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Na China contam-se os annos por luas

Esta festa do anno novo é variavel. Na China não se contam os annos por mezes, mas por luas, determinando-se as datas pelo numero do dia da respectiva lua da era corrente. As eras classificam-se pelos diversos reinados, a contar do dia do seu começo, tornando cada imperador um nome significativo da indole e dos sentimentos, que o animam. Assim se diz: «ao vigesimo dia da quinta lua, reinado de Tao-cuang (do reinado da rasão) ou de Hien-Fong (da completa prosperidade)», etc., etc.

Calendário chinês-1911-12O anno chim tem, pois, alguns dias de menos do que o nosso, mas em determinados periodos faz-se-lhe uma correcção, de fórma que nunca começa antes do nosso. N’este anno teve logar aquella festa de 27 para 28 de janeiro, prolongando-se até 31, affluindo n’este periodo a Macau grande numero de individuos de fora, trajando riquissimas vestes, vindo em embarcações embandeiradas e ornamentadas com flores e papeis de côr, ou illuminadas com lanternas, no meio de um continuo estalar de panxões e de uma musica atordoadora. Escusado é dizer que de todos os divertimentos o mais apreciado e frequentado é o do jogo, em todas as suas extraordinarias manifestações. E também um uso estabelecido o trocarem-se n’esta occasião os presentes, que se mandam em pingas adornadas com flores e papeis pintados.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896


imagem de um calendário chinês, ano 1911-12
Biblioteca Nacional da Nova Zelândia

A divisão do anno china é muito differente


A divisão do anno china é muito differente da do nosso; é este repartido por doze luas, umas de vinte e nove, outras de trinta dias, o que daria ao anno d'elles menos onze dias do que tem o nosso; todavia remedeiam isto repetindo em periodos de dois a três annos a contagem de uma das suas luas. O principio e meio de cada lua é um dia assignalado para elles (...). Anno novo, que é o dia mais celebrado e festivo para os chins. N'esse dia ninguem trabalha, todos cuidam apenas de sacrificios e festanças. É o primeiro do anno consagrado a jejum; n'esse dia todos estreiam fatos novos, e até os proletarios descobrem modo de se cobrir com alguma peça de vestuario por usar.

lanternas. Ano Novo Chinês 2015Oito dias antes do anno novo principiam as lojas do bazar a ser sortidas de novas bujigangas, grande profusão de flores naturaes e artificiaes, a ser armadas, emfim, como costumam entre nós acontecer nas confeitarias pela semana santa. Ao passo que as lojas se vão enfeitando, tornando-se garridas e vistosas, deparam-se-nos pelas ruas do bazar varios ramalhetes de flores á venda e vêem-se chins, aqui e ali, jogando aos dados, etc., etc.

Na Praia Grande e porto interior destacam-se os embandeiramentos das embarcações, cujo numero é extraordinario. De todos os lados soam musicas e estalam panchões. Reina grande animação. A cidade enche-se de chinas dos arredores, que fervilham em todas as direcções. 

Na vespera do anno novo recrudesce o enthusiasmo, augmenta a panchonada e crescem de ponto as musicatas. Não ha beco, ou recanto, onde se não vejam chins a jogar. O espectaculo que offerece o bazar á noite é deslumbrante; de todos os lados jorra luz. As flores, os arbustos caprichosos e as colgaduras são aos centos. As ruas parecem compridas salas, de cujos tectos pendem milhares de lustres e onde se destacam truanescos theatros de titeres; as lojas, illuminadas a capricho e adornadas com riqueza, afiguram-se-nos outros tantos e luxuosos gabinetes phantasticos. 

A multidão é enorme e espantosa a ordem no seio d'aquelle cahos. 

No mar, as embarcações apinhadissimas produzem, depois de illuminadas, uma vista que, contemplada de terra, é realmente grandiosa e imponente. N´esta noite realisam-se innumeras vendas e compras. As casas do jogo téem fabulosa concorrência, sendo de uso n´esta occasião a gente mais grave arriscar algumas patacas. É costume tambem ir o governador, funccionarios e algumas familias macaenses dar lustre ao fan-tan. Ao bater a meia noite fecham-se todas as lojas, cessando completamente o commercio e todo o genero de trabalho entre os chins. 

