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Templo de Lou Pan Si Fu

Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu 
Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu 
Templo de Lou Pan Si Fu Templo de Lou Pan Si Fu

Situa-se na Rua da Cal e foi construído em 1859. Está classificado como monumento por ser considerado um edifício de significado histórico.

O templo é dedicado a Lou Pan, mestre carpinteiro da corte imperial que se tornou patrono dos carpinteiros, pedreiros e pintores da construção civil e, por isso, também conhecido por Mestre dos Três Ofícios. É ainda patrono dos operários e artesãos dos estaleiros de construção naval. Atribuem-lhe a invenção de plainas, réguas, esquadros, fios de prumo e do sistema de encaixe nas peças de madeira, sem recurso a pregos.

É no dia 13 do 6º mês lunar que se celebra o dia de Lou Pan. O templo é decorado, aos fiéis é dada uma lanterna de papel, toca-se o sino e tambores e, no altar são colocadas as oferendas: porco inteiro assado, bolos de fruta e flores frescas. Aí, os fiéis curvam-se por três vezes diante da estátua da divindade. E este ritual termina com um banquete. 

A tradição era os festejos incluírem também ópera chinesa ou teatro de fantoches. Os trabalhadores dos ofícios protegidos pela divindade tinham folga neste dia para poderem participar nas celebrações que incluíam a distribuição do chamado «prato de arroz de Lou Pan» ou «prato de arroz do Mestre», entre os vizinhos e, principalmente, pelas crianças, pois acreditava-se que lhes traria um futuro promissor e seriam saudáveis.

Hoje em dia este templo encontra-se quase sempre de portas fechadas.

As montanhas sagradas da China

Pátio do Piloto Pátio do Piloto Pátio do Piloto
Altar no Pátio do Piloto

Abundam na China as montanhas sagradas, todavia a mais importante é a de Kuen-Lun. Tem dez mil leguas de circumferencia e onze mil de altura. Rodeiam-na quatro rios, cujas aguas são respectivamente azues, brancas, vermelhas e pretas. Frondosas arvores de jada ostentam nos seus ramos o fructo da vida eterna e em seu âmbito dá tres voltas á torrente amarella de Tanshuci, que salva da morte quantos bebem suas aguas. 

N'esta montanha de Kuen-Lun vive a rainha Si Van Mú, imperatriz do Oeste, acompanhada sempre de nymphas e anjos de azas azues que servem de mensageiros junto dos homens a quem sua senhora distingue. O seu palacio acha-se edificado com pedras de tres cores, viçosas como as rosas dos seus jardins, e encerra lagos de perolas onde nadam animaes extraordinarios pela forma e lindas pennas. 

A lenda de Kuen Lun não passa, no fim de contas, de uma adaptação terrena do paraiso budhista. 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

A literatura e a religião na China

Beco do Sal Beco do Sal
altar no Beco do Sal

A literatura chinesa da época dos primeiros embates dos progressos do Ocidente com o radicado conservantismo chinês, nos transmitiu preciosos testemunhos da mentalidade dos celestes sob este curiosíssimo aspecto. São duma escritora chinesa, de nome Kuei-li, flôr mimosa duma sociedade em que o requinte da graça feminina consistia em apresentar os pés desmedidamente reduzidos e mutilados, os seguintes períodos que mostram como o pavor daquelas ofensas ao Dragão, feitas pelos detestáveis Fan-Kuai, ou diabo estrangeiros, lançavam o pavor entre os pacíficos camponeses do Império do Meio.

Tem havido grandes rumores pelo vale e pela montanha. Parece que se lançou uma ponte de ferro sôbre a ribeira e que vieram os homens estrangeiros que examinam os campos com uns oculos. Isto afastou os bons Espiritos dos vales, o que deu lugar a que morresse o gado, a que o arroz não amadurecesse e a que muitas outras contrariedades se espalhassem por tóda a parte. Transbordaram as ribeiras porque se Profanou o dorso do Dragão, escavando numa terra que era sagrada. 

Não nos admiramos que tais incidentes possam ser aproveitados com intuitos políticos, num país onde imperam crenças tão primitivas. Não haverá ainda quem se lembre de, há algumas dezenas de anos atrás, se ter habilmente explorado, entre nós, com intuitos políticos, pretensos raptos de crianças, efectuados por certos padres, em pleno dia, na Praça da Figueira, para com elas fabricarem oleo humano? E ainda há quem se ria das crendices e da intolerancia dos chineses! 

O que fariamos nós, se, pelas nossas vilas e aldeias, aparecessem bonzos a pregar ao povo as doutrinas de Buda, Lao-Tsé ou de Confucio? As superstições milenárias, as lendas, os mitos, o amor e temor dos mortos que povoam a China; a falta de religião dos chineses que praticam tres religiões -que estupenda contradição!-; o cenário dos Pagodes com seus idolos doirados mergulhando na penumbra e no fumo do sandalo queimado; a aspiração vaga duma conquista da Felicidade com que o sentimento religioso seduz, como a todos os outros povos, o espirito dos chineses, sem que, porem, a troquem pelos prazeres mais positivos e terrenos; a incógnita, a sedução e a tristeza da China duma vastidão absorvente; o que é imponderável mas, ali, sôbre nós pesa e como que nos esmaga; o que parece se receia mas se deseja, que nos chama e nos canta a China,- tudo isso permanece envolto, em tintas que se misturam se diluem e quasi esmorecem, para reviver de novo, ora cruas e fortes, carregadas, ora suaves, ridentes e logo sinistras, esbatidas, tudo isso se mostra ainda, palpitante e cheio de vida, na recordação longínqua, mas presente, daquele quadro exótico e impressionante, ás portas Bazar - o dos bonzos amarelos!

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. 

