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O casamento na China é um dever religioso
O carro dos noivos
Macau, Janeiro de 2012
Na familia o pae é o chefe da sociedade domestica e o pontifice do culto dos antepassados, devendo por isso ser respeitavel e virtuoso, ou ao menos apparental-o. A este assiste o direito de castigar qualquer membro da familia, até mesmo sua propria mulher, mas de fórma tal que lhe não produza fractura alguma, pelo que é responsavel perante a lei; póde expulsar do seio da communidade todo aquelle que por seus actos se tornou indigno de render culto aos antepassados, ficando ipso facto sem valor algum religioso as ceremonias que mais tarde os descendentes d’estes lhe tributem.
Por outro lado a familia é responsavel por todos os actos praticados pelo seu chefe, porque a lei presuppõe que todos os membros devem ter d’elles conhecimento; é por isso que se o pae é exilado toda a familia o acompanha. Se, porém, morre, a collectividade subsiste, tomando o filho mais velho a direcção da casa, para que nada se altere, e a familia se perpetue de geração em geração. É por isso que rarissimas vezes o filho que casa vae constituir familia independente da do pae, o que só se pode levar a effeito por meio de grandes ceremonias que têem logar quando leva para a nova residencia uma copia das taboletas dos seus maiores.
Para os chinezes o casamento é um dever religioso, porque é a base das gerações futuras, aptas para perpetuar o culto domestico; é um dever de piedade filial recommendado nos seus livros de moral, como um dos primeiros deveres do homem, constituindo finalmente a «ceremonia por excellencia». E aos chefes de familia que cabe a escolha das esposas para seus filhos, ajustando-se muitas vezes entre amigos o casamento de seus filhos menores, e até mesmo antes d’elles nascerem. Em outros casos os que querem dar-se uma mutua demonstração de boa amisade, casam seus filhos já falecidos, procedendo as ceremonias do costume, em que os noivos defuntos são representados por parentes; sendo os effeitos legaes d’estes singulares casamentos identicos aos communs, pois que até podem adoptar um filho, que será mais tarde o seu herdeiro e o continuador da geração!
Os casamentos entre vivos exigem trabalhosas negociações, sempre a cargo de uma corretora ou casamenteira «mei-jin», que é quasi sempre uma pessoa de familia, e em todo o caso muito respeitada e considerada, honesta e discreta, que tem entrada franca em todas as familias, onde estuda o caracter das moças casadeiras.
Quando se quer casar um filho, lança-se mão dos bons officios da casamenteira, que vae e vem a dar conta das informações que pôde colher, discutindo com os paes do noivo a conveniencia da escolha. Depois resta-lhe ainda sondar as disposições do pae da pretendida noiva, para evitar uma recusa, que seria grave offensa entre pessoas de igual categoria. Assim avisado o pae da noiva, procura elle por seu lado informar-se do caracter e das habilitações litterarias do pretendente, se é que elle é pretendente, pois de nada sabe, e tem de sujeitar-se á vontade paterna, a qual não póde eximir-se senão em dois casos previstos pela lei: casando com uma estrangeira, judia ou mahometana, ou estando a tal distancia que o pae não possa ser consultado.
Dissipadas todas as duvidas de parte a parte, o pae do noivo manda pedir a mão da noiva, ou vae pessoalmente a casa do pae d’esta. A resposta do pae da noiva é sempre escripta, dizendo invariavelmente o seguinte: «A escolha que vos dignastes fazer de minha filha para ser a esposa de vosso filho, faz-me crer que conheceis a minha pobre e humilde familia mais do que ella merece; a minha filha é estupida, sem espirito, e nunca teve talento para ser educada; no entanto, tenho prazer em poder obedecer-vos n´esta occasião.»
Em seguida trata-se de fixar o dia para o casamento, tendo os paes ido aos tumulos dos antepassados avisal-os da sua resolução, e do sincero desejo que tem de fazer a felicidade dos seus filhos. O pae da noiva tem já recebido a pequena quantia que symbolisa a compra do corpo da esposa, e que a sujeita á obediencia e submissão do marido; e tendo recebido igualmente a noticia official do dia da ceremonia, acompanhada de alguns presentes, responde o seguinte, que é da praxe: «Recebi a vossa ultima resolução; quereis que as bodas se façam; tenho pena que a minha filha tenha tão poucos meritos, e que não tenha tido a educação precisa. Receio que ella não seja boa ou que não sirva para nada; mas como os augurios são favoraveis, não ouso desobedecer-vos; acceito os presentes, e consinto no dia escolhido para o casamento. Terei cuidado em ter tudo preparado.»
As cartas trocadas entre os paes são depostas no altar dos antepassados, ligadas por um fio de seda encarnada, tendo as do pae do noivo pintado um dragão, e as do pae da noiva uma phenix. No dia do casamento a casa do noivo transforma-se em tumultuosa hospedaria pela chegada dos parentes e amigos; estão promptos os fogos de artificio, as vistosas lanternas de illuminação; os fornos preparam os mais delicados manjares; começam a entrar os presentes, e os parentes e convidados não descansam, dispondo grinaldas de flores, içando bandeiras, e collocando por toda a parte papeis com inscripções allegoricas. Estando tudo prompto, tocam as musicas e os «gongs», rebentam os petardos, e o parente encarrégado de ir buscar a noiva mette-se na sua cadeirinha, que precede aquella que ha de trazer a «jade transparente» e o cortejo põe-se a caminho.
A noiva e os seus parentes já estão á espera, e apenas chega o cortejo despede-se ella, chorando, de todos os objectos que até então a rodeavam, e tendo-se coberto de espesso véu na sala dos antepassados, entra na cadeirinha dourada, sem lhe esquecer o cesto do arroz que symbolisa a abundancia que vae levar á casa do esposo. Uns dizem que o noivo vac pessoalmente buscar a noiva, e que a vê pela primeira vez quando ella se despede de seus paes; outros affirmam que em toda a parte como em Cantão, o noivo espera a noiva á porta de casa, e é ali que elle, tomando a chave da cadeirinha das mãos de um seu parente, a abre e levanta o véu para ver se foram capciosas as informações da corretora.
