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Macau, cadinho de culturas e etnias

1923-1924, langdon warner 1923-1924, langdon warner
1923-1924, langdon warner langdon warner, 1923-24 
1923-1924, langdon warner 1923-1924, langdon warner
langdon warner 1923-24
Langdon Warner 1923-24
Biblioteca de Harvard

Arribado na década de cinquenta à então província ultramarina de Macau, fui de imediato conquistado pela cidade, pela sua maneira de viver e, principalmente, pela sua gente. Fadado (ou condenado), pela sorte ou pela geopolítica, a cadinho de culturas e etnias, o minúsculo enclave acabou por ser um porto de abrigo para gentes de mundos vários que aqui vieram parar por desvairadas razões: espírito de aventura e ambição pelo lucro fácil, refúgio às convulsões político-sociais da região e à loucura de uma guerra que lançara o mundo em fogo, evasão a problemas pessoais ou familiares ou inútil fuga aos demónios próprios de cada um. Ou, mais prosaicamente, por motivo de uma transferência administrativa decidida em algum poeirento gabinete do Ministério do Ultramar, sob as arcadas pombalinas do Terreiro do Paço. Foi o meu caso.

E assim foi que me vim a encontrar neste pequeno mundo de gente que me fascinou: a população chinesa fervilhante e laboriosa, refugiada numa cultura milenária (a meus olhos, ingénuos e ainda pouco tolerantes, impenetrável e algo barbárica), que ainda nessa época não cedia a valores ocidentais, a comunidade macaense, decaída de riqueza mas continuando a exibir uma certa prodigalidade e ostentação fidalga de outros melhores tempos, a minúscula comunidade de portugueses metropolitanos um tanto arrogantes na sua pseudo-pureza ariana e na posição funcional administrativa, e os demais elementos de tantas outras nacionaliades, etnias e culturas que, pelos azares da vida, tinham vindo aportar a Macau.

Duas palavras a jeito de prefácio em Requiem por Irina Ostrakoff de Rodrigo Leal de Carvalho. 1993

Em Macau, os exóticos são os portugueses

Macau, 11 de Junho de 1987.

Calçada portuguesa em MacauFaço o que posso para entender esta terra, mas não consigo. É tudo tão enigmático, tão movediço, tão ambíguo, tão labiríntico, que o tino perde-se a cada passo. Procura-se Portugal angustiadamente e não se encontra, apesar de as ruas terem nomes de figuras nacionais e de a estátua de Vasco da Gama se erguer a dois passos do hotel. Ninguém fala português, a população é chinesa, nos templos reza-se a deuses que não vêm no catecismo. Um espírito que nos é alheio comanda todos os gestos e motiva todos os sorrisos. 

Os exóticos, no meio da uniformidade amarela, somos nós. E, contudo, estamos aqui há quatrocentos anos. A fazer o quê? A construir o Farol de Nossa Senhora da Guia, o mais antigo das costas da China, que desde 1865 «ilumina com o seu brilho os mares circunvizinhos», a esculpir a fachada da igreja de S. Paulo, o mais extraordinário monumento sincrético do génio luso, e a teimar numa vocação ecuménica que nunca soube ser imperial. Temos febre de espaço, mas basta-nos a miragem da realidade. Corremos o mundo fantasmagoricamente, a deixar nele pegadas solâmbulas.

Diário de Miguel Torga. Vols XIII a XVI. 1999

Os portugueses europeus em Macau no séc XIX

Europeus portuguezes 

Este grupo é constituido principalmente pelos funccionarios publicos, civis e militares, podendo aggregar-se-lhes alguns, mas pouquissimos, negociantes. Estes elementos formam, por assim dizer, uma sociedade á parte; vivem uns com outros e conservam em geral, quasi todos os hábitos pátrios, com pequenas differenças, absolutamente impostas pelas condições do clima, etc, etc. 

A cozinha é pouco mais ou menos a que temos por cá; o vestuario pouco varia, a não ser no verão, em que se usam fatos brancos. Os homens passam as noites no club, ou no gremio militar, sociedades onde ha bilhares e partidas de jogo de vasa, cavaco, jornaes, e terraços para se tomar o fresco no estio. Hoje ha reunião em casa d´este, amanhã d'aquelle; de quando em quando, organisam-se diversões e merendas no campo, caçadas, etc, etc.; aos domingos toca a musica da guarda policial no passeio publico, etc, etc. 

Bastantes dos funccionarios públicos são convidados para casa dos macaistas e vão a festas, casamentos ou banquetes, dados pelos chins ricos. Os creados que nos servem são todos chinas, tornando-se difficil ao europeu obter creados, mas arranjando-se em compensação, bons cozinheiros e espertos ataes (rapazitos), que remedeiam perfeitamente. A necessidade de lidar com serviçaes chinezes obriga a dizer algumas palavras em china, quando elles não fallam portuguez. Eis as principaes cousas que é preciso aprender: 

português e chinês
português e chinês

Conclusão - Uma vez que acabámos de esboçar a traços largos os característicos dos habitantes de Macau, parece lógico que fechemos o trabalho por uma rápida vista de olhos sobre o conjuncto da cidade, que serve de theatro e albergue a todas estas manifestações de vida e tem permittido a perpetuação dos costumes e tradições a que nos referimos. 

A cidade do Santo Nome de Deus é de um accidentado, que torna pittoresca a sua topographia; cingida entre a rada e o porto interior, e ligada á terra firme por um del- gado isthmo, logra desfructar das eminências panoramas variados, ora aprazíveis, ora grandiosos. (…)

Se os acontecimentos, a fabrica de casas, a construcção de ruas e os limites antigos estremam Macau em cidade christã e bazar, não é menos certo que a labuta da vida, o transito, os pregões, as lojas, etc, etc, imprimem tambem cunho diversissimo ás duas partes heterogeneas da população. Concedamos mesmo que haja um campo neutro, representado pela confluencia das primeiras arterias do bazar com as vias publicas limitrophes da area christã, ainda assim, não poderemos deixar de ver extremados os dois burgos. Aqui teremos todos os topicos de uma antiga povoação portugueza, com as suas casas alvas, passeio publico, calçadas e calçadinhas, igrejas typicas e repiques de sinos; acolá um pequeno Cantão, onde avulta o commercio, se põem em evidencia panchões, papeis encarnados, bambus, letreiros exoticos e balões de illuminação. 

Na cidade christã, a placidez dos habitos portuguezes, porventura ostentosos por fora, todavia pautados pela suave apparencia do viver de familia; no ambito do bazar, o movimento, o ruido, a azafama e o tumultuar de ambições, escondendo muita miseria e ignominia. E eis, em resumo, as duas feições de Macau.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897  

Apresentou-se-me hoje um filho do antigo general de engenheiros, Azevedo e Cunha, que vive em Macau ha longos annos. É sympathico este moço e parece intelligente, mas está prematuramente gasto e envelhecido, e a sua longa permanencia na China tem-lhe feito adquirir habitos puramente chinezes, fallando já correctamente o chinez, e trajando como um verdadeiro filho do Celeste Imperio. (…)

