O mais delicioso fruto de todas as cinco partes do mundo

Ha dias que têem apparecido ao jantar umas fructas, que dizem ser as mais mimosas d’aquella região. Chamam-lhes os inglezes mangusteen, e os portuguezes mangustões. Para exprimirem a sua delicadeza dizem «quem não provou nunca o mangustão não sabe o que ha de bom no mundo»! São como uma pequena maçã, ou uma grossa ameixa, de côr arroxada, e com uma casca muito espessa, que contém uma especie de geléa esbranquiçada, adocicada e agradavel, mas que não é comparavel a nenhuma das nossas aromaticas e saborosas fructas. Tambem o côco bem fresco não é desagradavel e o seu leite é muito apreciado, attribuindo-se-lhe grandes virtudes para a saude. Tentei beber um copo d’aquelle liquido, turvo, enjoativo e insipido, mas não o consegui. 
mangustões
No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Regalei-me a comer uma grande porção de mangustões, que é, sem contradicção, o mais delicioso fruto de todas as cinco partes do mundo, mas não se aclimata fóra d´aquella zona. (…)

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo. 1854

Outra fruta importada das regiões do Sul é o mangostão que os chineses chamam de sán-tchôk-kuó. A fruta possui uma casca espessa e bastante resistente, se não estiver bem madura, sendo de cor arroxeada. Essa casca é usada pelos tintureiros como mordente para a cor preta. Apesar de ser a fruta mais apreciada das regiões tropicais, no entanto, pouco há que se aproveite num mangustão, pois os seus gomos extremamente suculentos, aromáticos e de apreciável sabor agridoce, não são mais que camadas tegumentares que envolvem umas duríssimas sementes das quais se não despegam. 

Chinesices de Luís Gonzaga Gomes. 1994    

O bárbaro costume que estraga os pés das mulheres

grupo de chinesas com pés pequenos
11.Nov.1908, álbum de viagens. biblioteca da univ. de Leiden

Ao circular pelas ruas de Pequim senti imediatamente certa curiosidade que faz olhar para o chão todos os estrangeiros. Desejava ver os pés das chinesas. Uma das primeiras reformas da República foi abolir o bárbaro costume que estraga os pés das mulheres para fazê-los extremadamente pequenos. Agora, existe já toda uma geração de adolescentes com os pés intactos, iguais aos das outras mulheres; mas, poucos dias depois da minha chegada, ao circular por Pequim vão-se encontrando damas da burguesia e da aristocracia com as extremidades desfiguradas por tão absurdo costume, muitas delas ainda jovens, de vinte e oito e trinta anos de idade. 

Esta deformação não é de origem antiquíssima como se imagina. Data do século X e não se compreende como se pode generalizar em tão vasto império. Os invasores tártaros tiveram o bom senso de não imitar dito uso dos vencidos e as suas mulheres, nova aristocracia do país, deixaram crescer os seus pés em liberdade, sem serem consideradas por isso menos formosas que as chinesas tradicionais. O mais censurável foi que as mulheres do povo, por imitação, comprimiram igualmente os pés das suas filhas, e milhões de mulheres tiveram que ganhar a sua subsistência com trabalho, apesar de lhes faltar um sólido apoio por causa das suas extremidades deformadas. 

Todos sabem como se processa esta tortura (...). Os dedos dobram-se e atrofiam-se, deixando-os unidos às plantas dos pés, e estes não são, no fim de contas, mais que dois cotos dentro de um calçado que pela sua forma redonda se assemelha a cascos de certos animais. As mulheres que sofrem tal mutilação andam com uma dificuldade que ao observador causa certa angústia a primera vez que as vê. Avançam com igual movimiento que uma pessoa montada em andas; parece que os seus joelhos não podem dobrar-se; balançam dengosamente de uma forma grotesca, semelhante ao andar do pato. E, no entanto, os poetas chineses têm cantado no decurso de séculos este andar torpe, comparando-o com o balançear da flor, com o salgueiro-chorão, etc. 

Apesar da dificuldade que sofrem nos seus movimentos, sempre estão as chinesas dispostas a passear, e o que lamentam é que os seus maridos e pais não lhes concedam mais liberdade. Não é a deformação dos seus pés o que as faz sedentárias, mas a dureza do regime familiar. Todas usam calças de seda azul, muito largas o que dá um aspecto muito cómico e triste ver sair da dita perna das calças, esvoaçante, uma perna magra, só pele e osso, com meia branca, rematada por um casco de cetim negro, presa por ligaduras que fazem de sapato. 

Segundo alguns que pelas suas observações íntimas podem estar bem informados, esta estúpida amputação pedestre endurece a barriga das pernas das mulheres, fazendo-a de uma magreza esquelética, mas, em compensação, engrossa o músculo o resto da perna, uma particularidade plástica que parece estar muito de acordo con a estética chinesa. 

Encontrei nos museus e jardins que foram imperiais muitas destas damas balanceantes e quase sem pés. Riam com certa vaidade ao notar a nossa surpresa e a atenção com que olhávamos as suas extremidades. Exageravam os seus movimentos para que não tivéssemos dúvida alguma sobre a sua agilidade. Faziam toda a espécie de trejeitos e gracinhas, como meninas travessas.

La vuelta al mundo de un novelista (tradução livre) de Vicente Blasco Ibáñez. 1924

Duas especies de casamento na China Imperial


casamento.bmpHa na China duas especies de casamentos. O primeiro chama-se legitimo. Por esta união a mulher é elevada á hierarchia e honras de seu marido; só pode ser repudiada em varios casos, escrupulosamente previstos na lei. O outro chama-se casamento de segunda mão, e não passa de ser a concubinagem legal. N´este a mulher toma o nome de mulher de segunda classe, e está sempre subjeita ás ordens e caprichos da mulher de primeira classe. Comprehender-se-hia quanto será difficil a vida para taes mulheres, cuja felicidade desperta sempre as paixões ciosas das suas rivaes e senhoras, e que o amor do marido não pode sufficientemente proteger. 

A lei china escreve em grossos caracteres que a polygamia é permittida; e comtudo esta disposição legislativa não é verdadeira no rigoroso sentido da palavra. Ali não pode haver duas mulheres de primeira classe; em toda a casa não pode haver mais d´uma senhora suprema, associada á hierarchia e honras do marido, ao passo que pode ter tantas de segunda classe quantas puder sustentar. (…)

As ceremonias do casamento dividem-se em duas partes: esponsaes e casamento. Ninguem ignora a condição das mulheres na China. Sabe-se que passam a vida encerradas nos gyneceos, longe da vista dos homens, que devem ser banidos da presença d´ellas em quanto não casam. É preciso empregar-se pois o meio de mulheres interventoras, e porque se não pode ver a mulher com quem se vae casar, tudo se reporta ao credito da pessoa corretora. Quando um mancebo deseja casar, depois de pedir e obter o consenso dos respectivos paes, encarrega uma corretora de sollicitar o dos parentes da noiva, e quando ella não tem parentes, do prefeito da cidade. A intervenção da autoridade entra no espirito da legislação china. O imperador é ali considerado como o pae e a mãe do seu povo, e por isso a sua autoridade é suppritiva da paterna. Os prefeitos, que são os legaes representantes, exercem em seu nome essa autoridade. 

Alcançado o consentimento, os parentes da rapariga communicam-lhe as propostas, e induzem-na a reflectir seriamente na escolha que pode fazer, porque é principio assentado não constranger uma rapariga a casar. Depois de reflectir na proposta, se annue, deve enviar ao mancebo um bilhete contendo oito caracteres. O mancebo leva este papel ao adivinho, que lança esses caracteres n´um vaso e os vae retirando um a um. Se elles assim retirados dão sentido rasoavel, é preciso continuar logo o casamento, e no caso contrario abster-se d´elle. Estes oito caracteres são extrahidos do Iking, um dos livros sagrados da China; dois relativos ao mez, dois ao dia, dois á hora, e dois aos minutos do nascimento da rapariga. Por outros termos, estes oito caracteres representam na China o mesmo que a certidão de edade entre nós; mas como teem duplo sentido podem prestar-se a outra interpretação.

