tela de Nick Tai
exposição na galeria ART FOR ALL, em Macau
de Agosto a Outubro de 2012
De todas as curiosidades que os macaistas possam offerecer aos observadores europeus, nada é de certo mais interessante do que a linguagem de que entre si se servem; é uma espécie de dialecto em que, de envolta com portuguez de 1500, andam locuções chinezas e phrases inglezadas.
Os homens, mais affeitos ao nosso convívio, pôde dizer-se que fallam comnosco um portuguez acceitavel, se bem que a pronuncia venha affectada do descanso e adocicado de que enfermam as línguas neo-latinas nos climas inter-tropicaes. Entre elles, porém, e, sobretudo, na sociedade feminina, é usada uma linguagem por extremo curiosa, que nós, europeus, mal podemos decifrar, mercê do que tem de caprichosa e convencional. Alem de algumas palavras muito adulteradas, outras de pura phantasia, de locuções arrevezadas e de phrases de convenção, entremettem as nhonhas e nhonhonhas nos seus cavacos íntimos, gritinhos, risos, exclamações, etc, que tornam de um cunho completamente original o seu papêa, como ellas dizem.
A conjugação dos verbos é de uma singeleza e ratice dignas de menção. Pega-se de um verbo e toma-se um modo, um tempo e pessoa, que o uso adoptou por acaso, ou capricho; com esta palavra e o auxilio das três partículas «já, tá e logo» obtêem-se todas as flexões. Por exemplo: do verbo ser toma-se são. E assim se diz: no presente lá são; no pretérito, já são; no futuro, logo são. Isto para todas as pessoas do singular e plural. No verbo fazer é o próprio infinito o usado, e d' est'arte se diz: eu tá fazé; vos logo fazé; elle já fazé. De saber é eleito o sabe, etc, etc. Os géneros são quasi sempre trocados, ou escolhidos á tôa. Assim se diz: vos otro nam quero pô sua pé meu casa (você não quer pôr os seus pés na minha casa).
Muitas vezes o não é substituído por nunca, dizendo-se: são nunca? (é ou não verdade?). Ou ainda: Nunca bom joga (não é bom jogar). Duas pessoas, que se encontram, perguntam uma á outra e respondem reciprocamente: qui nova di vós? (como está?) - bom, brigado; e seu filo, fila? (bom, obrigado; e seus filhos?). Querendo perguntar o que diz você? expressar-se-hao por esta forma: qui cusa vós otro fala? Se, por exemplo, pretenderem referir-se à mulher do juiz, dirão: juiz sua mullé qui laia di boniteza! (a mulher do juiz é muito bonita). - Qui foi elle já fala? (o que é que elle disse?), etc, etc.
Para dar melhor idéa d' esta ingleziada transcreveremos para aqui parte de uma carta, que em Macau corre impressa, e que já vimos também publicada algures, sem que nos lembre onde. Eil-a:
Carta da tia Paschoela a sua sobrinha Florencia
Macáo, 5 de otubro de 1869.
Minha Querida Chencha.
Como vôs lôgo querê sabe tudo novidade de Macáo, porisso que eu já pedi com tudo sium sium, parecero de jogo, pra trazê tudo novidade de fóra pra eu pôde escrevê pra vôs. Macáo agora já tá muto mudado; já nontêm inveja de Éropa. Pra tudo rua são careta, são cavalo; de tanto que já tem, que já nontêm lugar pra guardá; maior parte ficá pinchado na meu de rua de S. Lorenço.
Agora tá fazè unga casa qui lai de grande na horta de governador, tamem pra guardá careta e cavalo. Olá um pôco, minha Chencha, fazê palacio na cidade pra cavalo, tudo pobre pobre vae pará pra casinha de campo!
Agora tá com força de prepará pra recebe principe de Inglaterra. Já pedi com sium Carlito pra dá moda pra fazê unga cadera pra cartá principe. Querê cadera que tem quatro pinga pra oito cule; mas como vosso tio gostá muto de figurá, já lembrá de pedí pra convidá oito comendador pra cartá aquelle bemaventurado principe, pra vosso tio tamem pôde entrá na meu.