Depois de haver visitado diversos estabelecimentos chins, achando-me já fatigado e sob a impressão de um calor tropical, que me trazia offegante e em um completo banho de suor, voltei ao hotel para, á hora conveniente, me dirigir ao palacio do governo. O jantar, a que assistiram duas damas e oito a dez convidados, correu deleitosamente, tendo tido mais uma vez occasião de apreciar a distincção e a delicadeza com que o governador fazia as honras da casa. (…) De entre os cavalheiros que me foram apresentados deverei especialisar o consul de Hespanha, D. Enrico Gaspar, litterato distincto e espirito vivo, gracioso e fino; o tenente Talone, official da armada, tão intelligente como modesto; o tenente Bento da França, filho do mallogrado e sympathico official do corpo do estado maior, Salvador da França. Estes foram convivas ao jantar, e fazem parte da sociedade mais intima e dilecta do governador. (…)

Nas horas vagas dos meus trabalhos procurava os cavalheiros que me haviam cumprimentado, e acceitava os jantares com que me obsequiavam. Eram jantares familiares muito agradaveis, mas que me contrariavam por me fazerem alterar o meu proposito de viver isolado. Jantares bem servidos, com a cozinha genuinamente portugueza, e de uma abundancia de assustar um frade. Todavia, esses jantares poupavam-me as horas amarguradas do meu hotel, onde me via completamente só e isolado. (…)

No club chinez, onde entrámos, fomos recebidos com todas as demonstrações de consideração e amabilidade pela fina sociedade chineza de Macau, que o frequenta. Ali se joga, toma chá, fuma-se opio e trata-se de negocios. Alguns d´estes homens têem maneiras distinctas e physionomias sympathicas e intelligentes. (...)

No largo do Senado. O largo em que está este edificio é pequeno e triangular, ficando-Ihe proximo e nas trazeiras da rua dos Mercadores o mercado da cidade. (…) a agua e a lama corre por toda a parte; e, comtudo, a concorrencia é enorme, o bulício de ensurdecer, e a abundancia e a variedade de objectos à venda extraordinaria, muito especialmente peixes, vivos, mortos, seccos ou salgados, das mais variadas e exquisitas fórmas, cores e feitios. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

O comité interparlamentar de Hain-You-Kia

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 

Recebemos a visita do sr. Hain-You-Kia, jornalista chinez, que anda pela Europa no patriotico empenho de interessar pela sua joven republica os intellectuaes do velho mundo. Pensa o sr. Hain-You-Kia em organisar aqui um comité interparIamentar, analogo ao que organisou e está funccionando em Paris, e a nós parece-nos que a sua tarefa será extremamente facil. Agradecendo a amabilidade da visita, apresentamos ao íllustre hospede os nossos cumprimentos. (Da Lucta). 

O sr. Hain-You-Kia trazia na relação dos intellectuaes do velho mundo, o nome do sr. Brito Camacho, e assim que chegou a Lisboa dirigiu-se á redacção da Lucta em procura do chefe do partido unionista. O illustre chinez subiu ao primeiro andar e quando estava hesitando por qual das portas do sumptuoso palacio deveria entrar em busca do director d’aquelle sympathico diario, vendo um homenzinho encostado ao corrimão, descuidadamente catando o peito pela abertura da camisa, dirigiu-se-lhe pedindo obsequioso:
- Diz-me onde está o sr. Kiamatchum?

O eminente catador parou um momento na sua tarefa e, olhando mal humorado o seu interlocutor, retorquiu:
- E o que é que o cidadão lhe quer?
- Trago aqui o nome d’elle apontado como sendo um intellectual e desejava ouvil-o. Disseram-me lá fora que o sr. Kiamatchum é pessôa de grandes bases scientificas...
- Scientificas, scientiticas, não direi... Mas... Olhe, faça favor d´entrar.

O sr. Hain-You-Kia, acompanhado pelo seu guia, entrou n’um gabinete pequeno, onde grandes montes de livros e jornaes se encontravam adornando o chão.
- Obsequeie-me então chamando o sr. Kiamatchum, sim?
- O ... elle... Sou eu... Eu é que sou o Camacho...
- Oh!... Mas... Estava longe de suppôr..!
- Nada d’incommodos, senhor... Como é a sua graça?
- A minha quê?
- O seu nome … a alcunhasinha por que o cidadão é conhecido?
- Ah! Eu sou o Hain-You-Kia, jornalista chinez.
- Muito gosto, muito gosto em conhecer o colega. Pois faz favor de se sentar e pôr-se á sua vontade. Nada de cerimonias… arróte, cuspa … emfim o que lhe apetecer …
- Oh! Mas quem pensa o senhor que eu sou?
- Ora essa! Então os senhores na China não arrotam? Nem cospem? Nem … Pois olhe eu acho uma maçada estar constrangido. Com sua licença, sim? — e o eminente director da Lucta desabotoou o ultimo botão do colete e soluçou forte.

O jornalista chinez voltou disfarçadamente o rosto para o lado e logo que recuperou a serenidade necessaria declarou:
- Pois sr. Kiamatchum, eu vinha para…
- Para se inscrever na União, não é verdade? Com muito prazer. Já não é o primeiro chinez que cá tenho. Pois vem em excellente occasião porque nós estamos á bica do poder...
- Perdão, o fim da minha visita é outro... Desejava…
- Uma assignaturasinha da Lucta? Tambem serve. Um anno? Seis mezes? Provavelmente quer collecionar o folhetim do D. Quichote? Aqui para nós que ninguem nos ouve, a ideia do folhetim foi por piada ao Affonso...
- V. ex.ª está equivocado. A minha missão é differente... Queria conhecer...
- O João de Menezes, aposto? Olhe meu amigo, eu vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Aquelle pequeno foi durante muito tempo a minha esperança. Tinha-me habituado a elle quando era novo e, francamente, por mais desanimado que me encontrasse, o João tinha sempre forma de me dár energia. Mas ultimamente, desde que começou com o hysterismo…
- Repito que v. ex.ª está equivocado. Eu venho por causa do comité interparlamentar…
- Ah agora, entendo! Mas é justamente essa a minha especialidade. Olhe, para lh’o provar basta ver como eu manobro com o Affonso nas camaras. Provavelmente o amigo quer arranjar assim um combalachosinho lá na China e vem para eu lhe explicar...
- Ainda não é isso. Ora escute-me o sr. Kianiatchum um instante apenas. O meu desejo é de organisar hum comité como está funccionando em Paris...
- Paris! Paris! Ah! Meu caro collega, que recordações essa palavra veiu invocar no meu espírito?! Paris! Foi lá que eu soube o que era a vida, a verdadeira vida vista por todos os lados! Emfim, toda a medalha tem reverso, e a minha tem o reverso já bastante cheio de desilusões!... Perdõe, collega, perdõe este desabafo e continue... - e o sr. Camacho, vivamente comovido, limpou o nariz á manga do casaco.
- Em duas palavras exponho o resto. Esse comité tem por fim o estreitamento de relações entre a China e a Europa, e para conseguirmos esse desideratum muito util nos será que os intellectuaes do velho mundo, como v.ex.ª...
- Perdão, sr. Hain-You-Kia. Vejo que se enganou. Eu não sou do Mundo, sou da Lucta e nada quero com aquelles cavalheiros. Comprehende que depois do que se tem passado entre mim e o Borges …
- O Borges?! Não conheço…! Não sei…
- Pois não me fallou nos intellectuaes do Mundo? Intellectuaes?! Mas certamente é porque o meu amigo os não conhece! Olhe que são burríssimos…
- Ha certamente um novo equivoco. Eu refiro-me aos intellectuaes europeus...
- Ah! Ora... eu pensava... Pois ainda bem, porque então não tinhamos nada feito. É então um comité para estreitar relações com a China?
- Isso mesmo.
- Mas é extremamente facil...
- Tem então este paiz muitos intellectuaes?
- Este paiz é modo de dizer. A republica, o partido republicano, esse sim. Creio mesmo que não ha outro egual em toda a Europa. 
- Queira então ter a bondade de me indicar alguns, sim?
- Ora essa. Olhe, aponte lá já d’entrada esta meia duzia: Rodrigo Rodrigues, Nunes da Matta, Gastão Rodrigues, Celorico Gil, Thomaz da Fonseca, Souza Junior...