O adivinho não pode abusar do seu ministerio ao ponto de levar a desordem ao seio das familias; porque a sua missão é de simples traductor. Só o acaso é que faz sair estes caracteres mais n´uma ordem do que em outra. Se desse uma traducção falsa, a verificação era facil, e o tribunal instituido para este fim punil-o-hia com o rigor da lei. O mancebo, saindo de casa do adivinho, se a sorte lhe foi favoravel, envia presentes á desposada. Estes presentes chamam-se heoi-Ii, o que quer dizer presente de noivado. Quando a rapariga os acceita está irrevogavelmente casada, por que ali a acceitação dos presentes significa o sim.

Toda a mulher, diz o codigo, que recusar unir-se ao homem com quem voluntariamente se desposa, será severamente punida e casada por força. Na tarde do dia em que o mancebo enviou os presentes de noivado, é convidado e mais os parentes para um festim pelos parentes da rapariga. Ella não deve assistir. No fim do banquete, chamado dos esponsaes, e que se escolhe um dia reconhecido feliz para a celebração do casamento, porque a superstição dos chinas é tão forte, que nunca se viu exemplo de casamentos contractados durante os dias que se declaram nefastos. Ordinariamente põe-se o intervallo de alguns dias entre os desposorios e o casamento, mas é raro differil-o por muito tempo. Depois, quando chega o dia, o mancebo, montado a cavallo, e bem vestido dirige-se ao domicilio da desposada. Adiante d´elle vae uma cadeirinha coberta com flores e sedas: é a cadeira para receber a desposada, e chama-se a cadeira nupcial. 

Em seguida vem muitos musicos que fazem resoar as fanfarras, e depois segue-se o mancebo, acompanhado de numeroso cortejo de parentes e amigos. A sua chegada, é recebido pelos paes da rapariga, que esperam no limiar da porta, e conversam com elle em quanto a desposada, coberta com um veo, se mette na cadeirinha nupcial. Fecha-se então a cadeira, e entrega-se a chave ao noivo, que assim fica proprietario do que ella encerra. Acontece muitas vezes que durante o trajecto o marido abre a cadeirinha para ver se a correctora o enganou; e se julga que foi illudido despede a cadeirinha com a rapariga para casa dos parentes, e o casamento tica roto. A mulher não tem esta faculdade. 

Depois abala novamente o cortejo, e volta para o domicilio do mancebo, onde se conclue a ceremonia. Chegados a casa apoiam-se, vão comprimentar o pae e a mãe do mancebo, aos quaes promettem amor e obediencia. D´ahi passam á sala dos antepassados, onde a rapariga se prostra humildemente. Vão depois a camara nupcial onde se celebra a ceremonia da taça. Um dos parentes do mancebo oflerece-lhe uma taça cheia de vinho, este chega-a aos labios, e levantando pela primeira vez o veo á noiva, estende-lhe o copo. A rapariga bebe a seu turno, e entrega depois a taça ao noivo, que immediatamente a parte para attestar que ninguem beberá mais pela taça que os uniu. 

Depois, um magnifico banquete põe fim a estas ceremonias.

C. J. Caldeira em A Illustração luso-brazileira, Jornal Universal.Vol.2, 1858

Antonio Jose Telles de Menezes, capitão-mór de Macau

Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790
Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790

Um fim trágico: o casamento, a intriga dos jesuítas e a vingança da mulher

Corria o anno de 1757. A estrella dos jesuitas declinava, mas os reverendos padres da companhia ainda estavam longe de suppor que se preparava para tão breve o seu exterminio, como o grande marquez de Pombal o meditava nos seus profundos calculos politicos. (…). Entre as diversas partes do globo a que estendeu o seu dominio, a companhia tinha em grande conta a Africa meridional; partindo de ambas as costas, caminho do nascente e do poente, os seus missionarios, a principio apostolos e martyres, depois traficantes e enredadores, levaram a influencia da ordem aos desconhecidos sertões d´aquelle continente, e á sombra da humilde cruz da redempção ganharam, a par de alguns triumphos espirituaes, innumeras vantagens mundanas. No lado oriental fundaram elles um convento em Moçambique, a expensas de João Dias Ribeiro; casas conventuaes nas villas de Tete e de Sena, e vigariados nos sitios de Quiliniane, Caya e Luabo, districto de Rios de Cuama. Pingues terrenos constituiam o patrimonio de cada uma d´estas egrejas (…).

O praso ou ilha de Luabo, situado á beira do canal de Moçambique, entre duas boccas do rio Cuama, Sena ou Zambeze, era então possuido por D. Ignez Gracias Cardoso, que o obtivera, por carta de sesmaria, em recompensa dos serviços prestados por seu pae n´aquella colonia africana; e os padres da companhia, que tinham muita influencia sobre o espirito da orphã, tratavam de lhe aconselhar a abstinencia de pensamentos mundanos, sobretudo de casamento, com o fito em empolgarem a posse d´aquelle rico praso, na ausencia de legitimos herdeiros. Porém D. Ignez, respeitadora fiel do vigario jesuita de Sena, o padre Jose de Anchieta, seu director espiritual, apartou-se comtudo da opinião do reverendo n´este ponto de doutrina, e abraçou com todas as forças a idea, que lhe sorria, de consummar o sacramento do matrimonio, com algum esforçado fidalgo portuguez, que, unindo um nome illustre ao de Gracias Cardoso, desse novos heroes aos Rios de Sena, taes como haviam sido os seus antepassados.

Além do praso Luabo, D. Ignez possuia a terra de Inhacoche, nas visinhanças de Sena, e muitas outras n´aquelle fertil valle da Zambezina, com milhares de escravos e colonos; e por consequencia uma importante posição na capitania. A sua alliança era desejada pelas mais nobres familias de Moçambique e dos Rios; mas a orgulhosa donzella despresava todos os pretendentes da colonia, por que nenhum d´elles realisava o ideal de seus sonhos, um mancebo illustre, corajoso, gentil e de nomeada. 

D. Ignez não estava na juventude, nem era dotada de fascinadora belleza; mas, em toda a parte, a sua phiysionomia expressiva lhe attrahiria affeiçoados, e em Rios de Sena podia considerar-se uma creatura angelica, uma formosura excepcional. (...) Seu tio, D. Antonio Taveira, então arcebispo primaz do Oriente, se encarregara, a pedido de D. Ignez, de lhe descobrir um marido digno d´ella, entre os poucos fidalgos que ainda então iam militar á India; porém lançando os olhos pela roda de cavalleiros moços que em 1757 povoavam os palacios de Goa, o velho arcebispo não encontrava um só nas circunstancias indicadas.

A desgraça, todavia, arrastou n´esse anno á capital da India portugueza o infeliz Antonio Jose Telles de Menezes, fidalgo da casa de Villa Pouca, que desde I747 governava a cidade de Macau com o posto de tenente general (...), e que ora se via expulso d´aquella capitania pelo povo, em consequencia das crueldades que commettera, diz um escriptor muito parcial dos macaenses (…); bom ou mau, o ex-capitão geral da cidade do Santo Nome de Deus agradou ao prelado (...) e vendo elle que Antonio Jose Telles nenhum cabedal trazia da China, propoz-lhe a posse da mão e dos bens de sua sobrinha, fazendo-se o casamento por carta de ametade, segundo a ordenação do Reino.

Antonio Jose já não era rapaz; mas tendo vivido dez annos no clima, comparativamente bom de Macau, parecia mais joven de que os reinoes fidalgos que residiam em Goa (…). Vendo-se pobre e perseguido, o filho da casa de Villa Pouca acceitou o consorcio que lhe proporcionava a posse de uma riqueza colossal, e o casamento effectuou-se por procuração da parte de D. Ignez, na capital do já então muito abatido estado da India.

Esta resolução, porém, abalava pelos fundamentos todos os calculos da companhia de Jesus (…), ainda diligenciaram os padres, por diversos meios, não muito christãos, impedir que se effectuasse o casamento; e (…) os seus esforços dirigiram-se a desunir os cônjuges, para evitar que tivessem descendencia.

O padre Manuel Barradas (...) foi (...) enviado, a titulo de visitador, para Sena, partindo em companhia de Antonio Jose de Telles de Menezes (...). Durante o trajecto (…), o ardiloso filho de S. Ignacio de Loyola soube insinuar-se á maravilha no animo do fidalgo, e indispol-o desde logo contra D. Ignez, pintando-lhe com cores aterradoras a vida dissoluta das mulheres de Sena, em geral, e o caracter imperioso, feroz e vingativo de sua esposa, em particular; de sorte que, chegando a Moçambique, já pouca vontade tinha o general de seguir para Quilimane. 

