O governador Gabriel Maurício Teixeira


O governador, o seu secretário e todas as poucas vergonhas

Tivemos um convite para um jantar no palácio do governo. (…) O governador estava no cimo das escadas, recebendo os convidados, acompanhado por vários homens. Apresentaram-me a toda a gente. (…) Em casa, trocámos impressões sobre o jantar e e como não tinha fixado o governador, perguntei ao António qual era. 
-Essa é boa! Estiveste toda a noite a falar com ele e perguntas qual era?
governador Gabriel Maurício TeixeiraO governador nunca me perdoo. Estava habituado a que as mulheres se derretessem e eu, publicamente, não lhe ligara. Foi involuntariamente, mas ainda bem que aconteceu, porque depois de o conhecer, nem de vê-lo gostava. 

A Miuska entrou em amizade com uma filha dele, e foi convidada a ir lá lanchar. À chegada, cumprimentou o governador. Mais tarde, estando as crianças sentadas a brincar, ele entrou. Imediatamente os filhos se puseram de pé. O governador saiu e a filha interpelou a Miuska.
- Porque não te levantaste? 
- Não me levantei porque não vi motivo. Já tinha falado ao teu pai.
- E depois? Nós levantamo-nos sempre que ele está.
- Levantam-se porquê?
- É o governador.
(...)

O racionamento de luz foi terrível para quem dependiam da energia eléctrica. Eu cozinhava a electricidade e tive de deixar de fazê-lo. Também tinha um fogão a lenha que tive de pôr de parte. A lenha vinha rio abaixo, em barcos. Os japoneses ocuparam a área e os barqueiros tinham que pagar tributo. (…) Todos os que tentavam escapar sem pagar, eram mortos com uma rajada de metralhadora. Acabou a lenha. Passámos a cozinhar a carvão. As reservas de carvão esgotaram-se, porém. Então apareceu a indústria dum combustível feito de pó de carvão, lama ou barro, nem sei. Aquilo era vendido em bolas que, depois de secas, ardiam e era o que interessava. Apareceram uns fogareiros para tal combustível. (…) O Inverno era rigoroso e tivemos que desistir de ligar os radiadores. Com mais umas camisolas, íamos resistindo. (…)

No entanto, o governador e os seus apaniguados tinham todas as luzes e radiadores ligados. Os portugueses, que já tinham muitas razões de queixa, juntaram mais esta. Em segredo, começaram a reunir-se e a conspirar para o destituir. (…) O governador era um vendido, tal como o seu secretário e o comandante da polícia. Faziam tudo por dinheiro. (…) O governador tinha espiões em todos os serviços, sabia como o detestavam. Assim, soube desta conspiração e prendeu, instaurou processos sem ter provas e não fuzilou porque não era de lei.

Os japoneses não gostavam nem desgostavam dele. Não lhe ligavam, o que o enfurecia. (…) Com o tempo todos se afastaram do governador e só ficou rodeado pelos que eram tão malandros como ele. Para isso contribuíram factos vários, entre eles a protecção escandalosa às malandrices dos amigos, e também o facto de ter seduzido e engravidado uma linda garota, filha dum militar reformado. A pequena, que estava noiva, ficou com o casamento desfeito e uma filha nos braços, devido à lascívia do governador. Ostensivamente, o governador mandava o secretário no carro (era proibido gastar gasolina, para os outros) levar-lhe presentes. Os filhos dele, apesar desta proibição, eram levados ao liceu de carro, assim como a mulher e as mulheres dos amigos, que iam às compras de carro. (...)

Entre os grandes amigalhaços do governador, estava o seu secretário. Cada um encobria o outro. O secretário tinha fama e proveito de aceitar todos os negócios ilícitos que lhe dessem lucro. Um sargento foi abordado por um chinês que para uma negociata qualquer, mas precisava da colaboração do secretário. Ao sargento sorriu a ideia de ganhar uma porção de dinheiro, mas não se queria queimar. Resolveu mandar a filha falar com o secretário, como se o negócio fosse dela. A rapariga era bonita e jovem, ainda menor de idade. O secretário ouviu a proposta. Receberia uma boa quantia, se desse uma licença proibida para a exportação dum produto que não devia sair da colónia. Concordou com a proposta da pequena e, habituado que estava a todas as poucas vergonhas, agarrou-se à moça aos beijos, e dizia «que bom é ter-te nos braços. Deixa-me beijar-te, sabes lá o que é estar casado com um estupor como é a minha mulher», e arrastava-a para o sofá.A rapariga, aflita, vendo que o homem não a largava, disse-lhe que, se ele não parasse, gritava por socorro. Vendo que não conseguia os seus intentos, largou-a, dizendo que era brincadeira, que voltasse no dia seguinte para ultimarem o negócio. Não sabia, porém, que a conversa estava a ser ouvida por funcionários seus. 

No dia seguinte a rapariga voltou, convencida que o pai iria ganhar uns cobres. O capitão recebeu-a muito bem e mandou-a sentar-se. Começou: 
- Então a menina ainda está disposta a dar-me uma quantia para eu entrar num negócio proibido? 
- Pois é, senhor capitão, se o senhor assinar.
O capitão levantou-se, afastou o reposteiro e disse:
- Como os senhores ouviram, esta mulher veio subornar-me. Peço que levantem um auto.

O velhaco, não conseguindo dela o que queria, vingou-se. Mas tudo se sabe nas colónias, e o certo é que a rapariga relatou ao tribunal o comportamento dele com todos os pormenores, incluindo o que ele tinha dito a respeito da própria mulher. A pobre senhora, que na verdade era feia e vesga, ficou com a alcunha de «estupor». (…) O secretário alegou que os beijos «eram de pai», e o governador mandou arquivar o processo. Os funcionários que tinham ouvido a conversa durante o primeiro encontro prestaram depoimento no tribunal. Só o sargento foi responsabilizado, porque a filha era menor. Foi demitido e processado.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

imagem do Gov. Gabriel Maurício Teixeira

Comida nas sepulturas e nos altares caseiros

Uma mulher visitando um cemitério. Jack Birns. Macau, 1949
Uma mulher visitando um cemitério. Macau, 1949
Jack Birns.

Realmente, cada religião tem as suas coisas. Parece estranho porem comida nas sepulturas e nos altares caseiros para honrar os mortos, uma vez que não vão comer. A esse respeito conta-se uma história com bastante lógica. Uma ocidental e uma chinesa encontram-se no cemitério, cada uma honrando os seus mortos. Acabadas as orações, a ocidental aproximou-se da chinesa e perguntou:

- Quando é que os seus mortos vêm comer a comida que lhes trouxe?

- Vêm quando os seus vierem cheirar as flores que lhes pôs, respondeu a chinesa.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

A trança do Mandarim


O MANDARIM Tchi-Kao governava o districto de Siu, um dos mais importantes do imperio chinez. Devia este cargo elevado á habilidade que tinha desenvolvido, como general, na ultima guerra contra os tartaros occidentaes - e ao abdómen. Tchi-Kao nunca tinha perdido uma batalha. (...) Os seus subditos, esses andavam satisfeitissimos com o seu governo. (...) De tempos a tempos, manifestava-se Tchi-Kao aos seus administrados por meio de proclamações em papel de côr, que eram lidas nas praças com signaes do mais profundo respeito. (...). Um dia viram os socegados habitantes de Siu, affixado em todas as portas da cidade, e nas muralhas dos pagodes, um edital vermelho, em estylo menos academico do que o costume, e que pela sua natureza prendia mais fortemente a attenção das turbas. O edital era concebido nestes termos:

...«Tchi-Kao, mandarim de 1ª classe, sempre victorioso, espada do celeste imperio, braço direito do filho do céu (1). A todos os que o presente lerem, tchin tchin (2), e prosperidade durante dez mil annos. Considerando que o cabello é o mais bello ornamento do homem; Considerando que, em contrario ás recommendações formaes do Livro dos Ritos, e ás tradições dos antepassados, a maior parte dos habitantes do districto de Siu, despresam o seu cabello, e não dão á trança nacional o devido desenvolvimento; Considerando que uma negligencia tão culpavel poderia comprometter o patriotismo dos habitantes e deshonrar o districto aos olhos dos outros districtos; Querendo todavia proceder a estas reformas por meios suasorios, como bom pae, e não pelo rigor; ordeno:

1º - Ao habitante do districto de Siu, que ao expirar da terceira lua, se conhecer que possue a trança mais comprida, e o cabello mais luzidio, será concedido comer arroz e beber chá á mesa do general Tchi-Kao, e além disto se lhe darão cem taéis, em recompensa; 2º - O concurso terá logar no pateo do palacio do mandarim. O proprio Tchi-Kao será o juiz. (...) Segunda lua, primeiro dia, dia feliz. Techi-Kao.»

