores arquitectónicos foram decididos por ele, incluindo a estranhíssima posição da escadaria de entrada, que não é perpendicular à rua.

Construído o banco, Foster começou a colaborar no projecto para o novo aeroporto de Hong Kong (em forma de dragão!), mas as pessoas trabalhavam contrariadas no seu gabinete. Os desenhadores e as secretárias, sentados a uma fileira de mesas de trabalho, adoeciam constantemente. Até os empregados que trabalhavam nos escritórios dos pisos inferiores e superiores do mesmo edifício não estavam bem de saúde. Então veio o especialista em feng-shui, estudou o assunto e deu o seu veredicto. A demolição de algumas casas velhas e a construção de novos arranha-céus naquela zona tinham deixado uma passagem aberta, pela qual os «espíritos maus» alcançavam em linha recta precisamente aquele pedaço de parede. Para as pessoas que ali estavam era como se tivessem uma faca sempre espetada no peito, disse o mestre das forças cósmicas. Aconselhou a mudar de lugar todas as mesas de trabalho, a pôr cortinados nas janelas e a instalar espelhos que dissuadissem os espíritos. Absurdo? Talvez, mas feito tudo isso nenhum empregado voltou a queixar-se de nada.

Obviamente, como em todos os métodos de magia, também no feng-shui existe um aspecto de auto-sugestão que explica os seus «êxitos». (…)

Ao contrário do homem ocidental, que há séculos faz a distinção entre o mundo do divino e o mundo natural – para nós, Deus cria a natureza -, para os chineses os dois mundos não são distinguíveis. Deus e natureza são a mesma coisa. Por isso a adivinhação é uma espécie de religião, e o adivinho é também teólogo e sacerdote. (...)

Os chineses – e como eles quase todos os asiáticos – nunca se preocuparam com essa distinção entre religião e superstição, da mesma maneira que nunca se colocaram o problema – também este tipicamente ocidental – de definir o que é ou não é ciência. A astrologia, por exemplo. Os chineses praticaram-na durante séculos sem nunca se interrogarem se as suas bases eram «científicas». Aos olhos deles funcionava, e isso bastava. Ao fim e ao cabo, errado não está! 

Disse-me um adivinho, em viagem pelos mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani, 2014

É a civilização da China uma das mais antigas


MacauNão se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é certo é que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas tradições mais ou menos certas conhecimento de factos anteriores 3:500 annos a Christo,- e, desde o seculo XXVI da mesma era, historia positiva que apresenta seguidos annaes. (...)

É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do resto do mundo.

A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.

MacauConfucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve auctoridade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». É na práctica das doutrinas por elle professadas que assenta todo o edificio politico e religioso na China.

Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).

MacauOs seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.

Propaganda de instrucção para Portuguezes e BrazileirosBibliotheca do Povo e das Escolas, 1900

Os chineses e o arroz nosso de cada dia

Hedda Morrison Hedda Morrison
Hedda Morrison. China 1933-1946

Assim como nós dizemos «o pão nosso de cada dia», deveriam elles adoptar «o arroz nosso de cada dia». Cozem esta graminea de uma maneira especial; deitam o arroz em agua, sem sal e sem mais tempero algum, e põem-no ao lume n'uma vasilha; quando está cozido, tiram-no do fogo e deixam-no ficar tapado por algum tempo; logo que esteja transformado numa especie de massa compacta comem-no acompanhado de um conducto qualquer, a que chamam som. Os chinezes têem ordinariamente duas refeições por dia, sendo raros os que comem tres vezes. Almoçam e jantam, mas jantar que lhes serve tambem de ceia, porque a segunda refeição se verifica á noitinha. 

Os operarios e as classes pobres alimentam-se de arroz, peixe miudo ou salgado, hortaliça e fructas. Só comem carne de porco ou pato, no primeiro dia de lua e no meiado d'esta. (…) Os negociantes, que em Macau constituem a classe superior, têem sempre ás suas mesas uma grande profusão de viandas. Preferem peixe e mariscos; gostam mais de comer de magro que de gordo. Todavia também se servem de carnes de porco, presunto, carne ensacada, pato (ade, em lingua de Macau), isto misturando sempre arroz e differentes verduras. Os seus acepipes mais dilectos e exquisitos são: o bicho do mar, asa de peixe e ninho de passaro. Qualquer d'estes tres manjares é de subido apreço. 

O bicho do mar não passa de uma especie de enguia grossa e curta; a asa de peixe é a barbatana do tubarão e o ninho de passaro vem a ser a baba de umas certas aves da Oceania. Os ovos são baratos e os chins comem-nos crus, cozidos, salgados, e apodrecidos artificialmente, o que não obsta a que tenham mau cheiro e gosto como se se tivessem deteriorado naturalmente. 

Não comem carne de certos animaes uteis á agricultura, taes como a de vacca, de bufalo e de cavallo, que são protegidos por uma especie de voto religioso, que os chins fazem nos templos, promettendo não matar animal dedicado ao trabalho. Em compensação abusam da carne de porco, peixe salgado, etc, o que concorre para desenvolver n'elles varias enfermidades, taes como escorbuto, chagas pelo corpo, etc, etc. Os patos salgados, siô-é, tambem são muito apreciados.

Digamos entre parenthesis, que a exdruxula e soez maneira por que dizem serem mortos estes palmipedes, o uso infame que em vida fazem delles, levam o estrangeiro a ver com repugnancia este animal á sua mesa. Os do povo comem em suas casas, em mesas ambulantes, que se vêem pelas ruas do basar, ou em culaus (casas de pasto).

Os chins não usam toalhas nas mesas em que comem. Nos jantares ostentosos as mesas são forradas de panno de cor e cobertas de bordados. As suas baixellas cifram-se na louça. Os pratos de que usam não excedem o perimetro dos nossos pires, quer desempenhem o papel de pratos de guardanapo, quer façam de travessa, etc. Não se servem de talheres, mas empregam em seu logar uma especie de estyletes do dobro do comprimento dos nossos lapis, a que chamam fai-chys. Ha-os de marfim, ebano e até de madeira ordinaria. O seu emprego é muito difficil para os europeus e requer uma gymnastica especial dos dedos. Os chinas manejam-nos com tanta, ou mais facilidade, do que nós nos servimos do garfo e faca.

Para os alimentos liquidos servem-se de pequenas colheres de louça, de cabo chato, curto e largo, cuja concha é quasi oval. A carne, aves, peixe, etc, vem sempre para a mesa em pequenos pedaços. O arroz serve-se em tijelas, que os commensaes, de quando em quando, approximam da boca, para ali introduzirem o alimento com auxilio dos fai-chys que movem com incrivel rapidez.

Tanto para a carne, como para peixe, empregam sempre oleo ou azeite, de algodão e coco, manteiga de porco, ou ainda molhos que compõem de varias hervas e especiarias, rasão pela qual em todas as suas comidas se encontra um gosto caracteristico, que repugna aos paladares europeus. 

A fructa, pela maior parte, comem-na antes da perfeita maturação. Também a preparam secca, de conserva, etc, etc. Fazem doce de varios fructos e vegetaes e fabricam uma infinidade de bolos. Todos estes acepipes e guloseimas são muito vistosos, mas, em verdade, pouco appeteciveis para nós.

 Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897