Ao mesmo tempo o padre Jose de Anchieta não perdia occasião de fallar a D. Ignez nas maneiras brutaes e nos habitos de mando absoluto que adquiriam os fidalgos do reino nos governos de ultramar, lamentando que uma senhora costumada ao livre uso das suas acções, se fosse escravisar, entregando a sua pessoa e bens a um pobretão. (…)

Finalmente chegou o dia de se avistarem os esposos, e de receberem as bençãos nupciaes na egreja de Santa Catharina de Sena. Celebrou-se a ceremonia com todo o luzimento, apparecendo D. Ignez litteralmente coberta de diamantes e perolas, engastados em oiro e prata da Mocaranga e da Chicova, e D. Antonio trajando o rico e pittoresco uniforme dos generaes d´aquelle tempo, adornado com o botão de mandarim que recebera do celestial imperador, em paga de algumas baixezas, que é como tambem lá se alcançam as dignidades: á saida, porém, do templo, todos os convidados notaram uma extrema frieza de parte a parte entre os conjuges, mal disfarçada pelas maneiras fidalgas de um Menezes, mas patente nos ademanes grosseiros de uma selvagem dos sertões africanos. (…)

O plano dos jesuitas fora bem concebido (…). O ciume, ou a vaidade, de Antonio Telles, levaram-no a dizer palavras menos cortezes a sua esposa, logo nos primeiros dias do consorcio; e D. Ignez, de genio arrebatado (…), fugiu para a sua terra de Inhacoche, resolvida a vingar-se do marido de uma maneira horrorosa. Sabendo que sua mulher contava muitos parciaes em Sena, incluindo o velho brigadeiro David Marques Pereira, então general dos Rios, retirou-se o pobre Menezes para a ilha do Luabo, cujo praso lhe havia sido doado causa dotis, julgando estar assim mais seguro, entre os colonos da terra e os padres da egreja da Saude.

Despedindo-se de Anchieta, que ia acompanhar no exilio a sua confessada D. Ignez, Manuel Barradas (…) dizia estas palavras (…): «É preciso, a todo o custo, alcançar a posse total do Luabo para a ordem (…), e portanto, encaminhar D. Ignez á pratica de todos os excessos (…)».

D. Ignez pleiteara nos tribunaes de Moçambique a revindicação da posse do desejado praso; mas tanto no juizo ecclesiastico como no civil, obteve o marido sentenças favoraveis; e foi encarregado o sargento-mor das terras de Sena, Cypriano Jose Chorão, de dar definitiva posse do praso do Luabo ao seu legitimo donatario Antonio Jose Telles de Menezes. (…)

O padre Manuel Barradas escreveu logo ao irmão Anchieta, ordenando-lhe que (…) aconselhasse a D. Ignez Gracias todo o genero de violencia, ao que ella facilmente accederia, attento o seu caracter indomavel. (…) D. Ignez fez armar quatro mil escravos, dependentes das terras que possuia em Sena, e confiou a direcção d´esta phalange ao seu criado e secretario intimo Sebastião Antonio de Sousa. Uniu a estes os cafres de outro potentado dos Rios, seu alliado, o senhor Bernardo Caetano de Sá Botelho; e ainda alguns vadios e malfeitores do districto, alistados por Carlos da Cunha, outro parcial da megera (…). Desceu o Zambeze, seguida de uma immensa frota de embarcações miudas, que transportavam o sedicioso exercito. (…) 

D. Ignez recommendava coragem e fidelidade, e promettia largo despejo no saque da sua propria casa, aonde residia Antonio Jose. Quando desciam o rio, já nas proximidades do seu delta, avistaram um cocho que vogava com difficuldade contra a corrente: dirigiram-se a elle, e reconheceram que conduzia o sargento-mor das terras, o mal aventurado Chorão, regressando do Luabo, aonde fora cumprir o seu dever official de metter de posse do praso o legitimo emphiteuta! A ordem de atacar foi dada sem hesitação por D. Ignez, e uma nuvem de flechas caiu immediatamente sobre a embarcação do governo. O sargento-mor resistiu galhardamente, desmentindo o seu appellido de familia. Em quanto teve polvora e balas fusilou os inimigos (…). Conseguiram pois assassinal-o, e a sua cabeça foi collocada em um poste na margem do rio, como padrão de vingança e de despreso pela lei e seus executores! Era apenas o primeiro acto da tragedia! …

Continuando a descer o Cuama, chegou a esquadrilha a Luabo. Antonio Jose vivia ali socegado (...). Avistando, com assombro, a grande frota capitaneada por D. Ignez, o fidalgo mandou reunir os cafres do praso; mas não achou um só que cumprisse a ordem, antes todos correram para a praia a juntar-se á sua senhora, cujos caprichos estavam costumados a respeitar. A chusma desembarcou atroando os ares com gritos espantosos, segundo o uso cafreal; e D. Antonio que se via só, tratou de reunir alguns objectos de mais valor, pensando em salvar-se na residencia sagrada dos seus amigos da companhia de Jesus. Louco! Quando quiz fugir com aquelles valores, já a sua casa era presa das chamas!... Aterrado, abandonou tudo, para correr mais ligeiro, porém uma setta lhe alcançou o braço esquerdo, e com difficuldade pode chegar á vista da capella da Saude. (…) As portas da residencia dos jesuitas estavam fechadas, e das janellas choveu sobre o misero fidalgo outra nuvem de settas. (…) Ensanguentado, sem protecção, sem conselho, Antonio Jose correu para o rio, talvez com o pensamento de dar fim a seus males, suicidando-se; mas a Providencia, ou o acaso, lhe deparou na praia uma pequena almadia, para dentro da qual saltou, e que fez vogar, com toda a força que o perigo lhe ministrou, para longe dos seus assassinos. Aproximava-se a noite, mas o fogo da sua habitação allumiava-lhe o caminho. (…)

Entrou victoriosa nas suas terras de Inhacoche! (…) D. Ignez não desistiu de perseguir o marido (...). O desgraçado desembarcara na terra firme, quando fugiu do Luabo, e passando fomes e sedes, ora embrenhado em selvas povoadas de feras, ora vadeando riachos de perigosa corrente, nua a fronte e exposta por muitos dias aos raios do ardente sol dos tropicos, chegou emfim a Quilimane, roto, descalço, e por tal forma desfigurado que ninguem o reconhecia! Vestido e alimentado de esmolas, o fidalgo da nobre casa de Villa Pouca luctava com as febres do paiz em uma palhota de Quilimane, nutrindo, como unica consolação, a idea de que estava livre das garras de D. Ignez ... mas n´isso mesmo se enganava. A humilde barraca ardeu poucos dias depois de lhe servir de guarida, e foi ainda sua mulher que a mandou incendiar. Assim o declarou Carlos da Cunha, preso e processado por esse crime. (…)

Antonio Jose Telles de Menezes morreu, não consta como nem aonde; mas poucos mezes sobreviveu de certo a este ultimo desgosto, porque logo no principio do anno seguinte appareceu uma doação do praso do Luabo, feita por D. Ignez... e não foi aos jesuitas! (…)

Logo depois dos horriveis successos que temos relatado, chegou á Zambezia um novo general dos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, nomeado pelo governador de Moçambique, e encarregado de activar o processo de rebellião, incendio e mortes perpetradas pelos parciaes de D. Ignez, e de mandar presa para a capital da colonia a protagonista d´este tremendo drama; porém D. Manuel de Almeida tinha genio conciliador. Vendo morrer na miseria o fidalgo portuguez (talvez seu parente), volveu olhos piedosos para a viuva, e nem a physionomia de D. Ignez, nem a sua immensa riqueza lhe desagradaram; portanto escreveu ao governador de Moçambique um officio (que existe no respectivo archivo) dizendo que a pobre senhora era innocente, que fora enganada por maus conselheiros, e … emfim, não a mandou prender! 

D. Ignez morreu tranquilla no seu leito, em Março do seguinte anno, 1758, na villa de Sena, capital do districto dos Rios, deixando, em seu testamento, o praso do Luabo ao muito nobre general dos mesmos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, e o resto da sua colossal riqueza a uma filha de Bernardo Caetano de Sá Botelho (…) talvez amante feliz da heroina ...

