Desde tempos imemoriais que nas cidades chinesas se instituiu o hábito de os negociantes levarem às residências dos particulares as mercadorias que lhes são mais necessárias e tal costume devia ter sido motivado pelo facto de ser inibida às mulheres a frequência das lojas, por ser considerada um procedimento altamente escandaloso a sua ausência do lar. Daí a praga de vendilhões ambulantes que, a fim de conseguirem angariar a indispensável malgazinha de arroz para o seu quotidiano sustento e o da sua família se vêem obrigados a valerem-se de todos os meios destinados a atrair o interesse do público para as suas mercadorias.
Criou-se, então, um sistema tradicional de reclamo com o intuito de vencer a resistência do comprador, sistema este cuja evolução se foi aperfeiçoando com o tempo e integrando-se no progresso urbanístico de cada cidade de forma a constituir um elemento imprescindível da vida social chinesa. Assim, uns exploram todas as possibilidades das suas cordas vocais para que as suas estentóreas vozes possam atingir com sucesso os mais recônditos recantos das casas; outros usam de engenhosos instrumentos sonoros, como as charmelas de palhetas reforçadas (...).
Em Macau, como em todas as cidades da China, não faltam vendilhões ambulantes, devendo mesmo existir alguns milhares e, assim, logo pela manhã, os pacatos burgueses são sacudidos para fora das suas mornas camas, pela vibrante gritaria dos garotos dos jornais que, com invejável fôlego, disparam, em rápida sucessão, os títulos das notícias, dos acontecimentos mundiais, excedendo-se cada um na forma de impressionar melhor o público e causando-lhe tal sensação que o sucesso da venda é alcançado num instante. (...)
Nisto, surgia a voz do I-T´ái e como a clientela chinesa o interessava pouco, apregoava em português, merenda! merenda! (...) o bom do I-T´ái entrava em casa e pousava no chão da entrada, os seus dois enormes cestos, envernizados a castanho. Enquanto encostava a pinga, ou seja, a vara de que se servia para os transportar aos ombros, I-T´ái ia dispondo à sua volta os diversos ternos e enunciando, em voz fanhosa e cantada, todo o seu conteúdo. Eram natas; bolinhos de chocolate; bolos-meninos; bolos estrelas; pãezinhos recheados; coqueiras; tijelinhas do conde; chilicotes de massa de coco; em folhados; ou de rábano e envoltos em folhas de bananeira; pastelinhos diversos; muchis cobertos de pó de feijão torrado; mamas-de-freiras; barquinhos de coco revestidos com cabelos de noiva; diversas variedades de bebincas; e, nas proximidades do Natal, não faltavam aluares, pinhões, fartes, coscorões, empadinhas, etc. Nos últimos ternos estavam guardados os pães de casa, uns simples, outros com recheio de carne picada, e um suculento recipiente de madeira cheio de indigestos seák-tchók, ou sejam, os afamados apa-bicos, nome por que são conhecidos localmente. (...)
Assim, é à esquina das travessas, ponto estratégico de alta importància, porque é daí que se pode acorrer às chamadas dos fregueses de várias vias adjacentes, que se encontram diversas cozinhas ambulantes, onde se servem as tchü-iôk-tchôk e as pák-kuó-tchôk, maravilhosas canjas de porco e de ginco, que se ingerem acompanhadas das indispensáveis iâu-tchâ´kuâi (fruturas). (...)
À medida que o dia vai avançando, vão-se animando as ruas da cidade com uma infinidade de pregões. São os vendilhões de frutas que gritam, uns t´im-lâu-tch´áng-a, iâu tchèng t´im-lâu-tch´ áng mái-a (laranjas doces, há laranjas autenticamente doces à venda) outros; tch´iu-tchâu-kâm, tai-kó tch´iu-tchâu mât-kâm-á (tangerinas de Tch´iu-Tchâu, grandes tangerinas de Tch´iu-Tchâu, doces como o mel); outros (...).
No Verão, logo depois do meio-dia, lá aparecem os homens dos süt-kou (sorvetes), com os seus baldes, um com um cilindro de folha-de-flandres onde se conserva o sorvete, cilindro que é isolado do contacto da madeira do balde por uma camada de bocados de gelo misturados com salitre; outro, com água e copinhos de vidro para servir avulsamente os transeuntes sequiosos e atormentados pelo calor.
Não há muitos anos que a população não chinesa aguardava pacientemente a noite, pois era só nessa ocasião que aparecia o A-Loi, sem dúvida o melhor preparador dos sorvetes de chocolate, de café e de manga, antes de ser moda em Macau o servirem-se nos restaurantes.
(...) Não faltam os vendedores dos diversos lèong-tch´á (chás refrigerantes e diuréticos), dos tái-tch´ói-kou (gelatinas), uns encarnados feitos com essências de rosas outros amarelados feitos com açucar-cândi, todos triangularmente cortados.
Porém, para o gosto dos Chineses, nada rivaliza ao seu lèong-fán, de cor negra e que se apresenta em grande bloco por ter tomado o feitio do alguidar em que foi preparado. (...)
Como a população duma cidade não necessita somente de comestíveis, circulam também pelas ruas da cidade os mái-fá-pou com vários cortes de fazendas e de garridos estampados, nos seus enormes e chatos cestos; os mái-tch´áu que levam ao ombro grandes fardos de vários rolos de seda, embrulhados em forte pano cru; as bibliotecas volantes com esfarrapadas novelas e livros de canções, para alugar, etc.