Julgue-se do effeito produzido por este edital. (...) 
- Que excellente mandarim que nós temos! dizia um. - Não ha outro como Tchi-Kao. (...)
- Tchi-Kao é benemerito da patria. 
- E dos barbeiros! Viva Tchi-Kao!

Mas o enthusiasmo não se limitou a palavras. Decidiu-se, por acclamação, que a corporação dos barbeiros se apresentasse naquella mesma noite, levando a respectiva bandeira á frente, e com uma formosa illuminação de lanternas, no palacio do mandarim, para lhe fazer os devidos cumprimentos, e offerecer diversos presentes, e, entre outros, uma grande navalha de cabo de marfim, cuja inscripção consistia na data do immortal decreto. (...) A numerosa corporação (...) rompeu a marcha, precedida das bandeiras, e d'uma orchestra terrivel, horripilante, para um europeu - magestosa, deliciosa mesmo, para ouvidos chinezes. Varias tranças, admiravelmente penteadas e perfumadas, iam atadas com fitas a altissimos bambous, que levavam alçados os principaes barbeiros da cidade. Seguiam-se depois os presentes n'um rico andor com elegante docel de seda, e alumiado de riquissimas lanternas. (...) O valente general preferira que o não incommodassem a simiIhante hora; contudo ordenou que mandassem entrar a deputação, e elle proprio levantou-se, e foi até o vestibulo, com o cachimbo na mão, como quem não estava para muitas demoras. Depois de um largo murmurio de tchin tchin, e de uma pantomima, das mais respeitosas, começou o syndico dos barbeiros a leitura da mensagem. (...)

Tchi-Kao (...) interrompeu a leitura no ponto mais pathetico, e dirigindo-se á deputação, disse, já se sabe em prosa: 
- Meus bons amigos, muito folgo que vos apraza o decreto. O meu secretario me lerá esses versos. Quanto á vossa navalha, acceito-a de bom grado, e se cortar melhor que as minhas, prometto que me hei de servir della. Entretanto, voltae tranquillamente para casa: não vá a vossa alegria perturbar o socêgo publico. (...) A intenção é boa, mas assim perdeis o tempo, que é tão precioso. Ide barbear, meus amigos; haveis de ter muito que fazer; e eu estimo muito.

Depois desta breve alocução, em que o mandarim provou ter mais juizo que eloquencia, retiraram-se os barbeiros, gritando ainda:
- Viva Tchi-Kao, o victorioso!

O general, esse, tornou a accender o cachimbo, que por mais infelicidade se apagara, e voltou para os seus aposentos (...).

Logo no dia seguinte áquelle em que se affixára o edital, cada um tratou de se habilitar a ganhar o premio dos cem taéis. (...) As lojas dos barbeiros estavam sempre atulhadas. Fazia-se empenho para apanhar os primeiros logares; nas ruas onde os havia era um concurso numeroso; os barbeiros não tinham mãos a medir: e olhem que cada vez havia maior numero d´elles, porque o officio tornára-se dos melhores (...). Mas a navalha só não bastara; eram necessarias essencias, pomadas, unguentos, para apressar o crescimento dos cabellos, e dar-lhe grande lustro. Appareceram então pelas esquinas cartazes grandes, pequenos, encarnados, pretos, azues, ornados de vinhetas, etc, annunciando a descoberta e as maravilhosas virtudes d'uma nova pomada (...).

Tchi-Kao, recolhido no seu palacio, pouco lhe importava o movimento que ia por todo o districto; de vez em quando traziam-lhe os mandarins inferiores os cartazes mais recentes, e elle ria a bom rir, quando os lia. (...)

É pois necessario que eu revele o segredo. O general, bem mau grado meu o digo - era calvo! (...) Namorára-se o general d'uma menina de boa familia, que residia n'um districto muito arredado, e com quem desejava casar. O prestigio das suas gloriosas campanhas, a sua dignidade de mandarim, o seu ventre respeitavel, permittiam-lhe apresentar-se vantajosamente aos paes da tal menina. Todavia imaginava elle, que o seu triumpho seria ainda mais completo, se a tantas qualidades eminentes reunisse o merito d'uma trança irreprehensivel. Chang correra todas as lojas de cabeleireiros; mas não encontrara cousa que lhe parecesse digna do general. A final, Tchi-Kao, desesperado, pensou: Para que hei de eu estafar o pobre Chang, e mortificar-me tanto. Quero possuir, antes de quatro mezes, o mais bello cabello do meu districto. E hei de conseguil-o. Em resultado appareceu o celebre decreto. (...)

No dia fixado, apresentou-se a multidão no pateo do palacio em que morava o mandarim. As tranças desenrolam-se e caem pelas costas dos numerosos concorrentes. (...) Então Tchi-Kao desceu gravemente as escadas do seu palacio, e tractou de começar a revista, seguido pelo secretario A-Tchi, e por Chang. O seu porte era verdadeiramente digno da occasião – resplandecente de justiça e de bondade! Era um juiz que ia lavrar uma sentença! Tchi-Kao mandou alinhar a sua gente, depois aproximando-se do grupo procedeu lentamente ao respectivo, minucioso exame. (...)

Os vencidos retiravam-se soltando gritos de desespero; tambem quanto tempo, quantas pomadas perdidas! (...)
- Então está decidido, exclamou o mandarim: 
- Á da esquerda os cem taéis! A-Tchi tomae-lhe o nome, e convidae-o a jantar esta tarde comigo, em cumprimento do que se disse no decreto.

A hora do costume o vencedor no concurso das tranças foi introduzido na sala de jantar do mandarim. Era um fabricante de queijos, que se chamava Ta-Tong, individuo muito pouco conhecido na cidade de Siu, mas cujo nome andava na bôcca de todos desde aquella manhã. A mesa de Tchi-Kao era sumptuosamente servida. Não faltava alli nenhum dos petiscos tão apetecidos dos chinezes, até os celebrados ninhos de andorinhas, gelados, cremes, doces. De espaço a espaço enchiam os criados os copos de sam-chou. A timidez de Ta-Tong em breve desappareceu na presença das boas maneiras do general, que não se cançava de referir as suas campanhas e as suas famosas victorias. Pela sua parte o fabricante de queijos comia e bebia como quem nunca passara do vulgarissimo arroz e agua. Quando terminou o jantar Tchi-Kao mandou entrar o cidadão queijeiro n'um gabinetesinho em que se encontrava já prompto o chá, e os cachimbos carregados; depois despediu os criados e fechou-se. Depois de fumar um pedaço, o mandarim abriu um armario, donde tirou mysteriosamente duas bandejas de charão dourado, em que estavam varios utensilios, que fizeram estremecer Ta-Tong: - eram cachimbos para opio.
- Usaes d'isto? disse-lhe Tchi-Kao.
- Por meus avós, respondeu Ta-Tong, todo tremulo, eu sempre fui respeitador das leis, e por consequencia nunca os meus labios tocaram similhante cousa.
- Pois bem, haveis de tomar agora uma fumaça.
- Excellencia, vós quereis deitar-me a perder! O opio é prohibido debaixo das mais severas penas, e se o filho do céu soubesse…
- Bom Ta-Tong, acudiu o general, aprecio os vossos escrupulos; mas ainda aprecio mais o opio. Ora pois, amigo, tomae o vosso cachimbo.

