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A flor de lótus, o símbolo de Macau

Pensando no que mudou durante a minha ausência, lembrei-me que Macau, apesar de continuar a ser conhecido assim e no mundo inteiro, tem uma denominação oficial diferente desde 20 de Dezembro de 1999 (data da transferência de soberania). Com rigor, a designação deste território é Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. Mas não é nada cómodo nem razoável termos que dizer todas estas palavras; é o mesmo que sermos obrigados a cumprimentar alguém conhecido com o tradicional olá seguido do seu nome inteirinho, sem esquecer nenhum dos apelidos. Por isso, se usa, muitas vezes, o nome abreviado - RAEM ou mesmo Macau, claro.

O rigor, aliás, pode deixar-nos, injustamente, com a fama de se andar a armar aos cucos e de criar situações embaraçosas. Se não, imaginem-se a escrever um postal, mandando um abraço da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (o que sempre se faz quando falha a imaginação ou se tem muita pressa) e chegam à conclusão que não podem acrescentar mais nada por falta de espaço, e, ainda, se tiverem uma letra muito grande, concluem, também, que não podem assinar. Mas não fiquem por aqui; imaginem o que pensariam os destinatários (e o carteiro, se for bisbilhoteiro, hipótese que não se deve descartar) e vão compreender porque é que toda a gente finge não saber como se chama realmente esta terra.

E a propósito das denominações de Macau, lembrei-me, também, que em documentos oficiais era, dantes, chamado Território, como Portugal era a República, designações usadas entre nós como se fosse um código. Só entre nós, porque, verdade seja dita, não diríamos a ninguém que talvez fossemos passar férias à República.


Para além da denominação, a bandeira e o emblema de Macau passaram a ser outros e foram cuidadosamente elaborados, sendo, a meu ver, muito poéticos, opinião que expresso sem temor a ser considerada lambe-botas, até porque, tal como Macau, eu tenho um nome oficial distinto do que uso aqui. Graças a Deus.

Voltando atrás, a cor escolhida para a bandeira e o emblema foi o verde e num tom bem simpático. Ao centro, ostentam uma flor de lótus branca com três pétalas e uma ponte sobre o mar, tendo, em cima, cinco estrelas. E tudo se explica: as estrelas simbolizam a reunificação da China; a ponte sobre o mar lembra o Rio das Pérolas e a paisagem e a flor de lótus, com as suas três pétalas, representa a península de Macau e as suas ilhas, Taipa e Coloane.

A flor de lótus é uma flor nativa desta parte do mundo e é um símbolo sagrado em todo o Oriente. É muito auspiciosa, diz quem sabe, por significar progresso e compreende-se; tem as raízes submersas em águas lodosas mas, apesar disso, consegue desabrochar todas as manhãs, provando que as adversidades podem ser vencidas. E revela-se ainda mais exuberante do que muitas flores nascidas em canteiros protegidos. 

Tem dado sorte a Macau, acho eu. Muita sorte.

* fotografia tirada no Jardim do Templo de Kun Iam

Macau, sim !


Saudade, esse sentimento que os portugueses acham que é só seu, insistindo na dificuldade de tradução para qualquer língua por significar sentir a falta de algo do passado e do futuro, assim ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, explicam, não senti, quando, dentro do avião, olhei pela janela e me despedi de Lisboa. 

Para mim, essa ligação do passado e do futuro é tão improvável como para qualquer estrangeiro e, porque tantas vezes foram as que sonhei com Macau e outras tantas as que julguei não conseguir aqui voltar, disse adeus com a indiferença de uma filha mal amada ou ingrata.

Afinal, não era a primeira vez que deixava o país e, verdade seja dita, fi-lo, de novo, com o entusiasmo de quem sabe que constrói castelos no ar, mas, apesar disso, não se coíbe de o fazer, como se apenas com umas pitadas de aventura a vida tivesse valor. 

E cá estou eu e para ficar. Como se esta terra fosse minha. E é. Porque o meu lugar no mundo escolho eu e sei que posso dizer: É aqui!

Ah, que bom que é este calorzinho quase todo o ano; ai, como sabe bem olhar em volta e ver tanta gente pelas ruas como se fosse sempre dia de festa. Ai, como eu gosto de ter um sorriso à minha espera como se o merecesse.

Sempre disse que o meu caminho era para sul onde parece que o sol aquece a alma. E aqui, apesar do excesso de humidade, o que nos tira as forças para dar muitos passos de seguida sem nos refrescarmos com água geladinha ou com um sopro de ar condicionado, sabe muito bem sair à noite e não sentir um arrepio sequer. 

Nas ruas há muita gente a cirandar, como eu. Até durante a noite; é uma cidade que não dorme e já não devia lembrar-me com nitidez do que é viver no local com a maior densidade populacional do mundo porque me parece haver muito mais gente em todo o lado, agora. E eu gosto disso; gosto de cidades movimentadas, animadas, a pulsar de alegria.

E como sentia falta desta delicadeza, a de me falarem com um sorriso tão surpreendente que me derrete...

Estou feliz.

* fotografias tiradas durante a viagem, sobrevoando Portugal, a Suíça e, por fim, Hong Kong.