N’algumas terras, o noivo, para mostrar a sua alegria e felicidade, finge que se embriaga, esconde-se, até que os amigos dêem com elle, e o levem a abrir a cadeirinha. Se lhe não agradou a noiva, fecha palanquim e devolve-o com o precioso conteúdo aos paes da que fôra escolhida para sua mulher, sem que lhe assista o direito de reclamar o dinheiro que por ella déra. Se ella, porém, lhe agrada, entram os dois em casa, vão agradecer ao céu, e a mulher faz quatro genuflexões ao marido, e este duas a sua esposa.
Trazem entâo dois copos de vinho, que elles bebem em parte, juntando os restos n’um só copo, pelo qual ambos depois bebem. A este tempo começam em salas separadas os banquetes, dos homens e das mulheres, prolongando-se as festas por tres dias. Entre as classes ordinarias em que não ha musicas nem cadeirinhas, vac a noiva a pé, apenas coberta com o espesso véu; e em casos de duvida sobre a virgindade da noiva, manda o marido no dia immediato ao sogro um porco com a cauda e um orelha cortada... se a noiva é devolvida!
Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo. 1898
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Eduardo Nery em Macau
Eduardo Nery, o poeta dos espaços públicos
Um grande painel de azulejo com 210 metros de comprimento, da autoria do pintor Eduardo Nery, evocando Macau como local de convergência das culturas portuguesa e chinesa, dá vida e cor à sala de partidas do Terminal de Passageiros do Aeroporto Internacional de Macau. Realizado na sequência de um convite do Governo de Macau, este trabalho é, no contexto da grande obra do Aeroporto de Macau, um testemunho contemporâneo e artístico que a Administração Portuguesa lega ao Território a poucos anos da respectiva cedência para a República Popular da China.
Eduardo Nery é o caso exemplar de um artista plástico cuja obra tem vindo ao encontro do público de uma forma muito directa, nomeadamente através da intervenção na estação e nos viadutos do Campo Grande do metropolitano de Lisboa, e também em pinturas murais, painéis de azulejo e muitas outras formas de intervenção plástica na arquitectura e no espaço urbano. Norteado por um objectivo de humanizar e poetizar os espaços públicos, mas ciente de que a comunicação que se estabelece com os portugueses é de alguma forma «imprevisível» por razões culturais. São preocupações diferentes as que o artista tem quando parte para uma criação que vai estar exposta ao domínio público.
«Tento sempre adequar essas obras às características e à vivência própria dos espaços aonde serão integradas», explica, passando a exemplificar a sua actuação. «Por exemplo, no simbolismo dos vitrais que concebi para igrejas tive em linha de conta tratar-se de locais de recolhimento, aonde as pessoas parece terem tempo e predisposição para a contemplação de obras de arte, como num museu. Em contrapartida, na estação do Campo Grande por onde as pessoas passam a correr, recorri, por um lado, à vivacidade da cor e à leveza do ambiente, e, por outro, a ironia ou perplexidade dos utentes perante as deformações das figuras, numa forma de comunicação muito mais directa, mas na esperança de que as pessoas parem para as verem com mais atenção».
Eduardo Nery, em Macau, subdividiu o painel em sub-temas: as Religiões e os Mitos portugueses, o Mar que ligou durante mais de quatro séculos Portugal a Macau, aliás, cidade portuária e piscatória; a Ciência Náutica, a Cosmografia e a Astronomia na época da expansão marítima dos portugueses e no século XVI na China, prolongadas virtualmente por dois testemunhos da Aviação em Macau, nos anos vinte; e ainda personagens portuguesas na viragem do século XVI, destacando-se neste núcleo quatro bailarinos e um tocador de tambor, numa clara alusão à Música e à Dança, e portanto à Arte. Sem intenção narrativa ou didáctica, os motivos escolhidos referem-se quase sempre a um passado mítico.
A composição de todo o painel de azulejo foi estruturada com base numa malha geométrica de diagonais e de verticais, quase autónoma que organiza todo o conjunto. «Contudo, se esta vive por si própria em certas áreas do painel, ela também desempenha o papel fundamental de integrar e de agarrar os diversos motivos figurativos àquela malha.» Desta forma, crê o artista ter «equilibrado duas linguagens plásticas opostas; uma figurativa, e outra de abstracção geométrica, e por acréscimo organizar este extenso painel numa pulsação de claro-escuro e de vibração cromática, através de um ritmo contínuo, por vezes sincopado, que mantém sempre viva a percepção do observador».
Dada a vastidão da sala de partidas do Terminal do Aeroporto, o painel tem dupla leitura – de longe e em diagonal domina o jogo abstracto de ritmos ondulantes de luz e de cor, e de perto o observador descobre não só os motivos figurativos particularizados, mas também a modulação do claro-escuro e a intensidade de vibração cromática, baseada em diferentes harmonias na combinação em xadrez de 28 tons.
Fiel a uma identidade artística, Nery não sente a existência de condicionamentos por esta dedicação a obras públicas, que transpõem a barreira do recolhimento do atelier. Está sim preso a exigências de outra ordem: a adequação dos materiais e das técnicas à acção do tempo e do vandalismo, a criação para um espaço predeterminado, tendo que atender às suas dimensões e proporções, a luz que recebe e os ângulos em que a obra será vista. Muitos meses de investigação e uma ampla recolha iconográfica precederam a fase definitiva de «deitar mãos à obra». Até lá, nem tudo correu sobre rodas entre negociações a prazos para cumprir. «O que correu melhor foi a qualidade e a rapidez da execução dos azulejos na fábrica Viúva Lamego, dada a enorme dedicação e empenhamento dos seus pintores e gestores, face a prazos muito curtos. E também à eficiência dos técnicos da Soares da Costa e à grande rapidez do assentamento dos azulejos pelos seus operários, coordenados pelo gerente da Azulima.
