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Língua de Macau

tela de Nick Tai
exposição na galeria ART FOR ALL, em Macau
de Agosto a Outubro de 2012

De todas as curiosidades que os macaistas possam offerecer aos observadores europeus, nada é de certo mais interessante do que a linguagem de que entre si se servem; é uma espécie de dialecto em que, de envolta com portuguez de 1500, andam locuções chinezas e phrases inglezadas. 

Os homens, mais affeitos ao nosso convívio, pôde dizer-se que fallam comnosco um portuguez acceitavel, se bem que a pronuncia venha affectada do descanso e adocicado de que enfermam as línguas neo-latinas nos climas inter-tropicaes. Entre elles, porém, e, sobretudo, na sociedade feminina, é usada uma linguagem por extremo curiosa, que nós, europeus, mal podemos decifrar, mercê do que tem de caprichosa e convencional. Alem de algumas palavras muito adulteradas, outras de pura phantasia, de locuções arrevezadas e de phrases de convenção, entremettem as nhonhas e nhonhonhas nos seus cavacos íntimos, gritinhos, risos, exclamações, etc, que tornam de um cunho completamente original o seu papêa, como ellas dizem. 

A conjugação dos verbos é de uma singeleza e ratice dignas de menção. Pega-se de um verbo e toma-se um modo, um tempo e pessoa, que o uso adoptou por acaso, ou capricho; com esta palavra e o auxilio das três partículas «já, tá e logo» obtêem-se todas as flexões. Por exemplo: do verbo ser toma-se são. E assim se diz: no presente lá são; no pretérito, já são; no futuro, logo são. Isto para todas as pessoas do singular e plural. No verbo fazer é o próprio infinito o usado, e d' est'arte se diz: eu tá fazé; vos logo fazé; elle já fazé. De saber é eleito o sabe, etc, etc. Os géneros são quasi sempre trocados, ou escolhidos á tôa. Assim se diz: vos otro nam quero pô sua pé meu casa (você não quer pôr os seus pés na minha casa). 

Muitas vezes o não é substituído por nunca, dizendo-se: são nunca? (é ou não verdade?). Ou ainda: Nunca bom joga (não é bom jogar). Duas pessoas, que se encontram, perguntam uma á outra e respondem reciprocamente: qui nova di vós? (como está?) - bom, brigado; e seu filo, fila? (bom, obrigado; e seus filhos?). Querendo perguntar o que diz você? expressar-se-hao por esta forma: qui cusa vós otro fala? Se, por exemplo, pretenderem referir-se à mulher do juiz, dirão: juiz sua mullé qui laia di boniteza! (a mulher do juiz é muito bonita). - Qui foi elle já fala? (o que é que elle disse?), etc, etc. 

Para dar melhor idéa d' esta ingleziada transcreveremos para aqui parte de uma carta, que em Macau corre impressa, e que já vimos também publicada algures, sem que nos lembre onde. Eil-a: 