No dia do anno novo, os chinas, de envolta com as suas festas, que n´este dia são estrondosissimas, sobretudo a bordo, fazem os seus sacrificios por toda a parte, isto é, nas habitações, nos pagodes, nas ruas e no mar. N´esta epocha é preceito da etiqueta visitarem-se e presentearem-se mutuamente. Muitos chins, que tèem relações com familias macaenses, costumam receber d'ellas presentes, que retribuem por occasião do nosso natal. 

Também é da praxe liquidarem-se por então todos os negocios, dando as casas commerciaes os seus balanços. É frequente haver bastantes suicidios, pois que os chins, que não podem solver os seus compromissos, preferem envenenar-se com opio, ou enforcar-se, a sobreviver a tamanha vergonha. 

As festas continuam por mais ou menos dias, não excedendo geralmente oito, e são estes os unicos que os chins guardam em absoluto durante todo o anno. Ao cabo d'este praso abrem de novo as lojas e officinas, recomeçando os trabalhos. Este acto é também festejado com panchões, etc, etc.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França. 1897

imagem das lanternas de Ano Novo Chinês 2015, Ano da Cabra. 
Largo do Senado

Macau e as duas passagens d´ano

2015 Ano da Cabra
2015 Ano da Cabra
Decorações do ano novo. Leal Senado

Em Macau começa o anno por uma troca de visitas e de bilhetes, que se torna incommoda. É uma verdadeira romaria. Anda tudo por fóra, de casa para casa, e não ha mãos a medir para entregar e receber bilhetes de visitas e presentes. Os chinas, principalmente, não deixam de presentear os portuguezes e os macaistas, ás vezes com objectos valiosos. O que, porém, abunda n´estas ofertas são as caixas de charutos, o assucar, o chá, as pernas de carneiro, os galos capões, etc., etc. 

Ha funccionario portuguez que manda para os asylos e casas de beneficencia cargas de comestiveis, que tem recebido pelas festas, e que seria incapaz de consumir em sua casa. O costume das visitas e troca de cartões é um exagero do que fazem os inglezes. Da parte dos chinas os presentes são um verdadeiro jogo, porque aquelles individuos, com a moralidade proverbial chineza, olham aquelle facto como uma sementeira, que ha de produzir fructos. Não vae muito longe o tempo em que nas festas os presentes dos chins aos europeus consistiam em uma porção de dinheiro, proporcionada ao cargo e categoria de cada um, a partir do Pen-tau (governador) e do Con-fu (procurador). Era aquelle mimo um emolumento ou gratificação ao funccionario, consagrado pela pratica. Felizmente, aquelle vergonhoso costume foi abolido pelo actual governador, a cuja dignidade e delicadeza repugnava o facto, tanto para si, como para os seus empregados. E que, onde o suborno está estabelecido como principio e tudo se consegue pelo dinheiro, onde tudo se compra e tudo se vende, não era para estranhar que houvesse a coragem e a desfaçatez de se fazerem propostas infames de cara a cara, como se fossem a cousa mais simples e innocente do mundo. E é pelo contrabando, pela ladroagem, pela venalidade, que se vê muitas vezes um miseravel culi chegar a possuir fortuna consideravel e ser até pelo nosso governo premiado com titulos e comendas!... (...)

Os chins são sobrios, trabalhadores e pouco devotos. Professam grande desprezo pelos bonzos, e para elles não ha os dias santos e de gala, que ha entre nós para bem da santa mandria e dos que podem charmar-se carolas. Todos os dias são de trabalho para o homem, assim como o são para a natureza, nos corpos que se movem no espaço, nas forças que actuam nos corpos, no desenvolvimento das plantas, no crescimento dos animaes, no movimento moral e material que fórma a vida. Têem festas que celebram durante o anno, mas nenhuma lhes impõe a ociosidade e a paralysação dos trabalhos e dos negocios. Até n’isto ha um grande contraste comnosco, que temos reduzido a quasi metade os dias uteis de cada anno, por causa das festas da igreja e dos dias de gala. 

No emtanto, têem uma festa, a unica, a festa por excellencia, que os faz deixar tudo, os enlouquece verdadeiramente, os faz abandonar os seus afazeres e negocios, e novos e velhos, ricos e pobres, amos e servos, perdem então a cabeça, e vestem os seus mais ricos e espaventosos fatos, ornam as suas casas com as mais delicadas flores, servem na sua mesa as mais apreciadas e saborosas iguarias, e facultam a toda a gente o que têem de melhor durante tres dias de uma verdadeira folia. 