Na recente visita do Presidente da República a Macau, por ocasião da inauguração do Aeroporto Internacional, foi pela primeira vez criada a oportunidade de apreciar o extenso painel de azulejos (concluido mesmo a tempo para o acontecimento), que ocupa em toda a sua extensão a guarda da «mezzanine» na sala das partidas do edifício do Terminal de Pasageiros. «O Governo de Macau convidou-me directamente para fazer esta obra, acompanhou de perto as minhas maquetas, deu instruções à CAM (companhia concessionária do aeroporto) para que o painel estivesse concluído antes da inauguração, o que foi cumprido quinze dias antes dessa data.»
Eduardo Nery conjugou e deu sequência a algumas das suas experiências anteriores no domínio da «Op Art» hoje interiorizada na sua obra artística. A «Op Art» recuperada dos anos 60 é patente em trabalhos de Nery posteriores a esta década (…).
Homem Magazine, Fev. 1996
Tenho um fraco por gaiolas chinesas
Mulher com cabaia e gaiola com pássaro num jardim
Macau 1896
Eliza Ruhamah Scidmore
A gaiola que o Quim me ofereceu era uma das mais belas que alguma vez vi à venda em Macau. Tenho um fraco por gaiolas chinesas, grandes, médias ou pequenas, simples ou trabalhadas. Lembro-me bem que, da primeira vez que visitei o jardim de Lou Lim Ioc, fiquei fascinado ao ver dezenas de gaiolas penduradas nos ramos das árvores, enquanto os donos, na sua maior parte velhos patriarcas chineses, repousavam pachorrentamente à sombra, lendo o jornal, conversando ou deixando perder o olhar em quem passava, enquanto ouviam os trinados das aves que haviam trazido a espairecer.
João Aguiar em Rio das Pérolas. 2000
Usos e costumes chineses, a mulher
A administração do lar domestico pertence ás mulheres casadas; todavia, se têem sogra, não assumem o governo da casa, pois que é a esta que tal encargo cabe, ainda que seja viuva e sustentada a expensas do filho. De entre as differentes manifestações de submissão que deve dar-lhe a nora, conta-se a obrigação de nunca se sentar na presença da sogra, sem que esta lh'o permitta, e a de ir todos os dias á cozinha, ainda que por mera formalidade, preparar uma iguaria para aquella. Logo que a nora tiver algum filho, nomeadamente varão, adquire direito a mais deferências da parte da mãe do marido, a qual, ainda assim, é considerada a dona da casa.
Os chins casados, que manteem concubinas, não logram nunca a paz domestica. A mulher, como dona da casa, maltrata-as geralmente e ellas têem que obedecer-lhe como ínfimas creadas. Ás concubinas também se não poupam a intrigas e artimanhas para fazer-lhe o mal que podem. Não lhes falta ensejo para o conseguir, porquanto a esposa legitima, que não é geralmente da escolha do marido, é pouco procurada por este, que das outras se acerca com frequencia, visto tel-as ido buscar por affeição, ou desejo. Mas não se pense que entre as concubinas ha harmonia, porque, excitadas pelo ciume, promovem também entre si graves discordias, que ás vezes terminam por scenas de pugilato. (...)
As chinas nunca pegam ao collo nas creanças, põem-nas sobre as costas ou nas ancas, de forma que fiquem escarranchadas, e seguram-nas com um panno quadrado, quasi sempre bordado a cores, que prendem com fitas nos hombros e á cintura.
O sexo feminino é para tudo reputado inferior ao masculino. O viver social das damas chinezas, comparado com o das senhoras europêas, póde dizer-se que corresponde á escravidão. Como estas, não têem ingerencia alguma nos negocios publicos, mas tambem nada sabem dos particulares e até mesmo estão sequestradas do convivio dos homens, não podendo, portanto, reinar no mundo da elegancia e ser alvo dos galanteios do sexo forte!!
Para dar completa idéa da sua consideração na sociedade, diremos que nem mesmo se sentam á mesa com os maridos. Qualquer rapariga china, que tiver casamento justo, se acontecer fallecer-lhe o promettido, fica considerada viuva para todos os effeitos, embora solteira. (...)
As condições sociaes em que se acha a mulher na China são completamente differentes das que fruem as nossas companheiras europêas (...). Ellas não vivem, vegetam, e, ainda assim, em terreno lodacento; são escravas dos caprichos dos homens, alvos dos seus desejos, victimas do egoismo de uma sociedade fria e calculista; têem o coração fechado aos affectos, embotada a intelligencia, pautadas as graças feminis, porventura envenenadas as delicias do amor. Nunca é desejada a vinda ao mundo da mulher, porém, quando nascem, se provêem de gente rica, são creadas como quem colleciona objectos de valor, aos quaes procura comprador condigno; se acertaram de abrir os olhos em lar pobre, espera-as a corrente de um rio, em que são lançadas, ou o caminho da prostituição.
É repugnantissimo o commercio que as raparigas de baixa classe vão animar. As familias desnaturadas vendem-nas a certas megeras que as vão cevando, permitta-se-nos o termo, para depois as alugar, ou vender no mercado do vicio. Desde que entram no bordel, como educandas, até que algumas chegam a ser concubinas de ricos chins, atravessam estas infelizes mil transes e soffrem bestiaes desacatos e brutalidades. Consomem a vida estas miseras, se não caem em graça de algum figurão, na mais deprimente, infima e soez das degradações, tão aviltante e asquerosa que nós, europeus, mal comprehendemos que o governo china seja de homens e não de immundos, libidinosos e estupidos irracionaes, ao attentar na sua indifferença a tal respeito. Um fado adverso paira sobre todas as filhas de Eva na China; se não vejamos.
Nas classes mais elevadas, vegeta a mulher no maior isolamento; não tem idéas, não tem sentimentos, falta-lhe a lucta e até se lhe coarcta que espaireça pelo trabalho. Sendo casada, isolam-na do mundo as conveniencias, privam-a de influencia sobre o marido o concurso das concubinas. O que lhe resta? Passar o dia ao espelho lambusando a cara com centenares de cosmeticos, ou carregando a cabeça de flores e enfeites! É pouco para uma creatura que tem no peito o germen dos affectos de mãe e vê vasio de todo o seu coração. Algumas abalançam-se á leitura dos livros obscenos, que abundam na China, e perdem-se, se não lhes mettem medo os rigores de que o marido póde dispor. Eis tudo, eis a sua vida, que não passa de uma escravisação.
