Ao fim-de-semana, sobretudo, era frequente ver a sua varanda repleta de gente, muitos vindos de fora com a indicação expressa de não deixarem de passar uma tarde no hotel. Por vezes, nas águas tranquilas da baía passava um junco e era como se o edifício ficasse ligado ao rio e as pessoas tinham o pressentimento mágico de estar a viver as suas próprias recordações.
Numa tarde chuvosa de 1990, o Bela Vista fechou as suas portas com um baile dado por pessoas de Hong-Kong que havia anos encontrava na decadência e no ambiente do hotel o melhor local para as suas festas. Eram bailes famosos, com gente famosa e importante, que suscitavam o interesse dos jornalistas de Macau e de Hong Kong. (…)
No dia seguinte ao seu encerramento o hotel começou a ser esventrado: saíram os velhos móveis, utensílios de cozinha e todo o equipamento hoteleiro. Alguns objectos tinham a idade de um século. Do hotel foram retirados os seus canhões (que deram o título a uma canção do grupo Heróis do Mar) as camas, os reposteiros, os candelabros e as ventoinhas. Ficou a lenda do Bela Vista expressa em muitas mensagens escritas a tinta nas paredes pelo grupo de foliões de Hong Kong. (…)
A ligação do Hotel Bela Vista à comunidade inglesa de Hong-Kong remonta ao princípio da fundação do Hotel, criado em 1890 pelo casal Clerck. Quando da altura de baptizar o edifício decidiram-se pelo óbvio, isto é, pelo que de mais marcante caracterizava a localização do hotel: a vista (...) a Boa Vista, nome por que passou a ser conhecido, desde então e até 1936, aquele hotel.
Em 1 de Julho de 1890 abre o Hotel Bela Vista numa cidade que dispunha de algumas hospedarias chinesas e de apenas um hotel ao gosto ocidental: o Hing Kee, do chinês Pedro Hing Kee, na Rua da Praia Grande (…) E logo após a sua inauguração, o Hotel é visitado por um famoso repórter da prestigiada revista Graphic, de Londres (…) Henry Savage Landor.
O Boa Vista (….), ao oferecer não só a fabulosa vista para o sul como também serviço de praia, na Baía do Bispo, banhos quentes e frios, quartos frescos e ventilados e um criterioso serviço de bar com vinhos e bebidas espirituosas das mais variadas proveniências. (…)
E, desde logo, é ali que ficam hospedados os mais ilustres visitantes como William Robinson, governador de Hong-Kong, durante a visita que efectuou a Macau em 1892; ou o cônsul português em Hong-Kong; ou mesmo um conhecido jornalista da vizinha colónia; ou, ainda, o célebre barão do Ladário, ministro do Brasil na China … tanto mais que o serviço de praia, onde desembocavam as famosas escadarias do hotel, era explorado de uma maneira conveniente que assegurava barracas de banho, fornecimento de fatos próprios e toalhas aos banhistas e ainda um serviço de bar. (…)
O casal Clarke vê-se obrigado a hipotecar, a 11 de Novembro de 1899 (…). O turismo era quase inexistente. A Macau vinha-se por um dia ou dois, em viagem de negócios ou de prazer. No Verão, é certo, havia mais forasteiros na cidade, na maioria dos casos, famílias de estrangeiros radicados em Cantão ou em Xangai e que aqui procuravam a famosa brisa marítima do sul, refrescante e apaziguadora dos calores sufocantes das cidades chinesas. Mas, mesmo esses, preferiam quase sempre a hospitalidade de uma casa de amigos ou conhecidos ao conforto de um hotel. (...)
Paga a hipoteca, a 21 de Novembro de 1901 (…) as perspectivas continuam a não ser as melhores. (…) Mas por esta altura, o hotel vai ser usado como um meio para a tentativa de penetração francesa em Macau. Em 1902 os franceses escolhem o hotel como possível sanatório e casa de repouso para os seus cidadãos residentes na Indochina e propõem-se comprá-lo. Por trás desta proposta, aparentemente inofensiva, descobrem os ingleses um complot para a absorção de Macau por Paris. Uma grave ameaça à estabilidade e prosperidade de Hong-Kong, na leitura dos súbditos de Sua Majestade que não compreendem porque tendo já os franceses um sanatório em Hong-Kong pretendiam novo estabelecimento em Macau. (…)
A questão da possível venda do Boa Vista chega à imprensa de Lisboa e de Londres e aos parlamentos português e inglês. Em Macau, o cônsul francês em Cantão, Hardouin, tenta tudo por tudo junto do governador para que o negócio seja efectuado. (…)
Horta e Costa, aparentemente favorável à ideia do sanatório francês no Boa Vista, remete para o Governo de Lisboa uma decisão final sobre o assunto. Mas as pressões inglesas têm sucesso junto de Lisboa e o Governador Horta e Costa expropria o Hotel (…); venda do hotel à Santa Casa da Misericórdia para instalação de um sanatório para cidadãos nacionais e estrangeiros. (…)
Pouco tempo depois (…), sem dinheiro, o Provedor é obrigado a pedir um empréstimo sem juros à companhia que explorava a lotaria. A instituição abandona o projecto de de erguer um hospital (…), e decide explorar directamente o Hotel, através de Delfino José Ribeiro mantendo quase todos os empregados que tinham trabalhado para o capitão Clarke (…). Uma banda a tocar aos sábados no salão de jantar, um campo de ténis e os quartos de turistas e ou convalescentes. (…)
Com a demissão de Delfino Ribeiro da gerência do hotel, em 1903 (...), o francês Auguste Vernon toma conta do negócio (…). Uma doença obrigou-o a regressar à Europa. Em sua substituição fica outro estrangeiro: Albert Watkins, mal visto pelas autoridades que o impedem de comprar o Hotel a Vernon. Uma decisão que se manifestou avisada pois (…) Watkins transformava o Boa Vista num casino clandestino (…). A polícia secreta foi chamada a intervir (...).