Minutos depois o Sr. Hain-You-Kia retirou-se da redacção da Lucta e no dia seguinte dirigiu-se ao ministerio do Interior a continuar a sua tarefa, conforme o apontamento fornecido pelo Sr. Brito Camacho.

Mas o Sr. Rodrigo Rodrigues pediu ao illustre chinez que esperasse um pouco emquanto elle attendia â correspondencia verbal e... o Sr. Kia fugiu espavorido n’essa mesma tarde, no Sud-Express, anotando na sua carteira:
- Ouvi dois e chegou-me para ficar perfeitamente inteirado.

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913

A medicina chinesa por Castro Sampaio

Macau Macau

N’uma obra recentemente publicada em Macáo pelo Sr. ManoeI de Castro Sampaio - Os Chins de Macau - encontramos a seguinte curiosa noticia da medicina chinesa. Eil-a:

Os livros de medicina existem entre os chins desde uma época muito remota. O primeiro individuo que tratou deste assumpto, foi o soberano Fuhy. A sua obra, que não passa de um imperfeito tratado de botanica, escreveu-a 2852 annos antes de Christo. O successor deste principe, que foi Inty, o soberano Xennung, cognominado pelos chins o divino agricultor, não o succedou sómente no governo da China, mas tambem na propensão para a medicina. Assim, tomando por base o tratado do seu predecessor, deu-se a diversos estudos, e compoz uma arte de curar. Desde então tem apparecido na China um sem numero de obras medicas, escriptas por differentes auctores; mas os tratados considerados como principaes são apenas cincoenta e sete, sendo de maior credito e nomeada o do medico Hoat’o, nascido no tempo da dynastia Han, que começou 202 annos antes da era vulgar. Por estes tratados estudam os que se dedicam á profissão de curar, mas o estudo que fazem é particular, recebendo explicações dos que já se acham em exercicios clinicos, e praticando mesmo com elles, porque nenhuma escola há, onde possam ter um curso regular. 

Sómente os que são destinados para medicos do paço do imperador é que cursam os estudos com alguma regularidade, porque são admitidos no collegio imperial, onde, na qualidade de estudantes e praticantes, vão, sob a direcção de medicos que alli ha, adquirindo a teoria de envolta com a pratica, até que, sendo julgados com habilitações bastantes, passam por um exame. E uma vez aprovados, o parecer dos examinadores é submetido á sancção do imperador, o qual ordinariamente os manda nomear medicos ajudantes no aludido collegio, para mais tarde passarem a medicos do paço imperial.

Os facultativos chinezes são chamados em Macau mestres chinas. Há muitos residentes nesta cidade (…) e alem destes, ainda diversos outros por aqui apparecem de visita de tempos em tempos. Em todos elles ha um manifesto charlatanismo. Porém as doenças triviaes curam-nas bem e com facilidade. Para tratar de entorses, deslocações e fracturas, são verdadeiramente habeis. Ha casos de fracturas em braços e pernas, em que qualquer facultativo europeu votaria immediatamente pela amputação; e comtudo elles lhes sabem dar cura com admiravel resultado. 

Os mestres chinas capitulam as doenças, como os medicos europeos, isto é, pela historia pregressa dellas e pelo quadro symptomatico, observando o pulso, a lingua, etc. É curiosa a maneira porque tomam o pulso. Com a mão direita tomam o pulso esquerdo, e com a esquerda, tomam o direito, fasendo a sua observação com tres dedos, o índex, o do meio e o annelar. Com o index, que dos tres é o que deve ficar sempre mais proximo da mão do doente, na direcção do dedo pollegar e junto á articulação radio-carpica - o facultativo observa em geral o estado do thorax ou peito, e em especial o dos pulmões e do coração. Com o dedo medio observa em geral o estado do abdomen ou ventre, e em especial o do estomago, do figado e do fel. Com o dedo annelar finalmente observa em geral o estado do pelvis ou bacia, e em especial o dos intestinos, dos rins e da bexiga. Pelo que respeita ao baço e diversas outras entranhas, parece estarem ellas ainda fóra do alcance da medicina chineza.

Todos os tratados principaes fallam destas regras de tomar o pulso. O primeiro auctor que as apresentou foi Hoangty no seu livro, intitulado Questões Simples. E o primeiro, que as poz em pratica foi Ghiniuejen auctor do tratado, denominado Questões Difficeis. Os auctores são unanimes em dizer que no pulso existem tres pontos distinctos, pelos quaes se póde com os tres precitados dedos fazer as observações que acabamos de referir. (…)

Nas suas prescripções medicas, os principios medicamentosos são sempre acompanhados dos dieteticos. Os seus medicamentos são quasi todos vegetaes. Destes conhecem eIles um numero infinito; mas pouquissimos são os remedios animaes e mineraes que conhecem, e esses raras vezes os applicam. Tambem não têem conhecimento de operações, apenas fazem uma especie de acupuncturas, rompendo a derme com umas agulhas especiaes. Mesmo para tirar dentes nos consta que nem sempre empregam ferros. Dizem que, por meio de uns pés mui subtis que applicam ao dente que devem tirar, conseguem fazel-o cahir, e informam-nos de que estes pés são compostos de ossos humanos e urina de camello.

As sangrias e sanguesugas são applicações que elles não fazem, até ignoram. Applicam sudorificos, purgantes, vomitorios, adstrigentes, tonicos e emollientes; e bem assim differentes topicos, como ventosas, vesicatorios, emplastros, cataplasmas e fricções seccas ou com algum liquido espirituoso, etc. Finalmente applicam tambem banhos, e aconselham passeios ou agasalho e resguardo das intemperies atmosphericas, usando de boas palavras, que consolem e animem os enfermos. Os mestres chinas, porém, não se applicam geralmente ao tratamento de todas as doenças: há uns que se dedicam particularmente á cura de umas, e outros á de outras. Assim ha facultativos para doenças internas, ha outros para as externas, outros para o tratamento de creanças, outros para o de adultos, outros para o dos velhos e até alguns se applicam sómente a tratar das doenças do sexo feminino.

Archivo de Pharmacia e Sciencias Accessorias da India Portugueza, 1869

A fleuma dos chinas

Beco do Coral
Altar no Beco do Coral

Hum europeo, tendo na sua primeira viagem a Cantão comprado varias fazendas a hum china, conheceo, quando este lhas mandou para bordo, que havia falsificação na qualidade e no peso das fazendas, e apezar de estar o negocio de todo concluido, foi outra vez a terra procurar o seu homem, lisongeando-se de que por meio de representações moderadas ou de seu enfado, obteria alguma diminuição no preço convencionado. Chegando pois a casa delle disse-lhe. 
- «China, vendeste-me pessimas fazendas»
- «Póde ser», respondeo o china; «mas não ha remedio senão paga-las»
- «Tu illudiste as leis da justiça, e abusaste da minha confiança»
- «Pode ser, mas não ha remedio senão pagar»
- «No entanto és hum velhaco, hum miseravel»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».
- «Que opinião queres tu que eu dê, quando chegar á minha terra, da inteireza tão nomeada dos chinas? Só poderei dizer que elles são todos huma canalha»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».