As mulheres do povo têem, ao menos, o consolo que lhes vem da cooperação no trabalho do homem; todavia, como as difficuldades são muitas, os vicios não menores, e a elevação da alma negattiva, levam vida arrastada, se não são despenhadas no abysmo supremo da perdição.
Em Macau tem a influencia dos nossos costumes, o convivio com os europeus e acção da Procuratura dos Negocios Sinicos, minorado estes males, que sinceramente lamentamos, todavia na essencia lá se manifestam, porque é quasi impossível cortar pela raiz habitos e crenças arreigadas.
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França. 1897
A partir de finais do século XIX, os intelectuais chineses começaram a repensar o estatuto da mulher na sociedade chinesa, sob a influência das várias igrejas cristãs, nomeadamente a protestante. Depois, com a implantação da República (1911), a luta pela emancipação da mulher foi assumida pelo poder político. Mas esta emancipação foi claramente acelerada pelo avanço do comunismo na China, sofrendo um grande impulso durante a Revolução Cultural, em que houve uma subversão total dos valores vigentes, com o intuito de combater o confucionismo e a ideologia burguesa.
Por isso, surgem cada vez mais mulheres que se dedicam a actividades ligadas ao exterior, isto é, profissionais, diminuindo o número das «mulheres de casa» e, simultaneamente, aumenta o número das que optam pelo celibato. Também se vêm menos mulheres abandonadas, nas ruas, quer em Macau quer na China, assim como quase desapareceram as concubinas. Estas foram, no entanto, substituídas por outras formas mais modernas, pois muitos homens, na alta classe média chinesa, têm várias mulheres, mas estas não coabitam nem têm estatuto de concubinas, sendo instaladas em agregados domésticos independentes.
Traços da Presença Feminina em Macau de Leonor de Seabra. 2007
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O xadrez chinês
O jogo do xadrez é muito antigo na China, attribuindo-se a «Wu-Wang» da dynastia «Chow» a sua invenção em 1120 A.C.; mas não ha documento algum que indique se o jogo inventado por aquelle imperador é o mesmo que hoje se joga.
Os chinezes se bem que fabriquem taboleiros e pedras do xadrez que nós usâmos de marfim e madeira para exportação, jogam um outro muito differente. O taboleiro d’elles é como o nosso dividido em sessenta e quatro casas, mas todas da mesma côr, e no pretas e brancas como no taboleiro europeu; é além d’isso atravessado longitudinalmente por uma facha a que chamam rio «Ho» com a largura de um dos lados de cada casa, o qual divide os dois campos em partes iguaes.
As pedras são pequenos discos de madeira ou marfim, de ordinario vermelhos e amarrellos, tendo cada um d’elles o seu nome escripto a tinta azul. Collocam-se elles no ao centro das casas, mas na intercepção das linhas que as formam, de fórma que cada fila póde conter nove pedras, e como são dez os traços parallelos ao rio, pode cada pedra, excepto o general, tomar noventa posições differentes.
O ganho do jogo consiste em collocar o «Tsiang» ou general (rei no jogo europeu) do adversario em posição de não poder mover-se, quando atacado por uma pedra; exactamente o nosso «cheque e mate». Quando se lhe dá um simples «cheque» tem de ser mudado de posição ou ser coberto com outra pedra. As pedras occupam os logares indicados no desenho acima: ao centro da primeira fila o «Tsiang» ou general (rei); de cada lado do general um «wé» ministro ou letrado, equivalendo á nossa «dama»; ao lado de cada «wé» colloca-se um «siang» ou elephante que corresponde ao nosso «bispo»; em seguida a cada elephante vem um «ma» ou cavallo, e nos dois extremos ficam os «tché» ou carros, correspondentes ás «torres» do jogo europeu.
Na segunda fila e na frente de cada cavallo põe-se uma peça, «pao» que só póde mover-se saltando por cima de outra pedra; por isso quando o «pao» ataca uma pedra, é preciso que entre esta e o «pao» haja outra, vermelha ou amarella que lhe sirva de «mira» sem o que a «peça» é inoffensiva, porque se não tem «mira» não pode atacar.
Assim, por exemplo, o «Tsiang», tendo na frente uma pedra qualquer, soffre o cheque da «peça»; e para se livrar d’elle sem se mover, desloca a pedra que tinha na frente para outra posição, privando assim a «peça» da sua «mira». Nós cobrimos o rei em cheque com uma pedra, os chinezes ao contrario livram-se do cheque da peça, pondo o general a descoberto.
Cinco peões «ping» occupam as intercepções ímpares da terceira fila, de forma que não ha «ping» diante dos letrados nem das peças; aos «ping» tambem ás vezes se dá o nome de «jin», homem, por não poderem dar mais que um passo, atacando para a direita e para a esquerda, podendo tambem atravessar o rio, avançando ou recuando, porque o peão póde recuar, se bem que na opinião do abbade Grosier nunca recua. Aquelle escriptor diz ainda que os carros e as peças podem atravessar o rio, opinião opposta à de Bazin, que sustenta o contrario. Segundo o grosso modo de ver ambos têem rasão, porque os chinezes jogam o xadrez de qualquer das duas fórmas da mesma maneira, que entre nós se convenciona avisar ou não o cheque à dama. Em geral todas as pedras podem atravessar o rio, mesmo as peças e os carros, quando não haja combinação especial.
Só o «Tsiang» o não póde atravessar nunca: o cavallo e o peão atravessam-o como dando um passo apenas.
Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898
O Pôr-do-sol nos mares da China
National Geographic Magazine
Abril de 1969
20 de Outubro de 1852
Meu C...
Agora que me enviaram á China pelo isthmo de Suez (Overland route, como dizem os homens do beefsteak) transito inteiramente desconhecido para ti, e para uma grande maioria dos nossos compatriotas, - contarte-hei o que vi e o que senti, n´este grande giro em que gastei quasi dois annos, começando em Lisboa, e poisando successivamente em Gibraltar, Malta, Alexandria, Cairo, Suez, Adem, Ceylão, Pinão, Singapura, Hong-Kong, Macau, Cantão; tornando do imperio celestial pelos mesmos portos até Southampton, e terminando outra vez em Lisboa (...) vendo a cada passo cambiar de cores o panorama da humanidade, em religião, em costumes, em politica, em tudo. (…) Na China - esse mundo á parte, cujos mysterios tentei investigar (…).