Ta-Tong recebeu-o da mão do general, e começou a fumar. Dalli a pouco começavam pelos effeitos daquelle poderoso narcotico. (...) Tchi-Kao, levantando as mãos ao céu, exclamou no enthusiasmo de mal soffrida alegria: 
- Finalmente! é minha! é minha!
E ao mesmo tempo, tirando da algibeira uma thesoura, cortou, ainda que com bastante difficuldade, a trança do desgraçado Ta-Tong, que sonhava naquella occasião com o seu triumpho. (...)

O mandarim chamou o seu fiel Chang, confessou-lhe tudo, o pensamento que inspirara o decreto, a nuca deshonrada de Ta-Tong; e disse-lhe:
- Afreta um junco; leva esse pobre homem para cem leguas d'aqui; dá-lhe cem taéis, mil taéis, quantos elle quizer, com a condição de que não ha de pôr mais os pés no districto de Siu. Não percas tempo - conto comtigo. Vae e volta o mais breve que poderes. Hei de ser-te grato. Farei com que saias mandarim!

Chang não disse uma palavra. Agarrou n'umas poucas de barrinhas de ouro, que lhe dera Tchi-Kao para pagar as despezas da viagem, e comprar o silencio de Ta-Tong, foi fazer todos os preparativos necessarios, e nessa mesma noite partiu. (...)

No dia seguinte ao do concurso, em quanto o povo, reunido na praça de pagode, maldizia o seu mandarim, e que os agitadores (...) preparavam quasi uma revolta, sae subitamente d'uma rua visinha, que ia ter ao rio, um homem a gritar, e levando muitas vezes a mão a um penachinho de cabello que, de indignação, se lhe erguia na cabeça. Cercou-o immediatamente a multidão, e elle referiu com ar de muito commovido o seu triumpho da vespera, o seu jantar com o mandarim e a indignissima emboscada em que caíra a sua trança. «Vingança, bradou elle, vingança contra o infame Tchi-Káo!»

Aos agitadores só faltava um pretexto plausivel (...), foram arrastando o povo para o palacio do mandarim. (...) O povo entrou tumultuariamente no pateo, arrombou as portas, desarmou as sentinellas, espalhou-se pelo palacio, e penetrou até aos aposentos do mandarim. Este, alterado, de tanto barulho, ainda tentou uma retirada (...), mas (...) foi descuberto e preso pela gentalha furiosa, capitaneada por Ta-Tong, que era o mais assanhado de todos. Ta-Tong dirigiu-se então ao gabinete em que se consumara o crime, abriu o armario do opio, onde teve a fortuna de encontrar a sua trança. Do palacio espalhou-se o tumulto por toda a cidade, e desta por todo o districto. Foi necessario que o mandarim do districto proximo, prevenido a pressa, marchasse para Siu, a fim de restabelecer a ordem publica, e instaurar o processo regular contra o seu antigo collega, accusado de ter cortado a trança do chinez Ta-Tong, e de usar do opio. 

Quinze dias depois comparecia Tchi-Káo no tribunal superior de Pekin. (...) Ao lado de Tchi-Káo estava A-Tchi, seu antigo secretario, e agora seu advogado. Na frente, no banco dos accusadores, Ta-Tong, e varios habitantes do districto de Siu. Aquelle trazia comsigo as peças de accusação, a trança que lhe fora tão cruelmente roubada, e a thesoura instrumento do crime. (...)

Pronunciou-se o julgamento. Tchi-Káo, declarado criminoso, foi condemnado a degradação immediata, e perda de todos os seus empregos. Por uma segunda sentença, cousa que ninguem esperava, Ta-Tong, convencido de se haver embriagado com o opio, foi condemnado ao confisco da sua trança, e a ser calvo perpetuamente. Já não lhe restava senão fazer-se bonzo! Alguns más linguas disseram que o presidente do tribunal, condemnado pela natureza ao uso d'uma trança postiça, não podéra resistir ao desejo de confiscar em seu proveito a trança do infeliz Ta-Tong. 

Revista popular; semanario de litteratura e industria. Vol.s 1 e 2, 1849-50


(1) Nome que se costuma dar ao imperador da China. 
(2) Espécie de cumprimento

Não há estábulos em Macau

japoneses em Macau
Japoneses em Macau
Fundação Jorge Álvares

Vivi factos que não podia contar a ninguém. Factos perigosos, que combinei com o meu marido banir para sempre da nossa memória. Cumprimos o combinado. Nunca mais falámos desses assuntos. Era como se nunca tivessem existido. (…) Foi aquele filme que me fez reviver os factos, numa época em que tive as maiores preocupações, mas em que fui muito feliz também. (…)

Quando o António me perguntou se eu queria ir passar cinco anos a Macau, fiquei radiante. (…) Éramos felizes, mas a tentação do Oriente foi muito forte. Por isso abracei a ideia com alegria (…). Viagens pagas para toda a família, ordenado tentador. Pronto, iríamos para Macau. (…) Nesse tempo não se ia ao Oriente com a facilidade de hoje. Não havia carreiras aéreas, nem barcos portugueses. O Oriente era quase um mistério, que alguns tinham a sorte de desvendar. (…) Teria casa do Estado, mobilada.

A Segunda Guerra Mundial tinha começado. Os mares não eram seguros, muitas áreas estavam minadas, não havia cerimónias em bombardear um navio sobre o qual pendessem suspeitas. Mas nada disso me assustava. Contra os argumentos da família, eu argumentava que éramos neutros e o navio levava bandeiras bem grandes, pintadas no convés superior e nos costados. (…)

O António descobriu na segunda classe uma rapariga macaísta, meio chinesa, acabada de se formar em medicina, a Elsa. A moça sentia-se deslocada entre aquela gente doutra condição social. Era filha de uma das melhores famílias da sua terra, com quem nos demos depois. O pai era conde. (…)

Transbordámos para o barco que nos levaria a Macau (…), onde passei cinco anos de experiências nunca sonhadas, cinco anos de sustos, de aflições, cinco anos que apesar de tudo foram os mais felizes da minha vida. Macau tinha arranha-céus, coisas que não havia em Lisboa, e havia tanta gente. Os chineses não me fizeram impressão. Habituara-me a bordo com os criados. De princípio pareciam-me todos iguais, mas foi só de princípio. 

Tivemos logo o problema do alojamento. Em Lisboa, a Marinha tinha informado que teríamos casa mobilada e equipada. O capitão de porto cessante não estava. Partira para Saigão, sem deixar o apartamento desocupado no edifício da Capitania. Fomos portanto encaminhados para o único hotel português da colónia, o Bela Vista. Estava um tanto decrépito. Era explorado por duas irmãs que iam desistir e ficar apenas com uma casa de chá no centro, as Delícias. (…)

O outro comandante já não estava em funções. Devia retirar os seus pertences. Acordei na madrugada seguinte ao som de bois a mugir. (…) O António foi apresentar-se ao governador e eu, para entreter as crianças, fui visitar o estábulo.
- Qual estábulo?
- O estábulo, ouvi os bois a mugir, de manhã.
- Bois? Aqui não há bois. São as rãs, as rãs-boi.
Eram rãs. O barulho era de bois, de bois, mesmo. Extraordinário.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios

Menino da aristocracia com óculos de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.
Menino da aristocracia com óculos 
de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.

Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios, governados por excellentes leis e por magistrados rectos e humanos; porém alguns Europeos, que tem residido muito tempo na China, e outros, que tem atravessado aquelle vasto Imperio em toda a sua longitude, tem visto com muita frequencia que o forte opprime o fraco, e que todos os que tinhão alguma authoridade se servião della para molestar, vexar e atormentar o povo.

O Imperador exerce o poder mais absoluto; pôde derogar as leis, e estabelecer outras novas. O respeito que se lhe tem chega até á adoração; desobedecer-lhe é um crime imperdoavel. Quando se apresenta em publico, o que acontece raras vezes, apparece rodeado de uma pompa magestosa e respeitavel, e quando passa, todos lhe curvão o joelho; toma os titulos de filho do Ceο, e único Governador do mundo.