A fleuma dos chinas

Beco do Coral
Altar no Beco do Coral

Hum europeo, tendo na sua primeira viagem a Cantão comprado varias fazendas a hum china, conheceo, quando este lhas mandou para bordo, que havia falsificação na qualidade e no peso das fazendas, e apezar de estar o negocio de todo concluido, foi outra vez a terra procurar o seu homem, lisongeando-se de que por meio de representações moderadas ou de seu enfado, obteria alguma diminuição no preço convencionado. Chegando pois a casa delle disse-lhe. 
- «China, vendeste-me pessimas fazendas»
- «Póde ser», respondeo o china; «mas não ha remedio senão paga-las»
- «Tu illudiste as leis da justiça, e abusaste da minha confiança»
- «Pode ser, mas não ha remedio senão pagar»
- «No entanto és hum velhaco, hum miseravel»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».
- «Que opinião queres tu que eu dê, quando chegar á minha terra, da inteireza tão nomeada dos chinas? Só poderei dizer que elles são todos huma canalha»
- «Póde ser, mas não ha remedio senão pagar».

O europeo exasperado por estas inalteraveis respostas, enfureceo-se, e depois de o ter injuriado por todos os modos, sem lhe poder tirar outra palavra mais do que «Póde ser; mas não ha remedio senão pagar», julgou acertado abrir a bolça e dar o dinheiro. Então o china, tendo o recebido, disse:
- «Europeo, em logar de te esfalfares a injuriar-me, como acabas de fazer, valia mais haveres-te calado, e principiares por onde acabaste. Porque, com tudo quanto disseste não ganhaste coisa alguma!»

Archivo Popular, leituras de instrucção e recreio, semanário pintoresco. v.1 (1837).

Lendas chinesas

Altar no Pátio da Horta Altar no Pátio da Horta
Altar no Pátio da Horta

As lendas populares são na China singelas, suaves e poeticas. O natural mistura-se ali com o maravilhoso, o povo acceita com profunda convicção estes legados de antigas aspirações e crendices. Não admira, attenta a boa fé d'aquella gente pacifica, cujo instincto os tem afastado sempre de enthusiasmos por conquistadores e guerreiros. No Celeste Imperio só o estudo e o trabalho enaltecem o homem e honram os caracteres; heroes militares e combates sangrentos não são o seu forte. (...)

Agora a curiosa lenda da amendoeira. Diz-se que na epocha bastante recuada da dynastia Shang, quinze seculos antes da nossa era, vivia nas terras de Setchuen uma rapariga formosa, rica e querida de todos, tanto pelos dotes e prendas physicas, como pelo seu extremoso carinho filial, mais valioso que os thesouros da celebrada pedra jada.

Um bello dia o pae da donzella desappareceu do sitio, sem que se pudesse atinar com a causa de tal facto. Pela manhã havia montado a cavallo e á tarde o rocim appareccêra em casa sem cavalleiro. A mãe julgou não sobreviver ao desgosto. A filha recusou-se a tomar alimento, vestiu-se de rigoroso luto e não consentiu em ver mais pessoa alguma sem saber do paradeiro do pae.

Assim decorreu um anno. Os ladrões das immediações, que frequentavam os sitios mais escusos, affirmavam não ter dado fé de tal homem. Os venerandos sacerdotes asseguravam que os Genios não o haviam levado para o céu. Não fora morto na guerra, nem tão pouco victima da peste!

Lancinada a mãe, tanto pela perda do marido, como pela dor que consumia a filha, fez um dia solemne voto de dar a rapariga em casamento a quem restituisse o marido ao lar domestico. Toda a gente das vizinhanças saiu para o campo, perguntou aos viandantes, calcurriou montes e valles. Não podia o premio ser mais tentador, porquanto a posse da amofinada menina fazia presuppor para o afortunado nas suas pesquizas, os gosos do céu na vida terrena.

Chegadas as cousas a este pé, aperceberam-se um dia de que o cavallo, em que saira o velho, estava inquieto á manjadoura, escarvava de continuo e fazia por partir as prisões. Ao cabo de afincado esforço, conseguiu o animal soltar-se, e partindo veloz, como um gamo, perdeu-se na imensidão dos arrozaes longinquos. Mais feliz do que as pessoas, logrou voltar ao povoado trazendo comsigo o velho tão insistentemente procurado. Posto o cavallo na cavallariça, todos o esqueceram, mercê da alegria, que lhes ia na alma; o animal, todavia, adoeceu desde logo. Não comia, nem bebia; de vez em quando apparecia triste, de outras feitas furioso; e continuamente voltava a cabeça para os aposentos da filha do dono. O ancião teve curiosidade de inquirir da irritabilidade do bicho e então a esposa revelou-lhe o voto feito por occasião do seu insolito desapparecimento.

«Taes promessas fazem-se e cumprem-se, disse o velho, quando se trata de homens, mas não a respeito de bestas. De hoje avante dê-se ao cavallo dobrada ração, quer de palha, quer de arroz. Em que cabeça humana entrou a possibilidade de casar uma rapariga com um quadrúpede?!» 

A despeito de tudo, o cavallo persistiu em não levantar o penso e, como tinha ouvido a conversação dos velhotes, mais se abispava ao passar próximo d'elle a formosa menina. Receioso o pae de que a attitude do cavallo acarretasse desgraças á família, resolveu matal-o, mettendo-lhe uma flecha no coração. Depois de morto o bucephalo, trataram os creados de lhe tirar a pelle e pozeram-n'a a seccar ao sol, pendurada n'uma arvore no meio do pateo da casa. Succedeu, porém, que, ao passar a rapariga por ali, se animaram de subito áquelles despojos e, envolvendo-a, levaram-n'a pelos ares, com grande admiração dos presentes. Dez dias depois apparecia a pelle estendida sobre a copada de outra arvore, até então desconhecida no paiz; das suas folhas nutria-se uma lagarta, que vomitava casulos de seda. Lá foram chorar-lhe junto ao tronco os desditosos páes da rapariga e, de então para cá, o povo deu áquella arvore o nome de Shang, palavra que em lingua chineza tem a dupla significação de amoreira e funeral.