Succede isto no dia do anno bom da China, em que todas as lojas ou boticas se fecham, e nas ruas e em toda a parte, no meio de um continuo estalar de panxões, de musicas estridentes, de extraordinaria profusão de flores, de papeis pintados, de variadissimas sedas e setins adornando as janellas, com as frentes das casas cheias das mais vistosas lanternas, perpassa uma multidão enorme, trajando vestes as mais ricas e variadas, em uma alegria delirante e extraordinaria. Dura esta festa pelo menos tres dias, durante os quaes ninguem quer saber se não de gosar, deixando os paes a liberdade aos filhos, os amos aos servos, os industriaes aos seus empregados, e assim por diante. 

De todos se apossa uma loucura, uma furia, uma ancia vertiginosa de gosos e de prazeres, e entra-se nos loc-kaus, nas casas de jogo, nos pagodes, em toda a parte, jogando-se o fantan, o clu-clu, o pacapio, todas essas exquisitas manifestações do gosto china pelo jogo de azar. As entradas das casas de habitação estão deslumbrantes de flores e de luzes, e apreciam muito os chinas, para este fim, as pionias arboreas, que conservam em grandes vasos e pagam por avultadas sommas. 

N’estas folias os acompanham os europeus e as auctoridades da colonia, que é de uso percorrerem o bazar e todas as ruas da cidade, e em especial os bairros chinezes, a pé, ou em ricas cadeirinhas. A policia está toda a postos n’esses tres dias de festa, e, geralmente, não se commettem então roubos, nem desordens. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896

No Carnaval, Macau vivia da maior alegria

Macau - retalhos (Passado - Presente - Futuro) de R. Beltrão Coelho. 1990
Carnaval, Cerca de 1930
Macau - retalhos (Passado - Presente - Futuro) 
de R. Beltrão Coelho. 1990

Carnaval: a festa da Alegria

Tida como relativamente fechada (enquanto os seus interlocutores não lhe conquistam a confiança), a comunidade macaense encontrou sempre nas festas e nos bailes (em casas particulares ou nos clubes) a oportunidade para exteriorizar a alegria de conviver e dar largas ao seu humor e espirito crítico. 

As festas de Carnaval e os bailes do Micareme, no Clube de Macau, e os bailes do Grémio Militar duraram até há bem poucos anos, tal como Francisco de Carvalho e Rego refere no seu livro Macau (1950) retratando sua terra natal nos primeiros anos do século XX: 

«No Carnaval, Macau vivia da maior alegria. No sábado, o baile do Clube de Macau, a rigor, obrigando a casaca ou a costumes sempre reveladores de bom gosto e distinção; no domingo, realizava-se, geralmente, baile, também rigor, em casa de qualquer família endinheirada; segunda-feira, o Grémio Militar abria os seus salões e, do mesmo modo que o Clube de Macau, recebia principescamente; e na terça-feira de Carnaval havia o baile de mascarados, no Clube de Macau, baile verdadeiramente carnavalesco onde se usava e abusava da graça inconveniente. As matinés para as crianças não faltavam e era um encanto ver o cuidado com que eram apresentados, em trajes engraçadissimos, esses homens em miniatura. Pelas ruas não faltavam as tunas, que caprichavam em se apresentar o melhor possivel, sempre seguidas de dezenas de mascarados que, muito antes da época carnavalesca, assaltavam as casas das pessoas amigas, proporcionando momentos de grande hilaridade. E os mascarados isolados, com graça e sem ela, também apareciam para contentamento dos garotos chineses; que atrás deles corriam repetindo a célebre frase do dialecto macaense «ai qui bobo» (vem ca, bobo)». 

Nos anos 30 e 40, a vida social atingiu o seu apogeu em Macau, dinamizada por uma geração de macaenses que animava as reuniões sociais, os convívios e as festas, com uma alegria e uma disponibilidade que os anos se encarregaram de fazer desaparecer. Nos álbuns de família que recordam esses momentos de boa disposição distinguem-se, nomalmente, as mesmas caras e adivinha-se o mesmo entusiasmo. 

A diáspora dos macaenses, o aparecimento da televisão, o ritmo da modernidade e outro tipo de solicitações estarão na origem da decadência dos clubes, onde hoje em dia, pouco mais se faz do que jogar as cartas ou ao bilhar.

Macau - retalhos (Passado - Presente - Futuro) de R. Beltrão Coelho. 1990

Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas

.-.-.