Envia o Imperador commissarios secretos para que examinem a conducta dos magistrados; mas os commissarios deixam-se corromper. O que tiver a manifestar alguma queixa ao Imperador, não pode dirigir-lh´a directamente, pois tem que recorrer aos ministros ou aos οfficiaes do palacio. Estreitamente ligadas entre si todas estas personnagens por motivos de interesse, não se dá andamento á demanda, nem nenhum dos litigantes chega a obter justiça. Os que obtem algum emprego, conseguem-no mimoseando os ministros, e procurão depois embolsar-se do que adiantárão. Sabem mui bem illudir as leis que prohibem aos agentes do poder ο aceitar presentes. As ordens do Principe são mal executadas, e frequentemente é illusoria a vigilancia reciproca dos seus mandatarios. Destes, os culpados são ás vezes exonerados e carregados de ferros, confiscando-se-lhes os bens; porém estes castigos, ainda que se annuncião na Gazeta Official de Pekin, não remedeião o mal. O suborno suspende-se momentaneamente; e tem-se visto os mesmos empregados destituidos tornarem outra vez a governar outras provincias, onde se indemnisão das perdas que soffrèrão na sua fortuna.

Demais, succede na China como em outras muitas partes; as leis são boas, disse um missionario; mas seria para desejar que fossem bem executadas. O Conselho ordinario do Imperador compõe-se de Calas, ou ministros. Seis tribunaes ou departamentos estão encarregados da administração do Imperio. Outro departamento occupa-se no que é concernente aos Principes do sangue e familia Imperial.

Os membros dos grandes tribunaes são metade Manchurios e metade Chinezes. Além daquelles seis tribunaes, ha o dos Censores publicos, cujos membros tem, juntamente com os presidentes dos outros, o direito de dirigir representações ao Imperador.

Os Europeos dão ο nome de Mandarins, derivado da palavra Hespanhola mandar, a todos os empregados publicos da China, tanto civis como militares. O seu nome chinez é Konan. Ο filho herda os bens do pai, mas não as suas dignidades. Os descendentes da familia reinante tem a cathegoria de Principes, desfructão rendas, porém não tem poder algum. Todo aquelle que é, ou foi mandarim, é considerado como nobre, o mesmo quando tenha obtido gráos, ou recebido do Imperador um titulo de honra, que se concede até aos antepassados das pessoas a quem o monarca quer honrar; este titulo não se transmitte aos filhos. Os bens distribuem-se por partes iguais. 

Α familia de Confucio é a única que gosa de um titulo de honra, que se transmitte á sua descendencia directa. Ha sete classes de cidadãos: mandarins, militares, letrados, sacerdotes, jornaleiros, lavradores e mercadores. Todos os que recebêrão os gráos academicos, depois de haverem feitο os exames necessarios, podem ser oppositores aos empregos ordinarios; em quanto aos de mais importancia, necessita-se, para consegui-los, talento, credito e serviços. Os mandarins são escolhidos de entre os letrados. 

Ha muitos sacerdotes, que sabem tirar partido da propensão dos Chinezes para a superstição; e estes possuem casas e terras. Ainda que a classe dos lavradores seja a mais protegida do Governo, é ao mesmo tempo a menos rica. Os mercadores são de pouca consideração, e até os que sahem da sua patria são despresados.

Raras vezes um filho exerce o officio ou profissão de seu pai, menos que não o obrigue a necessidade. Apenas um Chinez ajunta algum dinheiro, dedica-se ao commercio; e se consegue fazer-se mais rico, tracta, por meio de presentes, de obter um pequeno mandariato, para gosar com tranquilidade da sua fortuna; porque os agentes do governo julgão que lhes fazem sombra os particulares; que fazem ostentação da sua opulencia. Os comicos e gente libertina são reputados infames, e não são admittidos a exames para serem recebidos mandarins. Os verdugos e carcereiros são mal vistos; mas podem largar o seu officio quando tem com que viver. 

Falla-se aos mandarins de joelhos, menos que se não tenha obtido um cargo que dispense disso. Jámais se apresentão aquelles em publico nos logares da sua jurisdicção, sem irem acompanhados de uma consideravel comitiva, e até formidavel. Ao aproximar-se, devem retirar-se todos, e parar respeitosamente com a cabeça direita e os braços encruzados até que acabe de passar a comitiva. Α dos mandarins consta de muitas pessoas: mas essas são mal pagas e mal sustentadas, e aquelles mesmos tem ordenados diminutos; por isso procurão tirar do povo quanto necessitão para a sua despeza. Ο Governo publicou sabios regulamentos para conter os seus agentes, e faze-los cumprir o seu dever; porém são tão mal observados que, segundo um proverbio Chinez, solta o Imperador tantos lobos e ladrões quantos mandarins cria.

Segundo são os gráos dos mandarins, assim são os seus trages. Um particular não se atreveria a trazer bordaduras de ouro, porque lhes é prohibido faze-lo. O Imperador, seus filhos e Principes de primeira ordem trazem sobre o vestido dragões bordados que se differenceão no numero de suas patas. Os principes do quinto gráo, e todos os mandarins usam do mang, que é uma especie de serpente de quatro patas. As grandes personagens do Imperio e os mandarins distinguem-se no vestido por uma chapa bordada, um cinturão e um botão posto sobre a ponta do gorro, que nos mandarins anda sempre coberto de uma borla encarnada. Um collar é o distinctivo dos grandes mandarins. A pluma de pavão real no gorro é o signal ostensivo da honra que dispensa o Imperador da sua propria mão. 

Μ. de Laplau, official de marinha Franceza, refere na sua viagem á roda do mundo, um rasgo de ousadia de um negociante Inglez, que mostra a insolencia dos mandarins. Este Inglez, chamado repentinamente á Cidade de Macáo, por negocios peremptorios e de summa importancia, vio-se obrigado, seguindo o curso de muitos canaes da China, a tocar n´uma aldêa em que residia um mandarim, que devia rever seus papeis, e perceber certo direito de passagem. O negociante representou que a menor demora podia causar-lhe um grande prejuizo, e o mandarim, sem embargo disso, negava-se a assignar-lhe o passaporte debaixo do pretexto de que estava descançando, e não era tempo. Depois de muitas e inuteis tentativas, irritado o Inglez, salta em terra, entra á força em casa do mandarim, e o encontra tranquilamente estendido sobre um colxão fumando opio. 

O reverendo mandarim, interrompido violentamentamente no seu extasis, levanta-se furioso, e ameaça grosseiramente a quem lhe fazia tão importuna visita; porém um tremendo bofetão o estirou no chão entre os pedaços do seu precioso cachimbo. O Inglez aproveitou-se da confusão e tumulto para tornar a embarcar-se, e continuar a sua viagem, chegando com felicidade ao seu destino, onde com segurança esperou o resultado das perseguições do mandarim. Dirigio-se com effeito uma queixa ao Vice-Rei, que, depois de uma ampla informação, e de ter ouvido e examinado as testemunhas, pedio á feitoria Ingleza que lhe fosse entregue o temerario. Porém tendo-se provado, por novas informações, que ο mandarim fumava opio, e que provavelmente estava embriagado quando se commetteu o delicto, mudou o negocio de aspecto. O mandarim recebeo um certo numero de varadas, e perdeo a sua dignidade. Se a causa não tivesse tido tão favoravel resultado, a viveza do viajante o teria posto no caso de abandonar a China para sempre, ou estar muito tempo encerrado, depois de pagar uma boa mulcta.

O Recreio, jornal das famílias, Tomo III. 1837

Abandono de cadáveres e de moribundos em Macau, séc. XIX

The redoubt of St. Peter, Praia Grande, Macao. 1830. George Chinnery
The redoubt of St. Peter, Praia Grande, Macao. 1830. 
George Chinnery

Occorrencias policiaes de 6 a 13 de Julho de 1872: (...) Appareceram em differentes pontos da cidade 11 cadaveres chinas, sendo 2 de crianças; que foram enterrados, depois de cumpridas as formalidades do costume.

Boletim da provincia de Macau e Timor, 13 de Julho de 1872.