Carta da tia Paschoela a sua sobrinha Florencia 
Macáo, 5 de otubro de 1869. 
Minha Querida Chencha. 
Como vôs lôgo querê sabe tudo novidade de Macáo, porisso que eu já pedi com tudo sium sium, parecero de jogo, pra trazê tudo novidade de fóra pra eu pôde escrevê pra vôs. Macáo agora já tá muto mudado; já nontêm inveja de Éropa. Pra tudo rua são careta, são cavalo; de tanto que já tem, que já nontêm lugar pra guardá; maior parte ficá pinchado na meu de rua de S. Lorenço. 
Agora tá fazè unga casa qui lai de grande na horta de governador, tamem pra guardá careta e cavalo. Olá um pôco, minha Chencha, fazê palacio na cidade pra cavalo, tudo pobre pobre vae pará pra casinha de campo! 
Agora tá com força de prepará pra recebe principe de Inglaterra. Já pedi com sium Carlito pra dá moda pra fazê unga cadera pra cartá principe. Querê cadera que tem quatro pinga pra oito cule; mas como vosso tio gostá muto de figurá, já lembrá de pedí pra convidá oito comendador pra cartá aquelle bemaventurado principe, pra vosso tio tamem pôde entrá na meu. 
Nosso governador lôgo vae ficá na casa vasio de sium Lorenço pra dá palacio pra principe. Nosso juiz tá perto vae já pra Goa. Coitado de vêlo, já soffrê unga molestia bem de grande que escapá morê. Agora tá andá côtê; assim mesmo este um pôco de farizêo nunca perdoá de desesperá aquelle pobre vêlo, que se nunca são cuidado de Padre Maximo, com sua misinha cazera, já vae já pra otro mundo! Já cavá lua de batê páu, mas lua de batê costa de china china inda nompôde cavá, porisso que este um pôco desabrogunhado rabo de porco cada vez tá mas atrevido. 
Otro dia eu já assistí festa de Senhora Rozario. Sentí na greza unga chêro bem desagradavel. Vem casa a note, tá contá com tio João, elle então que dá conta, que já levantá um pôco alto parte trazero de capela-môr; já fazê ali unga lugar pra botá imundicia. Quando vem chua, tudo agu de aquelle porcaria porcaria, contaminá pra pê de parede, vem pra dentro de capela-môr. Vôs inda lôgo ovi, minha Chencha, que algum dia inda lôgo mudá tudo cavalo de policia pra dentro de greza, pra tem mas cham pra fazê palacio grande grande pra official. Agora já nunca contentá cada unga com dos cela. Cada official querê sete cela, qui lai môdo pôde chegá? 
Padre Rondina já livrá de unga desgraça qui lai de grande! Que sabe qualo mapeçoso aquelle que já vae tirá de sua lugar unga botle de enxarope, bota unga botle de verniz. Coitado de padre, sem sabe de nada, virá muto socegado na sua botle pra copo de agu; quando bebê primero pucado, então que sentí que são verniz! Nunçám obra de maliçombrado! querê vernizá tripa de gente como vernizá cadera, canapé?! 
Vosso tio tá muto triste. Este anno já perdê quanto mil pataca com laia laia de condenação de historia. Se o menos pôde tem agora grande negocio de cule, tamem são bom; pôde chubi um pochinho de aqui, um pochinho de ali, discontá o que já perdê. Jogo este anno já nompôde tirá muto. Dispeza cada vez mas grande. Familia augmentá. Divida nompôde cobrá; maior parte são gente grande grande que tá devê. 
Assim mesmo, minha Querida Chencha, inda nompôde quexá de falta que comê; perna de presunto que china china mandá de presente, armado de unga ponta pra otro ponta de cusinha; mas vosso tio nompôde comê ôtro cusa mas que pece fino, chilimeçô de casa algum vez lamci di Cantão. N'otro tempo pescaria são na agu salgado; agora são na agu doce. Que sabe qualo bragero aquelle que já inventá que na Praia Grande tem pescaria de pece pedra, aquelle rapaz de botica de Neves já cae na calote de vae pescá anote fronte de sua botica. 
Pinchá linha cae na sêco; em quanto tá safá linha, senti comedura; quando puça, apanhá unga casta de susto qui laia de grande! era que são unga cuzaçuso de rato, como unga letão, ganchado na anzol. Aquelle tentação de animal principiá côrê pra tudo Praia Grande com linha na boca, e pobre de rapaz a côrê traz de tal rato pra salvá sua linha; de sorte que já fazê ri tudo aquelle gente na Praia Grande com tal pescaria de pece pedra, que ramatá, largá sarangong. 
Manjor Julio já tem quanto mez já de morto. Aquelle tolo de Boletim parte que dá peza sua viuva, vae dá pra tudo sua amigo amigo. Que sabe se na Éropa são costumado assim? Tudo vez que eu sae na janella intopá com unga official de vapor que casta dechistoso, mas historero, sevandizio que más nompôde ser. Tem unga nome que laia de galante; eu já nompôde lembra se são Homecaco o Monocaco, mas são unga cusa assim de caco. Máu genio, lingustero, intremetido, até querê intremetê com emprego de sium Miguel Simões, e tá fazê conta já de intrá naquelle lugar. 
Pra tudo gente são meçá chavoqueada, tirá dente, tira lingu; mas medrozo como cachoro china. Como já são hora de vem tudo parecero de jogo, eu já nompôde escrevê mas novidade. Amestê olá fazê chá, tirá sucre, mandá fazê torada, comprá manteguilha na botica de barbero. 
Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conservá saude pra vos e pro vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio João, tudo mandá muto lembrança. Vai unga botle de achar laia laia e unga flandi de bolo batê-pau torado. 
Vosso tia e amiga
Pascoela.

Pobre Camões, manes de António Vieira, desventurado Herculano!!! Como vos estragam a lingua com tanto amor trabalhada!!! Serão talvez estas as exclamações do leitor. Esperámos, todavia, que concordem em que é digno de attenção o exemplar (...).

Não resistimos á tentação de estampar aqui um annuncio, que guardamos ha mais de dez annos como specimen do género. É do teor seguinte: 
Barberia nacional - «Este estabelecimento será aberto em 2 de fevereiro próximo, 2 peritos estarão constantemente em attendencia para exercer a arte de tonsura e barbear por preços módicos. Aos freguezes mensaes carregar-se-ha $1; 4.1, sendo servido no estabelecimento, e para attendencia nas residências particulares, $1.50 ao mez. Os sobrescriptos farão o favor de encher a formula annexa e retornal-a. Aos avulsos carregar-se-ha segundo o ajuste. Pedro A. Collaço, encarregado

Antes de pôr ponto final no assumpto, devemos declarar que tudo quanto acabamos de expor não tem em mira a mais leve idéa de troça; conhecemos bem quanto o meio, o tempo, etc, etc, podem influir na linguagem, e é-nos grato affirmar aqui que os habitantes de Macau têem grande amor á sua terra e se honram em ser portuguezes, comquanto, de onde em onde, tenham palavras duras para com a metrópole. 