O europeo exasperado por estas inalteraveis respostas, enfureceo-se, e depois de o ter injuriado por todos os modos, sem lhe poder tirar outra palavra mais do que «Póde ser; mas não ha remedio senão pagar», julgou acertado abrir a bolça e dar o dinheiro. Então o china, tendo o recebido, disse:
- «Europeo, em logar de te esfalfares a injuriar-me, como acabas de fazer, valia mais haveres-te calado, e principiares por onde acabaste. Porque, com tudo quanto disseste não ganhaste coisa alguma!»

Archivo Popular, leituras de instrucção e recreio, semanário pintoresco. v.1 (1837).

Lin Fong, um dos principaes templos

templo de Lin Fong 1
Saí logo de madrugada para as Portas do Cerco. De entre os templos da religião chineza em Macau é o d’este logar um dos principaes. Levanta-se em um grande adro, cercado por uma vedação de cantaria, onde se ostentam umas velhas arvores. O edificio, que tem accesso por uma escada de cantaria bem lançada, guardada de cada lado por um dragão de pedra, apresenta o typo caracteristico da architectura chineza, e tem entrada por tres portas, formando-lhe a fachada tres corpos, dos quaes o do centro é mais elevado. Animaes phantasticos e monstros impossiveis, estão alastrados pelas paredes, em estuques ou pinturas, e grande numero de tábuas vermelhas têem escriptas, em caracteres chinezes, maximas e sentenças da religião de Budha, ou pensamentos e theses da sabedoria chim. Nos altares, ornados com esculpturas de madeira e douradas, queimam-se em grandes vasos de cobre, alguns de fórmas elegantes, papeis encarnados ou pequenas vélas, a que chamam lamp-choes, e uns pivetes de côr. Os bonzos, que são os sacerdotes da religião chim, e que andam rapados e sem rabicho, perpassam por ali com a mesma irreverencia, com que os nossos sacristães andam nas igrejas portuguezas como em sua casa. Os devotos batem cabeça, ou jogam com um pausinho, que atiram repetidas vezes ao chão, e que, da maneira por que fica, tiram auspicios e agouros para o assumpto que os preoccupa. A grande batega, ou tam-tam, pende de um lado do tecto, emquanto do outro está suspensa urna sineta.
templo de Lin Fong 17templo de Lin Fong 16 

Sobre os altares ostentam-se os mais extraordinarios e risiveis idolos, ou mettidos em nichos, affectando umas formas iracundas, flamejantes e de sobr´olho carregado, ou bonacheirões e felizes, com um riso alvar. Tem tudo aquillo um aspecto muito singular, mas que nem aos chins, nem aos estrangeiros infunde respeito ou veneração. 

Comecei os meus trabalhos sob um calor intenso, e cercado de uma infinidade de creanças, quasi todas nuas, e a quem de vez em quando dava algumas moedas de 10 avos. As creanças corriam loucas de contentamento com o seu thesouro, e as velhas, tostadas e miseraveis, com quem tinha iguaes generosidades, não se cansavam de fazer-me mesuras, e de soltarem exclamações monosyllabicas, gutturaes e desagradaveis. É que, depois do jogo, a maior paixão do chim é a do dinheiro.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896.

Macau n´um livro escripto em lingua sueca

Macau A Gruta de Camões
Camões em Macau
Como sei que o meu illustre amigo muito se interessa por tudo que diz respeito ao Oriente, e é verdadeiro enthusiasta por tudo quanto se refere á nossa bella colónia de Macau, venho falar-lhe de um livro que V. talvez desconheça, e que o acaso me deparou. Estando eu na livraria Pereira da Silva, da rua dos Retrozeiros, onde tenho o prazer de me encontrar com V. amiudadas vezes, alli me veiu ás mãos um livro escripto em lingua sueca, sem frontispicio e tendo na lombada o distico: Museum Utgifvet af Mellinoch Thomson e que por curiosidade adquiri. Contem este livro uma muito interessante collecção de monographias universaes, tendo algumas d'ellas por assumpto descripções de Lisboa e Macau, acompanhadas, além d outras, de três estampas que representam a cidade de Macau, a gruta de Camões e o retrato do nosso grande épico em corpo inteiro, de pé e junto á gruta. (…) Como possuo quasi todos estes exemplares, foi com grande satisfação que juntei á minha collecção o livro Museum, cuja traducção da referencia á obra do nosso Poeta, lhe envio para V. fazer o uso que entender. Com um aperto de mão, e com a maior consideração e estima, e mil agradecimentos por todos os obséquios por V. dispensados, creia-me De V., etc,
Luis do Rego B. da Fonseca Magalhães da Costa e Silva.

Traducção. 

Camões em MacauA estampa 195 representa a vista de Macau com o convento da Guia e fortaleza, assim como com o palacio episcopal n'uma das alturas. A cidade estende-se em semi-circulo, em volta duma bahia regular.

Encontram-se nella muitas egrejas e conventos. Não se pode vêr sem commoção, na egreja de S. Paulo, a sepultura que ainda ahi se conserva da joven russa, a qual n'ella descança, depois de ter seguido o audaz aventureiro conde Beniowski na sua fuga das prisões de Petropawlowski. Morreu ella de dôr, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificara patria e familia era casado (estas tristes aventuras são bem conhecidas até em toda a Suecia, para que tenhamos necessidade de n'ellas insistir).

Mas em Macau encontra-se ainda outra coisa digna de vêr-se, que desperta grandes recordações. No alto d'um rochedo existe um terraço coberto, do qual se gosa uma esplendida vista sobre Macau inteiro e a sua enseada coalhada de innumeraveis barcos. N'esse rochedo está escavada uma gruta. Junto d'ella vê-se um banco de pedra e alguns arbustos. É com commoção que ficámos sabendo ter ahi terminado o maior poeta de Portugal, Camões, a sua obra prima os Lusíadas (a mesma estampa). O nobre portuguez, inspirado pelo romantico cavalheirismo do seu tempo e pela fé piedosa, reuniu na sua epopeia os ensinamentos do christianismo e as figuras da mythologia, cantando a nova e maravilhosa natureza, que a coragem dos seus conterraneos lhe tinha feito conhecer. Foi um altivo sentimento de confiança na immortalidade da sua obra, que lhe fez palpitar o peito quando elle naufragou n'aquellas costas e abandonar tudo quanto possuia ás vagas, com excepção do manuscripto dos Lusiadas, ainda incompleto. Salvou-se a nado, levando a sua obra levantada sobre a agua.

Ainda que elle morreu mais tarde pobre e abandonado na sua patria, foi elle o mais distincto europeu que visitou esta terra. Damos (estampa 37) um esquisso do bello quadro de Gérard, representando o grande poeta no acto de compor o final da sua obra. O professor Forssel reproduziu o mesrno quadro n'uma explendida gravura digna do seu afamado buril
.

Ta-ssi-yang-kuo, Archivos e annaes do extremo oriente portuguez, Série II. Vol III

Macau, 20 de Dezembro de 1999


Macau
para que o tempo não fuja
como uma pérola na ponta de um fio
para que o amor não naufrague
na noite escura dos mares da china
colarei o meu corpo em qualquer mapa
dos lugares por onde andares
e elevarei o meu coração
sobre os céus desses lugares

de macau ficará o desejo de partir
quando eu me sentir só dentro de ti
ou souber que nenhuma outra chave
se ouve rodar na porta das tuas noites
ou se o branco das tuas folhas de papel
não se abre mais às cores dos teus dias
ou ao canto que sussurra na tua alma

Rui Rocha em A Oriente do Silêncio, 2012

Em Macau, ouvi o som doce da língua do meu país

Macao

De volta a Hong Kong, fiquei na mesma pousada e, sendo-me forçoso tratar de vários assuntos, aqui permaneci alguns dias e aproveitei a oportunidade não só para conhecer este lugar como a cidade portuguesa de Macau e a China, indo a Cantão, cidades localizadas no continente e a algumas horas de distância. (...) 