Nosso governador lôgo vae ficá na casa vasio de sium Lorenço pra dá palacio pra principe. Nosso juiz tá perto vae já pra Goa. Coitado de vêlo, já soffrê unga molestia bem de grande que escapá morê. Agora tá andá côtê; assim mesmo este um pôco de farizêo nunca perdoá de desesperá aquelle pobre vêlo, que se nunca são cuidado de Padre Maximo, com sua misinha cazera, já vae já pra otro mundo! Já cavá lua de batê páu, mas lua de batê costa de china china inda nompôde cavá, porisso que este um pôco desabrogunhado rabo de porco cada vez tá mas atrevido.
Otro dia eu já assistí festa de Senhora Rozario. Sentí na greza unga chêro bem desagradavel. Vem casa a note, tá contá com tio João, elle então que dá conta, que já levantá um pôco alto parte trazero de capela-môr; já fazê ali unga lugar pra botá imundicia. Quando vem chua, tudo agu de aquelle porcaria porcaria, contaminá pra pê de parede, vem pra dentro de capela-môr. Vôs inda lôgo ovi, minha Chencha, que algum dia inda lôgo mudá tudo cavalo de policia pra dentro de greza, pra tem mas cham pra fazê palacio grande grande pra official. Agora já nunca contentá cada unga com dos cela. Cada official querê sete cela, qui lai môdo pôde chegá?
Padre Rondina já livrá de unga desgraça qui lai de grande! Que sabe qualo mapeçoso aquelle que já vae tirá de sua lugar unga botle de enxarope, bota unga botle de verniz. Coitado de padre, sem sabe de nada, virá muto socegado na sua botle pra copo de agu; quando bebê primero pucado, então que sentí que são verniz! Nunçám obra de maliçombrado! querê vernizá tripa de gente como vernizá cadera, canapé?!
Vosso tio tá muto triste. Este anno já perdê quanto mil pataca com laia laia de condenação de historia. Se o menos pôde tem agora grande negocio de cule, tamem são bom; pôde chubi um pochinho de aqui, um pochinho de ali, discontá o que já perdê. Jogo este anno já nompôde tirá muto. Dispeza cada vez mas grande. Familia augmentá. Divida nompôde cobrá; maior parte são gente grande grande que tá devê.
Assim mesmo, minha Querida Chencha, inda nompôde quexá de falta que comê; perna de presunto que china china mandá de presente, armado de unga ponta pra otro ponta de cusinha; mas vosso tio nompôde comê ôtro cusa mas que pece fino, chilimeçô de casa algum vez lamci di Cantão. N'otro tempo pescaria são na agu salgado; agora são na agu doce. Que sabe qualo bragero aquelle que já inventá que na Praia Grande tem pescaria de pece pedra, aquelle rapaz de botica de Neves já cae na calote de vae pescá anote fronte de sua botica.
Pinchá linha cae na sêco; em quanto tá safá linha, senti comedura; quando puça, apanhá unga casta de susto qui laia de grande! era que são unga cuzaçuso de rato, como unga letão, ganchado na anzol. Aquelle tentação de animal principiá côrê pra tudo Praia Grande com linha na boca, e pobre de rapaz a côrê traz de tal rato pra salvá sua linha; de sorte que já fazê ri tudo aquelle gente na Praia Grande com tal pescaria de pece pedra, que ramatá, largá sarangong.
Manjor Julio já tem quanto mez já de morto. Aquelle tolo de Boletim parte que dá peza sua viuva, vae dá pra tudo sua amigo amigo. Que sabe se na Éropa são costumado assim? Tudo vez que eu sae na janella intopá com unga official de vapor que casta dechistoso, mas historero, sevandizio que más nompôde ser. Tem unga nome que laia de galante; eu já nompôde lembra se são Homecaco o Monocaco, mas são unga cusa assim de caco. Máu genio, lingustero, intremetido, até querê intremetê com emprego de sium Miguel Simões, e tá fazê conta já de intrá naquelle lugar.
Pra tudo gente são meçá chavoqueada, tirá dente, tira lingu; mas medrozo como cachoro china. Como já são hora de vem tudo parecero de jogo, eu já nompôde escrevê mas novidade. Amestê olá fazê chá, tirá sucre, mandá fazê torada, comprá manteguilha na botica de barbero.
Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conservá saude pra vos e pro vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio João, tudo mandá muto lembrança. Vai unga botle de achar laia laia e unga flandi de bolo batê-pau torado.