Era mister deixar Lisboa (…) - o conselheiro Gonçalves Cardoso, governador nomeado para Macau, e eu. Figura-te quantas ideas amargas esvoaçariam n´essa hora pelas cabeças dos pobres desterrados, que deixavam o solo da patria para irem tão longe, e em tão criticas circunstancias, involver-se nas difficuldades que a morte successiva de dois governadores havia acarretado sobre Macau! Partimos resignados - confiando na Providencia, antes de tudo, e depois em nós mesmos. (…)
Agora, a chusma dos passageiros, que não são menos de cem do genero masculino, e trinta a quarenta do femenino. Comecemos, como cumpre, pelo bello sexo. Não vas pensar que todas estas viajantes pertençam á classe das inglezas esguias, compridas e louras, que passam o Deserto ou o Cabo da Boa-Esperança em busca de fortuna, que atravessam os mares em cata de um marido rico, embora elle seja malaio, jau, indio, ou chinez - não; muitas d´estas misses encontrariam um bom partido, mesmo na Europa, sem se exporem aos incommodos de uma longa viagem, e á malefica influencia de climas abrasadores. Outros motivos talvez as levariam aos palmares do Oriente, ás margens do Ganges e do Tigre. Cousa notavel! A mór parte das Ladies que foram em minha companhia, possuíam bellos olhos negros, e cabello da mesma côr!... e - mais pasmoso ainda! - apresentavam, algumas, pés pequenos e bem torneados, calçados mesmo com esmero!... Quando, ás nove da manhã, o clarim tocava ao almoço, saíam ellas dos seus camarotes, já vestidas com elegancia, de setins, rendas, braceletes de ouro, etc., e penteadas com perfeição; e depois, no passeio da tolda, de chapelinho, xaile ou manta, luvas e umbrela, tomavam um ar de côrte, como se girassem em Hyde-Park.
Quanto aos homens - quem não conhece á legua, o inglez de canela fina, calça justa, quinzena de fantasia, boné grutesco, sapato grosso calçado em farto pé - ora estendido sobre um banco, com as pernas mais elevadas do que o tronco - logo desenhando pessimamente quanta extravagancia lhe lembra - depois lendo um livrinho de two pence- tomando soda-water; ou comendo laranjas - cantarolando de uma maneira detestavel - ou, finalmente, passeiando com furia sobre a tolda, acotovelando todo o fiel christão...? Ver um inglez, escocez ou irlandez, a bordo do paquete, é ver a todos - a cousa jamais varia! (...) Era, de certo, assim que tinhas imaginado este beef em pé? (...)
Esta vida de passageiro a bordo de um paquete inglez, deve ser optima para um mandrião-gastronomo. Reduz-se a comer, beber, fumar, passeiar, ler, escrever, jogar e dormir. A mim aborrecia-me de morte (…).
A exclamação que, a cada folha, encontro na minha carteira da viagem é esta: - Lindo pôr do sol no mar da China! ... Mas é isto objecto que possa descrever-se, e principalmente com alguma novidade? Oh não. É um espectaculo que embevece, que extasia, que arrebata! Mas que não pode pintar-se, porque não ha tintas que dêem as mil côres d´esse quadro inimitável. (...)
Voltemos ao mar da China, que vem avorecendo a manhã de segunda feira, 20 de Janeiro do anno da Graça 1851, e as primeiras montanhas d´essa mysteriosa China, que ha 58 dias procuramos, lá apparecem com os cumes dourados pelos primeiros raios do sol. O mar estava coalhado de barcos de pescadores, de uma construcção extravagante, inteiramente nova para nós.
Tinha emfim chegado a esse remoto Cathay, que tem dado objecto a tão disparatadas novellas!
Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo, Francisco Maria Bordalo. 1854
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Um chinês não vive sem barulho
Os chinezes são um povo essencialmente amigo de tudo que é ruidoso; nas ruas a gritaria é de ensurdecer, porque milhares de pessoas fallam e gritam constantemente; para elles são desconhecidos os sons de uma musica suave, porque só gostam do «forte» e do «fortissimo». Assim para elles não haveria festa completa, se não tivessem descoberto um meio de fazer bulha; inventaran os «fire-crackers», chamados entre nós «fogos da China», nome que não adoptámos, porque não dá, como a expressão ingleza, uma idéa exacta do que é.
Os «fire-crackers» são pequenas bombas feitas com um envolucro de papel, e do tamanho e feitio da metade de um cigarro. Estas pequenas bombas estão ligadas umas ás outras, aos centos e aos milhares; com essa especie de restea envolve-se um mastro erguido no chão, ou suspende-se a restea do ramo de uma arvore; é a isto o que se chama um panchão. Chega-se-lhe fogo, e começa a fuzilaria, que dura ás vezes mais de meia hora, ouvindo-se de espaço a espaço os indispensáveis petardos, a que se vem juntar ainda o estalar de caixas dos mesmos fire-crackers, que se atiram ardendo no chão.
Um bom chinez, - embora pobre e sem arroz para comer – deixar de queimar fire-crackers por qualquer festa?! … isso nunca!
Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo. 1898
As differentes iguarias chinezas
Na Europa pensa-se em geral que na China só se comem ratos, gatos, cães, serpentes, etc. Ha n´isso um grande exagero, pois comquanto se affirme que as serpentes de Amoy são preciosissimas, e que se diga que em Cantão dois ou tres restaurantes são afamados pela especialidade dos pratos de cão e de gato, a verdade é que, pondo de parte aquellas extravagancias em parte verdadeiras, a base da alimentação de todo o filho do ceu, quer seja mendigo, quer seja alto funccionario d´estado, é o arroz. As classes menos abastadas que não podem comprar carne de porco, juntam ao arroz o peixe fresco ou salgado, e só comem aquelles animaes em tempo de fome, o que infelizmente não é raro nas provincias do interior.
