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Às compras no Mercado Municipal Horta e Mitra



Que raio de nome tem este mercado municipal, penso; antigo, térreo, pequenino. Fica no centro da cidade e a designação justifica-se por estar encravado entre a Rua de Horta e Costa e a Rua da Mitra ou, por outras palavras, encostado a meio da Rua do Campo. O engraçado é que se entrarmos por uma das portas do lado da Rua Horta e Costa, este mercado é apenas Municipal e ganha o nome que eu disse se se entrar pelo lado contrário.


Outra coisa que tem piada é que logo à entrada está referida a data da sua construção - 1939, mas no seu interior há uma placa que a refere como sendo 1940, acrescentando-se que foi inaugurado por ocasião das festas comemorativas do duplo centenário da fundação e restauração de Portugal, fazendo coincidir o impossível.




Como todos os mercados em Macau está aberto logo de manhã cedo, às sete e meia, e fecha às oito horas (da noite, claro, que as compras não se fazem em meia hora). E, também como nos outros mercados, é um vaivém constante; não é só quem se abeira das bancas, no seu interior, para comprar peixe e marisco, carne, legumes e fruta; é mais gente, ainda, em seu redor, junto às tasquinhas, quer das cozinhas ambulantes, quer dos pequenos restaurantes e dos vendilhões de quinquilharias, de objectos de culto, das casas de chá, das farmácias chinesas, dos vendedores de flores, de ovos, de legumes e de frutos. Acho graça, ainda, à distribuição do negócio: quem vende ovos, não vende fruta; quem vende hortaliça, também não. 

   
Eu adoro mercados. Sempre que viajo tenho a mania de os visitar, coisa não tão esquisita como a de ir a cemitérios, costumam dizer-me, mas não consigo resistir a conhecer os outros, também, através da forma como lidam com a morte e com as grandes perdas e sem terem de me falar nisso, que não aguento a dor que imagino quanto mais a que vejo. E os mercados são um mundo, cheios de cor e aromas e em Macau têm, a olhos ocidentais, muita coisa exótica. Por exemplo, vendem-se rãs e o peixe está vivinho da Silva, como vivas estão as galinhas.   


Bem, parece que, dentro do mercado, não consigo ser discreta; tiro uma fotografia e oiço dizer Senhora, 'tem' lombinhos de porco; e da banca, nas minhas costas: Quer camarão? Barato … E mais à frente: Cenoura, batata, repolho. Sopa, bom...


E compro legumes, sim; muito fresquinhos que, como quase tudo, vêm da China pelas portas do Cerco porque em Macau não há hortas, nem prados, nem pomares. E explicam-me, enquanto me põem no saco uma oferta, Coentro … E rio-me por nós, portugueses, nunca dizemos assim e deveríamos; falamos sempre em salsa e coentros, sabe-se lá porquê.

E a fruta? Perco a cabeça com os abacaxis, vendidos já descascados, em saquinhos de plástico. Penso no sabor que têm; tão doces e de como eu tinha saudades. A partir de agora ando carregada, mas, mesmo assim, oiço chamar-me: Senhora, quer melancia? Maçã? Banana? Manga? e tenho que recusar; não posso levar mais nada comigo.


Diz-se que ninguém fala português em Macau. Eu não vou negar isso. Mas continuo a não saber muito mais do que já sabia em cantonense, e pelos vistos continuo a não precisar de aprender a dizer o nome das coisas que preciso levar para casa para cozinhar, nem preciso de esticar o indicador em cima dos espargos ou dos cogumelos: os vendedores falam a minha língua. Se compro carne, perguntam Picada? Se peço para cortarem as peças, querem saber se prefiro Bife fino.

E este mercado tem uma coisa óptima para mim: um placar onde os preços estão fixados para duas medidas: o cate e o quilograma, o que me ajuda porque evita que faça contas de cabeça para perceber o que é caro e não o é, pois não deixo ainda de fazer comparações com o valor de tudo em Portugal. 

E assim, fiquei pasmada por ter numa tasquinha bebido um café um pouquinho mais barato do que costumava beber e quase que é caso para deitar foguetes porque tenho pago uma fortuna pelas bicas que bebo. Juro. Mas, cheia de sacos e tão pesados, não me apeteceu ir até o Starbucks, no Leal Senado. É já ali, mas detesto andar a arcar com pesos. Olha, se eu tivesse trazido a melancia; estive quase-quase para o fazer …


Na tasquinha observo a cozinha e a azáfama. E ao meu lado, numa mesa maior, vêm preparar muitos dos pratos. Querem que eu prove e gosto de tudo, caramba; e depois, lamento-me dos quilos a mais e, logo em Macau, onde não há gente gorda. 

Já dei uma volta pelo bairro Horta e Mitra e concluo que mudou muito pouco. É conhecido entre os chineses por Tcheok-Tchai-Un e é um dos mais populosos da cidade. Muitas das ruas são estreitas, os prédios quase todos altos; e de muitas das janelas parece até que os vizinhos poder espiar-se facilmente, na pior das hipóteses, ou na melhor, cumprimentarem-se.

E é um sobe e desce de escadarias e ruelas muito íngremes, entre farmácias chinesas, mercearias e supermercados, casas de venda de objectos de culto, templos, casas de sopas de fitas (adoro a expressão e a sopa), padarias, casas de chá, bancas de venda de fruta, legumes, flores, restaurantes chineses, vietnamitas, tailandeses.


Muitos tailandeses nesta zona da cidade e até ao Tap Siac; têm mercearias, agências de viagens, imobiliárias, restaurantes e cabeleireiros, como se fosse este bairro um cantinho de Banguecoque. Há restaurantes onde a ementa, em tailandês e com caracteres chineses, nos obriga a escolher os pratos pela fotografia, é o que vale. Ando mais um pouco e vejo o Kruatheque; está em obras e a reabrir daqui a dias, porque tudo se faz muito rápido e já vi mobiliário lá dentro. Era um lugar ´de culto´, quando antes vivia cá; estava aberto pela noite fora.


E o cheiro a Macau... parece ser mais forte por estas bandas, muito mais intenso; ora acre, ora adocicado ou tudo junto, nem sei. É único; talvez pelo calor, pela humidade, se espalhem os aromas dos condimentos, de muitas ervas aromáticas, do picante…