F. M. Bordalo em A lllustração luso-brazileira, Jornal Universal. Vol. II, 1858

Em 1747 tomou posse da capitania de Macau, António José Telles de Menezes, o qual tinha um decidido empenho em sacudir o jugo chinez. Tornou varias medidas decisivas e arrojadas contra os mandarins, mas nos conflictos, que houve, nunca encontrou ao seu lado os membros do senado. Estes temiam os mandarins, e tantos enredos urdiram para Gôa, que António José Telles de Menezes foi mandado retirar sob custodia. Deu tristissimos resultados o pusillanime proceder do senado. Os chinas recrudesceram na oppressão; de 1748 a 1750 tornaram effectivas todas as prohibições feitas e augmentaram algumas exigencias.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

30 de Agosto de 1747 - Toma posse do governo e capitania geral de Macau Antonio José Telles de Menezes.

8 de Junho de 1748 - "Em a noite d'este dia, prendeu a ronda dois chinas, que levou ao Monte. O governador (Antonio José Telles de Menezes) os mandou entregar ao procurador, que era André Martins. Deram-lhos os soldados e o alferes tantas pancadas que um cahiu môrto á porta do Manuel Corrêa, e, chegando a casa do procurador, este não quiz receber, nem o vivo, nem o môrto, dizendo que tornassem a leva-l'os para o Monte que elle de manhã iria. Chegados que foram, e dando parte ao governador, mandou elle metter os chinas na mina, e jamais houve noticia de nenhum; -dizem uns que ali mesmo os enterrára a ambos, e outros que os mettêra em jarras e os mandára deitar no mar. Indo o procurador no outro dia, disse-lhe o governador que os chinas tinham desapparecido, e que dissesse ao mandarim, quando elle viesse, que taes chinas não havia, ainda que os chinas da travessa dos Cules tinham visto passar o morto. O procurador ficou n'isto."

Esta noticia vem assim referida na Collecção de varios factos que hão acontecido n´esta cidade de Macau (...).

6 de Novembro de 1748 - Mandara o governador de Macau, Antonio Jose Telles de Menezes, advertir ao juiz, Antonio Pereira Braga, que attendesse ás partes, por quanto se lhe queixavam que elle juiz nem as meras petições queria despachar. Não fez o juiz caso da advertencia, e, como se amiudassem as queixas, o governador o mandou chamar n´ este dia á sua habitação, na fortalesa do Monte, e, tirando-lhe o espadim e a bengala, o maltratatou severamente de pancadas. 

Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos. A. Marques Pereira, 1868

Macau, o ideal bem-estar

E as confidências de amor dos macaenses
Heinrich Karl Wilhelm Berghaus, 1834

A Cidade do Nome de Deus não há outra mais Leal ocupa a parte sul da pequena península que termina a ilha de Hiang-Chang. Nove morros a dominam do lado do mar, erguendo-se em quatro deles outras tantas fortalezas armadas de antiga artilharia. O bairro onde se albergam os 4.000 europeus que vivem em Macau acha-se situado na parte leste da cidade e apresenta um alegre aspecto, com suas construções pintadas de vivas e variadas cores, seus seculares conventos e igrejas e seu belo passeio a beira-mar, que recordou-me a Promenade des Anglais de Nice ou a praia de Botafogo. A “Praia” é o nome desse passeio onde, à tarde, saem a respirar a suave brisa do mar morenas europeias ou amarelas mestiças, trajando vistosas saias que procuram imitar as modas um pouco atrasadas de Paris. 

Carros antiquados, cadeirinhas e pedestres cruzam-se constantemente em uma e outra direção, parando de vez em quando para permitir alguns cumprimentos ou confidências de amor, arte a que se dedicam assiduamente os mancebos de Macau, por não encontrarem, talvez, outra ocupação. Não se pode, porém, negar que empreguem grande engenho para ostentar uma toilette sempre cuidada. Nada mais interessante do que esses moços de fisionomia chinesa e cabelo naturalmente lustroso, trajando elegantes fraques, com os pequenos e bem formados pés apertados em brilhantes botinas e o pescoço encerrado em altos e duros colarinhos rodeados de coloridas gravatas. 

É Macau a única cidade da China em que se mantém a pretensão dos trajes europeus, ainda que adulterados pelo gosto e a distância e pela especulação do comércio, que encontra aí cômodo mercado para os artigos passados de moda. Em outras partes, os residentes estrangeiros adaptam o seu traje à comodidade de movimentos ou às condições do clima; Macau, porém, conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza, depois que os meus olhos se tinham habituado, na minha longa viagem desde o istmo de Suez, a só ver como exceção a comprida sobrecasaca e o chapéu de copa. É verdade que os ingleses nunca abandonam a casaca e a gravata branca para sair à noite; mas, durante o dia chegam a suprimir a camisa e só usam daqueles chapéus de formas extravagantes que chamam a atenção dos flaneurs da nossa rua do Ouvidor, quando aporta ao Rio de Janeiro algum vapor da Austrália.

Não são, porém, somente os janotas e as elegantes de Macau que lhe dão um cunho especial entre as cidades da China. As suas ruas escabrosas, com suas escadinhas que lembram as velhas calçadas lisbonenses; as suas casas de construção irregular, ornadas de balcões de madeira verde, estilo árabe, ou de janelas engradadas; as numerosas igrejas e os conventos empoeirados, residências de padres que circulam gravemente, como quem tem consciência da sua influência, vestindo amplas batinas e deitando a benção sobre os transeuntes; o contínuo repique dos sinos e o retumbar dos tambores da guarnição, tudo dá a Macau uma fisionomia que contrasta com a das outras cidades, onde predomina o espírito prático dos ingleses e em que a atividade comercial absorve todas as outras manifestações da vida. 

Mas o comércio de Macau está em constante decadência e não parece longe de limitar-se às necessidades locais. Em vinte anos, o número anual das saídas de navios do seu porto caiu (…). Essa triste situação de Macau é uma aproveitável lição para aqueles governos que descuidam de ocorrer às medidas indispensáveis para o desenvolvimento da riqueza comercial e para a exaltação da nação que lhes confia os seus destinos. Se Portugal não houvesse, durante tantos anos, abandonado a sua afastada colônia; se lhe concedesse em tempo as facilidades comerciais de que precisava; se a não tivesse apenas considerado como fonte de uma insignificante renda e fizesse o reprodutivo sacrifício necessário para o melhoramento do seu porto, a muitos respeitos o primeiro dessa costa, não há dúvida que seria hoje Macau o principal empório desse remunerador comércio, em benefício e para a glorificação da nação portuguesa. 

Mas, a estas reflexões do economista podem-se opor, e talvez com vantagem, as do moralista. A imensa riqueza comercial que, a custo de ingente trabalho e de uma vertiginosa ambição, atesouram anualmente Hong Kong e outros centros europeus na China, poderá por acaso compensar o ideal bem-estar em que vivem os modestos habitantes de Macau, à sombra dos seus pitorescos morros, no gozo de um clima privilegiado e embalados pelas gloriosas recordações do passado?

Esta pergunta faz meditar o filósofo sobre o verdadeiro sentido da palavra felicidade. Onde encontrá-la: no judeu, ávido de ouro, a quem o afã de amontoá-lo faz desprezar aqueles mesmos gozos que lhe poderia proporcionar o cobiçado metal ou no sentimental trovador, cuja própria miséria exalta as inefáveis expansões d’alma? É este um problema que não é dado à humanidade resolver, e menos de admitir que a felicidade reside aí onde cada um julga encontrá-la; mas, nos próprios europeus que habitam aquelas longínquas regiões, temos um exemplo de que não há quem esteja contente da sua sorte. Com efeito, os moradores de Macau vivem sonhando com a sua mudança para Hong Kong e, em compensação, muitos residentes desta última cidade só almejam enriquecer para retirar-se a Macau. Alguns já aí se estabeleceram definitivamente, outros possuem na colônia portuguesa bonitas chácaras, onde vêm passar o verão, muito mais suave do que em Hong Kong. Não são, entretanto, somente os europeus os que dão merecido apreço às qualidades de Macau; muitos chins acomodados aí fixam sua residência, seja para procurar o amparo do pavilhão português contra as tendências acaparadoras das autoridades imperiais, ou para entregar-se à sua paixão favorita, o jogo.

