O meu Avô Conde era um homem com defeitos e qualidades dum macaense dos tempos patriarcais. Rico e perdulário, vivia sumptuosamente, sem medir o dinheiro que esbanjava. Como os seus conterrâneos dos fins do século XIX, recebia muito, e a sua mansão à Praia Grande primava pela hospitalidade. (…) Entre os hóspedes e amigos que não se esqueciam do café do meu Avô, figurava, frequentes vezes, o Governador de então, o Sr Conselheiro Eduardo Galhardo que chegava na sua elegante cadeirinha do Palácio, seguido do seu ajudante de campo. (…)
Os serões à Praia Grande decorriam muito agradavelmente. Havia sempre mesas para o gamão e, na sala vasta e confortável, pejada de sofás e poltronas victorianas, as senhoras preferiam o «bafá», em que se disputavam, ora com calma, ora excitadamente, gritando «Sete Preto!» e outros dizeres próprios do Jôgo, numa algaraviada em «patois» ou em português, tudo isto alumiado por uma profusa colecção de lâmpadas e candelabros de petróleo. (…)
Na larga varanda, havia sempre um canto onde cavalheiros se reuniam para o puro prazer de conversar, essa arte que hoje praticamente se perdeu, na nossa era de televisão, de «pick-up» e doutros múltiplos passatempos. Dessa varanda invejável, como já as não há em Macau, admirava-se toda a graciosidade da baía, cujo traçado curvilíneo se estendia do Fortim de S. Francisco até os granitos de Bom Parto.
A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os «dandies» percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até o Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e mui frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável «chaperone». Ao lusco-fusco, assistia-se ao acender dos candeeiros de petróleo públicos que o encarregado fazia, subindo por uma escada que arrastava consigo, às costas. Nos dias em que a banda do regimento tocava no coreto de S. Francisco, a música chegava claramente até à varanda, à mistura com os pregões tristes dos vendilhões de canja e sopa de fitas e dos achares chineses. Nas águas da baía, agitava-se o mundo flutuante dos juncos, das lorchas, das sampanas e dos tancares. Escutava-se a cada passo, o estralejar dos panchões, havia sempre o sonido dos gongos e o carpir duma flauta, o murmúrio dos rezos votivos para qualquer morto, perdido no mar. (…)
A minha Avó era uma exímia pianista e encantava os ouvintes com trechos românticos de Chopin e de List. Depois, havia quem se lhe juntasse, com um violino ou um violoncelo (….). Não faltava quem praticasse o belo-canto, e a sala embebia-se de silencioso recolhimento, com os trinados de Verdi ou de Puccini. Outras vezes, patrioticamente, algum esbelto oficial de marinha, de bigodes frisados e barbicha em ponta, cantava fados tristonhos, cheios de mortes e facadas. As senhoras suspiravam e o oficial, pletórico de melancolias de exilado, recebia por fim, as felicitações. Também, amiúde, se recitava. Soares de Passos era um dos poetas favoritos (…). Às vezes, quando o número de convidados e amigos era maior que o habitual, iniciava-se um baile improvisado. (…)
Embora tivesse pruridos de fidalguia (…), o meu Avô era afável, atraía as simpatias e possuía amizades em todas as camadas sociais. Quando o feriam nos seus pundonores, explodia com violência, mas as suas cóleras passavam tão rapidamente como tempestades de verão.
Não tomava partido na verrinosa política local do seu tempo, onde tantos valores da terra se consumiam em disputas da lana caprina. Mantinha-se fora das rivalidades, não porque se julgasse superior aos outros, mas porque era simplesmente um epicurista. Gostava de gozar a vida, rodear-se de gente fraternal, e queria que todos se sentissem bem na sua companhia. (…)
Educado em Inglaterra, adquirira certos hábitos ingleses. Era pontualíssimo, tomava o chá das cinco e, antes do jantar, o seu inevitável «scotch». Vestia-se, por outro lado, pelo melhor alfaiate inglês de Hongkong e nunca saía de casa sem uma refrescante flor na botoeira.