Ofícios do Governador de Macau, António Sérgio de Sousa, para o superintendente da emigração chineza e procurador dos negócios sínicos

Nº 50. Ill.mo sr.- Tendo apparecido no anno ultimo um grande numero de cadaveres abandonados nas ruas d´esta cidade, e podendo attribuir-se que parte d´elles são provenientes dos estabelecimentos de emigração; ordena S. Ex.ª o Governador que v. sª previna os encarregados dos referidos estabelecimentos, de que provando-se, que por negligencia dos seus empregados, sejam abandonados quaesquer emigrantes invalidos, em logar de efectuarem a sua repatriação, como lhes cumpre, será o estabelecimento em que tal facto se der, immediatamente fechado, alem de qualquer procedimento judicial que porventura haja a promover contra aquelles que praticarem similhante acto de deshumanidade. Deus guarde a v. sª. Secretaria do governo de Macau, 16 de Janeiro de 1872. Henrique de Castro, secretario geral

Nº 51. Illmo sr. - Conhecendo-se pela estatistica obituaria do anno findo, terem apparecido um grande numero de cadaveres abandonados nas ruas d´esta cidade, e não podendo attribuir-se este facto senão ao costume dos chinas pobres abandonarem os moribundos; ordena S. Ex.ª o Governador que v. s.ª recommende aos cabeças de ruas, que quando encontrarem cadaveres abandonados, não se limitem só a participar similhante facto á policia, para serem enterrados, mas sim que procedam ás mais minuciosas investigações, a fim de se conhecer por quem foram expostos; fazendo v. s.ª bem publico, que serão castigados aquelles que pratiquem o acto deshumano de abandonar os enfermos, ou de depositar os cadaveres na rua, para se eximirem a enterral-os. Deus guarde a v. s.ª - Secretaria do governo de Macau, 16 de janeiro de 1872. Henrique de Castro, secretario geral

Boletim da Provincia de Macau e Timor de 29 de Janeiro de 1872.

Resposta da Procuratura dos negocios sínicos ao Governador, o Conde de S. Januário (Januário Correia de Almeida)

Nº 249. III.mo sr. - Tenho a honra de passar ás mãos de v. s.ª pedindo se digne fazer presente a S. Ex.ª o Governador o incluso mappa do movimento dos doentes no hospital china provisorio creado por ordem do mesmo Ex.mo Sr. para recolher os doentes encontrados nas ruas em estado de abandono. O hospital começou a receber doentes no meado de junho passado. Parece muito grande a mortalidade, mas ha a attender que todos os doentes recolhidos são desgraçados, a quem a familia abandonou na rua nos paroxismos da morte para poupar as despezas do enterro, ou fumistas d´opio, que reduzidos á ultima miseria cahem extenuados, e muitos para mais se não levantarem. Anteriormente á creação deste hospital eram estes doentes recolhidos em uma barraca de palha, onde lhe faltavam todos os recursos da medicina e até o comer, e d´onde geralmente nenhum sahia vivo. Comparado este estado de cousas com o actual vê-se que o hospital provisorio, com quanto não reuna todas as condições de um bom hospital, tem conseguido arrancar da morte algumas pessoas, que d´outro modo a teriam inevitavel. Para o futuro terei a honra de enviar mensalmente um mappa do movimento dos doentes a essa secretaria. Deus guarde a v. s.ª - Macau, 31 de agosto de 1872. - Ill.mo sr. Henrique de Castro, secretario geral. - Julio Ferreira Pinto Basto, procurador.

Boletim da provincia de Macau e Timor, 7 de Setembro de 1872.

Proclamaçaõ do Imperador da China

Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement de l'Empereur de la Chine, 1770
Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement 
de l'Empereur de la Chine, 1770. 
Biblioteca Nacional de França

Eu Imperador (1), indigno successor de Meu Pay, tenho governado por espaço de 18 annos com toda a diligencia, e sem attender ao Meu proprio commodo. Quando subi ao Trono de Meu Pay já havia Pelinkiáus (2) estes excitavaõ sedições em 4 Provincias do Imperio, e o povo padecia por esta causa calamidades tamanhas, que a minha dor nem me permitte dizelas: para os destruir mandei Generaes, e depois de 8 annos de guerra começaram os rebeldes a submetter-se. Eu esperava, que depois viveria sempre alegre com o meu muito amado povo, e teria um Imperio feliz: mas outra vez se levantaram de repente aos 6 da Lua 9ª (29 Septembro, 1813) os sediciosos Tienlikiaus (3) na Cidade de Hoasien na Provincia de Honan, depois desde a Cidade de Xam-yuam na Provincia de Petecheli até a Cidade Tsaosien na Provincia de Chantong (4) 

Para dissipar esta segunda sediçaõ mandei ao Governador Ven-txuei, que marchasse com suas tropas sem perda de tempo, julgando, que os sediciosos estavaõ mil lis (72 legoas Portuguezas) distantes de Mim: porem de repente aos 15 da mesma Lua (8 de Outubro) o tumulto appareceo ao Meu lado, dentro do Meu mesmo Paço.

Mais de 70 rebeldes Tienlikiaus acometteram uma das portas (5) do Paço, entraram, feriram, mataram alguns soldados, e criados: 14 destes salteadores penetraram em uma das salas mais particulares: porém foram immediatamente prezos, 3 com bandeiras nas maõs subiram acima do muro querendo entrar no Tien Yam-xin (6) porem Meu Filho 2º tomou uma espingarda, e successivamente matou 2, e o Regulo (7) Mien-xê ferio o outro: os mais á vista disto começaram a retirar-se, e assim se restituio a tranquilidade do Paço: o que certamente se deve ao valor de Meu 2º filho. Com tudo fora da Porta Lum-tsum muitos Regulos, e Grandes Mamdarins mandavam e excitavam os soldados fuzileiros a trabalhar com todas as forças em destruir, buscar, e prender os restantes; e isto se executou taõ perfeitamente em dous dias, e uma noite, que nem um só escapou. (8)

O Meu Trono tendo sido estabelecido em Pekin há mais de 170 annos os Meus Grandes Ascendentes dotados de grandes, e solidas virtudes, amaram o seu Povo como filhos, de modo que nem Eu posso por miudo expor suas excelentes qualidades; mas se no meu governo me hé impossivel continuar o amor de meus pays para com o povo: comtudo nunca fui taõ cruel, que o maltratasse. Agora de repente succede este motim, e eu naõ conheço outra cauza senaõ a minha falta de virtude, e meus defeitos, que cada vez augmentaõ; convem por tanto, que eu me reprehenda a Mim mesmo.

Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.

Quanto a mim: Eu sem cessar avizava, e mandava até se cansar Minha lingua, e se me seccarem os labios: que havia eu fazer, quando os empregados naõ ouviaõ minhas vozes, e desprezavaõ seus deveres? Assim succedeo um attentado, que desde as dynastias de Han, Tam, Tsam, e Mim (9) até agora nunca se vio.

Hé verdade que reynando a Dynastia de Mim se deraõ algumas pancadas dentro do Paço: mas que comparaçaõ tem aquelle antigo com o prezente attentado? Fallo verdadeiramente constrangido: Eu somente me examino a mim mesmo para procurar emendar-me, para rectificar o meu coraçaõ, para em cima corresponder a misericordia do Ceo, e embaixo acommodar as queixas do Povo.

Se os empregados querem ser bons, e fieis ao meu serviço; hé necessario que procurem ter um coraçaõ fervorozo para com o Governo; hé precizo que empreguem todas as suas forças, e boa vontade para me admoestar dos meus erros, e mudar os costumes do povo: se porém antes querem o estado de vileza, e desprezo, peço-lhes instantemente; que dimittaõ os seus cargos, e acabem a sua vida civil (10): para que naõ suceda receberem o seu ordenado conservarem o estado de nobreza, e ao mesmo tempo como cadaveres nada fazerem; e augmentaõ ainda mais mais as minhas culpas.

As lagrimas correm pelo pincel abaixo, avizando a todo o povo, para que todos saibaõ.