Os chinezes para comer fazem uso dos «pausinhos» a que chamarn «Kwai-tsz» e que nós conhecemos pela denominação ingleza de «Chopsticks»; são de madeira ou marfim, de 20 a 30 centimetros de comprido, quadrados na parte superior com 8 a 10 millimetros de lado, e redondos no resto do comprimento. Usam-se ambos com a mão direita, segurando-os com os dedos pollegar e annelar, emquanto o index e o medio os manejam sem que nada escape áquelles dedos artificiaes.
A rasão por que nós achamos a comida chineza muito differente da europêa, é principalmente por causa da maneira de cozinhar, e dos temperos empregados, se bem que muitas cousas ha aqui que nós não estamos costumados a comer, como se verá pelo menu de um dos jantares a que assistimos em Cantão, e que adiante copiaremos.
Outra rasão ha ainda para que na China extranhemos o gosto ou antes a falta de gosto das comidas, mesmo cozinhadas á europêa. A carne de vacca, de porco, de gallinha, etc., não tem aqui as propriedades de que gosam por exemplo em Portugal, e isso explica-se facilmente pela má qualidade dos pastos; a vacca não tem as feculentas gramineas e nutritivas leguminosas de que se alimenta na Europa; o porco não dispõe da bolota e da castanha, nem se sustenta com as succulentas «lavagens»; á gallinha e ao pombo falta-Ihes o milho tão abundante entre nós, etc etc.; a base da alimentação d´estes animaes é, como a dos habitantes, o arroz. Passando agora ao menu a que adiante nos referimos, diremos primeiramente que nos jantares chinezes ha alguns pratos, principalmente sopas, que são muito saborosos, e que nada nos repugnam. Antes de serem servidas as diferentes especies de sopa, os commensaes passam algum tempo á mesa comendo pevides de melancia, canna de assucar e fructos, taes como lichias «li-tchi», conquinhos, mangas, laranjas, etc.
Sopa de aza de peixe (assim chamam ás barbatanas de tubarão).
Sopa de ninho de passaro (a que nos referimos em capitulo especial)
Sopa de miolos de gallinha com feijão.
Sopa de algas marinhas com membranas de pés de Adens recheiados
Bicho de mar «Holuthuria», nome que os portuguezes lhe deram e pelo que é conhecido, se bem que alguns escriptores inglezes lhe chamem «sea slugs» e de que ha duas qualidades, o preto, e o branco que é o mais estimado.
Ovos pretos (de gallinha ou pata conservados com casca coberta de cal no solo durante alguns mezes).
Manducos (nome vulgar de uma especie de sapos).
Salada de camarão secco, com conserva de pepino.
Cogumellos guisados.
Figados de gallinhas.
Peixe fresco.
Patas de tartaruga.
Mayonnaise de cogumellos.
Nervos de baleia (não foi possivel ficarmos sabendo a que parte do cetaceo dão os chinezes o nome de «nervos»)
Canja de arroz.
Arroz sêcco com molho picante.
Carne de cão (ensacada como chouriços)
Algas marinhas em geleia.
Kamecom (nome por que é conhecido em Cantão uma especie de espinafres).
Peixe salgado.
Aletria com cogumellos e presunto.
Ovos salgados de adens.
Caranguejos vermelhos.
Conservas picantes (entre outras a de rebentos da planta da mostarda).
Queijo fresco.
Maçãs e damascos com doce de calda.
Doce de ovos, pão de ló (de farinha de arroz), diversos folhados e bolos seccos.
Serviram-nos durante o jantar o vinho de arroz (bebido quente) a que dão o nome de «Tsué», e chá; (não fazem nunca uso do vinho de uvas, cerveja, café ou chocolate).
Terminado o banquete todos se levantaram para fumar uns opio e outros tabaco, voltando pouco depois para a mesa, onde foi servido novo jantar, quasi igual ao primeiro, e de que alguns convidados comeram como se só tivessem almoçado!
Não podemos afirmar que as differentes iguarias a que acima nos referimos fossem igualmente aquillo por que eram designadas. Mas outros convidados de quem nos não é licito duvidar, garantiram-nos que os nomes de todos os pratos traduziam a expressão da verdade, e que por isso o jantar devia ter sido carissimo, o que é a fórma por que os chinezes patenteiam a consideração que lhes merecessem os seus convidados.
Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo, 1898
Os ninhos comestíveis
A mais celebre de todas as andorinhas é a que construe os ninhos comestiveis, tantas vezes descriptos pelos viajantes, e que tão apreciados são no oriente, onde o seu commercio é assaz importante. Tem-se-lhe dado o nome de andorinha da China, porque ella habita as ilhas d’estes mares; outros chamam-lhe «salangana» ou «salanga», nome por que é conhecida nas Filippinas; e ha ainda quem lhe dê o nome de «Hirundo esculenta» em rasão da natureza do ninho.
Muitas lendas se têem escripto a respeito d’esta avesinha, chegando até a dizer-se que ella arrasta o ninho para as praias, e quando o vento é de feição, se faz ao largo no seu barquinho levando as azas abertas á maneira de velas. Por mais risonha e poetica que seja esta lenda não se póde acceitar senão como producto de uma imaginação romantica que foi ao «argonauta» buscar a poesia das suas viagens, pois que até hoje ninguem viu taes ninhos á superficie dos mares.
Alguns escriptores, porém, suppõem que ella faz o seu ninho com os productos extrahidos de uma especie de algas ou sargaços que ha nos mares do Extremo Oriente. Entre outros, o naturalista Poivre, antigo intendente francez nas ilhas de França e Bourbon, diz ter apanhado á superficie das aguas muitas ovas de certos peixes, e que depois de as ter seccado, n’ellas encontrara a mesma substancia de que são feitos os ninhos da Salangana; o que corrobora a opinião dos nativos das ilhas onde a andorinha se encontra, e que affirmam que esta apanha as taes ovas para fazer os ninhos.