Vosso tia e amiga
Pascoela.
Pobre Camões, manes de António Vieira, desventurado Herculano!!! Como vos estragam a lingua com tanto amor trabalhada!!! Serão talvez estas as exclamações do leitor. Esperámos, todavia, que concordem em que é digno de attenção o exemplar (...).
Não resistimos á tentação de estampar aqui um annuncio, que guardamos ha mais de dez annos como specimen do género. É do teor seguinte:
Barberia nacional - «Este estabelecimento será aberto em 2 de fevereiro próximo, 2 peritos estarão constantemente em attendencia para exercer a arte de tonsura e barbear por preços módicos. Aos freguezes mensaes carregar-se-ha $1; 4.1, sendo servido no estabelecimento, e para attendencia nas residências particulares, $1.50 ao mez. Os sobrescriptos farão o favor de encher a formula annexa e retornal-a. Aos avulsos carregar-se-ha segundo o ajuste. Pedro A. Collaço, encarregado.»
Antes de pôr ponto final no assumpto, devemos declarar que tudo quanto acabamos de expor não tem em mira a mais leve idéa de troça; conhecemos bem quanto o meio, o tempo, etc, etc, podem influir na linguagem, e é-nos grato affirmar aqui que os habitantes de Macau têem grande amor á sua terra e se honram em ser portuguezes, comquanto, de onde em onde, tenham palavras duras para com a metrópole.
Bento da França, Macau e os seus habitantes, relações com Timor, 1897
nota: a carta, em patuá, foi transcrita na íntegra, tal como foi publicada no Ta-Ssi-Yang-Kuo, em 1865, que publicou, também a
Carta de Siára Pancha a Nhim Miquela
Macáo 3 de janero de 1865.
Minha querida Miquéla.
Tanto tempo eu já querê respondê vosso carta, mas sempre sentî doente, porisso tanto tardá este resposta. Vôs minha Miquéla nadi ficá reva cô eu; vôs sabe qui eu mutu querê pra vôs, e se nunca escrevê mas ásinha san prómódi já tá múto véla.
Otro dia acunha mofina di ama abri janella, eu irguí cedo, sai fóra, apanhã vento, ficá constipada. Priméro toma sincap, misinha de vento, raspá mordicim, mas nunca pôde ficá bom, cada dia sintí corpo más fraco, perna azedo. Dôtôr falá sam doença d' idade, mas eu nunca sintí assim, chomá mêstre Ahoi, qui tudu gente falá sam capaz, elle já curá. Agora sentí um poco forte, mas mêstre nômquêro que eu fazê mutu força, e mandá tomá ninho di pastro.
Nosso Macáo, minha Miquéla tem grande novidade. Governo nôvo sam capaz e já virá tudo. Mas um pôco tempo tudo lôgo ficá virado. Rua agora já nomtêm pedra pedra, sam otro lai môdo, fazê duro cô téra. Fazê gosto olá di bonito. Pra vanda de mar, na praia grandi, já botá qui tanto arvi; tudo gente cioso e intrimittido falá numpresta, qui sabe qui foi, mas eu nunca sintí assim. Campo de Sam Francisco já fichá, fazê jardim, escada grande já nomtêm, fazê ali muro; ali riba, aquelle calvario tamêm tá vai lá pra fazê quartel di soldado, qui já principiá, logo ficá grandi.
Porta di Campo e di Santo Antone já nomtêm tamêm, agora sam rua largu, tudo aquelle arvi fronte di Gularte sua casa já cortá, china china falá corê sangui, mas eu sentí china sam tôlo. Aquelle porcaria di fonti perto di cano real tamêm já tapá, abri poço alá vanda. Tudu poço agora tem sua cobertor bem fêto, e bomba di novo invençám.
Si minha Miquéla agora pôde ólá tudo aquelle lugar, certo nadi crê qui sam Macáo. Santo Antone qui bem fêto! Aquelle bariga di adro já vai dentro, ficá bonito, e rua mas um pôco grandi. Padri nunca contente, mas qui cuza logo fazê!
A nôte já nômtem aquelle escuridám costumado, hoze candía tem tres bico, e china china si querê furtá azète vai cartá mati. Genti di Senado sempre durmido, nomtêm aquelle genio di Governo, que tem ôlo vivo, e nadi iscapá nada. Cêdo, cêdo, já tem na rua, tirá telhêro di botica, rancá pagôde di porta di china china, cortá rua fazê drêto, qui fazê gosto ólá.