A CHINA E OS CHINS, Recordações de viagem. Henrique Carlos Ribeiro Lisboa, Rio de Janeiro, 2016 (1ª edição em 1888)

Templo de Lou Pan Si Fu

Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu 
Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu 
Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu

Situa-se na Rua da Cal e foi construído em 1859. Está classificado como monumento por ser considerado um edifício de significado histórico.

O templo é dedicado a Lou Pan, mestre carpinteiro da corte imperial que se tornou patrono dos carpinteiros, pedreiros e pintores da construção civil e, por isso, também conhecido por Mestre dos Três Ofícios. É ainda patrono dos operários e artesãos dos estaleiros de construção naval. Atribuem-lhe a invenção de plainas, réguas, esquadros, fios de prumo e do sistema de encaixe nas peças de madeira, sem recurso a pregos.

É no dia 13 do 6º mês lunar que se celebra o dia de Lou Pan. O templo é decorado, aos fiéis é dada uma lanterna de papel, toca-se o sino e tambores e, no altar são colocadas as oferendas: porco inteiro assado, bolos de fruta e flores frescas. Aí, os fiéis curvam-se por três vezes diante da estátua da divindade. E este ritual termina com um banquete. 

A tradição era os festejos incluírem também ópera chinesa ou teatro de fantoches. Os trabalhadores dos ofícios protegidos pela divindade tinham folga neste dia para poderem participar nas celebrações que incluíam a distribuição do chamado «prato de arroz de Lou Pan» ou «prato de arroz do Mestre», entre os vizinhos e, principalmente, pelas crianças, pois acreditava-se que lhes traria um futuro promissor e seriam saudáveis.

Hoje em dia este templo encontra-se quase sempre de portas fechadas.

Chang-Li-Po em Lisboa

desenho de Abí-lio Mattos e Silva, sec XX, Museu Dr. Joaquim MansoNada ha que mais me embarace do que servir de cicerone a um estrangeiro de passagem em Lisboa. Nós, portuguezes, somos d´uma grande susceptibilidade patriotica. São nos cansamos, é verdade, de dizer mal das nossas coisas e da nossa gente; mas fazemol-o uns com os outros, cá em casa, em familia. Perante um estrangeiro, por mais que nos attribulem intimamente as deficiencias reconhecidas da nossa terra, mostramo-nos impavidamente optimistas, e não cessamos de espiar o momento em que da sua bocca se escape o indicio d´uma opinião irreverente para acudirmos logo: «Não é tanto assim...» e passamos a revolver na nossa memoria, atirando-lh´os á cara, todos os escandalos, os crimes, os ridiculos e os erros que a imprensa se tenha lembrado de referir a proposito da sua patria.

Na realidade, porém, Lisboa é uma cidade incaracteristica.

Paris tem o seu caracter. Desde o bulicio cosmopolita dos ‘boulevards’ até ao esmero architectonico das suas construcções, ao gosto e elegancia dos seus theatros, dos seus restaurantes e cafés, dos seus estabelecimentos, Paris é a capital do espirito e da arte. Londres na mancha sombria dos seus edificios sobrios e negros, na floresta ennevoada das suas chaminés, é o commercio, a industria, o ‘struggle for life.’ Berlim asseada, nova, rica, monumental, é a ordem, a disciplina, a harmonia. Lisboa no amontoado irregular das suas construcções, com as ruas mouriscas dos seus bairros antigos, no aspecto incolor da sua multidão a que só os carros eléctricos, as saias «entravées» e os luctadores do Coliseu dão, de passagem, uma nota estranha, Lisboa como capital, desde o piso primitivo e tosco das suas calçadas até á frontaria escorrida dos seus predios, póde perfeitamente comparar-se a qualquer villa estremenha - sem desdouro para a villa.

Por isso eu tremo sempre que as circumstancias me forçam a pôr um estrangeiro em contacto com ella. Mas ha tempos recebo uma carta de um amigo meu de Londres recommendando aos meus cuidados Chang-Li-Po, mandarim conta de crystal que partia para Lisboa em missão d’estudo.

Confesso que d’esta vez a tarefa me seduziu. Um chinez! … De mais a mais um mandarim, verdadeiro, authentico..., de rabicho e olhos de amendoa... ! Que aspectos novos de Lisboa e do nosso paiz não iri eu colher atravez do espirito perspicaz do chinez?

Chang-Li-Po não é um chinez vulgar. Ornado da penna de pavão, prova do seu merito, indigitado membro do Neiko, alto conselho politico do Celeste Imperio, Chang-Li-Po é um espirito culto, homem viajado, conhecedor da civilisação occidental que ha annos estuda na Europa e na America, desde que a China resolveu finalmente rejuvenescer a sua velha civilisação.

Esteve o homem ahi umas semanas, e já eu não pensava n´elIe quando um d´estes dias o correio me traz uma carta sua e juntamente um jornal com algumas passagens sublinhadas a lapis azul. Dizia-me Chang-Li-Po que fôra entrevistado por um jornalista estrangeiro, e como naturalmente eu tinha curiosidade de conhecer algumas das suas impressões do nosso paiz, m´andava no jornal que na mesma occasião deitava no correio.

Ardendo em curiosidade rasguei a cinta do jornal, desdobreio-o sobre uma mesa, e eis o que eu li:
- Gostou então muito de Portugal?
- Oh! sem duvida... Portugal é um paiz bello, encantador...
- Que foi que o impressionou mais?
- O que mais me impressionou foi aquelle preceito religioso - supponho que é um preceito religioso - que impede os sexos de se misturarem, pelo menos nos logares publicos.
- Como assim?!
Sim, as mulheres não podem andar por onde quizerem, mas os homens não; os homens são obrigados a andar sempre atraz das mulheres. E isto deve ser uma imposição da religião d´elles porque vi que cumpriam este dever religiosamente.
É curioso! Mas isso deve causar embaraços na vida social…
- Não sei, não tive tempo de o averiguar, mas uma vez observei até um caso muito interessante. Por uma das ruas da cidade subia apressadamente um cavalheiro, typo de homem de negocios, correctamente vestido de sobrecasaca e chapeu alto, levando debaixo do braço uma pasta cheia de papeis. Via-se bem pelas suas feições que o homem ia com pressa e preoccupado... Quem sabe? Talvez um negocio importante a concluir, uma decisão seria a tomar... Na sua frente vinha uma dama elegante, formosa, como vi depois. Mas imagine que fatalidade! Esta parou na vitrine d´uma loja de modas a vêr uns chapeus! Pois foi o suficiente para o cavalheiro apressado parar tambem, observál-a com curiosidade e começar a gritar: «Ai que linda... que linda… mas que linda mulher!» Parece que estas são as palavras que o ritual indica para estes casos. E depois, coitado, lá continuou - fiel ao dever - atraz d´ella, em passo de cortejo, parando quando ella parava, andando quando ella andava, com os olhos insistentemente fixos n´ella - suppondo que a pedir licença para ir tratar dos seus negocios, o que não vi que acontecesse.
- Mas talvez isso se faça por amor …
- Ah! Não … por amor não … O amor é prohibido em Portugal.
- É estranho!...
Que, na verdade, ninguem m´o disse, mas conclue-se. Comprehende que se isso não fosse prohibido os portuguezes não tinham necessidade de o occultar. Ora o portuguez que ama occulta-se. É um crime punido com as mais severas penas; em geral é o desterro para o Brazil ou para a Africa.
Não se casa então?
Isso é outra coisa... Casamentos ha. Quando elle ou ella são ricos fazem-se então uns contractos em que duas pessoas de sexo diferente se ligam para constituir uma firma commercial. Mas a despeito d´isto tudo, ha uns incorriveis que persistem em amar. Esses incorrigiveis fundaram uma corporação chamada dos «guarda-nocturnos», para servirem de seus cumplices. São estes agentes que lhes facilitam as myteriosas emprezas nocturnas, - porque, como todos os criminosos, tambem estes preferem as trevas da noite para as suas proezas. Quando podem correspondem-se com as suas amadas por cartas que os guardas-nocturnos fazem chegar ao seu destino, outras vezes é por annnncios em cifra nos jornaes. 
Ha então muitos jornaes? 
Ha; ha muitissimos.
Lê-se bastante...
- Não, ninguem sabe lêr...
- Mas então esses jornaes …
- Esses jornaes teem muitos assignantes. Ser assignante d´um jornal é conquistar o direito d´elle dizer quando se chega, quando se parte, quando se faz annos, e acima de tudo ser tratado nas suas columnas por «o nosso amigo». Como sabe, isto é o mais elevado titulo a que póde aspirar um portuguez.
Mas há-de haver outros titulos ...
Sim, ha. Ha, por exemplo, o de Marquez de Pombal, que pertence só aos grandes estadistas; é a consagração final de todos os politicos, e dá direito a expulsar os jesuitas, a ter o projecto d´uma estatua, e o nome n´uma praça publica.
Ha agricultura?
Ha; o sol, a terra, o clima que se encarregam d´isso, espontaneamente.
E industrias? Qual é a mais florescente?
A industria mais florescente é a do papel. Toda a gente faz o seu papel. Ouve-se frequentemente dizer: «A... faz um lindo papel! B… faz um rico papel…», mas o melhor é ainda o das fabricas. Em geral cada um faz o seu papel.
Mas em que se gasta tanto papel?
Em «cartas d´empenho».
O que é isso de cartas de empenho?
É um documento que é preciso apresentar sempre que qualquer individuo tem de entrar em relações com a administração publica. Chama-se «carta» em homenagem á constituição do Estado, a «Carta»; de «empenho» porque traduz sempre o empenho que tem o seu portador em servir desinteressadamente o Estado.

