«Considerada, na China, durante milénios, inferior ao homem, a mulher personifica o elemento yin (a lua, a sombra, a fragilidade) em contraste com o elemento masculino, Yang (o sol, a luz, a força). O homem – o céu; a mulher – a terra». E, como se fosse diferente na cultura ocidental - basta-nos pensar em Eva e no pecado original - a discriminação na China assentava nos conceitos de mulher e de mal, conceitos sempre unidos, como nos explicam Cecília Jorge e Beltrão Coelho em A fénix e o dragão.
«Existem, no entanto, referências sobejas às poucas figuras femininas que se distinguiram e se tornaram lendárias: poetisas, pensadoras, imperatrizes e regentes (estas geralmente notabilizadas pelo exercício, mais ou menos malévolo, do poder e da influência)».
«Fizeram também história, entre outras concubinas, a célebre Yang Kuai-Fei (...) da Dinastia Tang, e Tseu-Hi (...) reinou como imperatriz-viúva na dinastia Qing (1835-1908), a última a governar a China, colocando no trono uma criança de três anos, Pu Yi».
«Presa ao destino que a submetia a uma disciplina rígida, a um casamento precoce e à clausura nos dois únicos lares da sua vida (o paterno e o conjugal), a mulher chinesa não sabia geralmente ler nem escrever - exceptuavam-se as esposas e as filhas de letrados. Para estes, tais conhecimentos, bem como a posia, pintura e a música não eram perniciosos numa mulher».
«Por tudo isto, as mulheres letradas eram muito consideradas e respeitadas».
«E contudo, no quadro das instituições da China Imperial, as mulheres tiveram sempre influência mágica, oculta e pluriforme no seio da família, pedra basilar da sociedade chinesa. Exerceram-na como mães, mas também como companheiras, fosse qual fosse o seu estatuto junto dos homens: mulher, favorita ou concubina».
«A aparente falta de poder e de projecção pública da mulher, camuflou, de certa maneira, esse papel importante que teve e que mantém, como matriarca, na família. A sua acção desenrolou-se sempre nos bastidores».
Durante a Dinastia Tang, o desenvolvimento económico, o da filosofia, o da política, o da cultura e o da ética social reflectiu-se no estatuto da mulher. Esta podia divorciar-se com base no consentimento mútuo e voltar a casar, mesmo sendo viúva, incluindo as mulheres da família imperial e, segundo consta, num total de 98 princesas, 61 foram casadas, entre as quais 24 pela segunda vez, e 4 delas casaram três vezes e com homens de outros grupos étnicos e até com estrangeiros.
A Dinastia Tang atribuiu grande importância à educação e às mulheres foram concedidos os mesmos direitos e oportunidades que aos homens e, por isso, é a dinastia mais conhecida pela sua riqueza de grandes poetas, com figuras femininas influentes na história da literatura chinesa.
Esta abertura serviu de mote para um evento de moda, um concerto de música rock, uma exposição de pintura e uma exibição de caligrafia, realçando-se a imagem mulher que, na época, lhe permitia ser feminina e sofisticada, sem fazer concessões a qualquer marca de fragilidade. A exuberância, talvez trazida pela mulher turca do primeiro Imperador, estava no vestuário (que não pretendia esconder as formas do corpo), na maquilhagem, nos penteados estéticos, com flores e jóias no cabelo. A maquilhagem era conhecida pelos seus «sete passos»: o rosto coberto de pó, as faces enrubescidas, dourado na testa, sobrancelhas rapadas, o traço arqueado para as substituir (feito de pigmento negro de minério natural), lábios ruborizados, pinta negra na face e colagem de padrões dourados de flores...