E é sem espanto e sem lástima que a cidade vê fechar o Hotel Boa Vista, convertido que foi em 1917 o seu edifício no Liceu de Macau. (…) Até 1923 (…) sob a orientação de um notável naipe de professores: o poeta Camilo Pessanha, D. José da Costa Nunes, mais tarde patriarca das Índias, o sinólogo Silva Mendes e Fernando Lara Reis, conhecido benemérito de Macau. Entre os alunos, também alguns nomes que se tornariam famosos ao longo dos anos – os irmãos Paço d´Arcos (filhos do Governador Henrique Monteiro Correia da Silva), Adolfo Jorge e Luís Gonzaga Gomes, entre outros.
Em 1928 o Governo compra o Boa Vista (…). Ao Governo não resta outra solução senão desfazer-se do Hotel, em 1932, vendendo-o a Ieong Pat (…). Dois anos depois o Hotel encerra novamente, alugado que foi para alojamento dos «cadetes» da Administração Civil britânica. (...). No entanto, a invasão da China pelas tropas japonesas obriga ao regresso a Hong Kong dos jovens britânicos. (…) Muitos deles não viveram (…). Foi o caso, entre muitos possíveis exemplos, de Gerald Jollye, um jovem poeta que registou de Macau as melhores recordações e não poucos amores. (…)
Em 1936, abandonado pelos cadetes, sem se esgotar o prazo do arrendamento (1934-1937), o Hotel Boa Vista era um amplo e desocupado casarão. (…)
Pretextos não faltavam para erguer de novo o vetusto hotel. Em 1936 a Pan American Airways inclui Macau como escala na sua carreira de ligação aérea entre Manila e S. Francisco. Para o voo inaugural eram esperadas centenas de convidados e também muitos jornalistas da região. O local escolhido para acolher toda essa gente foi o Boa Vista e houve que trabalhar depressa e bem (…). No entanto, os sucessivos adiamentos que sofreu o primeiro voo fizeram com que se desistisse (…).
Mas, finalmente, a dois dias do Natal de 1936, o Hotel abre ao público, desta vez, já com o moderno nome – Hotel Bela Vista. Foi uma noite memorável, com jantar dançante, que reuniu dezenas de pessoas. (…) Aproveitando também a presença em Macau dos primeiros refugiados portugueses de Xangai, habituados a um estilo de vida que depressa tentaram impor na cidade.
O Bela Vista inicia-se assim, quase dez anos depois dos seus rivais, no ciclo de chás dançantes e soirées musicais. De entre elas, ficou para a lenda do hotel uma espantosa verbena espanhola que um artista português se propôs realizar na majestosa varanda – um espectáculo que incluía danças do compositor Gracelles executadas por uma nobre russa, um concurso de penteados típicos espanhóis, canções e danças andaluzas, por Silva Sanches, o promotor da festa, e ainda uma profusão de luz e cor com a utilização de serpentinas, balões venezianos, aerostatos e foguetes.
Macau vivia distante da guerra que massacrava a China. Mas, pouco tempo depois, aumentava consideravelmente o número de refugiados, de todas as nacionalidades (…). O Bela Vista iria novamente abandonar a sua actividade transformando-se num centro de acolhimento de refugiados. Em 1937 a população da cidade duplica (...). Há como que dois relatos paralelos, duas histórias da cidade em tempos de guerra: a da vertigem boémia espalhada ao longo dos inúmeros salões nocturnos, dos quais os mais famosos seriam os dos hotéis Riviera e Central (…) e a fome, a escassez de alimentos, os milhares de mortos por inanição, doença ou banditismo, o desespero que transformou muitas pessoas em canibais, atitudes prudentemente escondidas da opinião pública (…).