N´esta altura não resisti mais... Peguei no jornal, atirei-o pela janella fóra e resolvi definitivamente nunca mais servir de cicerone a chinezes.

João A. Pestana de Vasconcellos em Do Rocio ao Chiado: visões e fantasias. 1912

desenho de Abílio Mattos e Silva, sec XX. Museu Dr. Joaquim Manso

Em Macau, o cão era o melhor amigo do militar

Painel de azulejos, autor desconhecido/oficinas de Lisboa. séc. XVIII, período joanino
Museu da Cerâmica


SENTENÇA. - Vendo-se n´esta cidade de Macau no quartel da policia o processo verbal do réo Candido Antonio da Silva sargento quartel-mestre do corpo da policia, auto de corpo de delicto, testemunhas sobre elle perguntadas e interrogatorios feitos ao mesmo réo e 

Considerando que pelo depoimento de todas as testemunhas da accusação e uma de defesa se acha plenamente provado que o réo não forçou a sentinella no dia vinte e um do mez de julho ultimo pelas seis horas da tarde, a que deixasse entrar o cão que o acompanhava, logo que a mesma sentinella lhe communicou haver ordem em contrario; 

Considerando que se não acha provado que o réo tivesse conhecimento da prohibição da entrada do cães no quartel, mas antes ao contrario se vêem no processo depoimentos contestes em affirmar que tendo ellas testemunhas, cães, tambem no mesmo dia só tarde lhes constou aquella nova prohibição, e que por tanto não é de estranhar nem criminoso haver o réo dito á sentinella que deixasse o seu cão que a ninguém fazia mal:

Considerando que se acha plenamente provado pela confissão da propria sentinella e pelos depoimentos contestes de todas as mais testemunhas da accusação que o réo não disse á sentinella a mais leve palavra injuriosa nem tão pouco tendente a que deixasse do cumprir o seu dever consentindo na entrada do seu cão;

Considerando que se não acha provado na accusação que o réo dissesse á sentinella ou ao seu superior o sr. tenente Guimarães que bateria em quem batesse no seu cão e daria um tiro em quem lho matasse, como á accusação cumpria, isto pelo principio de - opus est probandi qui dicit non qui negat - mas ao contrario todas as testemunhas da accusação e algumas de defesa são contestes em affirmar que quando o réo pronunciou aquellas palavras se não achava presente o sr. tenente mas só sim chegou no momento de acabar de as proferir e consequentemente a elle não podiam ser dirigidas nem tão pouco á sentinella, sendo esta mesma a declarar no seu depoimento tel-as ouvido mas em voz natural e dirigidas pelo réo em conversação ao sargento Carvalho;

Considerando que se não acha tambem provado que o réo nesta occasião offendesse por alguma outra palavra ou gesto o mesmo sr. tenente mas ao contrario todas as testemunhas da accusação e defesa asseguram não ter presenciado ou ouvido cousa alguma que se quer desse mostra ou ideia de alguma falta do respeito devido por todo o inferior ao seu superior, e só dizem que os dois conversaram em voz natural;

Considerando que quando seja certo haver o réo dito ao mesmo sr. tenente que pretendia pedir providencias ao sr. capitão fiscal tendentes a consentir a entrada do seu cão, isso não era por fórma alguma contrario ao respeito pelo seu superior pois a todos assiste o direito de petição;

Considerando que a entrada do cão acompanhando o réo quando entrou no interior do quartel não foi falta de cumprimento a ordem alguma por quanto se vê do depoimento das quatro testemunhas da accusação e das de defesa que o réo o não chamou discordando d´isso apenas a 2ª testemunha que se não pode ter em consideração attentas as suas contradições que pretendeu salvar com o pretexto do equivoco tanto no depoimento dado no conselho de investigação como no dado no conselho de guerra;

Considerando que a accusação não provou como lhe cumpria que a entrada do cão não chamado por seu dono quando este se dirigiu ao interior do quartel em procura do sr. capitão fiscal fosse d´elle réo conhecido e por isso consentido;

Considerando que todas as testemunhas da accusação e defesa são contestes em que nem o sr. tenente nem a sentinella nem outra alguma pessoa se oppoz áquelle seguimento dizendo alguma palavra ou notando-o e que por isso ao réo elle podia ser extranho na supposição em que um militar deve estar de que todos os outros cumprem o seu dever e por isso fosse seguindo na persuasão de que o cão havia ficado retido por aquelle a quem cumpria fazel-o;

Considerando que se o réo anteriomente teve máo comportamento militar nos ultimos sete annos o tem tido exemplar sem commetter falta alguma como se vê da fé do officio a fls … do processo, e que n´um comportamento exemplar por tantos annos só se pode ver uma regeneração completa e por isso induz a crer em boas intenções do mesmo accusado quando pretendia pedir providencias com relação a entrada do seu cão e nunca espirito de desobediencia ou tendencia a falta de respeito pelos seus superiores decidiu por uniformidade de votos que os crimes de que o réo é accusado se não acham provados e que por tanto o réo deve ser posto em liberdade. Macau, sala das sessões dos conselhos de guerra no quartel da policia, aos 8 de agosto de 1873. 

Francisco Antonio Marques Caldeira Junior, auditor interino. Francisco Xavier Collaço, major reformado, presidente.- Francisco Augusto Ferreira da Silva, capitão interrogante. – Vicente Silveira Maciel, 1º tenente da armada, vogal. - Albano Alces Branco, 2º tenente, vogal. - José dos Santos Vaquinhas, tenente, vogal. - Carlos Candido dos Reis, guarda marinha, vogal. - Fui presente, Julio Ferreira Barbas, guarda marinha, promotor.

Boletim da Provincia de Macau e Timor, 20 de Setembro de 1873.

O amigo china pega do chá preto e engomma-o...

...