Apanhei o vapor que diariamente parte para a colónia portuguesa de Macau e, depois de três horas de viagem, deveria aguardar no cais o carro do Visconde de Cercal, rico proprietário daquela cidade que tinha conhecido em Hong Kong, bem como a seu filho, e que me levaria à pousada, pois eu recusei o convite que me tinha feito para me hospedar em sua casa. E como o Cônsul também veio com o seu, para não desagradar, separei-me dos secretários que me acompanharam nessa pequena viagem de lazer e fizémo-nos transportar em carros diferentes.

Depois de me ter instalado na pousada, um assessor do general Antonio Sérgio de Souza, vice-almirante da marinha portuguesa e governador da colónia, veio saudar-me em seu nome. Este oficial era sobrinho do Visconde de Balsemão que eu tinha conhecido havia anos quando era ministro plenipotenciário de Portugal em Madrid, e que é ainda parente de algumas famílias a que também tenho a honra de pertencer naquele reino.

Fiz uma visita de cortesia ao general governador que, imediatamente, a devolveu, convidando-me para um jantar oficial que pretendia dar em minha honra e no qual participariam todas as autoridades e pessoas de distinção da cidade (…). 

O juiz nomeado para Moçambique, e que então exercia em Macau as mesmas funções, disse-me que conhecia uma irmã minha, quando lhe contei ter estado em Monção, vila de Portugal na fronteira com a Galiza e localizada na margem esquerda do Minho, que com o seu marido e a família morava numa casa de campo junto à beira do rio, no lado oposto. Também falámos sobre outro meu parente português, o Barão do Hospital, D. Joaquim de Queiroz, cuja casa ficava perto da da minha irmã e de quem eu fiquei muito próximo quando emigrei para aquele reino, e a quem devo muitos favores, misturando-se assim na minha imaginação os obséquios que me presenteavam e as boas memórias daquele amado país que na minha mente esta conversa evocava.

Macau situa-se na margem de um grande rio, formando entre este e o mar uma pequena península ligada ao continente por uma língua muito estreita de terra, na qual há um arco monumental, erguido à memória dum governador português, assassinado à traição por chineses. 

Muitas das casas da cidade estão cercadas por belos jardins. No do visconde, vi árvores que produzem frutos como o tomate e que na minha primeira passagem por Hong Kong já tinha visto no consulado e reparado como eram grandes; tinha-me impressionado o facto de pender em abundância da sua coroa redonda o belo e encarnado fruto, formando uma imagem muito agradável. No jardim de outro cavalheiro, o Sr. Marques, vi uma fruta diferente, amarela, tão grande como uma abóbora e, ao contrário de outros frutos, que geralmente pendem das pontas dos ramos, nascia no próprio tronco. 

Ali mesmo, o amável proprietário mostrou-me a famosa gruta chamada Camões, localizada na extremidade de uma pequena saliência rochosa e, como tem três aberturas numa espécie de arcos naturais, um de cada lado e um de frente, tem a aparência de um alpendre campestre e, mais que uma gruta, parece um miradouro, porque o Sr. Marques a murou com grades de ferro e colocou, na coluna central, versos do poema imortal Os Lusíadas. Por tradição, diz-se que foi naquele lugar que o divinal poeta escreveu e ali seria certamente, porque os seus versos estão cheios da voluptuosidade do ambiente e parecem exalar o aroma da vegetação luxuriante daquele paraíso. (…)

Por certo não foi o poeta inspirado no que lhe era oferecido aos seus olhos, pois não são as faces de Macau de um tipo de beleza que se possa achar sedutora. Acho que deve ser da mistura de raças: português, chinês, mestiços africanos, gente de Goa que, unidos em amoroso consórcio, criaram o que actualmente se nota entre as classes populares daquela cidade. Isto não quer dizer que não há excepções e aparências de pura e bela raça europeia, como é o caso da Baronesa do Cercal e de outras senhoras e cavalheiros.

Como o cargo em que estava nomeado não me permitiu, por mais que me desagradasse, deter-me em qualquer sítio, foi com pesar que deixei a cidade onde ao carinho com que fui tratado se juntou o doce som daquela língua que tanto ouvia no meu país, pois entre Portugal e a Galiza há uma ligação que a natureza não separa. Nem ali, nem em toda a linha de fronteira das duas nações. (...) 

Passei alguns dias muito agradáveis entre estas pessoas que considerava compatriotas e com desgosto, quase como se, novamente, saísse do meu país, deixei a cidade, tendo o general a atenção de vir buscar-me à pousada no seu carro para me levar ao cais onde me esperavam vários cavalheiros que também tiveram a amabilidade de se virem despedir de mim. Fizeram-me honras militares. Assim, apanhei o vapor para Hong Kong a ouvir treze tiros de canhão que me fizeram a saudação de honra numa despedida que nunca esquecerei, bem como se manterá viva na minha memória a bondade com que fui aqui tratado. 

Los países del Extremo Oriente de Juan Manuel Pereira (tradução livre), 1883

Macau pelo Conde de Lapérouse

As acusações que Lapérouse faz aos chineses, de nos cobrirem de injúrias justificadas pela fraqueza do governo português de Macau, não será completamente conforme a verdade. Por dentro de uma atitude há uma razão mais forte. Os portugueses foram em Macau hóspedes muito bem adaptados às leis da convivência, que não era, positivamente, feita de lições de honra. A corrupção era e é uma forma de linguagem. Com ela se ultrapassaram regras e se consolidaram acordos. Além disso, uma confiança feita na meia delinquência da cumplicidade é forte como o aço. Ela leva os homens a ser mais amigos do que se fossem unidos por laços de sangue.

A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999

Panorâmica de Macau na China.
Panorâmica de Macau na China. 
Desenho de Duché de Vanchy 
da 1ª ediçao da Voyage de La Pérouse autour du monde

Os chineses que nos guiaram ate frente a Macau recusaram-se a conduzir-nos ao ancoradouro da Typa (...); soubemos que se eles tivessem sido avisados, o mandarim de Macau ter-lhes-ia exigido a cada um deles metade da quantia que tinham recebido. Estes tipos de contribuição são de uma forma geral precedidos de várias pauladas; este povo cujas leis são tão gabadas na Europa, é talvez o mais infeliz, o mais humilhado e o mais arbitrariamente governado que há na Terra, se, contudo, se julgar o governo chinês pelo despotismo do mandarim de Macau. (…) 

Mandei a terra um bote comandado pelo Sr. Boutin para avisar o Governador da nossa chegada e anunciar-lhe que pretendíamos fazer uma estada na rada a fim de nos refrescarmos e dar descanso às nossas tripulações. O Sr Bernardo Aleixo de Lemos, Governador de Macau, recebeu este oficial da maneira mais cordial possível (…). Ancorámos ao lado de um navio da marinha francesa (…). 