Em 4 de Março de 1946 inaugura-se ali, com um contrato que iria até 1950, o centro de repouso dos soldados, marinheiros e aviadores ingleses. (…) Logo no ano seguinte (…) o Bela Vista volta à sua actividade hoteleira (…). Nesta altura, já o Hotel Bela Vista era propriedade da Caixa Económica Postal que o comprou em hasta pública, em 18 de Abril de 1941 (…). Em 1948 (…) o Bela Vista conhece então a gerência de um chinês, de nome Lei Veng Chan (…).
A Revolução Cultural, e os seus estilhaços em Macau, tem na mais completa ausência de turistas uma das suas consequências. Viajantes ocidentais que se aventuravam a vir a Macau durante os acontecimentos do «1,2,3» eram frequentemente achincalhados pela multidão que ocupava as ruas. (…)
Com a mais completa ausência de hóspedes, vale-lhes na situação a generosidade de Ho Yin, representante de duas das proprietárias, residentes em Hong-Kong – que todos os meses pagava a cada um dos empregados (…).
É nesta situação que Adrião Pinto Marques adquire, em 1967, o direito de exploração do Hotel. (…) Nas mesas de cabeceira dos quartos as bíblias tinham sido substituídas por livros de citações de Mao Tse Tung (…). Pinto Marques, uma figura conhecida na cidade, se torna num símbolo do Hotel que passa finalmente a identificar-se com valores portugueses, sobretudo através da gastronomia e do ambiente familiar que fizeram a lenda do Bela Vista. Os hóspedes do Hotel eram, na sua maioria, comandantes dos barcos da Companhia de Hidroplanadores de Hong-Kong e Macau. (…)
Até 1985, ano da sua morte, Adrião Pinto Marques ressuscitou o Hotel (…). O Bela Vista ficou ainda marcado por uma estranha e inexplicável paixão de Pinto Marques pela figura de Napoleão: através de quadros, copos, cinzeiros, capas de ementas, postais (…).
Foi eleito, em 1980, como o terceiro melhor lugar da Ásia para se beber um copo. (…) Muitos conheciam o hotel uma primeira vez e sempre que voltavam à cidade não o deixavam de visitar. Foi o caso, entre tantos escritores, actores, políticos, nomes sonantes das colunas sociais, de Austin Coates, o escritor e historiador inglês apaixonado pelo mítico quarto 202 do Bela Vista, o da varanda maior (…). Também o filósofo francês e dirigente do Maio 68, Bernard-Henri Lévy (…) escreveria: «é um lugar mágico. É um lugar mitológico. É um lugar que não se acredita não ter a seu crédito uma magnífica lenda, mesmo que não se saiba qual. A tal ponto que me surpreendi a mim próprio, desde o momento em que cheguei à recepção, a tentar recordar em que livro o vi citado … em que filme o vi entrevisto … que réplica célebre de Bogart, Bacall ou Loretta Young o imortalizou secretamente ...». (…)
Pouco tempo depois, e como a dar razão a Lévy, o Bela Vista foi escolhido para cenário da série televisiva Volta ao mundo em 80 dias, de Kulik, com Peter Ustinov, Eric Idle e Pierce Brosnan. (…)
Em 1990 o Governo de Macau (…) arrenda o hotel por um prazo, renovável, de 25 anos. A sociedade Bela Vista paga uma renda anual correspondente a quatro por cento do rendimento bruto da exploração e obriga-se a celebrar um contrato de prestação de serviços de gestão com a Mandarin Oriental Management Hong Kong, Lda., que fica encarregue de gerir o Bela Vista de acordo com os padrões de um hotel de luxo. (…) O projecto arquitectónico de remodelação de interiores e exteriores foi entregue a um atelier de Macau, Irene O e Bruno Soares Arquitectos (…).
A grande novidade reside na cor (...) um amarelo-claro, com frisos brancos, diferente do verde (…). O trabalho de um consultor de interiores português, Jorge Burnay, permitiu que os quartos continuassem com a porta de entrada dupla, típica do Bela Vista, e que o seu interior fosse decorado com mobiliário português, sobretudo dos estilos D. Maria e D. José, azulejos de Portugal, propositadamente pintados à mão (…); loiças Vista Alegre (…) tapetes de Arraiolos – misturado embora com peças chinesas (…). E de Portugal veio também uma equipa de calceteiros portugueses, para contribuir com a sua arte (…).
Convidado para desenhar os uniformes dos empregados do novo bela Vista, António Conceição Júnior socorreu-se da memória que tinha dos velhos empregados (…) negros e beges, evocam esse mundo de cabaias e calças pretas (…).
Em 1992 o Bela Vista regressou a Macau num encontro emocionante.
Bela Vista de Luís Andrade de Sá, 1994
Edifício classificado dado o seu interesse arquitectónico é, actualmente, residência do cônsul português.