...
Vista Alegre.1893-1899 
(Porcelana, ouro e vidrado-litografia e pintura com aguada)
Palácio Nacional de Sintra

TODOS nós portuguezes, povo por excellencia para beber chá, sabemos como por cá se tem passado sempre este caso. Está a mesa aberta, o competente candieiro, e oito ou nove pessoas reunidas a passar a noite, conversando e bocejando em quanto não chega o bule. Tudo parentes, e pessoas de amizade. (…) 
Entra o chá.
Que saudades do apparato antigo, - as estreitas fatias com manteiga, a que chamavam hostias, finas, finas, a embrulhar-se umas nas outras: e os bolos d´especie no prato grande do Japão; e uma creada armada sempre da thesoura para velas, espevita aqui, espevita alli, recebendo na bandeija as chicaras vasias, fazendo tudo n´uma volta de mão, e esbogalhando os olhos a ver quem requeria mais chá pelo facto de não metter a colher na chavena.
Hoje torradas de um lado, bolachas inglezas do outro, dois bules ao centro, e está dito tudo.
- Preto ou verde? pergunta a dona da casa com sorriso complacente. 
Uma das visitas encarrega-se da parte historica: 
- O chá verde é artificial; agradavel, mas falso. Um sophisma! O amigo china pega do chá preto, que é o chá natural, o verdadeiro chá, besunta-o de azul da Prussia, de saes de cobre, depois engomma-o...
- Como, engomma-o? 
- Não o engomma a ferro...
- Ah !
- Mas mette-o em agua de gomma, e põe-o depois no forno a seccar!
- Fica uma pessoa com a entranha engommada a lustro!...
- Puro polimento!...
- O que não impede que os chinas bebam chá tres vezes ao dia, pelo menos: a gente rica, muitas mais. Conta n´uma carta o nosso cunhado o governador, que não só o chá é alli circumstancia indispensavel nas ceremonias religiosas, mas que não ha ir de visita a qualquer casa sem que logo se offereça d´elle uma chavena ou duas.
- No Japão, reduzem o chá a pó; deitam nas chicaras agua a ferver, e uma pitada do pó em cada uma!
- A arvore que produz o chá é tão bonita! exclama a poetisa. E um arbusto sempre virente, que tem parecenças com a murta!
As senhoras parecem enfadar-se com este rasgo de erudição, e olham para a musa de revez. Tudo que eleva alguem acima do vulgo, nascimento, riqueza, formosura, talento, ou poder, tem de pagar patente ás invejinhas e a malquerença publica. Por isso um semsaborão que alli se encontra, redargue logo para lisongear o despeito dos prosaicos:
- A arvore boi, que produz bifes, não é talvez peor, apezar de não se parecer com a murta.
- Mas não tem influencias para a politica! Acode um deputado, trincando uma bolacha. Em quanto que o chá... Estavam bem aviadas as reuniões nocturnas da maioria no ministerio do reino se elle faltasse! O chá ministerial!... 
Seguem-se os protestos em favor do chá que se acha presente; que é muito bom, que é o melhor de todos, que não se encontra egual em Lisboa: as vezes dão logar a um desafio essas discussões, desafio amavel já se vê:
- No sabbado, se fizerem favor de ir a nossa casa, hão de experimentar o chá que lá temos, offerta do mandarim Tzig-sau ao nosso cunhado governador...
E estabelece-se concurso, e manda-se buscar o chá a outra casa, e nomeia-se juiz, e estabelecem-se jurados, e ha advogados e accusador. 
É por entre a agitação d´estes cataclismos, que, de uma vez ou d´outra, a creada estonteada na balburdia das vozes e dos argumentos, vira a bandeja, quebra as chavenas, e rega o tapete com os restos d´aquelle chá... judiciario.

A chavena quebrada, Júlio Cesar Machado em Artes e letras. 1873.

Conselhos para o desembargador de Macau em 1645

Beco do Espinho
Beco do Espinho

ARCHEOLOGIA POLITICA. (...) Os corruptos e corruptores não são exclusivo apanagio da nossa epoca; que o diga a Arte de Roubar, attribuida ao Padre Antonio Vieira, engraçado monumento das manhas e traças, que se empregavam no seu tempo, para espoliar o proximo, e delapidar o estado. É uma obra a fazer a genealogia da corrupção. creio bem que lhe não ha outra comparavel, nem pela antiguidade das tradições, nem ainda pelo lustre individual dos ascendentes. Estes conselhos do desembargador da relação de Goa encontram-se nos archivos de Macao. O homem, ao que parece, pertencia ao genero dos delapidadores patuscos. (…) Lopes de Mendonça

Regimento que guardará, e seguirá o Desembargador João Alves de Carvalho, que agora vai para Macáo neste anno de 1645.

Tanto, que Deus levar a V.m. á China, que achará dividida em dous bandos, e com muitos odios: a todos geralmente achará V.m. razão, ouvindo-os bem de suas queixas (que é este bom pé de entrada, para elles darem melhor sahida de primorosos presentes) sem se mostrar com affeição a nenhuma das partes, por que com isso satisfará a ambas, e dirão, que nunca viram ministro mais benigno.

Tera V.m. um page experto á porta, que vá tomando a rol todas as pessoas que o visitarem, a quem irá logo pagar as visitas (que são homens de muito melindre) deixando a vara na mão de um page, sem trepar as escadas com ella (que todos são fidalgos), e nas praticas, que tiver, dirá V.m., que não vai á China botar os homens a perder (grande ponto este para V.m. ganhar) se não consola-los em boa paz, e trabalhar, que todos se conservem nella, para Sua Magestade ser bem servida, e a Republica; ajuntando, que tem visto muitos casos semelhantes, a que se deu passagem pela conservar, e que assim se fará com elles mostrando-se V.m. inclinar-se a isso mesmo, e verá como elles logo se inclinam a alargarem as mãos. 

Contar-lhes-ha em prova, que á vista do Vice-Rei da India fizeram fallada os Frades Dominicos com os Carmelitas este anno, de que fizeram um com muitas entavadas, que esteve dellas a morte, entrando nos Passos os religiosos com bacamartes e passando com elles á vista dos ministros do Santo Officio, do arcebispo Primaz, e da Rellação de Gôa, sem se lhes atalhar estes absurdos com tanto escandalo de todas as nações para evitar maiores males. Finalmente concluirá V.m. esta arenga, ou armadilha, com dizer, que sem embargo das executivas ordens, que tem apertadas para castigar, emprazar, e proceder contra alguns moradores, que estão muito accusados; nada hade fazer sem primeiro informar ao sr. Vice-Rei dos procedimentos de cada um delles (elles entenderão logo, que se entende isto com V.m. no verbo dar) por que as cousas tratadas ao perto são mais differentes dos ceos, que chegam ao longe, e que V.m. mesmo tinha cá ouvido cousas delles, que lá acha serem outras, especialmente dos mais criminosos, e verá V.m. como elles logo vem pingando; ou pagando para o sufragio.

Depois de satisfeitas, e pagar as visitas com toda a submissão, e cortezias (de que se enlevam esses homens muito, e dão muito mais por taes humiliações) chamará V.m. a si os dous escrivães da Ouvidoria, e outros, mandar-lhes-ha que lhe tragam os portácolos dos criminosos, sem lhe deixar de fóra nenhumas culpas de nenhum, sob pena de perdimento de seus officios, e os fechará V.m. todos no seu escritorio, o dahi a alguns dias formará um auto das noticias, e levantamentos, que tiver achado, e com palavras muito arrogantes, e exagerativas dos casos (que o terror tambem é muito acertado) vá pelo tal auto perguntando testemunhas de tempos, em tempos, sem nunca fechar esta devassa em quanto tiver a cargo a administração da justiça; para que os comprehendidos nunca fechem as bolças, fazendo-lhes V.m. saber por via dos amigos delles (mas muito em segredo) o estado da causa de cada um. 

Na primeira audiencia, que V.m. fizer mandará que todos os réos, se venham livrar pessoalmente sem excepção de pessoa por grave que seja, sem ser admittido nenhum por procurador, que com isso cobrará fama de igual para com todos, e de que se lhe não dá dos grandes, e depois pelo desalivio entrará com elles sciencia nata. Nesta audiencia não prenderá V.m. nenhum pelos não espantar, ou enchotar, mas depois que os autos estiverem concluzos para os sentenciar, mandará á cadeia aquelles que se andarem livrando, e que forem de maior respeito, para que elles a fim de V.m. lhes guardar os seus privilegios os mande para suas casas (que todos são cidadãos nobres, onde não ha mecanicos) e tenha V.m. nisso proveito, que ahi bate o recado, e não seja V.m. tão tolo, que o perca.

Na segunda audiencia lhe não sahirá ainda com a sentença; mas antes lhe porá cotas, que antes de outro despacho se faça tal, e tal diligencia por assim o mandar a lei pela razão do caso ser grave (que estes encaminhamentos encarecem as pagas), e lhes mandará, que de novo se lhes corra folha, e o escrivão da devassa, que V.m. tirar, lhe sahirá com as culpas. Nesta conformidade se procederá com os mais processos, segundo os deliquentes procederem com V.m. mais ou menos liberaes, que até Deos, que lhe damos para nos perdoar nossas culpas, e peccados mais facilmente.