Ninguém ousou duvidar de que a rapariga houvesse sido transformada em lagarta por falta do cumprimento da promessa; decorrido algum tempo appareceu aos páes uma deusa radiante de formusura e cercada de Genios magnificamente vestidos, envolta em nuvens de perfumes e montada no cavallo que havia sido morto. Era a filha, que, dirigindo-se-lhes, disse:
«Adorados páes! Mercê da minha piedade filial, pelo meu bom coração e fidelidade inconcussa, escolheu-me Deus para sua serva nos palacios do ceu, onde moram bem-aventurados, dando-me o dom da immortalidade. Não choreis por mim porque sou feliz.» 

O povo proclamou immediatamente a sua conterranea deusa das amoreiras e bichos de seda, e ainda hoje, em tres districtos da provincia de Setchuen, lhe consagram annualmente festas, durante as quaes abundam as offerendas nos pagodes e, entre nuvens de myrrha e incenso, sobem ao ceu orações, impetrando o seu favor para as amoreiras e fecundidade das lagartas. 

O pecegueiro, ou melhor, a sua flor, é, na China, o emblema da longevidade, assim como entre nós, os louros são o symbolo da gloria. Esta tradição tira origem da arvore dar flor pela epocha do anno novo, que corresponde sempre aos mezes de fevereiro e março, por coincidir com as proximidades do equinocio da primavera.

Outra allegoria póde ainda prender-se ao pecegueiro no Celeste Imperio. 

De tempos immemoraveis é a sua flor o symbolo do matrimonio, das virtudes conjugaes e, muito especialmente, dos deveres da mulher no seio da nova familia. Tal parece deprehender-se de uma obra poetica contida no She king, um dos antigos classicos, tido por sagrado d'entre os sábios chinas. D'esta notável poesia destacaremos a seguinte estrophe: «Florido e frondoso se ostenta o teu pecegueiro, oh marido afortunado! São suas flores radiantes e formosas. Parecem a casta virgem que veiu pôr ordem na tua casa e bemdizer o teu lar.» 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Os lavradores têm o primeiro lugar na China

Pátio da Pedra
Pátio da Pedra Pátio da Pedra 
Altar no Pátio da Pedra

O preceito essencial da sua religião, consiste na prática das virtudes sociaes. O culto interior é o amor de seus pais, vivos ou mortos; o exterior reduz-se ao amor do trabalho: reputam a cultura da terra pelo mais nobre, e honroso. Ainda reverenceam a generosidade de dois imperadores, que, preferindo o estado ás suas familias, excluiram do throno seus proprios filhos, para subirem a elle homens tirados da charrua! Veneram a memoria d'aquelles varões, por terem lançado nas entranhas da terra os germens da ventura; isto é, sementes, fonte inexhaurivel da producção das messes, e da multiplicacão dos homens. A exemplo d'aquelles dois lavradores, todos os imperantes da China se honram no exercicio d'essa arte sublime. 

A mais brilhante das funcções imperiaes é lavrar a terra, em dia solemne, para render culto á primeira das artes. Isto não é a fabula da Grecia, onde os numens guardavam os rebanhos dos principes; é o bemfeitor dos povos, que abrindo o seio da terra, mostra aos subditos os verdadeiros thesouros da nação. Os chinezes usam do adagio seguinte: «Vale mais um alqueire de arroz, do que dois de perolas.»

Os lavradores têm o primeiro logar, entre as classes productoras. O imperador convida, para dia assignalado, em cada anno, quarenta lavradores respeitaveis por merito, e idade, para o acompanharem n'aquella funcção. Dirige-se ao templo, dá graças a Deus, e sahe depois com os lavradores, principes, e presidentes dos tribunaes superiores, para o campo sagrado, levando cada um, em pequenas bocetas, sementes escolhidas. O Chou-Kin, segundo livro sagrado, diz que a origem mais pura, abundante, e capaz de fazer a prosperidade do estado, é a da generosa agricultura.

O imperador, entrando no campo, toma a rabiça do arado, e abre alguns regos: os principes, e coláos fazem o mesmo; depois, semêa o imperador o terreno, que lavrára; os principes seguem o exemplo do imperador; e os lavradores acabam de lavrar, e semear o espaço restante. Os europeus, que têm presenceado esta ceremonia, fallam d'ella com respeito: lamentam não ser esta funcção pública, cujo fim é promover o trabalho, substituida na Europa por tantas festas religiosas, que parecem inventadas pelo fanatismo, para esterilisar os campos. Este impulso dado aos costumes, é sustentado por saudaveis leis, e premios honorificos.

Os bonzos, sempre atrevidos em pretenções de interesse, na China não o podem ser. Abundam no imperio, mas vivem do suor do seu rosto: não recebem do estado pensão alguma, nem dos povos congrua obrigatoria. Uma nação esclarecida não podia deixar de considerar corrupto o bonzo, que pretendesse receber imposto, em razão do seu emprego. Quantos ha, vivem do seu trabalho, e da caridade dos seus devotos.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

Altar na Travessa da Corda

Altar na Travessa da Corda 
Altar na Travessa da Corda Altar na Travessa da Corda
Altar na Travessa da Corda

De todas as divindades chinesas, a mais simpática, quer pela tradição, quer pelo aspecto, sem aqueles traços horríveis e ferozes com que tantas outras se apresentam, é a Deusa da Misericórdia, Kun-Iam - ou Kuan-Yin, no Norte da China - a de face radiante como o sol e suave como a da lua - tambem conhecida, pelos portugueses de Macau, pelo nome de Santa Maria China. 

Em matéria religiosa, os chineses são muito mais tolerantes do que nós, como, por forma inegável, o têem demonstrado através dos séculos. Na verdade, nisto como em muitos outros pontos, os chineses apresentam-nos uma superioridade de filosofia, quanto à forma prática de encarar a vida, chamemos-lhe assim, que surpreende a quem, pela primeira vez, toma contacto com a China que nós, aqui, ateimamos em encarar sob uma forma tão falsa, que chega a ser ridicula quando damos conta da nossa ignorância.