Album Macau (Sítios, gentes e vivências) 
de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, 1991


Em outros tempos, sensivelmente até ao terceiro quartel do século XX, também foi amplamente participado, pela comunidade macaense, o Carnaval, o que tornou a cidade de Macau diferente das outras daquela área geográfica: Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando, galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos festivos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais. (…) As festas carnavalescas punham uma nota viva, interessante e chistosa no viver pacato e monótono de Macau.

Filhos da terra: a comunidade macaense ontem e hoje de Alexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn Rangel. 2010 


O dia de carnaval (...) Em compensação, celebravam-se na cidade diversos bailes, uns de associações e clubs, outros de particulares. Não pude eximir-me a ir a estas festas, em que parece não se teve senão o intuito de sacrificar a Terpsichore, como se n’aquelle clima se carecesse de tão violento exercicio para se aquecer e transpirar. (...)

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Em Macáo pouco se memora o tempo do Carnaval, e neste anno só appareceram algumas raras pessoas mascaradas, e uma dança dos marinheiros da corveta D. João.

Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa, de Carlos José Caldeira. 1853

É irritante que um individuo se veja inesperadamente assaltado por uns estroinas, que o emporcalham com farinha, pós de sapatos, e não sabemos que mais, estragando-lhe o fato, sujando-lhe a cara e o corpo todo. Que os que gostam de taes brincadeiras, ou antes, de taes barbaridades, restringissem as suas extravagancias ao circulo d’aquelles que teem o mesmo péssimo gosto, vá; mas o que se não póde tolerar, nem as auctoridades deviam jamais ter consentido, é que se faltasse ao respeito aos cidadãos pacificos que transitam placidamente pelas ruas. (...). Brinquem, embora, os que gostam d’essas brincadeiras mas deixem em socego as pessoas serias.

Echo Macaense, 23 de Fevereiro de 1896

A soireé no Palácio do Governo de Macau
Sempre que esta colónia tem occasião demostrar a s. exa. o sr. governador Horta e Costa o quanto o estima e como bem avalia o seu carácter alevantado e correcto, corre pressurosa a manifestar-lhe a sympathia que lhe dedica e o respeito que lhe consagra. Teve exa. occasião de tal apreciar, quando em Outubro, por occasião do seu anniversario natalício, recebeu de toda a cidade a ovação mais sincera e espontânea que jamais se fez em Macau; no primeiro de Janeiro, quando, apezar de não haver recepção official, toda a colónia correu ao palácio a apertar, n’um impulso de sympatia, a mão leal que dirige os destinos da província; na noite de 15 do corrente, quando tudo o que havia de importante na colónia, quer portuguez, quer estrangeiro, accorreu ao palácio a cumprimentar o sr. Horta e Costa e sua Esposa.

Os salões regorgitavam de convidados, e o sr. Horta e Costa e a sra. D. Adelaide Horta e Costa, tendo para cada um as attenções mais delicadas, a todos deixaram gratíssimos pela maneira como bizarramente foram recebidos e acolhidos no palacio do governo. As salas do palácio vestiam de gala e estavam requintada e luxuosamente guarnecidas, offerecendo um aspecto deslumbrante. Muita flor, muita luz, aqui e além por entre macissos de verdura, um quadro de fino gosto, colchas de seda de cores delicadamente combinadas, cloisonées artisticamente trabalhadas, etc.

O gabinete causerie ornado de plantas tropicais, iluminando discretamente, offerecia os seus sophas voltaireanos cómodo descanso aos valsistas offegantes. Ás 11 horas a soireé estava no seu maior deslumbramento e mal se podia valsar, tantos eram os pares que se entre-chocavam nas duas amplas salas de baile…

Ás duas horas foi servida uma opípara ceia na casa de jantar, que estava elegantemente ornamentada. As senhoras (quasi 100) trajavam ricas e elegantes toilletes, havendo muitas dellas que vestiam lindos costumes, destinguindo-se a esposa de s. exa. o governador que elegantíssima no seu costume - Margarida de Vallois - ostentava um rico vestido de seda branco com finos ramos bordados a fio d’oiro.

A ultima valsa dançou-se ás 6 horas da manhã aos primeiros raios de sol, que curioso espreitava por entre as nuvens pardacentas os bustos dos elegantes valsistas, que offegantes principiavam a sentir saudades de uma noite que jamais esquecerão.

