As medidas chinesas e o ábaco

A medição é baseada no principio decimal, mas os caracteres que servem de algarismos não mudam de valor, com a posição relativa de uns para com outros. Os calculos arithmeticos são feitos n’um apparelho chamado «Swampan» e que os inglezes denominam «Abacus counting-board», formado por um rectangulo de madeira, dividido longitudinalmente em duas partes desiguaes por uma pequena regua fixa; perpendicularmente a esta regua e atravessando-a, ha muitos arames parallelos, tendo cada um sete bolas, cinco de um lado e duas do outro.
ábaco
As cinco bolas de um arame qualquer representam as unidades, e cada uma das duas do mesmo arame e do outro lado da regua vale cinco unidades. Se tornarmos as bolas de um arame qualquer para casa das unidades, as bolas do arame immediato da direita representarão as dezenas, as do seguinte as centenas, etc. As dos arames da esquerda das unidades passam a representar decimas, centesimas, etc. (...)

Diremos apenas que elles manejam tão facilmente aquellas bollas, que dando-se dois numeros de muitos algarismos para multiplicar ou dividir, por exemplo, ainda nós não temos a operação em meio com um lapis e, um papel, já elles a acabaram e esperam que nós terminemos para verificar a exactidão do resultado. 

Em geral os chinezes aprendem apenas da arithmetica o indispensavel para a vida pratica; mas não podemos dizer que desconhecem a mathematica elementar, porque a obra chamada «Tsuimi-shan Fang Sho Hioh» é um verdadeiro tratado, comprehendendo arithmetica, geometria e trigonometria, e a que não faltam as tabuas de senos e tangentes e as dos logarithmos das mesmas linhas trigonometricas. 

Para unidade das medidas de comprimento adoptam o «chih», que tem 13 1/8 pollegadas, se bem que os ha tambem de 14,6 e 14,8 pollegadas. O «chang» vale 10 «chih»; cada um d’estes é dividido em 10 «tsun»; e cada um d’estes em 10 «fan». O «li» para medidas itinerarias equivale a 1:825 pés pouco mais ou menos; a milha ingleza póde dizer-se igual a 2,89 «li». Para as medidas de peso tem o Pico, que vale 100 cates; o cate 16 taels; o tael 10 mazas (12 taeis valem 1 libra ingleza). Para pesar o oiro e prata cada maza vale 10 condorins, e cada condorim 10 caixas. 

Tanto para os pesos grandes como para os pequenos usam de balanças similhantes ás nossas chamadas «Romanas».

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898

Os portugueses europeus em Macau no séc XIX

Europeus portuguezes 

Este grupo é constituido principalmente pelos funccionarios publicos, civis e militares, podendo aggregar-se-lhes alguns, mas pouquissimos, negociantes. Estes elementos formam, por assim dizer, uma sociedade á parte; vivem uns com outros e conservam em geral, quasi todos os hábitos pátrios, com pequenas differenças, absolutamente impostas pelas condições do clima, etc, etc. 

A cozinha é pouco mais ou menos a que temos por cá; o vestuario pouco varia, a não ser no verão, em que se usam fatos brancos. Os homens passam as noites no club, ou no gremio militar, sociedades onde ha bilhares e partidas de jogo de vasa, cavaco, jornaes, e terraços para se tomar o fresco no estio. Hoje ha reunião em casa d´este, amanhã d'aquelle; de quando em quando, organisam-se diversões e merendas no campo, caçadas, etc, etc.; aos domingos toca a musica da guarda policial no passeio publico, etc, etc. 

Bastantes dos funccionarios públicos são convidados para casa dos macaistas e vão a festas, casamentos ou banquetes, dados pelos chins ricos. Os creados que nos servem são todos chinas, tornando-se difficil ao europeu obter creados, mas arranjando-se em compensação, bons cozinheiros e espertos ataes (rapazitos), que remedeiam perfeitamente. A necessidade de lidar com serviçaes chinezes obriga a dizer algumas palavras em china, quando elles não fallam portuguez. Eis as principaes cousas que é preciso aprender: 

português e chinês
português e chinês

Conclusão - Uma vez que acabámos de esboçar a traços largos os característicos dos habitantes de Macau, parece lógico que fechemos o trabalho por uma rápida vista de olhos sobre o conjuncto da cidade, que serve de theatro e albergue a todas estas manifestações de vida e tem permittido a perpetuação dos costumes e tradições a que nos referimos. 

A cidade do Santo Nome de Deus é de um accidentado, que torna pittoresca a sua topographia; cingida entre a rada e o porto interior, e ligada á terra firme por um del- gado isthmo, logra desfructar das eminências panoramas variados, ora aprazíveis, ora grandiosos. (…)

Se os acontecimentos, a fabrica de casas, a construcção de ruas e os limites antigos estremam Macau em cidade christã e bazar, não é menos certo que a labuta da vida, o transito, os pregões, as lojas, etc, etc, imprimem tambem cunho diversissimo ás duas partes heterogeneas da população. Concedamos mesmo que haja um campo neutro, representado pela confluencia das primeiras arterias do bazar com as vias publicas limitrophes da area christã, ainda assim, não poderemos deixar de ver extremados os dois burgos. Aqui teremos todos os topicos de uma antiga povoação portugueza, com as suas casas alvas, passeio publico, calçadas e calçadinhas, igrejas typicas e repiques de sinos; acolá um pequeno Cantão, onde avulta o commercio, se põem em evidencia panchões, papeis encarnados, bambus, letreiros exoticos e balões de illuminação. 

Na cidade christã, a placidez dos habitos portuguezes, porventura ostentosos por fora, todavia pautados pela suave apparencia do viver de familia; no ambito do bazar, o movimento, o ruido, a azafama e o tumultuar de ambições, escondendo muita miseria e ignominia. E eis, em resumo, as duas feições de Macau.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897  

Apresentou-se-me hoje um filho do antigo general de engenheiros, Azevedo e Cunha, que vive em Macau ha longos annos. É sympathico este moço e parece intelligente, mas está prematuramente gasto e envelhecido, e a sua longa permanencia na China tem-lhe feito adquirir habitos puramente chinezes, fallando já correctamente o chinez, e trajando como um verdadeiro filho do Celeste Imperio. (…)

Depois de haver visitado diversos estabelecimentos chins, achando-me já fatigado e sob a impressão de um calor tropical, que me trazia offegante e em um completo banho de suor, voltei ao hotel para, á hora conveniente, me dirigir ao palacio do governo. O jantar, a que assistiram duas damas e oito a dez convidados, correu deleitosamente, tendo tido mais uma vez occasião de apreciar a distincção e a delicadeza com que o governador fazia as honras da casa. (…) De entre os cavalheiros que me foram apresentados deverei especialisar o consul de Hespanha, D. Enrico Gaspar, litterato distincto e espirito vivo, gracioso e fino; o tenente Talone, official da armada, tão intelligente como modesto; o tenente Bento da França, filho do mallogrado e sympathico official do corpo do estado maior, Salvador da França. Estes foram convivas ao jantar, e fazem parte da sociedade mais intima e dilecta do governador. (…)

Nas horas vagas dos meus trabalhos procurava os cavalheiros que me haviam cumprimentado, e acceitava os jantares com que me obsequiavam. Eram jantares familiares muito agradaveis, mas que me contrariavam por me fazerem alterar o meu proposito de viver isolado. Jantares bem servidos, com a cozinha genuinamente portugueza, e de uma abundancia de assustar um frade. Todavia, esses jantares poupavam-me as horas amarguradas do meu hotel, onde me via completamente só e isolado. (…)

No club chinez, onde entrámos, fomos recebidos com todas as demonstrações de consideração e amabilidade pela fina sociedade chineza de Macau, que o frequenta. Ali se joga, toma chá, fuma-se opio e trata-se de negocios. Alguns d´estes homens têem maneiras distinctas e physionomias sympathicas e intelligentes. (...)