Entretanto, porque as donas de casa precisam sempre de adquirir peças isoladas de baixela que, por serem feitas de frágil porcelana, se partem constantemente, à hora certa, passará pelas suas portas o pó-lêi-pui com completo sortimento de copinhos, taças de porcelana, pires, colherinhas e tudo quanto é possível fazer-se em cerâmica.
Em Macau, porém, chamam impropriamente de pó-lêi-pui aos homens que vendem botões, linhas de coser, sabonetes, rede para o cabelo, molas para a roupa, baralhos de cartas, naftalinas e a mais disparatada mistura de objectos (...).
Temos assim, os vendedores de fogões e de panelas de barro; os homens dos iáu-tchi-sin (leques de papel oleado) e k´uâi-sin (leques feitos de folhas de palmeira, isto é, se for no Verão); os im-máu-lou (castradores de gatos); os vendedores de ovos; de galinhas, com os papos cheios de areia para ganharem mais peso; de achares e de diversas gulodices.
No entanto, os pregões mais familiares são dos que vociferam incomodamente sáu-tchêng t´áng-i (consertam-se cadeiras de verga) e (...) sâu-tchên-kuâi-só, tchên-t´óng-kau (consertam-se fechos e arranjam-se visagras de cobre); pôu-uók (remendam-se caçarolas); mó káu tchín (amolam-se tesouras e facas); hón-t´ông, hón-sèak (soldam-se objectos de cobre), etc. (...)
Os tin-tins passam, então, a toda a hora, batendo desalmadamente com um prego os discos de metal (...).
Juntam-se a estes pregoeiros, os cegos que agitam «slacslacqueando» várias varetas, num cilindro de bambu, e que por insignificante quantia, se prestam a revelar, por meio da sua rabdomântica ciência, os segredos daqueles que vivem inquietos com o futuro.
De vez em quando aparece também quem venda o môk-sât-kuân (pauzinhos para percevejos), (...) ao anoitecer, aparecem diversos vendilhões com as suas canastras carregadas de ostras, camarões, caranguejos frescos e peixes para os gatos, bem como os que vendem petróleo e azeite.
Mas o pregão mais característico é sem dúvida o do siu-áp-lou (homem que vende pato assado) (...).
As mulheres chinesas não desgostam de se entreter jogando o má-tchèok (...) e, como este passatempo costuma estender-se até altas horas da noite, lá aparece o homem de mou-ü tch´á kai-Tán (chá mou-ü com ovo cozido); háng ián-tch´á (chá de amêndoas) e os empregados das casas de pasto a apregoarem a ementa da noite para receberem as encomendas da ceia.
Os residentes mais modestos satisfazem-se com o uán-t ´ân-min, a conhecida sopa de fitas, cujo segredo de preparação Marco Polo não descurou de levar para a Europa (...), foi assim que o min veio originar os macarrões (...). Os uán-t´ân, ou sejam os camarões embrulhados com a mesma massa do min, gozaram também de grande popularidade em Veneza e, com o tempo, foram transformados nos deliciosos ravióis.
Chinesices de Luís Gonzaga Gomes, 1994
Desde há muito que os vendilhões ambulantes fazem parte da «moldura urbana» de Macau. Pese embora a pontual contestação quanto à falta de higiene dos seus produtos ou os recorrentes alertas de concorrência desleal face aos comerciantes com instalações próprias, o certo é que esta espécie de tascas ambulantes continuam a ser um negócio rentável para quem a ele se dedica. Com efeito, a clientela é vasta e assídua. Ou não fosse o preço acessível e a variedade de oferta bastante convidativa.
Noutros tempos, o negócio iniciava-se pela manhã cedo e prolongava-se pela noite fora, com especial incidência à hora do jantar, que para muitos chineses corresponde ao período entre as 18:30 e as 19:30 horas. Muitos residentes e turistas ocidentais foram-se adaptando aos usos e costumes locais e acabaram por não resistir a estes estabelecimentos de comida ambulantes, instalados em ruas estratégicas de Macau. Em troca de insignificante quantia, é possível desfrutar, a qualquer hora do dia ou da noite, de um bom petisco para enganar a fome, durante os passeios pela cidade. Marisco, sopa de fitas, arroz chau-chau, milho frito ou fruta da época.. de tudo um pouco se podia provar nas tendas ambulantes, onde os pedidos se multiplicavam à medida que a noite avançava e a madrugada começava a espreitar.
Na Macau dos dias de hoje, onde, por todo o lado há muitos restaurantes para todas as bolsas, este negócio continua a existir, ainda que com horários diferentes. Só aparecem à noite, após o fecho dos restaurantes da zona e a horas que se enquadram com a vontade das pessoas dos diferentes locais. Quase todas as cozinhas desse género possuem quatro rodas para se deslocarem com facilidade de um lugar para o outro, mas os vendilhões permanecem fiéis aos seus recantos noctívagos, normalmente situados nas proximidades de locais de trabalho ou diversão altamente frequentados por trabalhadores ou boémios.
O ritual acentua-se nas longas noites de Verão, principalmente, em becos e vielas, ou ruas, onde a densidade populacional chinesa é mais acentuada. Mas mesmo em ruas do centro da cidade, como junto da CTM, todas as noites há dezenas de pessoas que usufruem dos serviços de uma dessas tasquinhas ambulantes. Uns comem ali mesmo na esquina, outros levam para casa...
Leonel Barros, publicação de 18 de Junho de 2009 da Tribuna de Macau