Observaçaõ. A precedente proclamaçaõ veio na gazeta; unico periodico da China: he ministerial, sahe diariamente em Pekin, e nada diz senaõ do interior do Imperio. Nella vem os Decretos Imperiaes; as partes ou reprezentaçoens dos mandarins; as representaçoens ou moniçoens dos Censores; que podem cada um em seu nome, ou tambem em nome de seus Collegas, e pessoalmente sem que nem o mais poderoso os possa embaraçar, chegar ate ao Imperador com suas censuras sobre o que he ou parece ser mal dirigido no Imperio; e os erros ou prevaricaçoens naõ só dos Vice Reis, e outros mandarins das Provincias; mas até dos maiores mandarins da Corte, e 1º ministros. O tal tribunal ou antes corpo censorio consta de mais de 70 censores dous dos quaes, que saõ grandissimos mandarins, saõ os principais, e immediatos ao Imperador, que neste corpo se reputa como prezidente. Hé este corpo mui temido, e quando algum mandarim, por algum Censor denunciado, tentasse vingança, a todos, e todo corpo teria contra si. O mesmo Imperador os respeita de modo totalmente singular; e já no actual governo succedeo, que tendo um censor representado contra o 1º Ministro, attribuindo-lhe 3 culpas, que depois se acharam calumniosas; neste Imperio onde os castigos saõ taõ faceis, e sem respeitos, no dicto cazo comtudo o Imperador só mandou publicar, que a censura se achára calumniosa, e que sendo delicto o calumniar ainda o mais infimo individuo, muito mais o era a um 1º ministro: porem que para tirar todo pretexto de escusa aos Censores em cumprir seu oficio, se naõ procedia a castigo. Traz tambem a gazeta todos os mandarins de novo feitos, e quando algum destes he elevado a maior gráo, ou privado de um ou mais gráos, que já tivesse, o que succede frequentemente; ou ainda maior castigo; tudo se publica na gazeta com expressaõ dos meritos, ou demeritos, que foraõ motivo. Tambem na gazeta se publicaõ todos os processos criminais; porque ainda o mais infimo, tenha sido condemnado á morte, ou desterro; tudo em detalhe; perguntas do Juiz, respostas do reo, &c. em fim sentença e pena.

Demais disto contem noticias de longevidades: e se o Imperador concedeo pensaõ ou inscriçaõ honorifica no portal de longevidade notavel como as vezes succede: Igualmente se uma mulher teve de um parto 3 crianças; e ter o Imperador mandado, como hé costume, dar-lhe um saco de arros cada mez sufficiente ao sustento de 3 pessoas por 3 annos, ainda que nesse meio tempo moresse alguma criança sem diminuiçaõ se continua.

Naõ obstante hé summa a venalidade dos magistrados, e a escravidaõ do povo. Tem, ao menos na pratica, dous principios injustos, e proprios de gente escrava, mas que pela sua mesma malignidade evitaõ muitos crimes. Um hé do mesmo Imperador á respeito dos empregados, que sempre que houve mao successo, ou estes sejaõ nelle culpados, ou naõ; sempre saõ castigados; fora algum cazo de palpavel evidencia: mas disto mesmo vêm outro naõ pequeno mal; que hé recurso a artificio para iIludir o Imperador; e capeando-se uns a outros lhe vendem por bom, o mào successo: e nas contas que tem a dar, pela maior parte tudo está bem, tudo vai bom: Outro hé dos Ministros sobre o povo; sempre que há crime, ou pretexto para perseguir alguem, fóra do Carcere, e depois no Carcere, se chega a cahir nesse na China inferno; o expremem até a ultima gota, singularmente se hé rico; de sorte que os que temem os crimes, e cair nas garras destes gavioens, saõ os ricos; ao contrario do que succede noutras partes. Nos carceres se daõ tormentos: que ordinariamente hé a arbitrio do Carcereiro agravar, ou aliviar; e na maior parte quanto assim se expreme o infeliz, naõ he crivel que páre só nos carcereiros.

Correio braziliense, ou Armazem literario. V.13, 1814.


(1) Kia Kim he o seu nome desde que subio ao Trono: Cada Imperador toma outro nome como entre nós os Papas, com a diferença, que nunca um Imperador toma nome, que jà tivesse outro Imperador (...).Geralmente na China naõ se toma para uma pessoa nome que seja ou fosse d´outra: demais disto; he costume dos Chinas receberem 3 nomes differentes. O 1º recebem do pay, só os pays, avòs, ou tios, e tambem amos podem chámar com este nome. O 2º recebem do mestre, quando já vaõ a escola: e por este nome saõ chamados pelas pessoas superiores: e com este se assignaõ escrevendo a Superiores. O 3º que he imposto por pay, mestre, ou ainda por outrem aos 15 ou 10 annos serve para com iguaes; por este se assignaõ em escripturas &c. e escrevendo a iguaes, mesmo a inferiores, quando naõ sejaõ seus criados; comtudo em alguns lugares sò usaõ por escripto do 2º nome. Todos estes nomes se compoem de novo para cada pessoa; formaõ-se de letras (cada letra he uma sylaba, uma palavra) e sempre tem bellas significações. O nome de familia, que equivale ao nosso sobre nome ou antes prenome pois que sempre o dizem primeiro, sempre he um só, e de uma só letra. Tambem naõ póde o filho tratar seu pay pelo proprio nome nem no sobrescripto de uma carta; em tal caso ou o designa por titulo de honra se o pay o tem, ou pelas particulares circumstancias de sua habitaçaõ. 
(2) Seita Religiosa, e talvez politica. Tem grande cuidado em occultar seus dogmas; e se tem fins politicos naõ se sabe quaes sejam. Os Sectarios se ocultaõ de sorte que nem os pays sabem, que seus filhos sejam Pelinkiaus. Daqui vem o ter-se dito, que saõ os Framações da China
(3) Seguidores da razaõ celestial, ou Divina. Saõ os mesmos Pelinkiaus com o nome mudado. 
(4) Nenhuã das Cidades aqui nomeadas se vê no mapa: todas saõ cerca de Taiming, e Tsao, e na concurrencia das 3 Provincias de que aqui se falla. 
(5) No original vem porta vedada, havendo outro muro mais exterior onde se pode entrar, e até há ruas de habitaçaõ. Se chamaõ portas vedadas as 4 do muro por onde só entram Mandarins, e soldados de guarda. Ainda que se diga Paço desde o exterior muro; só desde o interior mais verdadeiramente o hé. 
(6) Tien yam-xin hé uma grande sala no meio do Paço, onde o Imperador no seu trono recebe as embaixadas, e em determinados dias dá audiencia aos Mandarins: mas os que saõ inferiores à 3ª ordem já ali naõ entram a naõ serem por motivo especial chamados, ou por algum dos Grandes ali introduzidos. Yam-xin (que quer dizer lugar de descanço ou desafogo) hé o nome proprio daquella principal sala do Paço. Tien convem a todas taes salas, o que tambem há nos Palacios dos Regulos, e nos grandes Pagodes, que constando de varias como capellas, só a principal no meio se diz Tien. 
(7) Regulos se chamaõ os Filhos, netos, e ternetos do Imperador constituindo 4 gráos. Estes precedem em honra a todos por grandes Mandarins, e primeiros Ministros que sejam. (…) Estes Regulos estaõ todos em Pekim, e quasi naõ saõ empregados. 3 saõ presidentes dos 3 tribunais scientificos, ou antes Academias, Matematica, Medicina, e Universidade. Mas pode-se notar, quanto a medicina; que os medicos na China naõ saõ examinados, nem tem alguma especie de doutoramento e o Imperador só pela maior fama de habilidade escolhe alguns em Pekim, que passaõ de 70, estes tem estipendio Imperial; e gráos como de Mandarins de 6ª, 7ª, ou menor ordem; entre elles um da 5ª hé o principal, e isto hé o que chamaõ Tribunal da Medicina, sob Presidencia de um Regulo, que de Medicina nada sabe: quanto a Universidade, naõ ha lentes, nem estudantes: mas uns 200 Doutorados, que melhor se distinguiram nos seus exames; e ficam em Pekim servindo, ou promtos a servir em materias de letras ao Imperador, de quem recebem estipendio; saõ a Universidade; estes saõ os que examinam os que recebem os gráos Doutoraes, que só se fazem de 3 em 3 annos, e entaõ tambem elles saõ examinados, cujo argumento ou ponto hé dado pelo Imperador; e as disertaçoens examinadas por grandes Mandarins (…). Os outros tambem saõ todos mui honrados, e tractados pelos Mandarins á proporçaõ como iguais; mas em ficando Mandarins, suas honras se limitaõ á ordem Mandarinica, que recebeo; tratando como superiores, e sendo tratados como inferiores pelos Mandarins, que os excedem em ordem. Seus estipendios saõ pequenos, mas alem de serem mui considerados saõ preferidos para os Mandarinatos na Corte, onde ha muitos lugares, singularmente nos Tribunais, que saõ muitos, e compostos de muitos Mandarins. Ao Doutoramento sobe-se por 3 gráos obtidos em 3 bons exames. Estes exames consistem em discursos eloquentes por escrito sobre pontos moraes; ou sobre leys; e bem governar os povos. (…) As ordem Mandarianicas saõ 9 (...). Tornando aos Regulos tambem alguns saõ chefes militares em Pekim; onde a tropa, que passa de 180.000 (...). Há demais 4 Reynos, que reconhecem alguma dependencia, quais saõ Cora, Siaõ, Liquoco (Ilhas a L. S. da China) e Tun Kim: com tudo esta jà naõ manda embaixada, nem reconhece superioridade á China.
(8) Parece demasiada exageraçaõ: e se apanharam todos quando muito seriaõ esses 70, que entraram; mas naõ os muitos, que deviaõ estar movendo motim exterior, e para cujo pertendido successo deviaõ ter as 3 bandeiras levadas acima do muro.
(9) 4 Dynasticas Chinas antecedentes á prezente Tartara, que se chama Xim Txáo. Houve outra Tartara dita Yuens, que precedeo a de Mim; e aqui se naõ nomea, talvez por ter sido de pouca duraçaõ, foi só de 90 annos. As Dynasticas do Imperio Chinez tem sido 23, e reynado até agora por 4.170 annos segundo sua historia. 
(10) Vaõ esconder sua vergonhosa baixeza nas paredes de suas cazas: naõ appareçaõ em publico. Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.