No largo do Senado. O largo em que está este edificio é pequeno e triangular, ficando-Ihe proximo e nas trazeiras da rua dos Mercadores o mercado da cidade. (…) a agua e a lama corre por toda a parte; e, comtudo, a concorrencia é enorme, o bulício de ensurdecer, e a abundancia e a variedade de objectos à venda extraordinaria, muito especialmente peixes, vivos, mortos, seccos ou salgados, das mais variadas e exquisitas fórmas, cores e feitios. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

O comité interparlamentar de Hain-You-Kia

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 

Recebemos a visita do sr. Hain-You-Kia, jornalista chinez, que anda pela Europa no patriotico empenho de interessar pela sua joven republica os intellectuaes do velho mundo. Pensa o sr. Hain-You-Kia em organisar aqui um comité interparIamentar, analogo ao que organisou e está funccionando em Paris, e a nós parece-nos que a sua tarefa será extremamente facil. Agradecendo a amabilidade da visita, apresentamos ao íllustre hospede os nossos cumprimentos. (Da Lucta). 

O sr. Hain-You-Kia trazia na relação dos intellectuaes do velho mundo, o nome do sr. Brito Camacho, e assim que chegou a Lisboa dirigiu-se á redacção da Lucta em procura do chefe do partido unionista. O illustre chinez subiu ao primeiro andar e quando estava hesitando por qual das portas do sumptuoso palacio deveria entrar em busca do director d’aquelle sympathico diario, vendo um homenzinho encostado ao corrimão, descuidadamente catando o peito pela abertura da camisa, dirigiu-se-lhe pedindo obsequioso:
- Diz-me onde está o sr. Kiamatchum?

O eminente catador parou um momento na sua tarefa e, olhando mal humorado o seu interlocutor, retorquiu:
- E o que é que o cidadão lhe quer?
- Trago aqui o nome d’elle apontado como sendo um intellectual e desejava ouvil-o. Disseram-me lá fora que o sr. Kiamatchum é pessôa de grandes bases scientificas...
- Scientificas, scientiticas, não direi... Mas... Olhe, faça favor d´entrar.

O sr. Hain-You-Kia, acompanhado pelo seu guia, entrou n’um gabinete pequeno, onde grandes montes de livros e jornaes se encontravam adornando o chão.
- Obsequeie-me então chamando o sr. Kiamatchum, sim?
- O ... elle... Sou eu... Eu é que sou o Camacho...
- Oh!... Mas... Estava longe de suppôr..!
- Nada d’incommodos, senhor... Como é a sua graça?
- A minha quê?
- O seu nome … a alcunhasinha por que o cidadão é conhecido?
- Ah! Eu sou o Hain-You-Kia, jornalista chinez.
- Muito gosto, muito gosto em conhecer o colega. Pois faz favor de se sentar e pôr-se á sua vontade. Nada de cerimonias… arróte, cuspa … emfim o que lhe apetecer …
- Oh! Mas quem pensa o senhor que eu sou?
- Ora essa! Então os senhores na China não arrotam? Nem cospem? Nem … Pois olhe eu acho uma maçada estar constrangido. Com sua licença, sim? — e o eminente director da Lucta desabotoou o ultimo botão do colete e soluçou forte.

O jornalista chinez voltou disfarçadamente o rosto para o lado e logo que recuperou a serenidade necessaria declarou:
- Pois sr. Kiamatchum, eu vinha para…
- Para se inscrever na União, não é verdade? Com muito prazer. Já não é o primeiro chinez que cá tenho. Pois vem em excellente occasião porque nós estamos á bica do poder...
- Perdão, o fim da minha visita é outro... Desejava…
- Uma assignaturasinha da Lucta? Tambem serve. Um anno? Seis mezes? Provavelmente quer collecionar o folhetim do D. Quichote? Aqui para nós que ninguem nos ouve, a ideia do folhetim foi por piada ao Affonso...
- V. ex.ª está equivocado. A minha missão é differente... Queria conhecer...
- O João de Menezes, aposto? Olhe meu amigo, eu vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Aquelle pequeno foi durante muito tempo a minha esperança. Tinha-me habituado a elle quando era novo e, francamente, por mais desanimado que me encontrasse, o João tinha sempre forma de me dár energia. Mas ultimamente, desde que começou com o hysterismo…
- Repito que v. ex.ª está equivocado. Eu venho por causa do comité interparlamentar…
- Ah agora, entendo! Mas é justamente essa a minha especialidade. Olhe, para lh’o provar basta ver como eu manobro com o Affonso nas camaras. Provavelmente o amigo quer arranjar assim um combalachosinho lá na China e vem para eu lhe explicar...
- Ainda não é isso. Ora escute-me o sr. Kianiatchum um instante apenas. O meu desejo é de organisar hum comité como está funccionando em Paris...
- Paris! Paris! Ah! Meu caro collega, que recordações essa palavra veiu invocar no meu espírito?! Paris! Foi lá que eu soube o que era a vida, a verdadeira vida vista por todos os lados! Emfim, toda a medalha tem reverso, e a minha tem o reverso já bastante cheio de desilusões!... Perdõe, collega, perdõe este desabafo e continue... - e o sr. Camacho, vivamente comovido, limpou o nariz á manga do casaco.
- Em duas palavras exponho o resto. Esse comité tem por fim o estreitamento de relações entre a China e a Europa, e para conseguirmos esse desideratum muito util nos será que os intellectuaes do velho mundo, como v.ex.ª...
- Perdão, sr. Hain-You-Kia. Vejo que se enganou. Eu não sou do Mundo, sou da Lucta e nada quero com aquelles cavalheiros. Comprehende que depois do que se tem passado entre mim e o Borges …
- O Borges?! Não conheço…! Não sei…
- Pois não me fallou nos intellectuaes do Mundo? Intellectuaes?! Mas certamente é porque o meu amigo os não conhece! Olhe que são burríssimos…
- Ha certamente um novo equivoco. Eu refiro-me aos intellectuaes europeus...
- Ah! Ora... eu pensava... Pois ainda bem, porque então não tinhamos nada feito. É então um comité para estreitar relações com a China?
- Isso mesmo.
- Mas é extremamente facil...
- Tem então este paiz muitos intellectuaes?
- Este paiz é modo de dizer. A republica, o partido republicano, esse sim. Creio mesmo que não ha outro egual em toda a Europa. 
- Queira então ter a bondade de me indicar alguns, sim?
- Ora essa. Olhe, aponte lá já d’entrada esta meia duzia: Rodrigo Rodrigues, Nunes da Matta, Gastão Rodrigues, Celorico Gil, Thomaz da Fonseca, Souza Junior...

Minutos depois o Sr. Hain-You-Kia retirou-se da redacção da Lucta e no dia seguinte dirigiu-se ao ministerio do Interior a continuar a sua tarefa, conforme o apontamento fornecido pelo Sr. Brito Camacho.

Mas o Sr. Rodrigo Rodrigues pediu ao illustre chinez que esperasse um pouco emquanto elle attendia â correspondencia verbal e... o Sr. Kia fugiu espavorido n’essa mesma tarde, no Sud-Express, anotando na sua carteira:
- Ouvi dois e chegou-me para ficar perfeitamente inteirado.