Echo Macaense, 23 de Fevereiro de 1896

Soirée Costume
Bonita festa 
A soirée do palacio do governo, que se realizou no dia 20 do corrente, primeiro dia do carnaval, foi muito concorrida e animada. Sua exa. o sr. governndor e sua exma. familia foram incançaveis em obsequiar os seus hospedes que se retiraram penhoradissimos com a amabilidade dos donos da casa. A soirée terminou cerca das 4 horas da madrugada por uma animada quadrilha marcada. D'entre as senhoras que estavam em trajos de costume, notámos as seguintes: A sra. D. Eduarda Galhardo primava pelo bom gosto do seu vestido de joyo; a sra D. Carlota Galhardo trazia um lindo costume de minhota, que lhe ficava muito bem; a sra. D. Maria Crespo estava vestida de bandeira portugueza; madame Seaton estava trajada de Pastora; Miss Biston, de vivandeira; a Sra. D. Adozinda Gomes da Silva, em costume de bohemia; a sra D. Claudina Gomes da Silva, de peixeira; a D. Annita Caldas estava vestida de inar; a sra. D. Fabia d'Andrade, vestio-se de odalisca; a sra D. Palmira d´Andrade, de turca; a sra D. Maria Guedes trajava de manilense; a sra. D. Esther Jorge representava de florista; as sras. D. Saturnina Canavarro (mãe), D. Paquita Brandão e D. Saturnina Canavarro (filha), traziam uns ricos fatos chinezes, a sra. D. Joanna Rocha estava vestida de dinheiro. Dos cavalheiros estiveram mascarados, o sr. Gerardo da rocha, com um lindo fato de estudante, o sr. Antonio Pacheco, de china; havendo muitos que traziam coletes e gravatas de côres. O menino Eduardo Galhardo estava elegantemente vestido; e os meninos João e Fatima Barbosa estavam muito engraçados com os seus fatos de noivos.

Passou-se uma noite agradabilissima.

Echo Macaense, 27 de Fevereiro de 1898

Os textos do Echo Macaense foram retiradas da dissertação de mestrado em História Contemporânea de Márcia Rosa dos Reis Ferreira, Cultura e Sociabilidades em Macau nos Finais de Oitocentos (2006)

Macau, Natal 2014

Natal 2014 Natal 2014 
Natal 2014 Natal 2014 
Natal 2014

A tão longa distancia de Portugal, ainda nas nossas colonias se conservam as antigas tradições e usos do paiz, levadas para lá em outras epochas pelos nossos antepassados. No dia de Natal ainda ha em Macau a missa do gallo, e aquellas succulentas ceias e consoadas, que tinham na expectativa uma familia inteira, celebrando o nascimento do menino Deus com a missa, os presepes e as musicas populares no templo, e em casa com os primores e gulodice da gastronomia. 

Correu este anno o dia de Natal muito triste, chuvoso e carregado, o que foi para os outros um forte motivo para se entregarem ás festas caseiras, e para mim um espinho mais a dilacerar-me no afastamento da patria e da familia. Diz o dictado que quem canta, seus males espanta. Não sei se é verdadeiro; sel-o-la, por certo, se dissesse: quem trabalha, seus males minora. Que mercês não devo eu ao trabalho, que me occupa o espírito e faz consumir o tempo!

Adolpho Loureiro em No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), 1896

Eramos chegados ao Natal, que é tambem como na Europa o meio do inverno em Macáo: passava então de perfeita saude, porque é o tempo melhor neste paiz, e quando reina o saudavel e vigorisante vento norte, sempre secco e frio: ha dias tão frios como em Lisboa; mas são mui poucos. O inverno dura só de meados de Novembro a fins de Fevereiro. (...)

O dia de Natal de 1851 foi o ultimo que passei em Macao, e na honrosa companhia do Bispo diocesano, de quem me separei possuido do maior reconhecimento, saudade, e affecto. Por 16 mezes residi em Macáo, só com a ausência da hida a Cantão, e viagem de Shangai: para sempre me será grata a recordação deste tempo, e a dos amigos que alli adquiri. É um bello paiz, e pela salubridade, situação topographica, gozos e commodidades da vida, é sem duvida ainda hoje Macáo a mais preferivel e agradavel de todas as nossas cidades coloniaes.