Tirará V.m. devassa dos juizes dos orphãos, e ordinarios (que lá fazem mais que Reis) e todas as que V.m. processar lhe ficarão no seu escritorio, por que como os escrivães são casados na terra, fica-lhes facil descobrirem os segredos, e em quanto V.m. tiver as partes em duvida telas-ha com esse annel pela barba.

Quando algum dos parentes dos delinquentes for visitar a V.m. dir-lhe-ha a parte muito em amizade: Bem sinto eu sr. F… ter cá culpas do sr. F…, e de outro com elle; são ellas de tal qualidade que me ha-de ser forçado appellar para a Relação, se bem não desejava não o fazer, e na verdade me tenho cansado em estudar por onde poderá ter o desalivio; mas a lei falla muito claro neste particular (Sempre há-de levar o escudo da lei por diante, porque estas prenhezas fazem parir muito) e aqui estão certas as pintanças. 

Lembre-se V.m. que nas materias crimes de ordinario ha muito lugar em favorecer os réos principalmente não tendo partes, com tanto, que elles o saibam agradecer bem. Quando V.m. fizer algumas prisões, se algum for cidadão rico lhe dará logo homenagem, tanto, que lhe apresentar os privilegios, isto é, se elle primeiro tiver livrado do estilo do Valentim Bello; e nesta terceiros seus, mas se assim não fizer, lhes dirá V.m.: Srs. o crime por que está preso o sr. F… não lhe valem os privilégios, por que ha texto redondo em contrario, e na verdade, que com grande pena minha lhes não admito, porque até o regimento secreto, que trago me defende tambem. Mandem V.m. vêr se no cartorio da cidade se acha alguma previsão particular, de que nos possamos servir. Logo lhe trarão muitas, e se tiver vindo antes dellas o provimento; a primeira, que V.m. ler, dirá: Basta, e sobeja.

Leve V.m. bem decorado o casamento, que aqui fez Marçal de Macedo com a sua afilhada, porque é ponto este, de que Lopo Sarmento de Carvalho se ha de aproveitar muito das lettras de V.m. para o seu casamento, de que dahi o denunciaram; elle agradece bem o que se lhe faz, mas com menos obras, e mais palavras destas não faça V.m. caso, porque será perdido o seu tempo, e os homens na China são nellas mui largos, e vendo, que V.m. as recebe bem encher-lhes-hão as orelhas dellas, e não as mãos de obras.

Mostre-se V.m. muito desinteressado no publico, mas no particular vá a tudo porque a grão a grão enche a galinha o papo. Va porém com suavidade, e bom modo barbeando, nem se lhe dê do que disserem, ou dirão; senão, do que lhe derem, ou darão, que com isso se ha de achar no cabo da judicatura, e os ditos dos maldizentes logo passam, e esquecem. Menos se lhe metta na cabeça, que serão cá mal tomadas as queixas, que de V.m. vierem por tomar, que tambem cá se toma com as mãos ambas. 

Em todas as monções mandará V.m. boyoens de varios doces, e peças de laia-laia aos ministros, conforme os logares, que tiverem, para julgarem, que não teve nunca a China melhor julgador do que V.m., e creia em que assim o julgarão, se V.m. lá julgar para si, e para elles.

Lourenço de Liz Velho é nessa terra Juiz dos innocentes, capitão de artilheria, e outros carguilhos, de que me não lembro; sempre dos depositos poderá fazer algum emprestimo bom com que V.m. trafique: recommendo-lhe, que não seja muito escrupuloso, mas não se canse em querer que elle ande direito, porque tem impedimento legitimo, e por esta cabeça, e pelas mais, que elle saberá pôr nas mãos de V.m., serão as suas coisas melhor vistas de V.m. mesmo, que dele proprio, porque elle não verá as de V.m., mais do que a metade da banda direita.

Dos depositos dos defuntos é V.m. juiz, e tem a faca, e o queijo nas mãos, e tambem as vezes os vivos dão lugar, a que se escrevam lettras apagadas, e embaraçadas, a cujas respostas se não possa responder em muitos annos, para que no entanto vá e venha a nós o seu reino com ganhos, recambios.

Terá V.m. um masso de papeis fechados, que faça grande volume, e opera na casa, em que recebe as visitas sobre um bofete entre outras cartas, que tiver das partes, e dirá o sobscripto: Ao doutor João Alves de Carvalho, desembargador que vai com alçada ás partes do sul. No meio do masso dirá: A estas ordens se dará prompta execução, sem nenhuma outra interpellação por ser do serviço de Sua Magestade; e em baixo: Do Vice-Rei D. Filippe de Mascarenhas. 

Depois que for visto de muitos, e tiver feito murmurinho na cidade, o recolha V.m. á vista dos escrivães, e dando com elle uma grande pancada no bofete, dirá: aqui tem, bem em que lidar. Trabalhará V.m. muito por correr a cidade de noite as mais vezes que poder, e achando escravo, page, ou moço de algum casado grave, lho mandará V.m. a sua casa ás horas que o prender com recado, que o encontrou em ruim paragem, e que lhe faça mercê de o não deixar mais andar áquellas horas, sabendo das inquietações, que póde causar. Esta civilidade não pode falhar no jantar seguinte. Dará V.m. partida de jogo, o que é da maior importancia, que pode ser, sem que tem seus descontos; mas busque V.m. todos os meios para trazer muito de reis, que vale não seguir a regra do Lobo, que come do contado, e nem sempre o barato é caro, e de ordinario o caro é barato, a quem deste ajunta muito.

De nenhuma maneira furtará V.m., mas trabalhará por todos os modos esconder de seus donos tudo que puder, ainda que seja as dez horas do dia por portas travessas, mãos esquerdas, e pessoas desconhecidas, que para isso estudou V.m. muitos annos nas Covas de Salamanca, ou em outras taes, e certo medico dizia, que se havia de receber: Dice amoricum, qui oderat nos. Conservará V.m. sempre boa amisade com o capitão geral dessa praça, com o administrador da fazenda Real, com o governador do bispado, e com os officiaes da cidade, que lá ouvirá dizer aos chinas: Sua ajuda minha, minha ajudo sua.

Em primeiro logar, tratará com os padres da companhia, e destes hade V.m. fazer muito caso no exterior, que são muito poderosos; mas não se lhe hade dar a saber tudo, que são grandes bicheiros, e contar-lhe-hão os boccados. Dos frades tinha V.m. por si os pregadores, o que será facil com os ir ouvir para que não preguem pelo livro Possis alcoorum, quero dizer as pensões de V.m. e as suas delles. Com os clerigos se não cance muito, que escrevem pouco para cá, e lá nada tem dos partidos. Dos casados agregue a si um rancho de cada um para os ter por fiadores a qualquer hora do dia, e dos soldados do presidio meia duzia dos alentados para uma emboscada de noite.

Quando V.m escrever a este estado dirá como achou a terra quebrada, os moradores pobres que como lhe faltou o Japão e Manilla tudo são miserias, e que o tirem do cargo, porque senão pode sustentar, e já V.m. neste tempo hade ir a meia cova. Lembro a V.m., que os ministros e escrupulosos se acham como Antonio Barreto da Silva, e Pedro Pimenta, que gastou o governador Antonio Telles cincoenta Sam-Thomás para os enterrar, e suas familias, ficaram picando no dente. V.m. tem mulher, e uma filha, que poderá ter filhos: quando V.m, dela vier, faça por trazer para os netos, que não poderá ser peior ministro que os sobreditos tolos, que não tiveram em vida para si, e muito menos para deixarem depois de mortos.

Finalmente V.m. se não cance, que não hade emendar o mundo nisto de justiça, e fazenda por mais que faça. Trate do seu negocio, que a isso vai, e não venha da China sem pão para comer; porque ella dá pães de ouro. Cumpra as ordens dos srs. vice-reis á risca, as da relação inviolavelmente, e as da fazenda com rigor, e no mais faça o que quizer, que eu lanço a minha benção, e se esta lhe não bastar, a graça de Deus é grande, a qual assista a V.m. para saber bem rezar com devoção aquillo do Padre Nosso - Da nobis Domine. Dada em Goa aos 10 de Março de 1645. Ruy Dias da Cunha 

A Semana, jornal litterario, 1850-1852.