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913

A literatura e a religião na China

Beco do Sal Beco do Sal
altar no Beco do Sal

A literatura chinesa da época dos primeiros embates dos progressos do Ocidente com o radicado conservantismo chinês, nos transmitiu preciosos testemunhos da mentalidade dos celestes sob este curiosíssimo aspecto. São duma escritora chinesa, de nome Kuei-li, flôr mimosa duma sociedade em que o requinte da graça feminina consistia em apresentar os pés desmedidamente reduzidos e mutilados, os seguintes períodos que mostram como o pavor daquelas ofensas ao Dragão, feitas pelos detestáveis Fan-Kuai, ou diabo estrangeiros, lançavam o pavor entre os pacíficos camponeses do Império do Meio.

Tem havido grandes rumores pelo vale e pela montanha. Parece que se lançou uma ponte de ferro sôbre a ribeira e que vieram os homens estrangeiros que examinam os campos com uns oculos. Isto afastou os bons Espiritos dos vales, o que deu lugar a que morresse o gado, a que o arroz não amadurecesse e a que muitas outras contrariedades se espalhassem por tóda a parte. Transbordaram as ribeiras porque se Profanou o dorso do Dragão, escavando numa terra que era sagrada. 

Não nos admiramos que tais incidentes possam ser aproveitados com intuitos políticos, num país onde imperam crenças tão primitivas. Não haverá ainda quem se lembre de, há algumas dezenas de anos atrás, se ter habilmente explorado, entre nós, com intuitos políticos, pretensos raptos de crianças, efectuados por certos padres, em pleno dia, na Praça da Figueira, para com elas fabricarem oleo humano? E ainda há quem se ria das crendices e da intolerancia dos chineses! 

O que fariamos nós, se, pelas nossas vilas e aldeias, aparecessem bonzos a pregar ao povo as doutrinas de Buda, Lao-Tsé ou de Confucio? As superstições milenárias, as lendas, os mitos, o amor e temor dos mortos que povoam a China; a falta de religião dos chineses que praticam tres religiões -que estupenda contradição!-; o cenário dos Pagodes com seus idolos doirados mergulhando na penumbra e no fumo do sandalo queimado; a aspiração vaga duma conquista da Felicidade com que o sentimento religioso seduz, como a todos os outros povos, o espirito dos chineses, sem que, porem, a troquem pelos prazeres mais positivos e terrenos; a incógnita, a sedução e a tristeza da China duma vastidão absorvente; o que é imponderável mas, ali, sôbre nós pesa e como que nos esmaga; o que parece se receia mas se deseja, que nos chama e nos canta a China,- tudo isso permanece envolto, em tintas que se misturam se diluem e quasi esmorecem, para reviver de novo, ora cruas e fortes, carregadas, ora suaves, ridentes e logo sinistras, esbatidas, tudo isso se mostra ainda, palpitante e cheio de vida, na recordação longínqua, mas presente, daquele quadro exótico e impressionante, ás portas Bazar - o dos bonzos amarelos!

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. 

O sauver la face dos chineses

Macau, William Heine. 1854
Macau, William Heine. 1854

(…) A necessidade que os chins teem de guardar as apparencias quando tenham de sujeitar-se ás maiores vergonhas. A expressão chineza é designada pelos francezes por «sauver la face». Comtanto que possam sauver la face admittem tudo, que se lhes faça. Basta que contemos aos leitores a seguinte anecdota, que é verídica, para que percebam a singularidade de certos procedimentos chinezes.

Em setembro de 1860 os alliados cercavam Pekim, depois de terem alcançado a victoria de Pa li-kao; o palacio de verão fora queimado e saqueado pelos civilisados inglezes e francezes; o imperador fugira para a Mandchuria; emfim, os europeus acampavam a cem metros das muralhas de Pekim. Para evitarem um bombardeamento inutil, enviaram parlamentarios afim de intimarem a rendição ás auctoridades chinezas. Os guardas das portas não acceitaram a intimação e recusaram tenazmente attender os parlamentarios, declarando que, se procedessem d'outro modo, seriam castigados com a pena de morte. Discutiu-se horas e horas a questão da abertura das portas ao exercito alliado, sem que os europeus conseguissem convencer os chins da inutilidade e inconveniencia da opposição tenaz que faziam ao que tinha de ser inevitavel. Fartos de discussões, decidiram os alliados bombardear a cidade e abrir a brecha nas muralhas.

Sabido isto pelos mandarins, vieram estes, a correr, dizer aos parlamentarios: 
- Os senhores querem que nós lhes abramos as portas! Não podemos fazer tal coisa, sem risco da nossa vida; mas os senhores viram se as portas estão ou não fechadas?

Os alliados approximaram-se e notaram com espanto que as portas estavam abertas. Os guardas tinham-n'as assim deixado para ficarem bem com a sua consciencia, com os seus superiores e com os alliados, porque, como já estavam abertas, não tiveram que abril-as, e no abrir é que estava o peccado! E, salvas assim as honradas faces dos honestos guardas, os alliados impunemente entraram em Pekim!

Ta-ssi-yang-kuo, Archivos e annaes do extremo oriente-portuguez, Série II. Vol III

A medicina chinesa por Castro Sampaio

Macau Macau

N’uma obra recentemente publicada em Macáo pelo Sr. ManoeI de Castro Sampaio - Os Chins de Macau - encontramos a seguinte curiosa noticia da medicina chinesa. Eil-a:

Os livros de medicina existem entre os chins desde uma época muito remota. O primeiro individuo que tratou deste assumpto, foi o soberano Fuhy. A sua obra, que não passa de um imperfeito tratado de botanica, escreveu-a 2852 annos antes de Christo. O successor deste principe, que foi Inty, o soberano Xennung, cognominado pelos chins o divino agricultor, não o succedou sómente no governo da China, mas tambem na propensão para a medicina. Assim, tomando por base o tratado do seu predecessor, deu-se a diversos estudos, e compoz uma arte de curar. Desde então tem apparecido na China um sem numero de obras medicas, escriptas por differentes auctores; mas os tratados considerados como principaes são apenas cincoenta e sete, sendo de maior credito e nomeada o do medico Hoat’o, nascido no tempo da dynastia Han, que começou 202 annos antes da era vulgar. Por estes tratados estudam os que se dedicam á profissão de curar, mas o estudo que fazem é particular, recebendo explicações dos que já se acham em exercicios clinicos, e praticando mesmo com elles, porque nenhuma escola há, onde possam ter um curso regular. 

Sómente os que são destinados para medicos do paço do imperador é que cursam os estudos com alguma regularidade, porque são admitidos no collegio imperial, onde, na qualidade de estudantes e praticantes, vão, sob a direcção de medicos que alli ha, adquirindo a teoria de envolta com a pratica, até que, sendo julgados com habilitações bastantes, passam por um exame. E uma vez aprovados, o parecer dos examinadores é submetido á sancção do imperador, o qual ordinariamente os manda nomear medicos ajudantes no aludido collegio, para mais tarde passarem a medicos do paço imperial.

Os facultativos chinezes são chamados em Macau mestres chinas. Há muitos residentes nesta cidade (…) e alem destes, ainda diversos outros por aqui apparecem de visita de tempos em tempos. Em todos elles ha um manifesto charlatanismo. Porém as doenças triviaes curam-nas bem e com facilidade. Para tratar de entorses, deslocações e fracturas, são verdadeiramente habeis. Ha casos de fracturas em braços e pernas, em que qualquer facultativo europeu votaria immediatamente pela amputação; e comtudo elles lhes sabem dar cura com admiravel resultado. 

Os mestres chinas capitulam as doenças, como os medicos europeos, isto é, pela historia pregressa dellas e pelo quadro symptomatico, observando o pulso, a lingua, etc. É curiosa a maneira porque tomam o pulso. Com a mão direita tomam o pulso esquerdo, e com a esquerda, tomam o direito, fasendo a sua observação com tres dedos, o índex, o do meio e o annelar. Com o index, que dos tres é o que deve ficar sempre mais proximo da mão do doente, na direcção do dedo pollegar e junto á articulação radio-carpica - o facultativo observa em geral o estado do thorax ou peito, e em especial o dos pulmões e do coração. Com o dedo medio observa em geral o estado do abdomen ou ventre, e em especial o do estomago, do figado e do fel. Com o dedo annelar finalmente observa em geral o estado do pelvis ou bacia, e em especial o dos intestinos, dos rins e da bexiga. Pelo que respeita ao baço e diversas outras entranhas, parece estarem ellas ainda fóra do alcance da medicina chineza.

Todos os tratados principaes fallam destas regras de tomar o pulso. O primeiro auctor que as apresentou foi Hoangty no seu livro, intitulado Questões Simples. E o primeiro, que as poz em pratica foi Ghiniuejen auctor do tratado, denominado Questões Difficeis. Os auctores são unanimes em dizer que no pulso existem tres pontos distinctos, pelos quaes se póde com os tres precitados dedos fazer as observações que acabamos de referir. (…)

Nas suas prescripções medicas, os principios medicamentosos são sempre acompanhados dos dieteticos. Os seus medicamentos são quasi todos vegetaes. Destes conhecem eIles um numero infinito; mas pouquissimos são os remedios animaes e mineraes que conhecem, e esses raras vezes os applicam. Tambem não têem conhecimento de operações, apenas fazem uma especie de acupuncturas, rompendo a derme com umas agulhas especiaes. Mesmo para tirar dentes nos consta que nem sempre empregam ferros. Dizem que, por meio de uns pés mui subtis que applicam ao dente que devem tirar, conseguem fazel-o cahir, e informam-nos de que estes pés são compostos de ossos humanos e urina de camello.

As sangrias e sanguesugas são applicações que elles não fazem, até ignoram. Applicam sudorificos, purgantes, vomitorios, adstrigentes, tonicos e emollientes; e bem assim differentes topicos, como ventosas, vesicatorios, emplastros, cataplasmas e fricções seccas ou com algum liquido espirituoso, etc. Finalmente applicam tambem banhos, e aconselham passeios ou agasalho e resguardo das intemperies atmosphericas, usando de boas palavras, que consolem e animem os enfermos. Os mestres chinas, porém, não se applicam geralmente ao tratamento de todas as doenças: há uns que se dedicam particularmente á cura de umas, e outros á de outras. Assim ha facultativos para doenças internas, ha outros para as externas, outros para o tratamento de creanças, outros para o de adultos, outros para o dos velhos e até alguns se applicam sómente a tratar das doenças do sexo feminino.

Archivo de Pharmacia e Sciencias Accessorias da India Portugueza, 1869

A fleuma dos chinas

Beco do Coral
Altar no Beco do Coral

Hum europeo, tendo na sua primeira viagem a Cantão comprado varias fazendas a hum china, conheceo, quando este lhas mandou para bordo, que havia falsificação na qualidade e no peso das fazendas, e apezar de estar o negocio de todo concluido, foi outra vez a terra procurar o seu homem, lisongeando-se de que por meio de representações moderadas ou de seu enfado, obteria alguma diminuição no preço convencionado. Chegando pois a casa delle disse-lhe. 
- «China, vendeste-me pessimas fazendas»
- «Póde ser», respondeo o china; «mas não ha remedio senão paga-las»
- «Tu illudiste as leis da justiça, e abusaste da minha confiança»
- «Pode ser, mas não ha remedio senão pagar»
- «No entanto és hum velhaco, hum miseravel»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».
- «Que opinião queres tu que eu dê, quando chegar á minha terra, da inteireza tão nomeada dos chinas? Só poderei dizer que elles são todos huma canalha»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».

O europeo exasperado por estas inalteraveis respostas, enfureceo-se, e depois de o ter injuriado por todos os modos, sem lhe poder tirar outra palavra mais do que «Póde ser; mas não ha remedio senão pagar», julgou acertado abrir a bolça e dar o dinheiro. Então o china, tendo o recebido, disse:
- «Europeo, em logar de te esfalfares a injuriar-me, como acabas de fazer, valia mais haveres-te calado, e principiares por onde acabaste. Porque, com tudo quanto disseste não ganhaste coisa alguma!»

Archivo Popular, leituras de instrucção e recreio, semanário pintoresco. v.1 (1837).

Lin Fong, um dos principaes templos

templo de Lin Fong 1
Saí logo de madrugada para as Portas do Cerco. De entre os templos da religião chineza em Macau é o d’este logar um dos principaes. Levanta-se em um grande adro, cercado por uma vedação de cantaria, onde se ostentam umas velhas arvores. O edificio, que tem accesso por uma escada de cantaria bem lançada, guardada de cada lado por um dragão de pedra, apresenta o typo caracteristico da architectura chineza, e tem entrada por tres portas, formando-lhe a fachada tres corpos, dos quaes o do centro é mais elevado. Animaes phantasticos e monstros impossiveis, estão alastrados pelas paredes, em estuques ou pinturas, e grande numero de tábuas vermelhas têem escriptas, em caracteres chinezes, maximas e sentenças da religião de Budha, ou pensamentos e theses da sabedoria chim. Nos altares, ornados com esculpturas de madeira e douradas, queimam-se em grandes vasos de cobre, alguns de fórmas elegantes, papeis encarnados ou pequenas vélas, a que chamam lamp-choes, e uns pivetes de côr. Os bonzos, que são os sacerdotes da religião chim, e que andam rapados e sem rabicho, perpassam por ali com a mesma irreverencia, com que os nossos sacristães andam nas igrejas portuguezas como em sua casa. Os devotos batem cabeça, ou jogam com um pausinho, que atiram repetidas vezes ao chão, e que, da maneira por que fica, tiram auspicios e agouros para o assumpto que os preoccupa. A grande batega, ou tam-tam, pende de um lado do tecto, emquanto do outro está suspensa urna sineta.
templo de Lin Fong 17templo de Lin Fong 16 

Sobre os altares ostentam-se os mais extraordinarios e risiveis idolos, ou mettidos em nichos, affectando umas formas iracundas, flamejantes e de sobr´olho carregado, ou bonacheirões e felizes, com um riso alvar. Tem tudo aquillo um aspecto muito singular, mas que nem aos chins, nem aos estrangeiros infunde respeito ou veneração. 

Comecei os meus trabalhos sob um calor intenso, e cercado de uma infinidade de creanças, quasi todas nuas, e a quem de vez em quando dava algumas moedas de 10 avos. As creanças corriam loucas de contentamento com o seu thesouro, e as velhas, tostadas e miseraveis, com quem tinha iguaes generosidades, não se cansavam de fazer-me mesuras, e de soltarem exclamações monosyllabicas, gutturaes e desagradaveis. É que, depois do jogo, a maior paixão do chim é a do dinheiro.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896.