Carlos José Caldeira em Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa, 1853

O Oriente, fonte de inspiração

Festa de Na Tcha 2013 Festa de Na Tcha 2013 
Festa de Na Tcha 2013 Festa de Na Tcha 2013 
Festa de Na Tcha 2013 Festa de Na Tcha 2013 Festa de Na Tcha 2013 
Festa de Na Tcha 2013 Festa de Na Tcha 2013
Festa de Na Tcha, 2013
Templo de Na Tcha na Calçada das Verdades

O Oriente, com a sua carga de exotismo, voltou a ser uma atraente fonte de inspiração para muitos jovens ocidentais, que vêm procurar na religião e nos costumes de cá as respostas que parecem já não encontrar nas escolas e nas igrejas dos seus países. O misticismo oriental, o budismo e os gurus asiáticos parecem ter maior aptidão para ajudar quem quer fugir à escravidão do consumismo, aos bombardeamentos da publicidade e à ditadura da televisão do que todos os nossos mestres filosóficos. 

Vindos de um mundo superorganizado onde tudo está garantido e onde até os desejos parecem ser determinados por um qualquer interesse que não o deles, os jovens ocidentais exploram cada vez mais as vias orientais da espiritualidade.

Nas minhas viagens pela Ásia vi muitas vezes corpos europeus envoltos na túnica cor-de-rosa ou roxa dos monges budistas, mas nunca me interessei pela sua história. Neste ano tinha um motivo para me deter, para escutar, e foi assim que conheci, por exemplo, um florentino como eu, ex-jornalista, que professou num mosteiro tibetano, e um jovem poeta holandês que escolheu a via da meditação rigorosa num templo a sul de Banguecoque. Ambos vítimas da desorientação do nosso tempo, de diferentes maneiras.

Disse-me um adivinho, uma viagem pelos mistérios do Extremo Oriente, Tiziano Terzani. 2014

Uma festa chineza em Macau por F. Amaral

Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos 
Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos Dia dos Diabos Esfaimados ou Festa dos Diabos
Festa dos Espíritos Famintos, 
Macau, 09.08.2014. (*)

De 25 d’agosto a 8 de setembro esteve Macau em festa no seu bairro china. No basar cobriram-se de toldos as ruas, como é do costume nos officios chinas e nas festividades ordinarias, comprehendendo-se porém d’esta vez uma area maior de superfície coberta. As ruas de Macau, de noite são illuminadas por occasião de festas d’urna fórma perfeitarnente original; enorme abundancia de luzes em lustres e figuras movediças em volta d’estes, recamadas de Iantejoulas, dão ás ruas, onde se rolam enormes ondas de povo, o tom phantastico d’um conto oriental. Nas lojas dispõern-se vasos de flores e arbustos, e ainda abortos de arvores dos mais pittorescos aspectos; nos sitios mais largos levantam-se enormes barracas d’auto, onde resonam as bategas, d’uma ferma infernal, secundadas por sons de instrumentos afinados em tom agudo da maxima impertinencia, e sobresahindo os falsetes das prima-donas.

A variedade de côres das cabaias, o mexer dos leques, os penteados das loquis e as figuras melancholicas dos locanes de mistura com o tom aborrecido da policia europea distribuida em patrulhas, os gritos dos coolis e dos vendedores ambulantes, um ruido composto dos mais extravagantes sons e das mais extraordinarias figuras, desde o magro fumador d’opio macilento e pallido, até ás massas obesas de alguns mandarins, tudo nos aturde ao passar por uma rua de festa, e vendo serpentear os caracteres chinezes das cabaias dos bombeiros das casas de chá, e experimentando as lufadas nauseabundas de ar quente e irritante, que saem dos colaos e das casas do phantane.

As ruas illuminadas são indescriptiveis; constituem uma mistura de miseria e de ostentação que não deverá parecer impossivel como podem reunir-se no mesmo relancear d’olhos, illuminadas as diversas scenas, como estão, pela mais brutal das illuminações, tanto em numero de luzes, como em côres variegadas e claras, que constituem a massa dos ornatos das paredes e tecto provisorio, onde milhares de pequenos espelhos e douraduras repetem as imagens de fórma a conhecerem-se os mais insignificantes pormenores do vae-vem enorme de povo, que crusa em diversas direcções o local da festa.