Os chineses são extremamente tolerantes e não é, propriamente, por motivos de antagonismos de fé religiosa que, de vez em quando, sempre que surgem conflitos graves com os europeus, se dão ataques, quási sempre com perdas de vidas, aos missionários. É o antagonismo de raças, quando hábilmente explorade com fins políticos, que leva áqueles excessos, e fora disso, podem andar pela China os prégadores das mais variadas religiões, que ninguem os incomoda por motivos de doutrina.

Com as crenças dos chineses, buliram mais os engenheiros estrangeiros que fizeram as primeiras estradas e caminhos de ferro na China, do que, propriamente, os nossos padres. Efectivamente, as tradições mitológicas chinesas, cujas fontes se perdem na noite dos tempos, querem que o mundo seja povoado de Dragões - entidades fabulosas mas que se encontram referidas nas mais antigas doutrinas esotéricas que se conhecem, talvez simbolos de fôrças criadoras, de origens perdidas para nós - Dragões que exercem uma influencia manifesta sôbre os mortais, benéfica ou terrível, conforme a disposição propicia ou irada dos monstros que habitam debaixo da terra ou das águas, podendo, até, elevar-se nos ares. 

Não se devia, pois, fazer coisa alguma que irritasse a fera adormecida, e as escavações por montes e vales, sem preocupações de espécie alguma, sem a consulta aos Feng-Sui, ou espíritos das águas e os ventos, como praticava a engenharia dos diabos do Ocidente que, desrespeitosamente, investiam com ferramentas e aparelhos diabólicos, pelas entranhas da terra-mãi amarela, era do pior procedimento que se podia ter para com os famigerados Dragões que não deixariam, depois disso, de fazer sentir o duro peso da sua cólera sobre os pobres chineses das visinhanças de tais profanações...

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927

Altar no Beco do Gamboa

Beco do Gamboa Beco do Gamboa

Os ex-celestes (...) praticando eles três religiões, como sejam, o Budismo, o Confucionismo e o Taoismo, há quem afirme que os chineses não professam religião alguma. 

A primeira daquelas religiões foi importada da Índia, nos primeiros tempos da era cristã, e as duas últimas constituem as religiões nacionais, se assim se lhes pode chamar, porque Confucio não foi, própriamente, um iluminado que pregasse uma religião - os problemas da alma e do Além, pouco o interessavam porque, dizia êle, se nós mal sabemos o que diz respeito ao que nos cerca nêste mundo, para que ter a pretensão de conhecer o que se passa no outro? - mas, antes, um filósofo cujas doutrinas foram coligidas pelos discipulos, e venerado, depois, como sábio e mestre, numa espécie de aureola de divindade em que se conjugam as tres religiões que teem como base o culto dos antepassados.

O Taoísmo, que se diz ter sido fundado por Laucio, ou Lao-Tzé, cerca de seis séculos antes de Cristo, é uma transcendente filosofia da Natureza, puramente metafísica, que tem por principio fundamental o Tao - o Caminho, a altissima sublimidade, um ser eterno e imutável... - mas que degenerou posteriormente, porque conduzia, ao que parece, às doutrinas da passividade e da inacção, acabando por tornar-se num baixo ritual de politeísmo e feitiçaria. O Taoísmo não só divinisou as forças da Natureza, como o trovão, o vento, etc., como criou as divindades espirituais mais extraordinárias, tais como: as das doenças, dos rios, dos lagos, das serpentes, das colheitas, das possessões do demónio, etc., etc., num número tão grande, que cada templo taoísta não pode abrigar mais do que as divindades predilectas do lugar.

Verdadeiramente, o chinês não segue, em especial, esta ou aquela religião, cujas doutrinas está longe de compreender, mas pratica o culto dos antepassados, pode dizer-se que, não só por tradição e por ser recomendado por Confucio, como por interesse, para propiciar os espíritos e evitar o mal que os mortos lhe possam causar. A êste culto associam os chineses um sem número de superstições, cuja descrição daria para volumes, podendo dizer-se que poucos serão os actos ou decisões da vida dum chinês, que não sejam resolvidos mediante uma consulta prévia aos espíritos.

As cerimónias do culto externo budista, que muito fazem lembrar as da religião cristã, são especialmente executadas nos funerais, como sucede no Japão, mas as três religiões, - Budismo, Confucionismo e Taoísmo - manteem-se de tal forma amalgamadas, que as respectivas divindades aparecem nos mesmos templos, e até se chega a venerar num mesmo altar a super-trindade formada por Confucio, Lao-Tsé e Buda, conforme oficialmente foi determinado.

Cênas da Vida de Macau de Jaime do Inso. 1927. Apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950

Templo de Tou Tei na Rua da Barca da Lenha

Templo de Tou Tei na rua da Barca da Lenha Templo de Tou Tei na rua da Barca da Lenha Templo de Tou Tei na rua da Barca da Lenha
Templo de Tou Tei na rua da Barca da Lenha Templo de Tou Tei na rua da Barca da Lenha
Templo de Tou Tei na Rua da Barca da Lenha (1)

O chim, a metempsycose e o opio

Mas, do que tenho dito ácerca da religião, que é por certo o agente que mais concorre para a pureza dos costumes e moralidade dos povos, deve já concluir-se que não póde esta servir de exemplo, apesar da sua longa existencia e da sua amiga civilisação, que deveriam, pelo conhecimento do mundo e pela experiencia da vida, conduzir a possivel perfectibilidade humana. (...)

O chim, (...) acreditando na metempsycose, mata-se, com a esperança de voltar á terra transformado em mandarim. Para conseguir a riqueza não ha acto perante o qual recue, desde o roubo por ardil ou á mão armada, até á falta de cumprimento dos contratos, à venda da justiça, se é magistrado, ou à venda da propria familia, se alguem lhe quer comprar uma filha jovem e virgem. 

Depois d’isto, (…) ópio. Este vicio, que se saborea em disposições especiaes, deitado e com certo conforto, tem sido um goso muito pesado para aquelle povo. Que o digam as guerras chamadas do opio, e mais ainda a grande decadencia e a depressão intellectual, assim como da robustez physica, a que conduz os que mais afincadamente se entregam áquelle vicio. Comtudo, um china capitalista, muito rico, de certa illustração e com geral consideração em Macau pelo seu caracter e qualidades, disse-me dever a vida ao uso do opio. E por tal fórma o opio se torna uma necessidade impreterivel para quem a ele se habitua, que, dizia-me elle, «quando lhe falta, uma tristeza profunda e um desalento atroz se apossa do seu animo, as lagrimas lhe saltam espontaneas dos olhos, não sente desejo nem interesse por cousa alguma, e é como que um homem morto»…

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

(1) Sobre este templo e as suas divindades, tudo se encontra explicado no esplêndido blogue Caderno do Oriente:

http://caderno-do-oriente.blogspot.com/2010/10/long-mou-mae-do-dragao.html

Altar na Travessa das Venturas


Quaes são as crenças religiosas, ou, mais propriamente, os costumes e superstições religiosas do povo chinez (...). Antes, porém, d´isso, diremos que os primeiros legisladores da China pensaram talvez que para governar um povo, não bastavam as varadas, a canga e os supplicios, que á auctoridade era preciso uma influencia moral capaz de lhe assegurar o respeito e a fidelidade dos povos; que seria, pois, facil o governo a quem tivesse poder de dominar a cholera do céu ou captar-Ihe as suas sympathias. 

Eis porque desde o principio os imperadores tomaram titulos tão pomposos, attribuindo-se o direito de exigir aos deuses o cumprimento dos seus deveres quando d’elles se esquecessem. Os mandarins, como officiaes subalternos do governo, consideram-se e fazem-se chamar representantes menores da auctoridade divina. 

Altar na Travessa das VenturasEm tempo de sécca, por exemplo, o imperador, como encarregado dos negocios do ceu na terra, prescreve as orações e sacrificios que se devem fazer aos deuses, e os mandarins são os primeiros a entregar-se a penitencia, affectando perante os seus administrados um grande desespero pelas desgraças do paiz, um desejo tal pelas suas prosperidades, e uma devoção apparentemente tão sincera, que não deixa de chamar a attenção, e que lhes serve para combater o rancor que os povos lhe tem pelas injustiças que dia a dia praticam.

Caminham à frente das procissões, prostram-se diante do dragão e dos idolos, fazem queimar noite e dia pivetes aos deuses, não em suas casas, mas cá fóra na rua onde toda a gente veja, para que ninguem duvide da sinceridade da sua crença, nem da affeição que elles têem ás classes populares.

Confucio ou «Kong-fou-tsé» (551-479 A.C.), comprehendendo o genio eminentemente conservador da raça chineza, e aproveitando-se da divisão em que se encontrava a China dominada pelo feudalismo (...) não ligando importancia á origem, creação e fim do mundo, ou a outro qualquer assumpto em que tenha de intervir um ser creador e superior a tudo que é terrestre. Como os letrados a consideram não é bem uma religião, mas sim uma especie de civilisação. (...)

Ha ainda o buddhismo, religião indiana e que pela transcripção incompleta do nome de Buddha, se chama na China a religião de «Fo». Em «Lhassa», capital do Thibet, reinando mais que governando, vive o «Dalai-lama», isto é, o representante de Buddha na terra, exercendo a sua influencia moral sobre os sectarios d’aquella religião.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898

Altar no Pátio do Mercado

Pátio do Mercado Pátio do Mercado
Pátio do Mercado

Vejâmos,porém, agora o que se dá na China, que é barbara e não selvagem, e que desconhece as guerras religiosas. O buddhismo incompleto e adulterado que aqui se observa, estranho e decrepito nas suas formas, não satisfaz ás exigencias mentaes do povo chinez, porque os preceitos sanskritos da religião buddhica perderam a sua significação.

D’ahi a necessidade de se assimilar com as minuciosas superstições do fetichismo chinez antigo do que resultaram as mais estranhas e variadas transformações. Junte-se-lhe ainda o confucionismo, que, sem ser bem uma religião, mais é um codigo de preceitos moraes e politicos com que pode conseguir-se a unificação do imperio. Junte-se-Ihe pelo menos ainda o taoismo e teremos então a chamada religião chineza contra a qual o missionario tem de combater. 

Mas a lucta não é essa; a verdadeira lucta está em vencer o culto dos antepassados que avassalla todos os costumes e todas as crenças; está em vencer o odio que a todo o missinário têem os mandarins, pela guerra que os christãos fazem aos abusos da sua tyrannia, e pela hypocrita desculpa com que, para assegurarem a impunidade do seu rancor contra os christãos, os mandarins se põem fora do combate, attribuindo sempre ao fanatismo popular os ataques contra as missões. E elles, os missionarios, sabem tudo isso, soffrem todas as privações e todos os perigos, e nada ha que os amedronte ou desvie da sua nobre missão. Honra Ihes seja!

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898

Altar na Rua do Matapau

Altar na Rua do Matapau Altar na Rua do Matapau Altar na Rua do Matapau

Altar no Beco da Concha

Beco da Concha Beco da Concha
Altar no Beco da Concha

Na China o Estado não professa religião alguma, todos os cultos se toleram ainda que não se protejam; mas o governo tem a faculdade de proibir o que considere encerrar máximas perigosas. Três são as principais religiões, ou melhor dito, seitas admitidas e professadas por todo o império, a saber: a de Confúcio, a de Buda e a de Fó. 

A primeira conhecida pelo nome de jou-kiao, que significa doutrina dos sábios e reformada pelo filósofo Confúcio, não é outra coisa na sua essência senão o panteísmo filosófico, o positivismo; pouco importa aos seus sectários a criação e o fim do mundo (...). Por nada se esforçam; não perdem tempo senão com o que necessitam para a vida; das ciências e letras, senão o que lhes basta para o desempenho dos seus empregos; dos princípios redentores das sociedades só lhes interessam as verdades práticas e da moral, só a parte utilitária e política. Os confucionistas, numa palavra, são o que hoje quiseram que fossemos no Ocidente os modernos socialistas ou reformadores, uns pobres autómatas. A sua religião, a bem dizer, não é mais que um sistema de civilização e a sua filosofia a arte de obedecer e mandar.

Desde sempre o Estado conservou como instituição civil o culto tributado aos génios do céu e da terra, às estrelas, montanhas e rios; assim como também às almas dos parentes mortos; esta é a religião exterior seguida pelos empregados e literatos que aspiram ao exercício de funções administrativas, aos olhos dos quais esta espécie de culto não é mais que uma instituição social (...). Neste culto não se conhecem nem os sacerdotes, nem as imagens; cada magistrado pratica-o dentro da esfera das suas atribuições, sendo o imperador, claro está, o chefe ou patriarca.

Desde logo se vê que tudo quanto existe de mais sério na religião dos literatos ou ilustrados vem dar e concentra-se no culto tributado ao mesmo Confúcio. Em todas as escolas se acham as suas máximas: professores e discípulos todos têm que prosternar-se perante este nome venerado de Confúcio, cujo retrato se acha em toda a parte. Não há uma única aldeia na China onde não se encontrem templos erigidos em sua homenagem e perto de quatrocentos milhões de homens o proclamam o santo por excelência da sua pátria. Em tempo algum nem em nenhuma aldeia, sem disputa, se apresentará outro homem que, como Confúcio, haja exercido durante tantos anos, ou melhor dito, séculos, um ascendente tão grande, que haja recebido homenagens que raiam um verdadeiro culto.

Certamente, nada há nos humanos anais que possa comparar-se com esta adoração que é civil e religiosa, tributada a um mortal por mais de vinte e quatro séculos. Os mesmos descendentes de Confúcio, pois ainda existem muitos, gozam de honras extraordinárias e constituem a única nobreza hereditária do império, com privilégios e prerrogativas que só a eles se lhes concede na China.

Quanto à segunda religião, o budismo, (…) foi introduzida na China no primeiro século da era cristã. (…) A seita de Fó é quase a mesma que a de Buda, com a qual tem muitos pontos de contacto. Os seus sacerdotes, condenados ao celibato, professam e praticam a magia, a astrologia, a necromancia e uma variedade de absurdos e superstições.

A China, em suma, possui diversos sistemas de religião, mas todos absurdos, todos sem verdadeira moral. É um povo irreligioso absolutamente considerado, um país onde reina com toda a plenitude o indiferentismo. Todos proclamaram esta fórmula: San kiao y kiao, que quer dizer: «as três religiões se convertem numa só», de modo que todos os chineses são igualmente partidários de Confúcio, de Buda e de Fó, ou melhor dito, não são nada, porque recusam todo o dogma, não têm crenças e só desejam viver para expandirem e dar rédea solta às suas paixões e instintos corrompidos.

Concebe-se facilmente que, num país onde tanto o governo como todas as classes da sociedade estejam acostumados a considerar as religiões como coisas de nenhum interesse, haja liberdade ou tolerância para todo o culto; mas, também, que não existirá nunca um povo desta natureza, nem felicidade, nem grandeza, nem glória. Só a virtude faz grandes os homens e as nações (...). A religião foi, é e será a base fundamental da civilização.

Também se deduz o que são os templos de um povo como o chinês, cuja arquitectura religiosa em nada se parece à nossa. Os chineses não têm a menor ideia daqueles majestosos edifícios erigidos pelos cristãos para adorar o Altíssimo, e os seus pagodes nada de imponente oferecem.

Viaje de Nueva Granada a China y de China a Francia (tradução livre) de Nicolas Tanco Armero (1851-1858). 1861

Altar na Escada do Caracol

Escada do Caracol

Á oração nos pagodes chamam bater cabeça, e batem effectivamente com a testa nas lageas; os seus idolos são grandes homens fallecidos ha muito: quando um mandarim visita o pagode de um idolo, que foi inferior a elle em vida, esconde-se o idolo e dorme no seu logar o mandarim.

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854

Altar no Beco da Romã e a Lenda de Vangghi

Beco da Romã Beco da Romã

Cabe agora dar conhecimento da lenda de Vangghi. Este personagem vivia no tempo da dynastia Tsin, nas vertentes da montanha Kuchau, todo entregue á agricultura. Surprehendido um dia pela chuva ao ir cortar lenha a um bosque, refugiou-se debaixo das lapas de uma caverna, onde encontrou varios anciãos jogando o xadrez. Durante a partida um d'estes velhos deu a Vangghi uma fructa parecida com o caroço da tâmara, dizendo-lhe que a comesse. Assim o fez, caindo em profundo somno. Decorrido algum tempo os anciãos despertaram Vangghi, dizendo-lhe que já havia dormido e que voltasse para casa. Este foi a pegar da acha que trouxera comsigo, mas o madeiro desfez-se-lhe nas mãos. 

Ao entrar no povoado, viu que não existiam já vestigios nem da sua casa nem familia; informando-se, soube com assombro que eram passados muitos seculos desde a feita em que se ausentara. Attonito e maravilhado, encaminhou-se para as montanhas decidido a fazer vida de anachoreta e entregar-se ás praticas taonistas, o que lhe valeu a immortalidade. 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Altar no Pátio do Além-bosque

Pátio do Além-bosque Pátio do Além-bosque 
Pátio do Além-bosque Pátio do Além-bosque 
Pátio do Além-bosque Pátio do Além-bosque

Houve um d’estes dias uma procissão chineza, que não pude saber que memorava. N’essa procissão figuravam as mesmas bategas, as mesmas musicas, andores com creanças vestidas phantasticamente e em posições difficeis, grandes dragões ameaçando engulirem céus e terra, muitas bandeiras e estandartes, muita concorrencia e enthusiasmo. Geralmente os chinas não fazem estas solemnidades religiosas senão, ou para celebrarem a inauguração de templos e pagodes, ou como procissões de preces e penitencia para conjurarem perigos, afastarem epidemias, solicitarem chuva, etc., etc. Não são annuaes e periodicas, como entre nós. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896

Pagodes

Rua do Pagode
A palavra «pagode» tem sido empregada por alguns escriptores para indicar os templos, a exemplo do que se faz na India, de onde parece que o termo foi importado pelos portuguezes, que pronunciavam pagode o vocabulo botkedeh ouvido a mouros; este vocabulo é de origem persa, but-kadah, e significa «casa dos idolos». Escriptores ha tambem que dizem que a sua origem é puramente chineza, sendo aquella palavra a transcripção phonetica dos caracteres «Pe-kou-Ta», «rima ou pilha de ossos brancos», pois que, no tempo de alguns imperadores da dynastia dos Ran, eram os pagodes pequenos monumentos funerarios onde se juntavam os ossos encontrados dispersos pelos campos. Mas esta etymologia está hoje rejeitada por bons sinologos.

De ahi começou-se em Cantão a pronunciar «Pa-kok-ta» «Pa-ko-ta» ou «Pagoda», que os inglezes e americanos adoptaram dizendo ser palavra portugueza, o que bem póde ser. Em geral, porém, esta palavra serve para designar especialmente as construcções polygonaes de alguns andares que ha por toda a parte, na China, e que são torres tão caracteristicas d’esta região, como as pyramides do Egypto o são da região do baixo Nilo.

Aos pagodes dá-se tambem o nome de «tah»; mas quando são habitados por bongos, guardas dos idolos, são chamados «sz» ou mosteiros. Ha dois em Cantão e seis entre esta cidade e Macau, grandes e solidamente construidos, tendo em geral nunca menos de cinco nem mais de onze andares. Alem d’estes, ha outros, pequenos, de tres andares, octogonaes servindo para livrarias ou de templo ao Deus da litteratura.

Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo, 1898

O grande templo de Macau

Templo de A-Má
Templo de A-Má 
Auguste Borget (1808-1877)

Foi pelo meado do decimo sexto século que obtivemos do Imperador da China licença para fundar um estabelecimento nas costas do imperio, ao sul de Cantão, num rochedo então arido e deserto, só conhecido dos pescadores das visinhanças, que n'elle buscavão abrigo contra a tempestade, ou ião levar suas offerendas a uma deusa, padroeira dos maritimos, em honra da qual se levantara ahi um pequeno sanctuario. A este respeito diz uma lenda velha, de muito credito em toda a costa da China, que n'um tempo bem remoto, porém que se não assignala, chegara a Tokien uma numerosa esquadra, e que estando a ponto de apparelhar para dar á véla, uma dama ricamente vestida e de magestoso aspecto, apparecera n'um junco, e rogara á tripulação da esquadra que não largasse do porto, predizendo-lhe que a serenidade do céu e a calma do mar não erão para fiar, como os capitães julgavão, nem para tomar o largo, pois que prestes se levantaria uma tempestade.

A mor parte da esquadra, confiando na predicção, permaneceu no ancoradouro; só um junco se aventurou a deitar ao largo, mas a tempestade sobreveio, e o vaso foi engulido na voragem com tudo quanto encerrava. Passado o perigo, a dama da apparição convidou os marinheiros a desfraldarem as vélas, offerecendo-se a acompanhal´os até onde se destinavão.

Foi feliz a viagem, e a esquadra chegou ao seu destino sem novidade; mas apenas se aproximou da terra, a mysteriosa dama saltou ligeiramente para cima d'um grupo de rochedos ue jazião perto da praia, e repentinamente desappareceu aos olhos de todos. Era evidentemente uma deusa, e d'isto ninguem duvidou: em reconhecimento á visivel protecção que lhes concedera, os marinheiros da esquadra elevaram-lhe logo, no mesmo local da desapparição, um templo que se chamou A-ma-ko, que quer dizer Palacio da deusa A-ma, nome que se lhe deu durante a viagem. De Mako fez-se Makao, ou Macau, porque na extremidade Occidental d'esta semi-ilha foi que levantámos a bandeira.

Nada durante muitos séculos apresentou de monumental este logar de reunião dos devotos navegantes; mas quando o desenvolvimento do commercio com os europeus attrahio a Macau numerosa população chineza, os negociantes cotisaram-se, e no fim do reinado de Kang-hi erigiram alli um magnifico pagode.

O corpo principal d'este elegante sanctuario do paganismo levanta-se á beiramar, de que está separado por uma esplanada semi-circular, de trinta a quarenta metros de raio. Ergue-se ao norte do porto interior de Macau. Sobe-se por uma escada de granito, cujas rampas estão ornadas com dous leões, ahi collocados, segundo dizem os chins, para facilitar a evasão dos deuses fracos quando os outros deuses mais fortes os queirão expulsar. 

Um arco de triumpho de bello estylo chinez corre por defronte da porta de entrada. Renunciamos a descrever o interior do templo, a estatua colossal do idolo de madeira dourada, as numerosas estatuasinhas dos deuses secundarios e dos heróes, em madeira colorida, os vasos de perfumes, as bandeirolas, os tantans, as lanternas, e outras mil cousas que atulhão o logar santo. Preferimos sahir do pagode principal, e trepar por aquellas encantadoras alamedas, que levão a uma immensidade de capellinhas, altares, repousorios e grutas mysteriosas, que se occultão por entre as sombras espessas das grandes arvores seculares, que de espaço a espaço se multiplicão pelo contacto dos seus ramos pendentes com a terra.

Nenhuma descripção pode reproduzir essa vista de fadas, nem dar idéa de quanto a imaginação fica impressionada com o aspecto d'estes pagodes solitarios e silenciosos, habilmente espalhados pelo que a natureza offerece simultaneamente de mais rustico e encantador.

O serviço religioso do pagode foi confiado a bonzos que, graças ás liberalidades dos peregrinos, reuniram depressa um rico patrimonio, sufficiente para sustentar numerosa communidade.

Porém ahi, como em toda a parte, o luxo trouxe a relaxação dos costumes, e a vida d'aquelles bonzos tornou-se tão escandalosa, que a autoridade chineza teve de intervir. O serviço do pagode foi portanto retirado das mãos dos bouddhistas, e confiado aos religiosos Tao-se, discipulos de Laotze, que muitas vezes ao dia ahi cantão louvores á razão suprema, o que não obsta comtudo a que se prestem ás ceremonias do culto bouddhista, quando ha ricas offerendas.

Os visitantes são geralmente bem recebidos pelo superior do pagode, que até os convida a tomarem alguns refrescos, mas acaba usualmente esta politica pela exhibição d'um registro, no qual se pede ao viajante que se inscreva para concorrer ás despezas da esplendida festa que annualmente se faz no terreiro do templo. Todos os pagodes cujo rendimento é pouco consideravel, fazem, pelo menos uma vez por anno, uma festa meio religiosa meio profana, cuja parte mais attractiva para os fieis consiste na representação theatral, que dura muitos dias consecutivos.

Em Macau, os Tao-se dão a esta festa extraordinario brilhantismo. Levanta-se na esplanada do seu elegante pagode um theatro provisorio de bambus, mas de extraordinaria solidez. Com grandes despezas se chamão comediantes do interior, para representarem as melhores peças do repertorio chinez; tambem se chamão os melhores musicos da provincia para formarem uma orchestra a seu modo; e o publico, sem pagar cousa alguma, pôde gozar de dia e de noute o espectaculo, porque se representa tres ou quatro dias consecutivos, tendo os actores só o indispensavel repouso para não cahirem em scena de fadiga.

Almanach de lembranças Luso-Brasileiro para o anno de 1861

Os templos budistas em Macau

Macau 1994

Macau possui uma riqueza cultural chinesa que tem sido preservada ao longo dos anos (…). Os templos tradicionais são exemplo dessa filosofia, construídos em honra de deuses e deusas que representam o budismo, religião professada pela população chinesa na sua maioria. (...)

Espalhados por Macau existem pequenos altares com caracteres do nome do deus em casas, restaurantes e lojas, havendo nas esquinas de muitas ruas pedras com inscrições a deuses locais.

São, no entanto, os grandes templos budistas que prendem a atenção do visitante, pela calma que deles é emanada e sobretudo pela simplicidade na forma de adoração da divindade. Templos construídos em locais favoráveis àquela, possuem normalmente telhas arredondadas verdes ou amarelas com grande inclinação. A linha de água é decorada com figuras de divindades e símbolos de felicidade, dragões e carpas, em porcelana.

A madeira colorida orna os beirais dos telhados e, no interior, um pequeno pátio com uma taça grande para queimar incenso e ofertas de papel destaca-se ao visitante. É a seguir a este pátio que fica instalada a mesa-altar sobre a qual se encontram os Cinco Vasos Rituais. As imagens são colocadas logo atrás dos vasos, nas quais se fazem as ofertas.

Consoante o tamanho e a riqueza do templo podem existir capelas contíguas de adoração a outros deuses ou de culto dos mortos, bem como de exposição de placas funerárias. 

Em Macau torna-se imperioso visitar o templo de A-Ma Miu (…). É constituído por recintos de oração, pavilhões e pátios e possui jardins de vegetação luxuriante. O templo de Kun Iam Tong, budista, foi dedicado à Deusa da Misericórdia, tendo sido fundado no século XIII. É um dos maiores e mais ricos de Macau (…). Pátios abertos separam os pavilhões ricamente decorados, dedicados aos três budas preciosos, ao Buda da Longevidade e a Kun Iam. Por trás do templo existem jardins com terraços e num deles está a mesa de pedra em que foi assinado o primeiro tratado sino-americano, em 3 de Julho de 1844, pelo vice-rei de Cantão, Ki Jing e pelo ministro dos estados unidos, Caleb Cushing.

Lin Fung Miu é outro templo a merecer destaque (…). Foi nele que durante séculos pernoitaram mandarins quando de visita a Macau e Cantão. É o único templo de origem taoísta em Macau, destacando-se-lhe os tectos muito belos, com traves negras e telhas brancas. O pavilhão principal é dedicado a Kun Iam. (…)

Kwan Tai Miu, no Mercado de S. Domingos, Tai Soi Miu (Templo do Buda Adormecido), na Rua da Figueira, e Lin Kai Miu (Templo do regato Plangente), na Travessa da Corda, são outros elementos marcantes da religião budista. 

Homem Magazine, Novembro 1994

A Capela de São Francisco Xavier

Capela de S. Francisco Xavier 
Capela de S. Francisco Xavier Capela de S. Francisco Xavier 
Capela de S. Francisco Xavier Capela de S. Francisco Xavier 
Capela de S. Francisco Xavier Capela de S. Francisco Xavier

Esta capela situa-se em Coloane e é assim denominada para se diferenciar de uma outra igreja dedicada ao mesmo santo, padroeiro dos missionários e um dos padroeiros da Diocese de Macau, em Mong-Há. Foi construída em 1928 para evangelizar a pequena comunidade católica.

Tem uma fachada simples, um pequeno campanário e janelas ovais e albergou relíquias de São Francisco Xavier (um osso do úmero do braço direito) e ossadas de mártires portugueses e japoneses mortos em Nagasáqui, durante as perseguições no ano de 1597, e de mártires vietnamitas do séc.XIX que, actualmente, se encontram no Museu de Arte-Sacra e na Igreja de S. José.

Possui uma pintura curiosa de uma deusa chinesa que representa a Virgem Maria e uma imagem de Virgem Maria bebé.