Macau n´um livro escripto em lingua sueca

Macau A Gruta de Camões
Camões em Macau
Como sei que o meu illustre amigo muito se interessa por tudo que diz respeito ao Oriente, e é verdadeiro enthusiasta por tudo quanto se refere á nossa bella colónia de Macau, venho falar-lhe de um livro que V. talvez desconheça, e que o acaso me deparou. Estando eu na livraria Pereira da Silva, da rua dos Retrozeiros, onde tenho o prazer de me encontrar com V. amiudadas vezes, alli me veiu ás mãos um livro escripto em lingua sueca, sem frontispicio e tendo na lombada o distico: Museum Utgifvet af Mellinoch Thomson e que por curiosidade adquiri. Contem este livro uma muito interessante collecção de monographias universaes, tendo algumas d'ellas por assumpto descripções de Lisboa e Macau, acompanhadas, além d outras, de três estampas que representam a cidade de Macau, a gruta de Camões e o retrato do nosso grande épico em corpo inteiro, de pé e junto á gruta. (…) Como possuo quasi todos estes exemplares, foi com grande satisfação que juntei á minha collecção o livro Museum, cuja traducção da referencia á obra do nosso Poeta, lhe envio para V. fazer o uso que entender. Com um aperto de mão, e com a maior consideração e estima, e mil agradecimentos por todos os obséquios por V. dispensados, creia-me De V., etc,
Luis do Rego B. da Fonseca Magalhães da Costa e Silva.

Traducção. 

Camões em MacauA estampa 195 representa a vista de Macau com o convento da Guia e fortaleza, assim como com o palacio episcopal n'uma das alturas. A cidade estende-se em semi-circulo, em volta duma bahia regular.

Encontram-se nella muitas egrejas e conventos. Não se pode vêr sem commoção, na egreja de S. Paulo, a sepultura que ainda ahi se conserva da joven russa, a qual n'ella descança, depois de ter seguido o audaz aventureiro conde Beniowski na sua fuga das prisões de Petropawlowski. Morreu ella de dôr, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificara patria e familia era casado (estas tristes aventuras são bem conhecidas até em toda a Suecia, para que tenhamos necessidade de n'ellas insistir).

Mas em Macau encontra-se ainda outra coisa digna de vêr-se, que desperta grandes recordações. No alto d'um rochedo existe um terraço coberto, do qual se gosa uma esplendida vista sobre Macau inteiro e a sua enseada coalhada de innumeraveis barcos. N'esse rochedo está escavada uma gruta. Junto d'ella vê-se um banco de pedra e alguns arbustos. É com commoção que ficámos sabendo ter ahi terminado o maior poeta de Portugal, Camões, a sua obra prima os Lusíadas (a mesma estampa). O nobre portuguez, inspirado pelo romantico cavalheirismo do seu tempo e pela fé piedosa, reuniu na sua epopeia os ensinamentos do christianismo e as figuras da mythologia, cantando a nova e maravilhosa natureza, que a coragem dos seus conterraneos lhe tinha feito conhecer. Foi um altivo sentimento de confiança na immortalidade da sua obra, que lhe fez palpitar o peito quando elle naufragou n'aquellas costas e abandonar tudo quanto possuia ás vagas, com excepção do manuscripto dos Lusiadas, ainda incompleto. Salvou-se a nado, levando a sua obra levantada sobre a agua.

Ainda que elle morreu mais tarde pobre e abandonado na sua patria, foi elle o mais distincto europeu que visitou esta terra. Damos (estampa 37) um esquisso do bello quadro de Gérard, representando o grande poeta no acto de compor o final da sua obra. O professor Forssel reproduziu o mesrno quadro n'uma explendida gravura digna do seu afamado buril
.

Ta-ssi-yang-kuo, Archivos e annaes do extremo oriente portuguez, Série II. Vol III

Declaração de Vom-Chao-Ki

Ou o salvar a face ...

Tive a subida honra de ser escolhido e nomeado por meus amigos para dirigir os negocios da «Sociedade funeraria e de beneficencia denominada Ien-chae-sie.» Com quanto a falta de conhecimentos e habilitações fez com que eu nutrisse sempre o receio de dirigir mal esses negocios. Convenci-me finalmente que com trabalho e vontade talvez podesse chegar a desempenhar satisfatoriamente essa missão. 

Travessa do CalãoInesperadamente porém, aconteceu que, antes de se constituir esta sociedade, fosse eu acommettido d’uma infermidade n’uma perna que ao principio cuidei ser de pouca importancia e que ficaria curada em poucos dias; infelizmente porém não encontrei um bom médico nem um remedio eficaz para o meu padecimento. 

Tenho apenas a lastimar que não possua eu as virtudes de Iün-fu que foi um bom caminhante, visto que ha muito tempo que não consigo sahir.

Ainda que eu esteja muito animado em ser prestavel a esta sociedade não o posso ser em consequencia da minha infermidade e do desasocego em que vivo.

Se eu não desistir d’esse encargo receio que os negocios da dita sociedade venham a soffrer transtornos. Acabo agora de receber do ex.mo sr. procurador dos negocios sinicos a graça de ser exonerado d’esse cargo por tanto desejo que os negocios da referida sociedade sejam confiados a pessoas de reconhecida habilidade e que elles sejam muito prosperos e que todos os associados venham a ser ricos e tenham uma longa longevidade: mas não me caberá a honra de ter prestado semilhante serviço á sociedade.

Declaro finalmente que se por ventura eu ficar bom da minha enfermidade também não me occuparei em desempenhar o referido encargo.

VOM-CHAO-Kl.

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 23.Set.1893

O não perder a face ou salvar a face, tradução do inglês com que se tornou conhecida a ideia defendida a todo o custo pelos chineses, deve-se ao facto de face e reputação, fama, honra, nome ou prestígio ser representado pelo mesmo carácter. Quanto à ideia em si é muito difícil de aceitar por um ocidental, parece-me. Este texto mostra o porquê ...  

Retrato com exacta similhança

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 10.Nov.1892
Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 10.Nov.1892

A pátria honrai que a pátria vos contempla

3
Portas do Cerco
Ou ...
A escuridão das noites de luar

Graças ao progresso, já o arsenal de marinha está illuminado a gaz, e já o sr. visconde da Praia Grande de Macau póde soltar de casa os seus convivas, sem ser necessario mandar alumiar-lhes pelo seu criado até transporem a porta do estabelecimento. Não; que esta despeza era avultada e tornava-se mister economisal-a, porque quem não poupa reaes não junta cabedaes.

A vantagem para o estado é que foi consideravel; porque, até aqui, apenas se acendiam seis luzes amortecidas em todo o arsenal, e agora..., não só todo o arsenal esta ás claras, mas a casa do nobre ministro, desde o laboratorio culinario até a elegante sala de baile.

E isto deve-se ao progresso, ao emprego d'esse prodigioso antidoto das topadas!

Mas não é este o fim a que nos propunhamos, como se vê da epigraphe. Descupe-nos por tanto o benevolo leitor a lamuria preliminar em favor das economias.

Como iamos dizendo, foi illuminado a gaz o arsenal de marinha, e, em consequencia, o respectivo inspector, que é tão previdente e economico, fez publicar um ukase, no qual determina aos seus ajudantes, que os bicos dos candieiros de gaz só se acenderiam durante a escuridão das noites de luar.

Com a leitura de tal ukase todos ficaram ás escuras, ou olharam uns para os outros, como que pedindo explicação do enigma. A este tempo apparece um official de marinha, que tinha ido ao Brazil na corveta Sagres, e, para os tirar de difficuldades, conta o que lhe succedeu com uns individuos que visitaram o navio, e que, ao que parece, eram habeis em decifrar enigmas.

Quando entramos no porto do Rio de Janeiro, disse elle, inundou-se-nos a tolda de um sem numero de individuos anciosos de verem a Sagres. Appareciam aos bandos, como as rolas do Ribatejo. Cada grupo vinha capitaneado por um que parecia mais esperto que os restantes da comitiva: e, logo, o terceiro ou quarto dos cicerone dirigiu-se a mim pedindo-me licença para vêr o navio, e exigindo-me, á queima roupa, algumas explicações do que ia observando. Como me não achasse disposto a fazer relatorio circumstanciado das mais pequenas cousas de bordo, limitei-me á defensiva; isto é, respondia ao que me perguntavam. Apezar, porém, do firme proposito de me não arredar do que tinha mentalmente promettido, tive de dar vinte e cinco respostas desde o portaló até a pôpa. 