O Chim na Exposição Universal de Londres de 1851

Crystal_Palace_from_the_northeast_from_Dickinson's_Comprehensive_Pictures_of_the_Great_Exhibition_of_1851._1854
Palácio de Cristal, exposição universal de Londres, 1851
imagem de Dickinson Brothers

O mandarim Hing-she (...) mandou chamar á sua presença a Kiu-fáo-li-tsa, que significa homem habilidoso de mãos, e lhe falou assim: 
- Chegou-me aos ouvidos, que os povos do Occidente formaram o projecto de reunir os productos de sua industria, n'um ponto de uma cidade, apenas tão povoada como um bairro de Pekin, mas que é não obstante a maior desse cantinho da terra, menor que uma provincia do Imperio da Luz, e que se chama Europa. (...) Quero saber que idéa hei de formar da industria dos barbaros, e por isso te nomeei, Kiu-fáo-li-tsa, pela fama que tens de habilidoso de mãos, para me dares noticia da exposição de Londres. Está prompta uma embarcação; parte, e quanto antes me dá conta do que houveres visto.

Kiu-fáo-li-tsa era o primeiro fabricante de biombos da corte imperial. Desde a primeira dynastia tartara, seus avós, de paes a filhos, pintavam os dragões, as barcas, os cavallos, e os macacos, que adornam as paredes de papel dobradiças (...).
- Que nos importa isso! pensou lá comsigo Kiu-fáo-li-tsa; ha muito conhecemos a impericia desses barbaros; cinco ou seis mil annos primeiro do que elles, inventámos nós a imprensa, a pólvora de algodão, a bússola, a pintura a oleo, os poços artesianos, os carris de ferro. Os nossos avós, continuou Kiu-fáo-li-tsa, encaminhando-se para casa, os nossos avós, vestiram-se de seda e de lã, centenares e centenares de annos antes dos barbaros usarem as suas samarras de pelle de cabra e de carneiro. (...) Aqui me vejo eu na precisão de deixar a minha casinha de campo, e as minhas duas esposinhas (...) para cruzar os mares, e ir sepultar-me nessas cidades europêas, onde as mulheres têem pés como os dos homens (...); onde se me vae estragar o estômago com as comidas europêas. Adeus, ninhos de andorinhas, Adeus, olhos de papagaio, Adeus, barbatanas de tubarão, Adeus, fritadas de lagartas, Adeus, costeletas de cão, Tenho vontade de me lançar aos pés do sublime Hing-she, e pedir-lhe que incumba a outrem esta missão. Alto lá, que o sublime Hing-she, é capaz de me mandar metter na gaiola, se me eu mostrar descontente. Obedeçamos.

O homem habilidoso de mãos recebeu as ordens superiores (...). Foi para casa, fez os seus fardos, abraçou as suas mulheres, e metteu-se a bordo do navio. Dominado pelo espirito de commercio commum a todos os seus compatriotas, Kiu-fáo-li-tsa não se esqueceu de fazer um fardinho, composto de biombos, de leques, e de lanternas, que esperava de vender por bom preço, depois de terem figurado na exposição. (..)

O senhor Sallandrouze, e outros commissarios da exposição, o receberam, como merecia que o recebessem um homem de tão longe vindo, para misturar as suas lanternas na grande festa da industria das nações (taes foram as palavras do commissario inglez no seu speech, que todos os jornaes de Londres transcreveram); deram-lhe um excellente logar para dar ao manifesto os seus leques (...). O homem habilidoso de mãos não ficou deslumbrado com aquelle acolhimento (...). Cingiu-se á missão (...). Observou a exposição por todos os lados; examinou os productos de todos os paizes da Europa; e de tudo fez assento em umas notas, que serviram ao depois para a redacção do seguinte artigo, que appareceu n'um periodico de Pekin, e que foi traduzido por um sugeito muito versado no idioma da china.

Fragmentos do relatório de Kiu-fáo-li-tsa (...). sobre A exposição dos bárbaros em LONDRES.
Excellencia: Estes homens de cabello loiro, são doidos varridos. Sabeis qual é o objecto que mais admiram na sua exposição? nunca o adevinhareis. É um diamante. Dão-lhe o nome de montanha luminosa, porque esta pedra tem um brilho, que não é nada ao pé da mais pequena das minhas lanternas. A gente apinha-se á roda do diamante. Fizeram-lhe uma especie de altar, mesmo no meio da exposição, e é alli adorado por todos os fieis. Tomara eu saber que relação tem um diamante com a industria. Desde o principio do mundo se filtraram duas pingas de agua pelas rochas das montanhas Azues. Uma das gotas enfadava-se de atravessara dura rocha, para cair n'um terreno areento; e um dia pegou em si, e foi-se queixar a Bouddha.
- Em que te posso fazer bem? perguntou o deus.
- Podes transformar-me em rio, lhe respondeu a gota de agua. Ardo em desejos de me estender pelos campos, decorrer por entre as abundosas searas, de saltar do alto das cascatas, passar por baixo de pontes gigantescas, e de açoitar as praias, levantando escarceos até ás nuvens...
- És ambiciosa... E tu, accrescentou Bouddha, faltando á outra gota, e tu que pedes?
- Nada. Dessedento a formiga, refresco o musgo; estou contente.
-Tens bastante paciencia...
Far-se-ha como uma e outra quereis, acudio Bouddha. Abrindo as paredes da rocha á gota impaciente, deixou-a cair de saliencia em saliencia, até um deposito, onde se ouvia o murmurio das aguas, n'uma concavidade do tamanho da palma da mão. A gota viu que se ia afogar; tornou a soccorrer-se a Bouddha.
- Deus, disse ella, Deus Omnipotente! Vou cair n'uma cova, onde morrerei antes de me tornar em rio.
- Os rios são compostos de muitos milhões de gotas de agua, lhe respondeu Bouddha; o castigo que os ambiciosos merecem, é perderem-se no rio da propria ambição.
Bouddha foi no mesmo instante para o cume do Himalaya. A outra gota de agua ia sempre resumando da pedra, para dessedentar a formiga, e refrescar o musgo. Bouddha olhou para ella com enternecimento. 
- Tiveste paciencia, lhe disse, gotinha de agua olvidada e perdida; quero dar-te o premio que á paciencia cabe. E transformou-a em diamante.
Ora eis-aqui está a origem do diamante. Não vejo pois o motivo por que a montanha luminosa apparece na exposição.