Otro dia Voluntario inglez d' Hongkong já vem Macáo! Qui lai di bonito! eu já vai ólá tamêm. Macáo parêce França, tudo gente fallá. Tem tifin, rivista di tropa, salva di vinte unha tiro, balsa á note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancia tres mil fóra pataca. Algum gente qui nunca gostá assi lai cuza, já vai ólá cova de Sam Francisco Xavier eu tamêm muto quere pra santo, mas nunca vai.
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá unha buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra qui vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista, porisso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita interá, eu achá graça: pôde crê? Padri padri qui cusa pôde tem? coitado! Eu sintí sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di téra?
Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, qui cusa fazê di lugar pra escondê? Minha Miquéla nomêstê esquecê di mandá nova di tudu qui ólá ali; si marido tem vagar mandá tamêm escrevê. Gente tá fallá qui moda di balám já cavá pra nhonhonha, eu sintí qui si sam assim sam fortuna. Eu tamêm nompôde gostá di assilai cusa; quando vento grandi sam mutu pirigoso, e quando incustá na janéla, ou ficá capido, impurado pra traz, frôvê sangui ólá. Dá bença pra criança criança e nomêstê esquecê de tudu aquelle receta qui eu já mandá quando apanhá saván.
Nomêstê lembrá sam brinco, eu fallá cô experiencia: tudu gente ri, qui foi eu pilá costa a note intêro, mas eu inda tá vivo, elôtro tudu qui fazê cusa de moda tá morê mas ásinha.
Eu já mandá dos amchôm di achar di gamên, unha balsa di sucri pedra, dos jara di jagra para vós e criança criança, mas nunca achá resposta, porisso eu ficá cô pençám. Já intrá anno novo; mutu bom anno, filicidade, vida, saude para vôs, vosso marido e tudo criança criança. Nosso senhôr deçá criá. Eu tá muto lembrá pra vós, querê mandá um pôco de alúa mas nômpôde, paciencia. Masqui nompôde acetá bom vontade d'este vella chacha qui mutu querê pra vôs.
Dá lembrança pra Pepe, falá cô elle múto contente eu já ficá, ouvi falá, elle já ficá bom de espinhéla. Vosso tio padri tamêm mandá lembrança, elle coitado nunca sam nada já. Nhum Quimquim já vai viazi, imbarcá de piloto na navio que levá chuchai, ganhá tanto pataca.
Vosso chacha Pancha
P. S. Vós lôgo sintí grandi differença na minha modo di escrevê. Eu já aperfeçoá bastante neste um pôco tempo. Tudu este escóla novo de machu e femia, e aquelle gazetta Ta-ssi-yang-kuo já fazê indretá bastante nosso lingu.
A transformação da linguagem em virtude da alteração phonetica é um phenomeno de base physiologica; a formação dos dialectos creolos é no que tem de essencial um phenomeno psychologico. Formam-se elles rapidamente, para accudir á necessidade das relações; é o povo inferior pela raça, pelo estado de civilisação, mas ao mesmo tempo mais forte de instinctos, mais rico de espontaneidade, é esse que os forma com os materiaes da lingua do povo superior, que em regra não desce a aprender ou mesmo a dar attenção ás expressões do barbaro, do selvagem. Ao ouvido
do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras tumultuosas as palavras do povo superior, depois aquelle percebe como que um rythmo, depois, n'aquelle oceano de palavras descobre alguns pontos firmes,
salientes; fixa-se n'elles (...).
Por fim dá-se muitas vezes um phenomeno
curioso: entendido do povo superior do povo que em geral manda, o povo
inferior não quer saber mais nada da lingua d'elle, contentando-se com o
dialecto que formou: então o povo superior ver-se-ha obrigado a fallar a sua propria lingua alterada.
Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América
Francisco Adolpho Coelho, 1881, Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa
Depois de ler isto, sinto que se deu, em mim, um fenómeno curioso. E, vendo-me obrigada a falar a minha própria língua alterada, digo que estas linhas são bué chocantes. São nunca?


