Como sabem, desde a primeira guerra punica, em que fômos vencedores, usamos nas rodas dos lemes dos nossos navios umas palavras fatidicas, que a mão de um poeta de nervo e lustre alli fez imprimir quando tomou as redeas do governo. Sabem a que me refiro... A patria honrae, que a patria vos contempla!

Chegados, pois, os visitantes a pôpa do navio, e dando com a legenda, tactearam-na mui delicadamente, e começaram a decompor as palavras, para as lerem por cima. Um honrado negociante de seccos e molhados, que fazia parte da comitiva, parecia ter descido até a escola de instrucção primaria pelo methodo repentino, visto a promptidão com que leu em voz alta; 
A patria honraé que a patria nos contempélla!

Feita a leitura, olhou triumphantemente para os seus companheiros, que procuravam na cara do seu perceptor a explicação do enigma, e disse, em tom de quem não quer ouvir replica: meus amigos, o que ellas querem dizer, é que honrem a patria, que ella vos honrará; e, virando-se para estibordo, resmungou ainda estas palavras:
- Não está direito, mas entende-se. 
Meus amigos, concluiu o official, appliquem o caso:
- os bicos de gaz só se accendem durante a escuridão das noites de luar
- não está direito, mas entende-se.

A esta conclusão todas as pessoas presentes soltaram estrondosas gargalhadas, e retiraram-se pensando ainda no melhor modo de pôr em execução aquella extraordinaria medida de economia, a qual mede bem a capacidade de quem a ordenou.

Nicolau Tolentino ou o Cabrion da litteratura de hoje: almanach para 1886, contendo 103 artigos de critica litteraria redigidos por alguns sócios da Academia dos Humildes e Ignorantes da Academia das Sciencias. 1867

Cule, culi, cooly, couli ou Ku Li, a força amarga

Hedda Morrison Hedda Morrison Hedda Morrison

CULE, Cúli (indo-ingl. cooly, indo-fr. couli). Operário, jornaleiro; mariola, moço de recados; portador de palanquim. O termo voga, alem da Índia, na China, na África Oriental, e em diversas outras regiões, adquirindo em algumas delas o significado especial de «operário emigrado da Índia ou da China para trabalhar nas plantações ou nas minas».

Glossário luso-asiático de Monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado, 1919

Ku li, em chinês, quer dizer «a força amarga», uma bela expressão feita de dois simples caracteres para sintetizar aquela condição de desesperados. (…)

Disse-me um adivinho, Em Viagem Pelos Mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani. 2014

imagens de Hedda Morrison

Uma tradução literal do chinês


Pátio do CordeiroAs diferenças entre o chinês e o português são tão profundas que um pequeno erro tem consequências imprevisíveis. Há tempos, houve um barbeiro em Macau que quis anunciar na montra os preços da lavagem e do corte de cabelo. Sabes o que ele escreveu? 

«Lava e corta cabeças – cinquenta patacas». 

É para veres.

Os Comedores de Pérolas de João Aguiar, 1992

Macau, 20 de Dezembro de 1999


Macau
para que o tempo não fuja
como uma pérola na ponta de um fio
para que o amor não naufrague
na noite escura dos mares da china
colarei o meu corpo em qualquer mapa
dos lugares por onde andares
e elevarei o meu coração
sobre os céus desses lugares

de macau ficará o desejo de partir
quando eu me sentir só dentro de ti
ou souber que nenhuma outra chave
se ouve rodar na porta das tuas noites
ou se o branco das tuas folhas de papel
não se abre mais às cores dos teus dias
ou ao canto que sussurra na tua alma

Rui Rocha em A Oriente do Silêncio, 2012

Em Macau, ouvi o som doce da língua do meu país

Macao

De volta a Hong Kong, fiquei na mesma pousada e, sendo-me forçoso tratar de vários assuntos, aqui permaneci alguns dias e aproveitei a oportunidade não só para conhecer este lugar como a cidade portuguesa de Macau e a China, indo a Cantão, cidades localizadas no continente e a algumas horas de distância. (...) 

Apanhei o vapor que diariamente parte para a colónia portuguesa de Macau e, depois de três horas de viagem, deveria aguardar no cais o carro do Visconde de Cercal, rico proprietário daquela cidade que tinha conhecido em Hong Kong, bem como a seu filho, e que me levaria à pousada, pois eu recusei o convite que me tinha feito para me hospedar em sua casa. E como o Cônsul também veio com o seu, para não desagradar, separei-me dos secretários que me acompanharam nessa pequena viagem de lazer e fizémo-nos transportar em carros diferentes.

Depois de me ter instalado na pousada, um assessor do general Antonio Sérgio de Souza, vice-almirante da marinha portuguesa e governador da colónia, veio saudar-me em seu nome. Este oficial era sobrinho do Visconde de Balsemão que eu tinha conhecido havia anos quando era ministro plenipotenciário de Portugal em Madrid, e que é ainda parente de algumas famílias a que também tenho a honra de pertencer naquele reino.

Fiz uma visita de cortesia ao general governador que, imediatamente, a devolveu, convidando-me para um jantar oficial que pretendia dar em minha honra e no qual participariam todas as autoridades e pessoas de distinção da cidade (…). 

O juiz nomeado para Moçambique, e que então exercia em Macau as mesmas funções, disse-me que conhecia uma irmã minha, quando lhe contei ter estado em Monção, vila de Portugal na fronteira com a Galiza e localizada na margem esquerda do Minho, que com o seu marido e a família morava numa casa de campo junto à beira do rio, no lado oposto. Também falámos sobre outro meu parente português, o Barão do Hospital, D. Joaquim de Queiroz, cuja casa ficava perto da da minha irmã e de quem eu fiquei muito próximo quando emigrei para aquele reino, e a quem devo muitos favores, misturando-se assim na minha imaginação os obséquios que me presenteavam e as boas memórias daquele amado país que na minha mente esta conversa evocava.

Macau situa-se na margem de um grande rio, formando entre este e o mar uma pequena península ligada ao continente por uma língua muito estreita de terra, na qual há um arco monumental, erguido à memória dum governador português, assassinado à traição por chineses. 

Muitas das casas da cidade estão cercadas por belos jardins. No do visconde, vi árvores que produzem frutos como o tomate e que na minha primeira passagem por Hong Kong já tinha visto no consulado e reparado como eram grandes; tinha-me impressionado o facto de pender em abundância da sua coroa redonda o belo e encarnado fruto, formando uma imagem muito agradável. No jardim de outro cavalheiro, o Sr. Marques, vi uma fruta diferente, amarela, tão grande como uma abóbora e, ao contrário de outros frutos, que geralmente pendem das pontas dos ramos, nascia no próprio tronco. 

Ali mesmo, o amável proprietário mostrou-me a famosa gruta chamada Camões, localizada na extremidade de uma pequena saliência rochosa e, como tem três aberturas numa espécie de arcos naturais, um de cada lado e um de frente, tem a aparência de um alpendre campestre e, mais que uma gruta, parece um miradouro, porque o Sr. Marques a murou com grades de ferro e colocou, na coluna central, versos do poema imortal Os Lusíadas. Por tradição, diz-se que foi naquele lugar que o divinal poeta escreveu e ali seria certamente, porque os seus versos estão cheios da voluptuosidade do ambiente e parecem exalar o aroma da vegetação luxuriante daquele paraíso. (…)

Por certo não foi o poeta inspirado no que lhe era oferecido aos seus olhos, pois não são as faces de Macau de um tipo de beleza que se possa achar sedutora. Acho que deve ser da mistura de raças: português, chinês, mestiços africanos, gente de Goa que, unidos em amoroso consórcio, criaram o que actualmente se nota entre as classes populares daquela cidade. Isto não quer dizer que não há excepções e aparências de pura e bela raça europeia, como é o caso da Baronesa do Cercal e de outras senhoras e cavalheiros.

Como o cargo em que estava nomeado não me permitiu, por mais que me desagradasse, deter-me em qualquer sítio, foi com pesar que deixei a cidade onde ao carinho com que fui tratado se juntou o doce som daquela língua que tanto ouvia no meu país, pois entre Portugal e a Galiza há uma ligação que a natureza não separa. Nem ali, nem em toda a linha de fronteira das duas nações. (...) 

Passei alguns dias muito agradáveis entre estas pessoas que considerava compatriotas e com desgosto, quase como se, novamente, saísse do meu país, deixei a cidade, tendo o general a atenção de vir buscar-me à pousada no seu carro para me levar ao cais onde me esperavam vários cavalheiros que também tiveram a amabilidade de se virem despedir de mim. Fizeram-me honras militares. Assim, apanhei o vapor para Hong Kong a ouvir treze tiros de canhão que me fizeram a saudação de honra numa despedida que nunca esquecerei, bem como se manterá viva na minha memória a bondade com que fui aqui tratado. 

Los países del Extremo Oriente de Juan Manuel Pereira (tradução livre), 1883

Lendas chinesas

Altar no Pátio da Horta Altar no Pátio da Horta
Altar no Pátio da Horta

As lendas populares são na China singelas, suaves e poeticas. O natural mistura-se ali com o maravilhoso, o povo acceita com profunda convicção estes legados de antigas aspirações e crendices. Não admira, attenta a boa fé d'aquella gente pacifica, cujo instincto os tem afastado sempre de enthusiasmos por conquistadores e guerreiros. No Celeste Imperio só o estudo e o trabalho enaltecem o homem e honram os caracteres; heroes militares e combates sangrentos não são o seu forte. (...)

Agora a curiosa lenda da amendoeira. Diz-se que na epocha bastante recuada da dynastia Shang, quinze seculos antes da nossa era, vivia nas terras de Setchuen uma rapariga formosa, rica e querida de todos, tanto pelos dotes e prendas physicas, como pelo seu extremoso carinho filial, mais valioso que os thesouros da celebrada pedra jada.

Um bello dia o pae da donzella desappareceu do sitio, sem que se pudesse atinar com a causa de tal facto. Pela manhã havia montado a cavallo e á tarde o rocim appareccêra em casa sem cavalleiro. A mãe julgou não sobreviver ao desgosto. A filha recusou-se a tomar alimento, vestiu-se de rigoroso luto e não consentiu em ver mais pessoa alguma sem saber do paradeiro do pae.

Assim decorreu um anno. Os ladrões das immediações, que frequentavam os sitios mais escusos, affirmavam não ter dado fé de tal homem. Os venerandos sacerdotes asseguravam que os Genios não o haviam levado para o céu. Não fora morto na guerra, nem tão pouco victima da peste!

Lancinada a mãe, tanto pela perda do marido, como pela dor que consumia a filha, fez um dia solemne voto de dar a rapariga em casamento a quem restituisse o marido ao lar domestico. Toda a gente das vizinhanças saiu para o campo, perguntou aos viandantes, calcurriou montes e valles. Não podia o premio ser mais tentador, porquanto a posse da amofinada menina fazia presuppor para o afortunado nas suas pesquizas, os gosos do céu na vida terrena.

Chegadas as cousas a este pé, aperceberam-se um dia de que o cavallo, em que saira o velho, estava inquieto á manjadoura, escarvava de continuo e fazia por partir as prisões. Ao cabo de afincado esforço, conseguiu o animal soltar-se, e partindo veloz, como um gamo, perdeu-se na imensidão dos arrozaes longinquos. Mais feliz do que as pessoas, logrou voltar ao povoado trazendo comsigo o velho tão insistentemente procurado. Posto o cavallo na cavallariça, todos o esqueceram, mercê da alegria, que lhes ia na alma; o animal, todavia, adoeceu desde logo. Não comia, nem bebia; de vez em quando apparecia triste, de outras feitas furioso; e continuamente voltava a cabeça para os aposentos da filha do dono. O ancião teve curiosidade de inquirir da irritabilidade do bicho e então a esposa revelou-lhe o voto feito por occasião do seu insolito desapparecimento.

«Taes promessas fazem-se e cumprem-se, disse o velho, quando se trata de homens, mas não a respeito de bestas. De hoje avante dê-se ao cavallo dobrada ração, quer de palha, quer de arroz. Em que cabeça humana entrou a possibilidade de casar uma rapariga com um quadrúpede?!» 

A despeito de tudo, o cavallo persistiu em não levantar o penso e, como tinha ouvido a conversação dos velhotes, mais se abispava ao passar próximo d'elle a formosa menina. Receioso o pae de que a attitude do cavallo acarretasse desgraças á família, resolveu matal-o, mettendo-lhe uma flecha no coração. Depois de morto o bucephalo, trataram os creados de lhe tirar a pelle e pozeram-n'a a seccar ao sol, pendurada n'uma arvore no meio do pateo da casa. Succedeu, porém, que, ao passar a rapariga por ali, se animaram de subito áquelles despojos e, envolvendo-a, levaram-n'a pelos ares, com grande admiração dos presentes. Dez dias depois apparecia a pelle estendida sobre a copada de outra arvore, até então desconhecida no paiz; das suas folhas nutria-se uma lagarta, que vomitava casulos de seda. Lá foram chorar-lhe junto ao tronco os desditosos páes da rapariga e, de então para cá, o povo deu áquella arvore o nome de Shang, palavra que em lingua chineza tem a dupla significação de amoreira e funeral.

Ninguém ousou duvidar de que a rapariga houvesse sido transformada em lagarta por falta do cumprimento da promessa; decorrido algum tempo appareceu aos páes uma deusa radiante de formusura e cercada de Genios magnificamente vestidos, envolta em nuvens de perfumes e montada no cavallo que havia sido morto. Era a filha, que, dirigindo-se-lhes, disse:
«Adorados páes! Mercê da minha piedade filial, pelo meu bom coração e fidelidade inconcussa, escolheu-me Deus para sua serva nos palacios do ceu, onde moram bem-aventurados, dando-me o dom da immortalidade. Não choreis por mim porque sou feliz.» 

O povo proclamou immediatamente a sua conterranea deusa das amoreiras e bichos de seda, e ainda hoje, em tres districtos da provincia de Setchuen, lhe consagram annualmente festas, durante as quaes abundam as offerendas nos pagodes e, entre nuvens de myrrha e incenso, sobem ao ceu orações, impetrando o seu favor para as amoreiras e fecundidade das lagartas. 

O pecegueiro, ou melhor, a sua flor, é, na China, o emblema da longevidade, assim como entre nós, os louros são o symbolo da gloria. Esta tradição tira origem da arvore dar flor pela epocha do anno novo, que corresponde sempre aos mezes de fevereiro e março, por coincidir com as proximidades do equinocio da primavera.

Outra allegoria póde ainda prender-se ao pecegueiro no Celeste Imperio. 

