Altar no Beco do Tarrafeiro
A theogonia chineza, com as suas difficuldades e confusões, admitte em acção e presidindo sempre a qualquer acto, ou scena da vida, dois princípios, o yang e o yn; um activo, outro passivo; um dependente do céu, que tem ao seu dispor tudo quanto é nobre e masculo, e que é a força creadora, outro que é a materia inerte, plastica, principio femea, que domina a terra e as creações inferiores. Ti, o espirito do Céu, e Che, o espirito da terra, constituem pois de facto os dois deuses, que presidem a todas as producções. A antiga religião chineza não é, assim, senão um pantheismo extravagante, reconhecendo os deuses protectores do trovão, da chuva, do vento, das nuvens; espiritos protectores das sementes, das arvores, das flores; immortaes e independentes dos hings, ou santos, que foram os legisladores, os philosophos, os poetas, etc.
Esta religião do Celeste Imperio divide-se em duas partes, ou verdadeiras seitas religiosas: uma toda especulativa e falta de base espiritualista, prestando-se a todas as superstições e extravagancias, outra, puramente philosophica, e professando o respeito absoluto pela tradição e o horror ao progresso. Mais tarde é que veio a terceira, o budhismo, cujos principios abstractos deviam ter notavel importancia na China, e que ainda hoje ali se mantêem. (...)
Esta religião admitte duas divisões distinctas; uma tendo por fundador o patriarcha Lao-Tseu, a outra Confucio, ou Koung-Tseu. (...)
Tao-te-king, ou o Livro da rasão suprema e da virtude, que foi a base da religião absurda que teve por sectarios os Tao-sse, que procuravam a magia e a immortalidade, sendo o patriarcha da seita, considerado o Deus supremo, ou Chang-ti, muitas vezes representado como Deus da longevidade, o veneravel Cheo- lau. (...)
O verdadeiro legislador do imperio do Meio, Confucio (...) prégava as suas maximas (...) que louvavam as manifestações da divindade em todos os phenomenos naturaes, como na successão das estações e na fecundação das terras, e outros muitos que perpetuavam a memoria dos bons imperadores, dos sabios philosophos, e dos bemfeitores da humanidade, e que consagravam os laços da familia, que prendiam o passado ao presente, que mantinham o culto dos antepassados, etc..
D´estas doutrinas, como effeito verdadeiramente inexplicavel, brotou uma iconographia singular e uma colecção de deuses, entre os quaes figura Confucio, sentado, ou de pé, com um rolo de manuscriptos, ou com o sceptro do bom agouro (...), o deus da guerra, com um grande ventre e com as faces rubras, brandindo a lança com ar ameaçador; a deusa dos talentos que esparge perolas; e muitas outras divindades.
Adolpho Loureiro em No Oriente, de Napoles à China, diario de viagem. 1896