O rigor, aliás, pode deixar-nos, injustamente, com a fama de se andar a armar aos cucos e de criar situações embaraçosas. Se não, imaginem-se a escrever um postal, mandando um abraço da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (o que sempre se faz quando falha a imaginação ou se tem muita pressa) e chegam à conclusão que não podem acrescentar mais nada por falta de espaço, e, ainda, se tiverem uma letra muito grande, concluem, também, que não podem assinar. Mas não fiquem por aqui; imaginem o que pensariam os destinatários (e o carteiro, se for bisbilhoteiro, hipótese que não se deve descartar) e vão compreender porque é que toda a gente finge não saber como se chama realmente esta terra.
E a propósito das denominações de Macau, lembrei-me, também, que em documentos oficiais era, dantes, chamado Território, como Portugal era a República, designações usadas entre nós como se fosse um código. Só entre nós, porque, verdade seja dita, não diríamos a ninguém que talvez fossemos passar férias à República.
Para além da denominação, a bandeira e o emblema de Macau passaram a ser outros e foram cuidadosamente elaborados, sendo, a meu ver, muito poéticos, opinião que expresso sem temor a ser considerada lambe-botas, até porque, tal como Macau, eu tenho um nome oficial distinto do que uso aqui. Graças a Deus.
Voltando atrás, a cor escolhida para a bandeira e o emblema foi o verde e num tom bem simpático. Ao centro, ostentam uma flor de lótus branca com três pétalas e uma ponte sobre o mar, tendo, em cima, cinco estrelas. E tudo se explica: as estrelas simbolizam a reunificação da China; a ponte sobre o mar lembra o Rio das Pérolas e a paisagem e a flor de lótus, com as suas três pétalas, representa a península de Macau e as suas ilhas, Taipa e Coloane.
A flor de lótus é uma flor nativa desta parte do mundo e é um símbolo sagrado em todo o Oriente. É muito auspiciosa, diz quem sabe, por significar progresso e compreende-se; tem as raízes submersas em águas lodosas mas, apesar disso, consegue desabrochar todas as manhãs, provando que as adversidades podem ser vencidas. E revela-se ainda mais exuberante do que muitas flores nascidas em canteiros protegidos.
Tem dado sorte a Macau, acho eu. Muita sorte.
* fotografia tirada no Jardim do Templo de Kun Iam