Bento da França, Macau e os seus habitantes, relações com Timor, 1897

nota: a carta, em patuá, foi transcrita na íntegra, tal como foi publicada no Ta-Ssi-Yang-Kuo, em 1865, que publicou, também a 

Carta de Siára Pancha a Nhim Miquela

Macáo 3 de janero de 1865. 
Minha querida Miquéla. 
Tanto tempo eu já querê respondê vosso carta, mas sempre sentî doente, porisso tanto tardá este resposta. Vôs minha Miquéla nadi ficá reva cô eu; vôs sabe qui eu mutu querê pra vôs, e se nunca escrevê mas ásinha san prómódi já tá múto véla. 
Otro dia acunha mofina di ama abri janella, eu irguí cedo, sai fóra, apanhã vento, ficá constipada. Priméro toma sincap, misinha de vento, raspá mordicim, mas nunca pôde ficá bom, cada dia sintí corpo más fraco, perna azedo. Dôtôr falá sam doença d' idade, mas eu nunca sintí assim, chomá mêstre Ahoi, qui tudu gente falá sam capaz, elle já curá. Agora sentí um poco forte, mas mêstre nômquêro que eu fazê mutu força, e mandá tomá ninho di pastro. 
Nosso Macáo, minha Miquéla tem grande novidade. Governo nôvo sam capaz e já virá tudo. Mas um pôco tempo tudo lôgo ficá virado. Rua agora já nomtêm pedra pedra, sam otro lai môdo, fazê duro cô téra. Fazê gosto olá di bonito. Pra vanda de mar, na praia grandi, já botá qui tanto arvi; tudo gente cioso e intrimittido falá numpresta, qui sabe qui foi, mas eu nunca sintí assim. Campo de Sam Francisco já fichá, fazê jardim, escada grande já nomtêm, fazê ali muro; ali riba, aquelle calvario tamêm tá vai lá pra fazê quartel di soldado, qui já principiá, logo ficá grandi. 
Porta di Campo e di Santo Antone já nomtêm tamêm, agora sam rua largu, tudo aquelle arvi fronte di Gularte sua casa já cortá, china china falá corê sangui, mas eu sentí china sam tôlo. Aquelle porcaria di fonti perto di cano real tamêm já tapá, abri poço alá vanda. Tudu poço agora tem sua cobertor bem fêto, e bomba di novo invençám. 
Si minha Miquéla agora pôde ólá tudo aquelle lugar, certo nadi crê qui sam Macáo. Santo Antone qui bem fêto! Aquelle bariga di adro já vai dentro, ficá bonito, e rua mas um pôco grandi. Padri nunca contente, mas qui cuza logo fazê! 
A nôte já nômtem aquelle escuridám costumado, hoze candía tem tres bico, e china china si querê furtá azète vai cartá mati. Genti di Senado sempre durmido, nomtêm aquelle genio di Governo, que tem ôlo vivo, e nadi iscapá nada. Cêdo, cêdo, já tem na rua, tirá telhêro di botica, rancá pagôde di porta di china china, cortá rua fazê drêto, qui fazê gosto ólá. 
Otro dia Voluntario inglez d' Hongkong já vem Macáo! Qui lai di bonito! eu já vai ólá tamêm. Macáo parêce França, tudo gente fallá. Tem tifin, rivista di tropa, salva di vinte unha tiro, balsa á note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancia tres mil fóra pataca. Algum gente qui nunca gostá assi lai cuza, já vai ólá cova de Sam Francisco Xavier eu tamêm muto quere pra santo, mas nunca vai. 
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá unha buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra qui vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista, porisso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita interá, eu achá graça: pôde crê? Padri padri qui cusa pôde tem? coitado! Eu sintí sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di téra? 
Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, qui cusa fazê di lugar pra escondê? Minha Miquéla nomêstê esquecê di mandá nova di tudu qui ólá ali; si marido tem vagar mandá tamêm escrevê. Gente tá fallá qui moda di balám já cavá pra nhonhonha, eu sintí qui si sam assim sam fortuna. Eu tamêm nompôde gostá di assilai cusa; quando vento grandi sam mutu pirigoso, e quando incustá na janéla, ou ficá capido, impurado pra traz, frôvê sangui ólá. Dá bença pra criança criança e nomêstê esquecê de tudu aquelle receta qui eu já mandá quando apanhá saván. 
Nomêstê lembrá sam brinco, eu fallá cô experiencia: tudu gente ri, qui foi eu pilá costa a note intêro, mas eu inda tá vivo, elôtro tudu qui fazê cusa de moda tá morê mas ásinha. 
Eu já mandá dos amchôm di achar di gamên, unha balsa di sucri pedra, dos jara di jagra para vós e criança criança, mas nunca achá resposta, porisso eu ficá cô pençám. Já intrá anno novo; mutu bom anno, filicidade, vida, saude para vôs, vosso marido e tudo criança criança. Nosso senhôr deçá criá. Eu tá muto lembrá pra vós, querê mandá um pôco de alúa mas nômpôde, paciencia. Masqui nompôde acetá bom vontade d'este vella chacha qui mutu querê pra vôs. 
Dá lembrança pra Pepe, falá cô elle múto contente eu já ficá, ouvi falá, elle já ficá bom de espinhéla. Vosso tio padri tamêm mandá lembrança, elle coitado nunca sam nada já. Nhum Quimquim já vai viazi, imbarcá de piloto na navio que levá chuchai, ganhá tanto pataca. 

Vosso chacha Pancha

P. S. Vós lôgo sintí grandi differença na minha modo di escrevê. Eu já aperfeçoá bastante neste um pôco tempo. Tudu este escóla novo de machu e femia, e aquelle gazetta Ta-ssi-yang-kuo já fazê indretá bastante nosso lingu.


A transformação da linguagem em virtude da alteração phonetica é um phenomeno de base physiologica; a formação dos dialectos creolos é no que tem de essencial um phenomeno psychologico. Formam-se elles rapidamente, para accudir á necessidade das relações; é o povo inferior pela raça, pelo estado de civilisação, mas ao mesmo tempo mais forte de instinctos, mais rico de espontaneidade, é esse que os forma com os materiaes da lingua do povo superior, que em regra não desce a aprender ou mesmo a dar attenção ás expressões do barbaro, do selvagem. Ao ouvido do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras tumultuosas as palavras do povo superior, depois aquelle percebe como que um rythmo, depois, n'aquelle oceano de palavras descobre alguns pontos firmes, salientes; fixa-se n'elles (...)

Por fim dá-se muitas vezes um phenomeno curioso: entendido do povo superior do povo que em geral manda, o povo inferior não quer saber mais nada da lingua d'elle, contentando-se com o dialecto que formou: então o povo superior ver-se-ha obrigado a fallar a sua propria lingua alterada.

Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América
Francisco Adolpho Coelho, 1881, Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa


Depois de ler isto, sinto que se deu, em mim, um fenómeno curioso. E, vendo-me obrigada a falar a minha própria língua alterada, digo que estas linhas são bué chocantes. São nunca?

Presepio assim bemfêto ...

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(...) poesia do chistoso poeta macaense Filippe M. de Lima, publicada em 1895 no Almanach Luiz de Camões, de Hong-Kong. Com tanta graça como chiste conta o sr. Lima as bellezas do presépio que o padre Manuel costuma armar na véspera do Natal, n'este bom tempo em que na copa se apromptam o pão de casa, a alua, o doce pinhão, o frate, o dodol e outras doçuras e guloseimas para os vorazes estômagos que os hão de tragar no grande dia tão festejado pelos macaenses, e no alto de todos os armários, aparadores e guarda-vestidos se ostentam, as laranjas, essas bellas laranjas de casca fina e de perfume delicioso como se não encontram na Europa, todas enfileiradas como pequenos lampiões ou lanternas amarellas. Que alegria iria por essas famílias de Macau, n'esse grande dia tão celebrado em todo o mundo christão (...)

Em 23 de dezembro 

Natal já tem traz de porta (1) 
Logo cai na quartafêra; 
Vença (2) nos armá presepio
E aranjá candêa cera (3).
Nôs tem sagrada familia, 
Pastor, vacca tem bastante; 
E tem também três Rê mago 
Montado na elephante. 

Nôs tem Minino Jesús, 
Sam José com Nossiôra;
E tem bastante pastor 
Com dez ou doze pastora. 

Mandá fazê unga estrado 
 D' altura de nosso pêto; (4) 
Armá presepio de riba 
Logo pôde olá bemfêto. (5) 

Nôs dipois de missa-gallo, 
Vamos sandê todo luz;
Chomá gente de vizinho 
Cantá Minino Jesus. 

Na Macau padre Manuel 
Com mas dôs ou três sium-sium 
Chega festa de Natal 
Canta: gorung, gorungung (6) 

Aqui Adeste fidelis 
E venite e más venite; (7) 
Como eu non sábe latim 
Ai senti que non tem chiste. 

Padre Manuel na Macau 
Fica na rua de Pala (8) 
Já fazê unga presepio
Que ocupá metade sala. 

Sua lapa (9) qui bonito... 
De fóra inchido de fula. (10) 
Minino Jesus na pala 
No meio de vaccas e mula 

Nossiôra e Sam José 
Ali perto dozelado (11),
Cobri corpo de sua filo
De frio quasi gelado. 