D’esta vez só a rua do jogo tinha 305 lustres, ou o que quer dizer, 2 lustres por cinco metros de extensão, aproximadamente. A barraca d’auto principal prolongava-se desde o pagode de Matapao, pelo aterro novo, até ao mar. Em todo o aterro havia a trabalhar durante o tempo da festa e d’uma fórma permanente, quatro barracas d’auto, podendo calcular-se que não estavam em Macau menos de cincoenta mil chinas a mais que a população normal. Apesar de tão extraordinaria concorrencia de povo, manteve-se a policia sem occorrencia notavel e se em Macau houvesse reporters do Diario de Noticias diriam que era geral a satisfação, isto tanto quanto se póde deprehender dos rostos pouco expansivos dos filhos do celeste imperio.

Dizer qual o motivo da festa era-me tão difficil, como naturalmente o seria á grande maioria dos que a ella concorreram, por mais chinas que sejam as suas individualidades, e por maiores que sejam os respectivos rabichos.

Uns diziam ser a repetição da grande festa do dragão em 1868, que consideravelmente excedeu; alguns affirmavam ser outra a invocação, e que era esta a verdadeira cerimónia em obsequio da grande bicha do celebre dragão, cujo passeio em procissão é parte obrigada das solemnidades chinezas. D´esta vez, porém, a procissão excedeu o que possa imaginar-se de mais grandioso, sendo mesmo a parte mais saliente da festa. Na praia grande, onde a largura da estrada permittia á bicha um desenvolvimento mais rápido, a procissão levou a passar desde o meio dia e trez quartos ás 2 horas e 35 minutos da tarde, o que quer dizer duas horas menos dez minutos, em que desfilaram diante de milhares de espectadores attonitos as cousas mais assombrosas que uma imaginação altamente phantasista possa produzir. Compunha-se a procissão de setenta e duas músicas chinas, sessenta e quatro andores de pennas, guarnecidos com os competentes pratinhos com comidas de toda a especie e feitio, bollos e doces de toda a qualidade; doze andores com pedras preciosas riquissimas; sessenta andores com creanças caracterisadas e vestidas com fatos de theatro, representando scenas de auto; sessenta creanças a cavallo; cincoenta pendões triangulares grandes; e sessenta enormes umbrellas de pannos vistosos e de valor.

Mais de mil bandeirollas se entermeavam no prestito contendo maximas moraes e diversos disticos; outros tantos emblemas se lhes seguiam, e 3 cavallos riquissimamente ajaezados e preparados de fórma a envergonharem os nossos chamados cavallos de estado. Vinham depois quatro lindíssimos pagodes, e dois enormes leões; tudo acompanhado de 120 figuras emblematicas, representando a justiça chineza nos processos tradicionaes de julgar nas diversas provincias do imperio.

Pematava pelo dragão, enorme bicharôco de cincoenta metros de comprimento, e que era conduzido por 25 homens vestidos de cabaias de damasco. Fechava o cortejo uma guarda de honra de duzentos homens chinezes, tendo na frente um pendão muito velho e um sugeito de modos graves e solemnes, tocando n´uma caixa forte uma marcha muita falta de cadencia, propria para marchar, mas muito abundante em rufos seguidos. 

Calculou-se que o préstito era formado de sete mil e quinhentas pessoas! A mistura exotica de grandes valores e ricas ornamentações com cousas de apparencia pobre e triste, mas que pareciam ter para os chinas um grande apreço estimativo, davam ao cortejo, em que aliás predominavam as decorações faustosas e ricas, um aspecto extraordinário de difficil, senão impossivel descripção.

No rio, as lorchas embandeiradas produziam um tom alegre no ancoradouro, desde o caes da estação até á ilha Verde, repetindo-se as salvas de panchões a toda a hora, e por toda a parte, para aggravar o barulho e gritos do rapazio que completava a ingresia de que foram victimas os habitantes de Macau, durante os dias a que esta noticia se refere.

Era a Macau n´ esta occasião que os authores de magicas deveriam ir buscar inspiração para uma obra, que excederia tudo até hoje visto, mas que, mal recebida pelo publico, arruinaria, pelo mis-en-scene qualquer emprezario pouco feliz que tentasse fazel-a representar.

Como são pallidas as nossas procissões, ainda mesmo as cívicas, á vista de tanto esplendor, mas tambem como é desagradavel ver passar diante de nós uma festa, cujo alcance se não comprehende e cuja intenção se não conhece!...