O Sr. De Lemos recebeu-nos como compatriotas; todas as autorizações foram concedidas com uma honestidade que não há expressões para descrever; ofereceu-nos a sua casa; e como ele não falava francês, a sua esposa, jovem portuguesa de Lisboa, servia-lhe de intérprete; acrescentava às respostas do seu marido, uma graça e uma amabilidade muito próprias, e que os viajantes só muito raramente encontram nas principais cidades da Europa. 

Dona Maria de Saldanha tinha casado com o Sr. De Lemos em Goa havia doze anos e eu tinha chegado a esta cidade (…) pouco tempo depois do seu casamento: ela teve a bondade de me recordar este acontecimento que estava muito presente na minha memória (…), chamando de seguida todos os seus filhos (…). Em parte alguma do mundo se me ofereceu um retrato tão encantador; as mais belas crianças rodeavam e abraçavam a mais encantadora mãe; e a bondade e a meiguice desta mãe espalhava-se por tudo quanto a rodeava. (…) 

Como se está tão distante da China em Macau como na Europa, pela extrema dificuldade em penetrar neste Império (…) limitar-me-ei a descrever o relacionamento dos europeus com os chineses, a extrema humilhação que eles sofrem, a fraca protecção que podem receber da presença dos portugueses na costa chinesa, a importância, finalmente, que poderia ter a cidade de Macau para uma nação que se conduzisse com justiça, mas também com firmeza e dignidade, contra o talvez mais injusto, mais opressor e, ao mesmo tempo, mais cobarde governo que existe no mundo. (…) Não se bebe na Europa uma chávena de chá que não tenha custado uma humilhação aos que o compraram em Cantão, que o embarcaram, e navegaram metade do globo para trazer esta folha aos nossos mercados. (…) 

Os portugueses têm ainda mais razões de queixa dos chineses do que qualquer outro povo; sabemos a que título respeitável eles possuem Macau. A dádiva do estabelecimento desta cidade é um monumento do reconhecimento do imperador Camhy; ela foi dada aos portugueses por terem destruído, nas ilhas em redor de Cantão, os piratas que infestavam os mares e devastavam toda a costa da china. (…) Cada dia os chineses fazem-lhes novas injúrias, a cada instante anunciam novas pretensões; o governo português nunca ofereceu a mínima resistência e, este lugar, onde uma nação europeia que tivesse um pouco de energia, se imporia ao Imperador da China, mais não é que uma cidade chinesa, na qual os portugueses sofrem, apesar de terem o direito incontestável de aí mandar e os meios para se fazerem temer se mantivessem apenas uma guarnição militar de dois mil europeus, com duas fragatas, algumas corvetas e uma galeota armada. (…) 

A população inteira de Macau pode ser estimada em vinte mil almas, das quais cem portugueses por nascimento (reinóis?), dois mil mestiços ou portugueses indianos; idêntico número de escravos cafres que lhes servem de criados; o restante é chinês e ocupa-se do comércio e em diversas profissões o que torna estes mesmos portugueses tributários da sua indústria. Estes, embora quase todos mulatos, julgar-se-iam desonrados se exercessem algum ofício macânico e assim sustentassem a sua família; mas o seu amor-próprio não se revolta por solicitarem constante e importunamente a caridade dos trauseuntes. 

O Vice-rei de Goa nomeia todos os cargos civis e militares de Macau (…); os soldados estão armados de bastões, o oficial é o único com o direito a ter uma espada, mas em caso algum a pode usar contra um chinês. Se um ladrão desta nação for surpreendido a arrombar uma porta, ou a tirar algum bem, é necessário prendê-lo com a maior precaução; e se o soldado, ao defender-se do ladrão, tem a infelicidade de o matar, é entregue ao Governador chinês e enforcado no meio da praça do mercado, na presença da guarda à qual ele pertencia, de um magistrado português e de dois mandarins chineses que, depois da execução, são saudados com uma salva de canhão ao sairem da cidade, tal como o foram quando entraram: mas se, ao contrário, um chinês mata um português, é entregue aos juízes da sua nação, que depois de o terem espoliado, fingem cumprir com as formalidades da justiça mas deixam-no evadir-se, muito indiferentes às reclamações que lhes são dirigidas e que nunca mais darão lugar a qualquer satisfação. 

Os portugueses fizeram, nos últimos tempos, uma demonstração de força que ficará gravada no bronze dos registos do Senado. Um cipaio, que tinha morto um chinês, foi mandado fuzilar por eles, na presença dos mandarins, e recusaram-se a submeter a decisão deste caso ao julgamento dos chineses. (…) 

O aspecto da cidade é muito interessante. Da sua antiga opulência restam várias belas casas alugadas aos sobrecargas das diferentes companhias, que são forçados a passar o Inverno em Macau uma vez que os chineses os obrigam a deixarem Cantão assim que o último navio do seu país parte, só podendo regressar na monção seguinte, com os navios que chegam da Europa. 

A estada em Macau é muito agradável durante o Inverno porque os sobrecargas são, em geral, distintos, muito instruídos e têm um rendimento considerável para sustentar uma casa excelente. 

Le Voyage de La Pérouse, 1785-1788. Jean François Galaup, Conde de Lapérouse (tradução de Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Viagem por Macau, Vol I. 2014) 

Uma lei chinesa proveitosa

O jardim literario,vol 6. 1850

O Jardim litterario. semanario de instrucção e recreio, vol 6. 1850

Casamento entre prisioneiros


Rua da AleluiaUm governador de uma provincia da China, indo visitar o logar em que estavam presos separadamente homens e mulheres, mandou que viessem todos os homens a uma sala, e lhes disse que cada um deixasse um objecto seu, e depois os mandou retirar. Depois ordenou que se introduzissem as mulheres, a quem disse, que escolhendo cada uma qualquer daquelles objectos, escolheria em o dono delle o seu marido, e juntamente a liberdade. Pegou cada uma no que lhe pareceu, e então o governador mandou que viessem outra vez os homens a quem fez reconhecer os seus objectos, achando-se assim algumas moças casadas com velhos e velhas com rapazes. Blasfemavam algumas de se verem tão ruimmente collocadas, porém o bom do ministro com muita cólera lançou a culpa a todas por não saberem escolher bem.

O Jardim litterario. semanario de instrucção e recreio, série 2ª, Vol.2 (1855-1856)

O Pátio da Dissimulação


Pátio da DissimulaçãoSendo a cidade muito populosa, os lugares mais acanhados tinham nomes fáceis de reter, becos, pátios e travessas que aludiam a coisas que tinham feito memória, no hábito, na convivência e num facto mais destacado. 

A travessa das Gargalhadas provavelmente fora sítio de alcouce ou de festa de mulheres; mas o pátio da Dissimulação já parece mais difícil de explicar porque regista a relação com alguém que não deixou bom nome nem sólidos laços.

A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999

No Bazar vendem-se baratas fritas


Vamo-nos embrenhando nos dédalos do Bazar, que conduzem à Rua da Felicidade. As cosinhas, pelas travessas, abarrotam de freguezes que comem arroz, em tigelas, arroz simplesmente cozido e sem sal, que é o pão dos chineses, temperado com uns pingos de certos molhos exoticos, levando aos lados como que uns iscos doutros cozinhados, peixe ou carne bem como hostaliças cosidas num momento, em rápida fervura, tudo servido com mais ou menos temperos, conforme as moedas apresentadas pelos clientes. 

Beco da FelicidadeO fogareiro e a panela, encaixados numa espécie de mesa que serve de cosinha e balcão, a culinária pouco escropulosa em cuidados higiénicos, a que o chinês é extranho, os fai-t'chi erguidos, num vai-vem pressuroso, emquanto os comensaes repousam, de cócoras, sôbre toscos bancos, onde nós preferiríamos estar sentados, são quadros sugestivos da vida do Bazar, àquela hora no auge na animação festiva. 