A' riba de lapa unga anjo 
Aguando (12) desce de ceo 
Co´unga letréro escrevido 
— Gloria in excelsis Deo. — 

Tem uma estrélla na ceo,
Qui bonito vôs olá ! (13) 
E tem três rés que, de longe, 
Bota óculo, observá. 

Sim, padre Manuel fallá 
Qui aquelle são três rés-magro 
Mas eu senti bem de gordo 
Tudo costa bem de largo. (14) 

Unga ré são portuguez (15) 
Otro moro, tem turbante;
Otro cafre beco grosso, 
Corpo inchido diamante! 

N'unga canto de presepio 
Inchido de arve de côoco; (16) 
Macaco subi, descê.
Igual como jugá sôco. (17) 

Rê Herode com sua tropa 
Com espada, chuça e lança, 
Corê como diabo solto (18) 
Mata tudo criança-criança! 

De tanto ancuza que tem, 
Que eu agora já esquecê; 
Mas tem unga crueldade 
Eu de medo já tremê!! 

Vôs olá p´ra tudo rua, 
P'ra tudo canto e travessa 
Inchido criança macho 
Tudo morto sem cabeça. 

Vae tudo vanda ouvi choro (19) 
Tudo mãi berrá, dá grito; 
Sam José com Nossiôra 
Fuzi com Jesus p'ra Egypto 

Padre Manuel são capaz, 
Elle tem bastante gêto; 
Agora não pôde olá 
Presepio assim bemfêto. 

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Notas

Páo de casa - Bolo parecido com o pão de ló europeu. Alua, doce pinhão, frate, dodol, etc - doces que se costumam fabricar em Macau por occasião do Natal. São quasi todos de origem indiana e não chineza. Os doces e bolos chinezes são, na maior parte, indigestos e repugnantes ao gosto e á vista. Um d' elles, o bolo bate-pau, é tão duro que para ser quebrado se necessita do emprego do martelo! E o recheio é de feijão e toucinho adocicados com jagra ou melaço! D' entre os citados doces indianos distingue-se a alua (na índia diz-se aludi, muito usado em todo o Oriente como um verdadeiro confortativo para as pessoas fracas. A mais afamada é a de Mascate, que se exporta em tigelinhas de barro, emquanto a de Macau é feita na forma de tijolos rectangulares. 

Para os leitores curiosos de Lisboa forneço a seguinte receita que pode ser executada com êxito, se fôr seguida á risca. Não ha em Lisboa o arroz pulu empregado em Macau para se fazer a farinha com que é fabricada a alua; mas pode ser substituida pelo arroz de Veneza ou da terra. 

Tomam-se 3 kilos de farinha d'esse arroz, que se lava e se deixa assentar até ao dia seguinte, em que se deita fora a agua que ficou por cima. Tomam-se mais 5 cocos grandes; pisa-se o seu miolo, o qual se escalda com sufficiente quantidade de agua a ferver. Guarda-se esta infusão e o bagaço do coco à parte. Tomam-se mais: Assucar 1 kilo 1/2s; Amêndoas doces e nozes q.b. Mistura-se tudo com a farinha e com a agua e bagaço do coco e colloque-se sobre o lume n' uma bacia de arame. Vae-se cozendo de vagar, mechendo-se sempre com uma colher de pau (...) acrescentando-se, pouco a pouco, 1 kilo do banha ou de manteiga de vacca, sem sal. Quando a banha não resudar mais da massa, está cosida esta; e vasa-se logo para uma meza de pedra ou de mármore untada de manteiga de vacca; e, com o rolo, também bem untado, da-se-lhe uma espessura egual, cortando-se, quando estiver fria, em quadrados ou em feitios que se desejar. (...) 

E' costume em Macau, nas proximidades do Natal, enfeitar com rumas de laranjas todos os frisos superiores dos moveis - como guarda-vestidos, guarda-loiças, armários, aparadores, etc. A laranja melhor de Macau é a chamada de casca fina, uma espécie de tangerinas grandes, muito perfumadas e gostosas.

(1) Já vem perto. 
(2) Vamos armar. 
(3) Velas de cera. 
(4) Peito. 
(5) Poder-se-ha ver bem. 
(6) Refere-se ao cantochão. 
(7) Palavras ditas pelo sacerdote na missa do gallo, quando apresenta o Menino a beijar aos fieis. 
(8) Palha. 
(9) Em certos Presépios a Sagrada Familia está n' uma gruta ou lapa, em vez da arribana em que o Rei do mundo nasceu. 
(10) Flor, flores. 
(11) Um de cada lado.
(12) Avoando, voando. 
(13) Que bonita vista que faz 
(14) com reis magos ... de costas bem largas! 
(15) De Ré português mago. . . não reza a historia lusitana 
(16) Arvore ou palmeira de coco
(17) Em que os macacos sobem e descem como se estivessem a jogar o socco. 
(18) Diabo solto. Diz-se de pessoas que correm aos saltos, fazendo esgares e gestos desordenados.
(19) Por todos os lados se ouve chorar. 

Ta-ssi-yang-kuo, Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Portuguez, 1899

Natal em Macau

1 presépio da sé2  presépio da sé

A comunidade macaense habituou-se, ao longo da sua história, a participar muito activamente em festividades, quer portuguesas, quer chinesas e, ainda hoje, mesmo na diáspora macaense, explica-nos Alexandra de Senna Fernandes Hagedorn Rangel em Filhos da Terra: a comunidade macaense, ontem e hoje. 

E relembra que os feriados oficiais incluíam, na vigência da administração portuguesa, datas de acontecimentos nacionais portugueses, festividades tradicionais chinesas e também festas da Igreja Católica. Após a transição, foram eliminados os feriados correspondentes a efemérides históricas portuguesas, tendo sido mantidas festas católicas, que têm especial significado para a comunidade macaense, como a Páscoa, o Dia da Imaculada Conceição e o Natal. 

Na verdade, a comunidade macaense é tradicionalmente católica, uma herança dos pais portugueses de tempos de outrora, de uma cidade repleta de igrejas e capelas, algumas existentes desde os primeiros tempos do estabelecimento de Macau. Renelde da Silva justifica a religiosidade dos macaenses da seguinte forma: Face à sua pequenez numérica num ambiente de omnipotência política da vizinhança e do relativo abandono da Metrópole, os macaenses aprenderam a contar consigo próprios, para enfrentar as situações difíceis, por que tiveram de passar. Para além das suas forças, só podiam contar com Deus. Daí a sua religiosidade. Como para muitos outros católicos, para os macaenses, o Natal é uma festividade muito importante e amplamente participada. Mas nunca foi só uma festa de família, pois foi sempre vivido também com intensidade em estabelecimentos de ensino, em organismos associativos, em empresas, em serviços públicos e em instituições de solidariedade social. 

O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes descreve assim o Natal no seio da sua família: O Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma cerimónia tocante na Sé Catedral (…). Logo a seguir, vinham os preparativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos coscorões, empadas e fartes, os costumados doces da época. Encomendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso “game-pie” do Lane Crawford. Encomendavam-se também à Loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade “Moura” de Macau (…). A “missa do galo” desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis, com quebra do dia do Ano Bom, eram dedicados a amigos e conhecidos.

Quanto à consoada, diz-nos que existem pratos específicos para o Natal, como a empada de peixe, os coscorões, o aluar (doce de origem indiana, feito com amêndoas), o ladu (feito com farinha de feijão e farinha de arroz glutinoso) e a sopa de lacassá (caldo de camarões com massa de farinha de arroz). Um prato específico para o Ano Novo é o diabo, um refogado picante que é feito com as sobras de carnes do Natal, nome que poderá ser sugestão do calor ‘infernal’ do picante, ou das cores vermelho-amareladas a sugerir labaredas. É uma espécie de ‘roupa velha’ de todas as carnes servidas, sejam estufadas, assadas, fritas ou panadas, que se desossam, reduzem a pedaços pequenos e são devolvidas à panela com um estrugido de pickles, mostarda, malaguetas e todos os molhos das carnes guisadas. 

Outro prato típico é o tacho, também conhecido por chau-chau pele. É parecido com o cozido português que o influenciou, mas o tacho é feito com presunto e chouriço chineses em vez de enchidos portugueses. 

Alguns pratos têm nomes ingleses ou derivados do inglês, o que demonstra a influência dos hábitos da ex-colónia inglesa de Hong Kong e da comunidade macaense radicada em Xangai durante os princípios do século XX: cheese toast, tostas de queijo e leite condensado, cake, uma imitação do Christmas Cake inglês, servido em fatias finas embrulhadas em papel de prata e naperons rendados, e minchi, nome derivado de minced meat por ser um prato de carne picada, que tem tantas variedades como as que os portugueses costumam atribuir ao bacalhau: podendo levar carne de porco, de vaca, da mistura das duas, de galinha, de peru, de pombo, de peixe, na origem, está um prato goês chamado quema ou kheema, um picadinho de vaca com cebola, temperado com garam masala e outras especiarias. 

Os doces macaenses têm origens diversas em países asiáticos, como o muchi (bolinhos de massa de arroz glutinoso e feijão branco torrado, de inspiração japonesa), a bebinca de leite (pudim de coco, leite evaporado e fécula de milho, baseado na bingka da Malásia ou no bolo de Manila, feito de fécula de arroz, açúcar, ovos e coco, assado de um lado e do outro em lume de carvão e com o nome de bebingka ou bebincam). A maior parte das receitas é antiga e tem nomes de origem malaia, como chacha (sobremesa líquida de feijão encarnado), saransurave (bolo cozido a vapor com coco e feijão encarnado), onde-onde (bolinhos cozidos a vapor) e bagi (o arroz doce macaense).

Quem são os Macaenses?


imagens retiradas do livro da autoria de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, 
Álbum Macau, Sítios, gentes e vivências


Os Macaenses são portugueses, claro está. Porque os portugueses criaram em Macau um novo tipo de euro-asiático. Diferente do «mestiço luso-chinês que, alguns autores têm, indistinta e erradamente, visto, ao longo dos séculos, no macaense ou filho da terra», explica Ana Maria Amaro, em Filhos da Terra.

Erradamente porque, esclarece, a mestiçagem era difícil, pois, para os chineses, «todos os estrangeiros eram considerados bárbaros e as relações entre uns e outros não poderiam, pois, ultrapassar, senão em casos esporádicos, o nível comercial».

Vasculhando a origem da comunidade, conclui que as fontes históricas apontam para as «mulheres malaias e indianas como as primeiras companheiras dos portugueses fundadores de Macau». Também se podem incluir chinesas «principalmente aquelas que os pais vendiam ou que acompanhavam os piratas chineses com os quais muitos portugueses andavam misturados, teriam sido suas mancebas ou, mesmo, esporadicamente, mulheres legais. O mesmo se pode dizer em relação às mulheres japonesas».

O Reino não permitia o embarque de mulheres para o Oriente a não ser os casos de damas de alta linhagem ou parentes próximas de fidalgos, enviados para desempenhar altos cargos. E, segundo a autora, não fazia sentido pensar-se que as europeias eram trazidas para Macau, sendo aqui «a vida bastante aventurosa», de início, e o mesmo se diz das «nascidas em Goa, filhas de mães europeias. Aliás, muitas eram as filhas dos portugueses que professavam, talvez porque seus pais não encontravam, para elas, o marido desejável». 

Pelo que fica dito, a mistura entre portugueses e orientais de várias etnias, resultado do tráfico de escravos, também, deu origem ao macaense. E, conclui a autora, sabendo-se que entre os chineses predominam «os grupos BN e ON, seria de esperar que fossem estes e ABN os grupos de maior frequência entre os macaenses, no caso de haver, há muito, larga mestiçagem entre os portugueses e os filhos do Celeste Império, como alguns autores pretendem». Mas, não é assim. 

Portanto, o «macaense é o produto de uma longa sedimentação de contactos e influências mútuas entre a China, a Europa e todo o mundo marítimo do Sul da Ásia» como é concluído por João Pina Cabral e Nelson Lourenço, em Terra de Tufões. 

Esta mesma ideia é defendida por Alexandra Hagedorn Rangel, na sua interessante dissertação de mestrado em ciências da cultura, onde diz que «o termo Macaense não se aplica aos habitantes de Macau (onde cerca de 95% da população é chinesa), mas aos que são fruto de sucessivas gerações de cruzamentos entre portugueses e orientais (mulheres malaias, indianas, japonesas e chinesas, entre outras), havendo também os macaenses por adopção, os chineses católicos que adoptaram nomes portugueses, frequentaram as escolas de língua portuguesa e assimilaram a cultura dos macaenses, considerando-se parte da comunidade».

Esclarece que «os macaenses usam a expressão filhos da terra para se referirem a si próprios, expressão essa derivada do cantonense t’ou sáng p’ou yân, que significa filhos da terra de ascendência portuguesa».

Refere, também, que a miscigenação começou em Goa e em Malaca, decorrente de dotes nupciais e da oferta de terras a portugueses pelo casamento com mulheres locais, uma política de Afonso de Albuquerque. Por esta razão, nas armadas seguiam sempre muitos fidalgos, sendo costume enviar para o Oriente os filhos bastardos da fidalguia portuguesa. 

Foi a queda de Malaca, em 1641, que fez de Macau o refúgio e os portugueses, conclui, quando aqui se estabeleceram, traziam consigo a família, criados e escravos e as mulheres mestiças, com mais de cem anos de miscigenação afro-portuguesa e cinquenta de luso-asiática. 

O que é certo é que durante muito tempo os macaenses não se misturaram com chineses porque estes eram fechados aos estrangeiros e encontravam-se, em Macau, em situações carenciadas, o que tornava a união inaceitável socialmente. A miscigenação entre portugueses e chineses data dos fins do séc. XIX, princípios do séc. XX, fazendo-se entre os grupos sociais economicamente mais débeis: as macaenses casavam-se com militares, sendo preferidos os de patentes elevadas ou funcionários qualificados. 

O isolamento dos macaenses que os torna uma comunidade não foi, pois, decorrente de preconceitos raciais, refere, mas de preconceitos sociais e do facto de Portugal, verdade seja dita, sempre ter isolado Macau, desde o seu início até à segunda metade do séc. XIX. Ora, remata, não se identificando os macaenses com chineses, casavam entre si, principalmente nas classes mais favorecidas, sendo frequente o casamento com parentes do quarto e terceiro graus, o que deu azo à expressão «tudo sã primo-primo, no dialecto macaense». As filhas da terra também casavam com europeus ou com estrangeiros e casamentos com indianos, timorenses ou cochinchineses era contraído por mulheres mais modestas (mestiças chinesas ou de outras etnias). O mesmo entre os homens; casavam com filipinas, cochinchinesas e chinesas, chinesas que eram criação de famílias ricas (adoptadas ou filhas ilegítimas, com escravas, e que eram baptizadas e educadas na cultura portuguesa). 

Em conclusão da definição de macaense, lembrou Carlos Estorninho, e cito-o: «os macaenses só consideram seus conterrâneos os naturais de Macau em cujas veias corre sangue português, recente ou por mais remoto e diluído que seja com sangue afro-oriental, e tenham mantido a nacionalidade portuguesa paterna, sejam baptizados como cristãos e tenham recebido nome português, se exprimam em português ou dialecto macaense, e, ainda, tenham frequentado uma escola portuguesa. E que são características o atávico receio de ser absorvido e integrado pela China, o seu sentimento de abandono, de indiferença ou incompreensão por parte de Portugal».

Tradições do Ano Novo Chinês


Em Filhos da Terra: A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje, Alexandra Sofia Hagedorn Rangel explica que «um prato específico para o Ano Novo é o diabo, um refogado picante que é feito com as sobras de carnes do Natal». Chama-se assim por causa do «calor ‘infernal’ do seu picante, ou das cores vermelho-amareladas a sugerir labaredas». É «uma espécie de ‘roupa velha’ de todas as carnes servidas, sejam estufadas, assadas, fritas ou panadas, que se desossam, reduzem a pedaços pequenos e são devolvidas à panela com um estrugido de pickles, mostarda, malaguetas e todos os molhos das carnes guisadas (…) Para os que gostam de muito picante, existe uma variante extrema cujo nome dispensa comentários: o Diabo furioso.»



Diz, ainda, que pelo «grande entusiasmo com que é celebrado pelo grupo dominante da população de Macau, o Ano Novo Chinês faz parte da vida de qualquer macaense. Sendo a maior de todas as festas realizadas na China e na vasta diáspora chinesa, também os macaenses a comemoram, mesmo quando residentes no estrangeiro. É impossível sair à rua nesta altura sem assistir às celebrações, cheias de cor e movimento, que incluem danças do leão e do dragão, exposições artísticas e de flores, a queima de panchões (estalinhos chineses, que ali são utilizados para múltiplos fins: cura de doenças, celebração de nascimentos, manifestações de regozijo ou de pesar, etc.) banquetes e espectáculos musicais (o barulho é considerado auspicioso por ser uma forma de afastar os maus espíritos)».




E esclarece que as «donas de casa, chinesas e macaenses, compram ramos de pessegueiro e narcisos para decorar a casa, assim como arranjos florais elaborados, imitações de panchões e papéis e dísticos vermelhos para afugentar os maus espíritos». 

Na verdade, não se pode esquecer a substituição dos dísticos auspiciosos, colados em cima da porta de casa e que expressam desejos de sucesso nos negócios, de longa vida, de riqueza, quase sempre com o caracter Fôk caligrafado, que significa felicidade, em recortes de papel encarnado com o formato de losango. Além dos dísticos, também se colam nas portas as efígies dos Mun Sân, os deuses das portas. 



Fala noutra tradição, que é «jogar nos casinos, em busca da sorte neste período auspicioso para todos. Muitos habitantes e turistas chineses vindos de Hong Kong, Taiwan ou do continente chinês enchem estes locais de jogos de fortuna e azar, e dão à cidade uma imagem de alegria e prosperidade económica, participando, activamente, nos festejos e adquirindo as guloseimas, flores, roupas, brinquedos e outros artigos habitualmente consumidos nesta ocasião».

«Mesmo os menos afortunados», conclui, «procuram usar roupas novas e integram-se completamente neste ambiente de festa. Nesta altura do ano também os serviços, os escritórios, as obras públicas e muitas casas comerciais cessam completamente a actividade durante vários dias. Até os pescadores, com as suas embarcações embandeiradas, recolhem ao porto de Macau e vêm para terra.»

E, muitas regras não podem deixar de ser cumpridas; para que tudo corra bem, é preciso iniciar, com antecedência, toda a comida, para nada se cortar durante o ano novo, não vá a sorte fugir pela janela da cozinha. Depois, tudo o que for preciso se conserta em casa, que é toda lavada e arrumada, pronta para começar uma vida nova. 

Um preceito que não pode falhar é que não se deve discutir ou ter maus pensamentos e, o mais importante, é saldar todas as dívidas...