O far eastern Monaco, corno os inglezes chamam a Macau, anima-se extraordinariamente com estes divertimentos, e não é simplesmente a animação material o que mais se deve notar n’elles; é muito particularmente o maior prazer que o nosso dominio, brando e suave, dá a todas as familias chinas ali estabelecidas, o que as induz a escolherem aquella boa terra para as suas folganças e festividades mais ruidosas, o mais interessantes e solemnes.

Sir Pope Hennessy, aperar dos seus affectados sentimentos chinophilos, não consegue o mesmo em Hong-Kong! Ha ali muito dinheiro, mas pouca alegria; tenha paciencia que a compensação não é das peiores…

Fica cumprida a minha promessa de dar o meu contigente para o seu jornal: se não servir rasgue os linguados, mas em todo o caso dê-me baixa na divida.


F. Amaral em Jornal do domingo: revista universal, 25.Dez.1881

(*) sobre a festevidade, aqui:
http://oriente-adicta.blogspot.com/2012/08/festa-dos-espiritos-famintos-2012.html

Em honra de Na Tcha

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Na Tcha, costumes e crenças de Macau 
Património Cultural Imaterial da RAEM, desde 2012

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festejos no Templo de Na Tcha na Rua da Ressureição

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festejos no Templo de Na Tcha na Calçada das Verdades

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cortejo - Templo de Na Tcha na Calçada das verdades, 
Templo de Nói Vó, Templo do Bazar, 
Rua da Felicidade, Largo do Senado

Começou tudo com as bandeiras triangulares amarelas, verdes, ponteadas por um friso dentado de cor contrastante. (…) Começaram a aparecer os palanques. Engenhosas estruturas de bambu colavam-se aos terraços e varandas das casas e aumentavam o espaço disponivel, criavam plataformas de observação. Ou talvez fossem palcos onde se iria Cantar ópera, pensava.

Neste bairro em tempos conhecido por Baixo Monte, numa das colinas da Fortaleza do Monte, há um pequeno templo tradicional budista e taoista de Na Tcha que sempre me cativou com a sua simplicidade harmoniosamente exótica aos meus olhos. E um pequeno pavilhão de cor vermelho escuro vivo, construído no inicio da dinastia Qing. Tem apenas uma parede e telhado sustentado por colunas de pedra, pelo que da rua se vêem as grandes espirais de incenso suspensas no tecto a arder lentamente com o seu cheiro encantatório, o queimador de granito, os candeeiros de papel encerado encerado que derramam uma luz antiga, alguns idosos e uma ou outra pessoa de meia idade com os paus de incenso na mão, fazendo as devoções no altar das oferendas. E sabia que todos os preparativos tinham a ver com ele. 

Acabei por querer saber quem era este deus com quem me cruzava diariamente e que ia ter uma festa em sua homenagem (…). 

Reza a lenda que quando era humano era muito turbulento, pelo que os pais o mantinham acorrentado a uma argola da qual fugiu tão depressa que parecia ter rodas em lugar de pés. E que por isso é representado com um grande anel dourado na mão e rodas nos pés. A outra, a versão de Na Tcha como um deus criança, que esteve em gestação durante três anos, o que originara alguma animosidade do pai contra ele. À semelhança de Siddharta Gautama, teria um dia saído de sua casa confortável e descoberto que a vida não era tão fácil para os outros como para si, que a injustiça e o mal estavam nas mãos dos poderosos, de quem as pessoas comuns tinham de se proteger. Esta descoberta gerou grandes conflitos com o pai, um tirano que abusava dos desfavorecidos. (…) 

Por isso, no décimo oitavo dia do quinto mès lunar há uma grandiosa festa em honra DE Na Tcha, com uma procissão em que a estátua do deus num palanque é escoltada por leões e dragões dançarinos, tambores, gongos, ao longo das ruas até ao largo do Senado, onde é feita uma benção. Também há ópera cantonense, fogo de artifício, panchões. (…) 

Vi finalmente o Na Tcha, um menino pálido de oito ou nove anos com a cara e os lábios pintados de vermelho semelhante a um pequeno eunuco, com a cabeça rapada, onde se mantinham uns tufos arredondados de cabelo, tal qual o deus. Com a sua roupa de seda verde água e cor de rosa, a lança e a argola dourada, ali estava a perpetuar a tradição de décadas, a prefigurar a eterna e contraditória vontade humana de que a justiça prevaleça e que o mal não nos atinja. 

Ana Paula Dias na Revista H (suplemento de Hoje Macau, de 24 de Junho de 2011) 

O texto completo encontra-se aqui: