Altar no Pátio da Horta
As lendas populares são na China singelas, suaves e poeticas. O natural mistura-se ali com o maravilhoso, o povo acceita com profunda convicção estes legados de antigas aspirações e crendices. Não admira, attenta a boa fé d'aquella gente pacifica, cujo instincto os tem afastado sempre de enthusiasmos por conquistadores e guerreiros. No Celeste Imperio só o estudo e o trabalho enaltecem o homem e honram os caracteres; heroes militares e combates sangrentos não são o seu forte. (...)
Agora a curiosa lenda da amendoeira. Diz-se que na epocha bastante recuada da dynastia Shang, quinze seculos antes da nossa era, vivia nas terras de Setchuen uma rapariga formosa, rica e querida de todos, tanto pelos dotes e prendas physicas, como pelo seu extremoso carinho filial, mais valioso que os thesouros da celebrada pedra jada.
Um bello dia o pae da donzella desappareceu do sitio, sem que se pudesse atinar com a causa de tal facto. Pela manhã havia montado a cavallo e á tarde o rocim appareccêra em casa sem cavalleiro. A mãe julgou não sobreviver ao desgosto. A filha recusou-se a tomar alimento, vestiu-se de rigoroso luto e não consentiu em ver mais pessoa alguma sem saber do paradeiro do pae.
Assim decorreu um anno. Os ladrões das immediações, que frequentavam os sitios mais escusos, affirmavam não ter dado fé de tal homem. Os venerandos sacerdotes asseguravam que os Genios não o haviam levado para o céu. Não fora morto na guerra, nem tão pouco victima da peste!
Lancinada a mãe, tanto pela perda do marido, como pela dor que consumia a filha, fez um dia solemne voto de dar a rapariga em casamento a quem restituisse o marido ao lar domestico. Toda a gente das vizinhanças saiu para o campo, perguntou aos viandantes, calcurriou montes e valles. Não podia o premio ser mais tentador, porquanto a posse da amofinada menina fazia presuppor para o afortunado nas suas pesquizas, os gosos do céu na vida terrena.
Chegadas as cousas a este pé, aperceberam-se um dia de que o cavallo, em que saira o velho, estava inquieto á manjadoura, escarvava de continuo e fazia por partir as prisões. Ao cabo de afincado esforço, conseguiu o animal soltar-se, e partindo veloz, como um gamo, perdeu-se na imensidão dos arrozaes longinquos. Mais feliz do que as pessoas, logrou voltar ao povoado trazendo comsigo o velho tão insistentemente procurado. Posto o cavallo na cavallariça, todos o esqueceram, mercê da alegria, que lhes ia na alma; o animal, todavia, adoeceu desde logo. Não comia, nem bebia; de vez em quando apparecia triste, de outras feitas furioso; e continuamente voltava a cabeça para os aposentos da filha do dono. O ancião teve curiosidade de inquirir da irritabilidade do bicho e então a esposa revelou-lhe o voto feito por occasião do seu insolito desapparecimento.
«Taes promessas fazem-se e cumprem-se, disse o velho, quando se trata de homens, mas não a respeito de bestas. De hoje avante dê-se ao cavallo dobrada ração, quer de palha, quer de arroz. Em que cabeça humana entrou a possibilidade de casar uma rapariga com um quadrúpede?!»
A despeito de tudo, o cavallo persistiu em não levantar o penso e, como tinha ouvido a conversação dos velhotes, mais se abispava ao passar próximo d'elle a formosa menina. Receioso o pae de que a attitude do cavallo acarretasse desgraças á família, resolveu matal-o, mettendo-lhe uma flecha no coração. Depois de morto o bucephalo, trataram os creados de lhe tirar a pelle e pozeram-n'a a seccar ao sol, pendurada n'uma arvore no meio do pateo da casa. Succedeu, porém, que, ao passar a rapariga por ali, se animaram de subito áquelles despojos e, envolvendo-a, levaram-n'a pelos ares, com grande admiração dos presentes. Dez dias depois apparecia a pelle estendida sobre a copada de outra arvore, até então desconhecida no paiz; das suas folhas nutria-se uma lagarta, que vomitava casulos de seda. Lá foram chorar-lhe junto ao tronco os desditosos páes da rapariga e, de então para cá, o povo deu áquella arvore o nome de Shang, palavra que em lingua chineza tem a dupla significação de amoreira e funeral.
Ninguém ousou duvidar de que a rapariga houvesse sido transformada em lagarta por falta do cumprimento da promessa; decorrido algum tempo appareceu aos páes uma deusa radiante de formusura e cercada de Genios magnificamente vestidos, envolta em nuvens de perfumes e montada no cavallo que havia sido morto. Era a filha, que, dirigindo-se-lhes, disse:
«Adorados páes! Mercê da minha piedade filial, pelo meu bom coração e fidelidade inconcussa, escolheu-me Deus para sua serva nos palacios do ceu, onde moram bem-aventurados, dando-me o dom da immortalidade. Não choreis por mim porque sou feliz.»
O povo proclamou immediatamente a sua conterranea deusa das amoreiras e bichos de seda, e ainda hoje, em tres districtos da provincia de Setchuen, lhe consagram annualmente festas, durante as quaes abundam as offerendas nos pagodes e, entre nuvens de myrrha e incenso, sobem ao ceu orações, impetrando o seu favor para as amoreiras e fecundidade das lagartas.
O pecegueiro, ou melhor, a sua flor, é, na China, o emblema da longevidade, assim como entre nós, os louros são o symbolo da gloria. Esta tradição tira origem da arvore dar flor pela epocha do anno novo, que corresponde sempre aos mezes de fevereiro e março, por coincidir com as proximidades do equinocio da primavera.
Outra allegoria póde ainda prender-se ao pecegueiro no Celeste Imperio.
De tempos immemoraveis é a sua flor o symbolo do matrimonio, das virtudes conjugaes e, muito especialmente, dos deveres da mulher no seio da nova familia. Tal parece deprehender-se de uma obra poetica contida no She king, um dos antigos classicos, tido por sagrado d'entre os sábios chinas. D'esta notável poesia destacaremos a seguinte estrophe: «Florido e frondoso se ostenta o teu pecegueiro, oh marido afortunado! São suas flores radiantes e formosas. Parecem a casta virgem que veiu pôr ordem na tua casa e bemdizer o teu lar.»
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897