A opinião de Poivre e o testemunho d’estes indigenas é de grande importancia, na verdade; mas ha um facto que faz com que duvidemos, não da sinceridade de um e de outros, mas de que sejam as ovas de peixe a materia prima dos tão apreciados ninhos. Estes encontram-se tambem nas profundas cavernas das altas montanhas que estão no centro da ilha de Java, e muito longe do mar; o que faz crer que as delicadas avesinhas, não sendo capazes de vencer os ventos tempestuosos que quasi sempre reinam n’aquelles montes, procurem para seu sustento, não qualquer substancia dos mares distantes, mas sim os innumeraveis insectos que voltijam sobre as aguas estagnadas d’essas cavernas, para o que o seu bico parece mais apropriado. O que é certo, porém, é que ou seja com este ou com outro sustento, a andorinha segrega e lança pelo bico um liquido branco e viscoso com que construe o ninho.
Sabe-se tambem que ella habita em cavernas profundas, nas ilhas dos mares da China e da Malasia, principalmente em Java e Sumatra. Os ninhos estão adherentes á rocha, revestindo ás vezes completamente as paredes das cavernas, e é ali que os ousados indigenas vão apanhal-os, suspendendo-se por meio de cordas, e correndo mil perigos sobre abysmos insondaveis. Têem estes ninhos a fórma de um ellipsoide cortado no sentido do eixo maior, adherindo pelo plano d’esse córte ás paredes das cavernas; e a sua substancia é, como já dissemos, viscosa, esbranquiçada e meio transparente, apresentando-se em filamentos muito delicados no interior, emquanto que a parte externa é formada de camadas concentricas muito delgadas, mas em grande quantidade, e muito resistentes.
Depois de seccos perdem a transparencia, tomando a consistencia de cera; e depois de fervidos assemelham-se ás tenras cartilagens dos animaes novos. Os ninhos mais apreciados são os apanhados ainda com os ovos, por serem os mais limpos, e se vendem pelo dobro do seu peso em prata.
Depois de seccos perdem a transparencia, tomando a consistencia de cera; e depois de fervidos assemelham-se ás tenras cartilagens dos animaes novos. Os ninhos mais apreciados são os apanhados ainda com os ovos, por serem os mais limpos, e se vendem pelo dobro do seu peso em prata.
Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898
Jardins de Macau, o alimento do coração
Dizem os chineses, cuja sabedoria em matéria de jardins tem mais de dois mil anos, que estes «alimentam o coração», contando-se que um imperador os percorria para «regularizar as emoções e descansar o espírito». Em Macau, os jardins adquirem importância especial dada a sua multiplicação por muitos recantos, resultando, na maior parte, de um cruzamento entre o conceito europeu e a tradição chinesa.
Sendo o território demasiado pequeno para comportar os jardins organizados em grandes espaços, tal como os portugueses haviam criado na Europa, vamos encontrar em Macau a tradição europeia recriada em canteiros geométricos, fontes ornamentais, bustos de homens famosos e jardins zoológicos em miniatura. (…) Rochas grandes e gastas pelo tempo representam montanhas e rochedos; tufos de pinheiros, ameixoeiras, bambú e salgueiros são florestas perenes; tanques com flores de lótus são lagos e a imensidade misteriosa dos campos do Oriente é sugerida por um labirinto de veredas que serpenteiam de forma a dar ao visitante um relance das partes diferentes do jardim.
A maior parte dos jardins é dotada de pequenos pavilhões abertos tradicionalmente dedicados à contemplação, descanso, escrita, etc. (…) Os jardins de Macau são extremamente cuidados por jardineiros ao serviço do Leal Senado, e neles é possível encontrar bem cedo e durante o dia, praticantes de «Tai Ké» ou jogadores, famílias com as suas gaiolas de pássaros, crianças, etc.
Um dos mais afamados jardins de Macau é aquele que foi baptizado com o nome de Luís de Camões, e onde existe a célebre «Gruta» (…).
Chama-se Jardim da Flora o maior de Macau. O seu nome tem origem no Palacio da Flora, antuiga mansão aristocrática portuguesa a que pertencia e que foi totalmente destruída por um incêndio nos anos 20. Entrando-se por uma porta de pedra ao lado da fonte com dois bocais em forma de cabeças de tigres chineses, pode seguir-se por uma alameda até um pequeno jardim zoológico. O jardim paisagístico é composto por filas de árvores locais e exóticas e um pequeno lago. (….)
De todos os jardins de Macau, o mais chinês é o Lou Lim Ioc, construído juntamente com uma casa vistosa de estilo ocidental por um rico mercador chinês do século passado (…). De início, foi construído segundo o modelo dos jardins de Suchan, os mais famosos de todos os jardins clássicos chineses. Rodeado por um muro alto, é uma paisagem em miniatura, com veredas estreitas, serpenteando por entre tufos de bambú e arbustos floridos, sob «montanhas» moldadas em cimento, às quais se pode escalar até um pequeno lago com peixes coloridos e flores de lótus.
Macau, a paixão pelas apostas
Foi na década de 30 que se iniciou em Macau a prática do jogo, com a roleta. Mas na história dos jogos de fortuna ou azar as primeiras referências surgem no século passado, apontando-se o Fantan como primeiro passo dado no sentido de criar salas de jogo, acompanhado do PahKao e do Mah-jong, que se praticavam nos restaurantes e clubes. Hoje Macau assiste a um surto importante de desenvolvimento na área do jogo que permite mesmo ser uma das principais fontes de receita da região, ali convergindo grande número de apostadores.
O Hotel Lisboa é um dos locais mais marcantes da prática de jogos de fortuna ou azar, mas as salas encontram-se disseminadas por praticamente todas as unidades hoteleiras. São onze os jogos autorizados nos casinos de Macau (…).
Mas não é apenas nos casinos que a população de Macau e não só revela a sua paixão pelas apostas e pelo jogo. As corridas de cavalos e de cães são outro dos seus atractivos. As corridas de cavalos começaram a ser exploradas regularmente em 1978, com a concessão exclusiva à Companhia de Corridas a Trote com Atrelados, realizando-se as primeiras corridas nesta modalidade em Agosto de 1980, no novo hipódromo da Taipa, um aterro conquistado ao mar pela companhia concessionária. Este hipódromo é o maior da Asia e representou um investimento da ordem dos 65 milhões de contos, ocupando a pista de corridas uma área de 450 mil metros quadrados e dispondo de uma capacidade para 18 mil lugares sentados.