O segundo objecto, que attráe a attenção e admiração dos barbaros, é um destes instrumentos musicos, chamados orgãos. Vossa excellencia não faz idéa do prazer, que estes homens do occidente experimentam, quando ouvem o orgão. Quando se abre a Exposição, começa elle a tocar, e não acaba senão quando se fecha a porta. Se os europeus fizessem uso do orgão para metter medo ao sol, e fazer com que elle nos não escondesse a lua, ainda, ainda; porém estão tão atrazados em astromonia, como em tudo, que se não querem capacitar de que a musica evita os eclipses. (...)

Como não têem logica, estes homens occidentaes, não sabem nada o que seja synthese. Eis-aqui a prova. Uma parte da Exposição é toda destinada para os phosphoros. Apparecem de todos os feitios. Não vol-os posso descrever. Depois das estrellas do Céo, e das areias do mar, são os phosphoros as cousas mais numerosas que ha. Pois, de todos os povos que exposeram phosphoros, nem um só foi capaz de fazer um fusil. Modelos não faltam, mas nenhum satisfaz. 

Já que fallámos dos phosphoros, e do fusil, não quero passar em claro pelo charuto, que é causa e objecto dos phosphoros. O charuto figura na Exposição, como producto da industria. O charuto é um pequeno cylindro de tabaco enrolado, que os europeus costumam fumar em maior, ou menor quantidade. Preparado assim, o tabaco apresenta uma infinidade de inconvenientes, cujos principaes são os seguintes: Torna os dentes negros. Esfola as gengivas. Corrompe o halito. Põe mau cheiro no fato. Antes de se costumarem ao charuto, todos semtem enjoos de estomago, que apresentam symptomas de envenenamento. O charuto tem acção no cerebro. Torna a intelligencia preguiçosa. Os sabios, de quem todos fallam, mas que ninguem escuta, attribuem a degeneração physica das raças occidentaes, ao uso do tabaco de rôlo. Ha neste paiz immensa gente, que se não contenta com fumar o tabaco. Pessoas ha que o mastigam. Outras o sorvem pelo nariz. E apesar de tudo, nos censuram, porque engolimos algumas fumaças de opio, purificado pelo fogo.

Um paiz insignificante, e que apenas tem os seus trinta milhões de habitantes, a França, mandou para a Exposição fazendas para vestir mulheres. Parece que a cassa e a tragedia são as especialidades deste povo, que é tido pelo mais futil do universo. (...) O que os francezes mais estimam, são os desenhos com que pintam as suas fazendas. Riem-se dos meus leques, e dos meus biombos; e pensam que sabem imitar melhor a natureza. (...) A arte não serve para imitar. Não se consegue nunca aformosear a natureza; é preciso por tanto afeial-a. De que servem rosas pintadas, quando ha tantas rosas naturaes; de que servem homens e cavallos desenhados, quando a toda a hora se vêem os modelos? Os olhos não gostam do que é verdadeiro. Se queremos pintar creaturas humanas, pássaros, flôres, devemos apresental-os com figuras extravagantes. O espirito humano gosta de caricaturas. A arte consiste no impossivel, e no phantastico. Os melhores operarios de Lyão não são capazes de representar a menor chimera. Como não tratam senão do que é real, a imaginação se lhes ossifica; copiam, mas não inventam. Tanto isto assim é que os proprios francezes, ao menos os que são ricos, e sabem dar valor ao que é bom, não fazem caso das fazendas, que os seus fabricam, e dão rios de dinheiro por aquellas que nós inventámos. (...) 

Noutro paiz pequenissimo, chamado Allemanha, formou-se uma sociedade de homens caridosos, e de bons propositos, que procuram impedir que as nações façam guerra umas a outras. Chama-se esta reunião o Congresso da paz. A Exposição veio substituir o congresso da paz. É este, dizem as pessoas caritativas, o mais certo meio de acabar com a guerra e os seus estragos. No palacio de crystal acham-se mais de trezentos modelos de espingardas, cujo principal merecimento consiste em matar com mais rapidez e certeza. Muitos membros do Congresso da paz fazem parte do jury da Exposição. Na sua qualidade de commissarios, hão-de ser obrigados a classificar, segundo a superioridade respectiva, estes instrumentos de guerra aperfeiçoados; hão-de-os enumerar entre as invenções uteis. Mais outro exemplo da logica destes homens occidentaes.

Parece que os homens não têem aqui outro intento, senão diminuir o tempo e o espaço. Inventaram o vapor. Machinas para imprimir, n'um instante, centenares de jornaes. Machinas para andar, em poucas horas, centenares de leguas. Machinas para fabricar centenares de coisas, de uma vez. Navios, carruagens, officinas, tudo anda por vapor. Andar depressa é o meio de viver pouco. A sapiencia dos nossos antepassados repelliu sempre estes meios de imaginaria perfeição, que elles conheceram muito antes que os barbaros os conhecessem. (...)

Não faltam na Exposição cabelleiras. Os povos deste paiz tornam-se calvos em curta idade; procuram então supprir o cabello fugitivo, e como toda a sua mania e crer que se imite a natureza, inventaram o chinó. (…)
- Meu senhor, disse-me elle, não me dirá o para que lhe serve essa cauda, que lhe nasce no alto da cabeça?
Respondi cortezmente a este seccante:
A experiência fez ver aos nossos maiores, que o homem não desfructa por muito tempo as vantagens exteriores, que a natureza lhe doou; os desvelos que estas vantagens exigem tornam de mais a mais o homem molle, e efeminado. Uma vez que os cabellos nos hão-de deixar, deixemol-os nós primeiro. Eis-aqui a rasão, porque rapamos as cabeças, ficando só uma trança, por onde nos agarre o anjo da morte, quando nos arrebatar ao céu.
O bárbaro poz-se a rir (...). 

De quanto vi na Exposição, só uma coisa me encantou deveras. Vi umas caixinhas tão bonitas, e cheias de uns fructos tão appetitosos, que eram capazes de tentar o próprio deus Boudha. Não me pude conter; metti a mão, tirei, levei á bocca. Oh! que deliciosa coisa! Dirigi-me a um sabio de cabellos loiros: - Que é isto? disse eu. São ameixas doces, disse elle. Quem as faz? disse eu. As damas, disse elle. Que se intende por damas? disse eu. São arvores, que dão assucar, disse elle. E onde se dão essas arvores? disse eu. Em Portugal, disse elle. De tudo isto lavrei auto n'umas folhinhas de madrepérola, em que escrevia lembranças. Perguntei-lhe depois onde ficava o paiz afortunado, onde nasciam coisinhas tão boas. Isso não é nada, respondeu-me elle; se um dia por lá passar, amigo chim, então verá o bom e o bonito!

Por falta de espaço, não transcrevemos mais. Eis-aqui porém o resumo do relatório do homem habilidoso de mãos: (...) Os bárbaros são bárbaros. Tal foi o juizo, que fez sobre a Exposição de Londres (...). Chegado que foi á pátria, poz-se a pintar monstros, macacos, e diabos verdes, como os pintara o avô de seu avô, e como os ha-de pintar seu filho.

O mandarim, intendente das artes e officios, outorgou uma grande recompensa a Kiu-fáo-li-tsa; deu-lhe licença para usar de um botão de cristal. O homem habilidoso de mãos achou que as duas mulheres lhe tinham sido fieis. Antes de partir de Londres, tinha vendido, por bom dinheiro, todos os biombos, leques, e lanternas, ao presidente da sociedade, encarregada de proteger a industria. 

Revista popular; semanario de litteratura e industria. Vol 5, 1852