A um canto, vendem-se baratas fritas, baratas de água, é certo, segundo nos diz o nosso amigo, mais profundo nos arcanos da culinária chinesa, mas semelhantes, em tudo, áqueles repugnantes animalejos que infestam grande parte das nossas casas e, na duvida, compramos alguns avos do precioso manjar que oferecemos ao vendedor que é um rapaz. 

Aquilo foi rápido: com um sorriso a brilhar-lhe nos olhos, como que descascou os animais, arrancando-lhe as pernas, e enguliu o resto, com sofreguidão! Observàmos, ainda, que havia duas espécies daquele piteu: uma maior e alourada, mais cara, outra preta, mais pequena, a preço mais módico. Luz, muita luz, brota a jorros, por toda a parte. São as casas de Fan-tan com as frontarias, as janelas e até, alguns telhados iluminados, os Cou-laus a luzir de lanternas, e lá dentro, a toada dolente e arrastada das cantigas das Pi-pai-chai. 

Cênas da Vida de Macau de Jaime do Inso. 1927

A cidade do nome de Déos de Macáo

macaoA cidade do Nome de Déos de Macáo está situada em huma peninsula, ou estreita lingua de terra, unida рог hum isthmo de cincoenta braças de largura á ilha de Hiam-San, dependente da provincia de Cantão. A extensão desta peninsula he de huma legua, e a sua largura de menos de huma milha. Toda ella he montanhosa, ou antes he hum só monte de pedras; porém os portuguezes construindo em humas eminencias as suas fortalezas, em outras diversas igrejas e ermidas, e nos vales os edificios públicos e habitações particulares, fizerão deste monte de pedras huma bella cidade, cuja perspetiva póde comparar-se com a de muitas e boas cidades da Europa. 

Não tem a cidade de Macáo mais de humas mil braças de comprido sobre tresentas de largo; e compõe-se de 1200 fogos com 3500 moradores portuguezes, e 1300 escravos; afóra a população chineza, que monta a mais de 20 mil almas, e vivem de mistura com os portuguezes, mas sugeitos sómente aos seus mandarins. He cabeça de bispado, e tem hum cabido, tres freguezias, casa de Misericordia com dois hospitaes, hum recolhimento de meninas, hum seminario de padres da congregação da Missão, além de tres convenios de frades, hoje extinctos, e varias ermidas. Tem boa casa de cámara, espaçosa alfandega, e palacio do Governo. A sua guarnição he composta de quatro companhias de artilheria e infanteria.

Depois que os nossos portuguezes em 1525 conquistárão Malaca, e ahí tiverão conhecimento dos chinas, começárão logo a fazer diligencias por estabelecer relações commerciaes com este imperio. As primeiras tentativas não forão bem succedidas; mas por fim conseguirão elles a permissão de residir temporariamente nos portos de Liampo, Chincheo, e Lampacão; até que no anno de 1557, a requerimento dos mesmos mercadores chinas, os mandarins de Cantão Ihes permittirão que construissem huma feitoria e algumas casas de madeira no porto de Amacáo (assim chamado do pagode do idolo Ama que naquelle sitio se venerava, e de Cáo que em idioma chinez quer dizer ancoradouro de navios) com a condição de que não poderião passar d'alli para outros portos do imperio; mas tão sómente irem as feiras que todos os annos se fazião em Cantão: para о que mandarão os chinas construir no meio do isthmo, que une a peninsula com a ilha, huma muralha com huma porta, a que os nossos chamão do cerco, da qual não he permittido aos europeos ultrapassar. 

Tendo este primeiro estabelecimento crescido rápidamente em commercio e riqueza, e sendo já consideravel o número de casas, no anno de 1585 o erigírão os portuguezes em cidade, intitulando-a do Nome de Déos, depois de terem conseguido do vice-rei de Cantão, a faculdade de se governarem a si, e administrarem justiça aos seus, pelas suas proprias leis. 

Durante o governo dos Filippes em Portugal, os hollandezes, inimigos de Castella, tendo roubado quasi todas as nossas possessões da Asia, tentarão tambem por varias vezes apoderar-se de Macáo por surpreza, até que em 24 de junho de 1622, resolverão dar hum ataque formal á cidade, para o que desembarcárão 800 homens no sitio de Cacilhas; porém forão pelos nossos atacados com valor tal, que apezar da inferioridade do número os derrotárão, conseguindo sobre elles huma completa victoria. Os mandarins chinas, vendo esta grande proeza dos portuguezes, permittirão-lhes construir fortalezas para defenderem a cidade, não tanto em favor dos habitantes portuguezes, como dos mesmos chinas. Então se construírão as fortalezas (...) e fecharão de muralhas a cidade, tanto da parte do nordeste, como do sudoeste, á excepção das praias de huma e outra banda da cidade, que ficárão abertas. 

Em 1662, occupado o throno do imperio chinez pela dinastia tártara, mandou o imperador que demollissem os portuguezes todas as fortificações, para não cahirem nas mãos do poderoso pirata, Quinzigo, que fazia a guerra pela dinastia chineza, e que por ter muitos sequazes devastava fácilmente as cidades marítimas do imperio, pelo que tiverão ordern imperial todos os habitantes chinas das costas do mar, inclusive os de Macáo, de se retirarem a oito milhas para o interior, sob pena de morte, e que os portuguezes desta cidade, como estrangeiros evacuassem o paiz. Os portuguezes, apezar de soffrerem toda a qualidade de privações, trabalhárão por conservar suas propriedades e a posse da cidade; e a final, pela protecção dos mandarins, e com a morte do pirata na ilha Formosa, o estabelecimento continuou a existir como d'antes.

Não possuem os habitantes de Macáo nem fabricas, nem lavoura; vivem do commercio, ou como escrevia o senado da cidade a elrei em 1593, «do que pelo mar ganhavão.» Não se occupão em officios mecanicos, excepto os que pertencem á navegação, e por isso em tudo o mais dependente dos chinas, mesmo nos artigos mais necessarios para o sustento e vestuario. Pagão ao imperador hum direito pela ancoragem dos navios, os quaes, por hum decreto do imperador Kan-ky, em 1693, não podem exceder o número de vinte e cinco. A cidade paga ao imperador hum foro annual de 515 taeis cada anno; por onde se vê que não ha ahi conquista ou direito de posse de qualidade alguma; mas huma continuada concessão dos chinas aos portuguezes para alli habitarem, dando-Ihes o usofructo do terreno.

No principio do estabelecimento os habitantes governavão-se como entendião, tendo apenas eleito d'entre si hum capitão mór, que não tinha outra jurisdicção senão a que voluntariamente Ihe davão. Depois que se erigio em cidade, era governada pelo senado da camara: durante os ataques dos hollandezes, carecendo os habitantes de hum cabo de guerra, o pedirão ao governo de Goa, o qual Ihes mandou D. Francisco Carrasco com o carácter de governador.

Archivo Popular, leituras de instrucção e recreio, semanário pintoresco. Vol 5, 9 dе Janeiro de 1841.