Quanto às corridas de galgos disputam-se quatro vezes por semana e atraem um público de apostadores de estratos sociais mais baixos do que aqueles que acorrem aos cavalos. As bancas de apostas, espalhadas pela cidade, vivem intensamente os momentos que antecedem cada corrida, mas, disputada esta, parecem cair numa profunda letargia, com o abandono dos apostadores que seguem em aparelhos de TV as vicissitudes da prova.
Homem Magazine, Novembro 1994
O Casamento na China
(EXTRAHIDO DOS APONTAMENTOS DE UM OFFICIAL DE MARINHA)
Á porta de uma grande e nobre casa da rua mais commercial de Shanghae, pararam tres pessoas: dois velhos de barba branca e ares dos mais respeitaveis, e um mancebo, não tão bem vestido como os velhos, e com um volume ás costas. Bateram, e apenas entraram, o dono da casa veiu ter com elles e perguntou-lhes, com as saudações do costume, o motivo de sua visita.
Em vez de responderem, eis o que os velhos fazem: um abre o embrulho trazido pelo criado, o outro tira de uma carteira uma carta que o dono da casa se apressa a ler. Eis o conteúdo da carta, em conformidade com uma formula invariavel:
«Possam os manes dos vossos venerandos antepassados velar sempre sobre vós. Possaes vós ainda por muito tempo comer o vosso arroz. O presente escripto é para vos rogar que me envieis a vossa filha. Um lyrio tão puro e tão branco tem necessidade de um apoio para o seu tronco tão fragil e que um nadinha póde manchar. Quero ser esse apoio».
Feita a leitura d´esta pequena carta, o segundo velho apresenta ao pae uns sapatinhos de setim, uns alfinetes de ouro, frascos de essencias, ramos de flôres artificiaes, etc, tudo destinado á noiva. O papel que estes objectos desempenham é importante, porque acceital-os quer dizer sim e recusal-os quer dizer não.
O leitor ha de desejar saber quem são os velhos, e deve ter dito comsigo que um é o pae do mancebo e o outro algum parente proximo ou algum amigo da familia. Nada d´isso. São muito simplesmente agentes ou medianeiros de profissão, que teem uma qualificação correspondente em portuguez á de moços de recados matrimoniaes. São muito numerosos em toda a China estes sujeitos casamenteiros, e quando sabem que ha algum rapaz em estado ou com desejos de casar, disputam-n´o entre si, perseguem-o com o offerecimento dos seus serviços.
Ainda bem que em Portugal não ha d´estes agentes, porque, em vista da grande falta de rapazes que so queiram casar, e da extrema abundancia de meninas que pretendem noivo, o sexo forte soffreria uma perseguição atroz, e na verdade o ser perseguido por agentes de barbas, não ha de ser tão agradavel como ser perseguido por olhares e missivas de donzellas mimosas, segundo já tem succedido, não a mim, mas a pessoas do meu conhecimento.
Os taes agentes barbaçudos, para inspirarem mais confiança, dão-se uns ares respeitaveis e graves, como quem diz: nós somos de uma discrição... Geralmente fazem obra de empreitada, mas em caso de êxito, além da quantia que se estipulou, recebem quasi sempre bons presentes. Os dois industriaes que posemos em scena viram os seus offerecimentos acceites, e as bodas tiveram logar.
Emquanto duram estas, a noiva, sempre sequestrada, ainda mais rigorosamente fica sequestrada, e procedem de modo que se lhe torne impossivel ver aquelle a quem deve unir a sua sorte. O esposo é velho, moço, bello, feio, bem ou mal feito? Ignora-o, e esta ignorancia é de rigor.
Finalmente chega o dia do casamento.
A noiva, em cima de um rico palanquim, cuidadosamente fechado, é escoltada pela maior parte dos membros da sua familia, dirige-se para a morada do noivo, que a espera á entrada da porta, rodeado tambem dos seus parentes. Então ella apparece, ou melhor dizendo, apparece o seu vulto, porque um véo espesso lhe occulta o rosto. Avança receiosa para aquelle a quem vê pela primeira vez e com quem está destinada a viver até á morte. Então uma matrona arranca-lhe o véo, ella solta logo um grito, e põe-se a chorar. (O choro é de regra). O novo marido, porque já o é, deve manifestar a maior alegria.
Terminada esta scena convencional, dirigem-se todos para casa dos paes da noiva, onde tem logar a festa, que dura muitos dias com acompanhamento de musica. A partir d´então, a joven reclusa póde sair, livremente e sem véo, salvo se acertou com marido ciumento, porque então soffre a sorte de todas que teem maridos d´este genero, - tanto na China como na terra onde se vendem as laranjas da dita.
Carlos de Sepulveda
Jornal do domingo: revista universal, 8 de Maio de 1881
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Que se danem os casinos
À entrada do casino, o lustre de 21.000 cristais,
tecto com os 12 signos chineses,
Árvore da Prosperidade com mais de 2.000 ramos e 98.000 folhas de ouro de 24 quilates
e de bronze e Dragão da Fortuna.
Espectáculos das 10 às 2:00 da manhã, em intervalos de meia-hora,
com duração, respectivamente, de 7 e de 4 minutos.
Macau. Essa cidade metida ali entre os gigantes. Estás presa num tempo que não se conta. Tens a vida boémia e tresloucada dos casinos, a calmaria do Rio das Pérolas e a serenidade do teu pulmão verde, Coloane. Tens as vendedoras de frutas e legumes à beira rio, mesmo a um passinho do continente. Tens os montes verdejantes das ilhotas, que respiram o único ar puro que existe em ti. És tão bonita que não consigo descrever-te. Tens tanto em ti que não consigo expressar-me. Assolas-me e deixas-me muda. Deixame falar por favor. Deixa-me mostrar-lhes o quão perfeita tu és, quanta história tens encarcerada.
Maria Leonor de Seabra e Sá Machado em Narrativas da Transição – Um olhar sobre a transferência de poderes de Macau vista pelo jornal Ponto Final: 1996-2001, 2003
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