De tempos immemoraveis é a sua flor o symbolo do matrimonio, das virtudes conjugaes e, muito especialmente, dos deveres da mulher no seio da nova familia. Tal parece deprehender-se de uma obra poetica contida no She king, um dos antigos classicos, tido por sagrado d'entre os sábios chinas. D'esta notável poesia destacaremos a seguinte estrophe: «Florido e frondoso se ostenta o teu pecegueiro, oh marido afortunado! São suas flores radiantes e formosas. Parecem a casta virgem que veiu pôr ordem na tua casa e bemdizer o teu lar.» 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Macau pelo Conde de Lapérouse

As acusações que Lapérouse faz aos chineses, de nos cobrirem de injúrias justificadas pela fraqueza do governo português de Macau, não será completamente conforme a verdade. Por dentro de uma atitude há uma razão mais forte. Os portugueses foram em Macau hóspedes muito bem adaptados às leis da convivência, que não era, positivamente, feita de lições de honra. A corrupção era e é uma forma de linguagem. Com ela se ultrapassaram regras e se consolidaram acordos. Além disso, uma confiança feita na meia delinquência da cumplicidade é forte como o aço. Ela leva os homens a ser mais amigos do que se fossem unidos por laços de sangue.

A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999

Panorâmica de Macau na China.
Panorâmica de Macau na China. 
Desenho de Duché de Vanchy 
da 1ª ediçao da Voyage de La Pérouse autour du monde

Os chineses que nos guiaram ate frente a Macau recusaram-se a conduzir-nos ao ancoradouro da Typa (...); soubemos que se eles tivessem sido avisados, o mandarim de Macau ter-lhes-ia exigido a cada um deles metade da quantia que tinham recebido. Estes tipos de contribuição são de uma forma geral precedidos de várias pauladas; este povo cujas leis são tão gabadas na Europa, é talvez o mais infeliz, o mais humilhado e o mais arbitrariamente governado que há na Terra, se, contudo, se julgar o governo chinês pelo despotismo do mandarim de Macau. (…) 

Mandei a terra um bote comandado pelo Sr. Boutin para avisar o Governador da nossa chegada e anunciar-lhe que pretendíamos fazer uma estada na rada a fim de nos refrescarmos e dar descanso às nossas tripulações. O Sr Bernardo Aleixo de Lemos, Governador de Macau, recebeu este oficial da maneira mais cordial possível (…). Ancorámos ao lado de um navio da marinha francesa (…). 

O Sr. De Lemos recebeu-nos como compatriotas; todas as autorizações foram concedidas com uma honestidade que não há expressões para descrever; ofereceu-nos a sua casa; e como ele não falava francês, a sua esposa, jovem portuguesa de Lisboa, servia-lhe de intérprete; acrescentava às respostas do seu marido, uma graça e uma amabilidade muito próprias, e que os viajantes só muito raramente encontram nas principais cidades da Europa. 

Dona Maria de Saldanha tinha casado com o Sr. De Lemos em Goa havia doze anos e eu tinha chegado a esta cidade (…) pouco tempo depois do seu casamento: ela teve a bondade de me recordar este acontecimento que estava muito presente na minha memória (…), chamando de seguida todos os seus filhos (…). Em parte alguma do mundo se me ofereceu um retrato tão encantador; as mais belas crianças rodeavam e abraçavam a mais encantadora mãe; e a bondade e a meiguice desta mãe espalhava-se por tudo quanto a rodeava. (…) 

Como se está tão distante da China em Macau como na Europa, pela extrema dificuldade em penetrar neste Império (…) limitar-me-ei a descrever o relacionamento dos europeus com os chineses, a extrema humilhação que eles sofrem, a fraca protecção que podem receber da presença dos portugueses na costa chinesa, a importância, finalmente, que poderia ter a cidade de Macau para uma nação que se conduzisse com justiça, mas também com firmeza e dignidade, contra o talvez mais injusto, mais opressor e, ao mesmo tempo, mais cobarde governo que existe no mundo. (…) Não se bebe na Europa uma chávena de chá que não tenha custado uma humilhação aos que o compraram em Cantão, que o embarcaram, e navegaram metade do globo para trazer esta folha aos nossos mercados. (…) 

Os portugueses têm ainda mais razões de queixa dos chineses do que qualquer outro povo; sabemos a que título respeitável eles possuem Macau. A dádiva do estabelecimento desta cidade é um monumento do reconhecimento do imperador Camhy; ela foi dada aos portugueses por terem destruído, nas ilhas em redor de Cantão, os piratas que infestavam os mares e devastavam toda a costa da china. (…) Cada dia os chineses fazem-lhes novas injúrias, a cada instante anunciam novas pretensões; o governo português nunca ofereceu a mínima resistência e, este lugar, onde uma nação europeia que tivesse um pouco de energia, se imporia ao Imperador da China, mais não é que uma cidade chinesa, na qual os portugueses sofrem, apesar de terem o direito incontestável de aí mandar e os meios para se fazerem temer se mantivessem apenas uma guarnição militar de dois mil europeus, com duas fragatas, algumas corvetas e uma galeota armada. (…) 

A população inteira de Macau pode ser estimada em vinte mil almas, das quais cem portugueses por nascimento (reinóis?), dois mil mestiços ou portugueses indianos; idêntico número de escravos cafres que lhes servem de criados; o restante é chinês e ocupa-se do comércio e em diversas profissões o que torna estes mesmos portugueses tributários da sua indústria. Estes, embora quase todos mulatos, julgar-se-iam desonrados se exercessem algum ofício macânico e assim sustentassem a sua família; mas o seu amor-próprio não se revolta por solicitarem constante e importunamente a caridade dos trauseuntes. 

O Vice-rei de Goa nomeia todos os cargos civis e militares de Macau (…); os soldados estão armados de bastões, o oficial é o único com o direito a ter uma espada, mas em caso algum a pode usar contra um chinês. Se um ladrão desta nação for surpreendido a arrombar uma porta, ou a tirar algum bem, é necessário prendê-lo com a maior precaução; e se o soldado, ao defender-se do ladrão, tem a infelicidade de o matar, é entregue ao Governador chinês e enforcado no meio da praça do mercado, na presença da guarda à qual ele pertencia, de um magistrado português e de dois mandarins chineses que, depois da execução, são saudados com uma salva de canhão ao sairem da cidade, tal como o foram quando entraram: mas se, ao contrário, um chinês mata um português, é entregue aos juízes da sua nação, que depois de o terem espoliado, fingem cumprir com as formalidades da justiça mas deixam-no evadir-se, muito indiferentes às reclamações que lhes são dirigidas e que nunca mais darão lugar a qualquer satisfação. 

Os portugueses fizeram, nos últimos tempos, uma demonstração de força que ficará gravada no bronze dos registos do Senado. Um cipaio, que tinha morto um chinês, foi mandado fuzilar por eles, na presença dos mandarins, e recusaram-se a submeter a decisão deste caso ao julgamento dos chineses. (…) 

O aspecto da cidade é muito interessante. Da sua antiga opulência restam várias belas casas alugadas aos sobrecargas das diferentes companhias, que são forçados a passar o Inverno em Macau uma vez que os chineses os obrigam a deixarem Cantão assim que o último navio do seu país parte, só podendo regressar na monção seguinte, com os navios que chegam da Europa. 

A estada em Macau é muito agradável durante o Inverno porque os sobrecargas são, em geral, distintos, muito instruídos e têm um rendimento considerável para sustentar uma casa excelente. 

Le Voyage de La Pérouse, 1785-1788. Jean François Galaup, Conde de Lapérouse (tradução de Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Viagem por Macau, Vol I. 2014)