Os lavradores têm o primeiro lugar na China

Pátio da Pedra
Pátio da Pedra Pátio da Pedra 
Altar no Pátio da Pedra

O preceito essencial da sua religião, consiste na prática das virtudes sociaes. O culto interior é o amor de seus pais, vivos ou mortos; o exterior reduz-se ao amor do trabalho: reputam a cultura da terra pelo mais nobre, e honroso. Ainda reverenceam a generosidade de dois imperadores, que, preferindo o estado ás suas familias, excluiram do throno seus proprios filhos, para subirem a elle homens tirados da charrua! Veneram a memoria d'aquelles varões, por terem lançado nas entranhas da terra os germens da ventura; isto é, sementes, fonte inexhaurivel da producção das messes, e da multiplicacão dos homens. A exemplo d'aquelles dois lavradores, todos os imperantes da China se honram no exercicio d'essa arte sublime. 

A mais brilhante das funcções imperiaes é lavrar a terra, em dia solemne, para render culto á primeira das artes. Isto não é a fabula da Grecia, onde os numens guardavam os rebanhos dos principes; é o bemfeitor dos povos, que abrindo o seio da terra, mostra aos subditos os verdadeiros thesouros da nação. Os chinezes usam do adagio seguinte: «Vale mais um alqueire de arroz, do que dois de perolas.»

Os lavradores têm o primeiro logar, entre as classes productoras. O imperador convida, para dia assignalado, em cada anno, quarenta lavradores respeitaveis por merito, e idade, para o acompanharem n'aquella funcção. Dirige-se ao templo, dá graças a Deus, e sahe depois com os lavradores, principes, e presidentes dos tribunaes superiores, para o campo sagrado, levando cada um, em pequenas bocetas, sementes escolhidas. O Chou-Kin, segundo livro sagrado, diz que a origem mais pura, abundante, e capaz de fazer a prosperidade do estado, é a da generosa agricultura.

O imperador, entrando no campo, toma a rabiça do arado, e abre alguns regos: os principes, e coláos fazem o mesmo; depois, semêa o imperador o terreno, que lavrára; os principes seguem o exemplo do imperador; e os lavradores acabam de lavrar, e semear o espaço restante. Os europeus, que têm presenceado esta ceremonia, fallam d'ella com respeito: lamentam não ser esta funcção pública, cujo fim é promover o trabalho, substituida na Europa por tantas festas religiosas, que parecem inventadas pelo fanatismo, para esterilisar os campos. Este impulso dado aos costumes, é sustentado por saudaveis leis, e premios honorificos.

Os bonzos, sempre atrevidos em pretenções de interesse, na China não o podem ser. Abundam no imperio, mas vivem do suor do seu rosto: não recebem do estado pensão alguma, nem dos povos congrua obrigatoria. Uma nação esclarecida não podia deixar de considerar corrupto o bonzo, que pretendesse receber imposto, em razão do seu emprego. Quantos ha, vivem do seu trabalho, e da caridade dos seus devotos.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

Viveza e originalidade na música chineza

Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946
Hedda Morrison, 1933-1946

Ou uma melodia de caldeireiros ...

Os chinezes têem uma musica muito caracteristica, que não é destituida de uma certa viveza e originalidade. É, porém, a melodia das suas cornposições musicaes que póde sómente agradar ao ouvido do europeu. A harmonia é um horror, sendo todas as musicas acompanhadas de tan-tans, dos sons seccos de umas pancadas sobre uma semi-esphera de madeira forrada de couro com taxas de ferro, e de sons fanhosos de clarinetes, de flautas e de instrumentos de corda. São estes instrumentos geralmente primitivos. Os arcos das rabecas consistem em um simples bambu curvado pelos fios de crina resinada; as cravelhas dos outros instrumentos de corda são de um acabamento tosco; emfim, a instrumentação chineza está á altura dos instrumentos.

Afóra os grandes tan-tans e bategas, consistem aquelles instrumentos na Pi-pá, grande guitarra que se toca com palheta, no It-cam, guitarra chata e circular, no lot-sam, e Ghi-in, instrumentos de arco de uma fórma extraordinaria, na Si-u, flauta com muitos orificios, em mais dois clarinetes, o Ti-ek e o Ghi-von, e, finalmente, no Pon-Ku, pequeno tan-tan, que se toca com duas vaquetas de bambu. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Quanto á musica, cujo gosto terás ouvido contar como geral entre os chins, posso dizer-te o que presenceei nos theatros, nos arrayaes, e outras festas populares. Dos saraus de Pekin nada direi, mas creio que não será melhor ahi, porque as senhoras não vão a bailes, nem mesmo a teatros (…). As peças dramaticas são, em parte cantadas, e mesmo os recitativos teem o competente acompanhamento de musica, mas musica que fere um ouvido europeu, por mais duro que elle seja.

Os nomes dos instrumentos não sei, mas similham á gaita de folles, á rebeca de uma só corda tangida por musico inexperiente, e outros não se parecem com cousa alguma do nosso conhecimento; mas o que predomina a toda a orchestra, e faz a delicia das festas populares, é a bátega - especie de bacia de metal, d´onde á pancada se tira um som aspero e agudo - a tal melodia de caldeireiros!

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854

Visconde de S. Januario, chinez ou homo monstrosus


O actual sr. governador de Macau e Timor, sua excellencia o sr. visconde de S. Januario, está dando ás colonias portuguezas, á metropole e á sciencia uma interessante medida de quanto pode sobre um ser organico a influencia do «meio», do solo, do clima, da latitude. É curioso observar na historia dos actos do dito sr. governador como a força de residir nas regiões asiaticas, sua excellencia se vae tornando progressivamente chinez... Chinez ou homem monstruoso, homo monstrosus, de Linneu! 

.-.-.-.Ultimamente o sr. visconde de S. Januario mandou responder a conselho de guerra um facultativo militar, redactor do Oriente, jornal de Macau, accusado pelo sr. governador de ter exorbitado da liberdade do imprensa, em um artigo a respeito de irmãs da caridade!

Depois o mesmo sr. visconde dispensou o jornalista de responder a conselho e condemnou-o summariamente a dez dias de prisão! Por ultimo o dito sr. governador, sempre pelo mesmo delicto de imprensa, mandou o jornalista desterrado para Timor! Não sabemos se depois das ultimas noticias s. ex.ª teria mandado applicar ao delinquente o grande ou o pequeno bambú, as bastonadas, a canga, ou a pena ultima. Vemos já em todo o caso que o sr. governador está, pela sua comprehensão da justiça, na legislação plenaria do celeste imperio. Somos levados a crér que s. ex.ª faz já preceder o seu palanquim pelos dois mil guardas portadores das differentes chinesices que servem de emblemas ao despotismo oriental na passagem do filho do céo pelas ruas de Pequim. Mais nos auctorisa s. ex.ª a suppôr que botou rabicho. Quem sabe, de resto, se s. ex.ª não estará já sendo, como todos os chins: de porcelana!

Quem sabe se Sua Magestade el-rei se não verá em pouco tempo obrigado a transferir de Macau este seu delegado para o collocar no seu proprio palacio, em um logar de honra – como jarra! ?... Se não fôr antes sua magestade a rainha quem definitivamente venha a adoptal-o, com outros mandarins, - em leque. 

A instabilidade e as vicissitudes dos destinos chinezes são taes que mal nos atrevemos a conjecturar qual virá a ser, pelo caminho que leva, o futuro do sr. visconde de S. Januario. Dizemos temerariamente jarra e dizemos leque! Bem pode ser no fim de contas que os deuses Fo e Tao-tse estejam preparando lentamente em s. exª - um bule.

E que aquelle que começou por lançar exterminios, acabe por deitar chá preto!

As Farpas, chronica mensal da política das letras e dos costumes, Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz. 2.° anno, Dezembro de 1872