Crente, sem ser beato, raça que detestava, tinha uma especial devoção por Nosso Senhor dos Passos. Na Procissão da Cruz, acompanhava o calvário do Senhor, com o respeito e a compunção dum pecador arrependido, desde Sto. Agostinho até à Sé, vestido de preto, a rigor. No dia seguinte, Domingo, dava um magnífico «chá gordo» para os convidados verem passar a procissão, costume este tão tradicional de Macau. A varanda cobria-se, então, de colgaduras (…) e a rua, a todo o comprimento da fachada da casa, ficava atapetado de flores, que seriam espezinhadas pelos penitentes da procissão.
Extremamente rico, tinha excentricidades de rico. Gostava imenso de cães, que, duma feita e já noutra casa, atingiram o número de catorze, desde os pequineses felpudos e irritantes da minha Avó até as grandes feras que, nas horas mortas da noite, erravam pelo jardim, numa vigilância contínua e feroz, mostrando os focinhos anavalhados, sempre prontos para filarem a nádega dalgum imprudente. O seu criado de confiança era um antigo pirata regenerado que trouxera de Coloane, ainda nessa altura, valhacouto dos fora-de-lei. Era ele quem se encarregava da alimentação desses temíveis canzarrões e na comida misturava pólvora ou lá o que fosse, para os «tornar mais ferozes». E uma razão havia para emprego de tais métodos insólitos, porque, nas casas abastadas, pairava sempre a ameaça dum assalto da pirataria, seduzida por chorudos resgates.
Como todo o macaense dos fins do século XIX, além do ténis, praticava dois desportos, em voga, a pesca e a caça. (…) Ora, numa dessas pescas ao largo de Macau (…) uma voz que vinha, a estibordo. (…) E, então, descobriram uma cabeça e um braço que se agitavam na tranquila ondulação das águas.
- Salvem-me …
O grito intercortado fora em chinês. (…) Um companheiro do meu Avô içou-o com dificuldade, pois o homem, em extremo esgotamento, parecia um peso morto. (…)
- De onde vens? – inquiriu o meu Avô, em chinês (...).
Durante compridíssimos segundos, não emitiu som algum. Arfava, com os lábios contraídos de fadiga. De compleição robusta, um homem alto, era, nesse momento, apenas um farrapo que tremia de frio.
- Cubram-no. (…)
- Esconda-me. Sou perseguido pelo barco da Alfândega. Prenderam o meu junco. Só tive tempo de me atirar ao mar. Já estou a nadar há muito … (…)
O meu Avô hesitou e depois, num impulso generoso, decidiu-se. Com um berro, ordenou às tancareiras que rumassem o mais depressa para as águas de Macau, longe da jurisdição da Alfândega Chinesa. (…)
- Eu simplesmente não fui capaz de atirá-lo borda fora nem de entrega-lo àquela gente.
O homem, retirado do buraco, mal acreditava no milagre. (…) Quando o barco se acostou num certo cais do Porto Interior, mesmo diante da Praia do Manduco, o homem deu um salto para a terra e sumiu-se apressadamente, sem uma palavra, não fosse o meu Avô mudar de ideias (…).
Semanas depois, quando jantava com os seus inúmeros convidados, ouviu-se bater a aldrava da porta. Pouco depois, o seu criado de confiança vinha dizer-lhe que aparecera um chinês que lhe queria falar urgentemente. (…) Na sala, enfrentou um homem sumptuosamente vestido de cabaia comprida de cerimónia, o rabicho luzidio de óleo, as mãos metidas nas mangas largas. Em suma, um indivíduo alto e robusto, emanando saúde e riqueza. Mal avistou o meu Avô, o visitante curvou-se em mesuras solenes. O dono da casa, a princípio, surpreso, logo reconheceu nele o miserável evadido da justiça que pescara do mar.
Vinha agradecer. No vestíbulo, postravam-se quatro cúlis, ladeando dois cestos enormes. Dentro destes, viam-se pernas de presunto, garrafas de Whisky, conhaque (…). O meu Avô, atrapalhado com aquelas dádivas, ainda descobria outro lacaio que segurava uma travessa enorme de prata.
- É um peixe que ofereço à sua digníssima T´ai- t´ai (esposa).
E, apontando para o criado de confiança do meu Avô, elucidou:
- Ele sabe quem eu sou.
Não foi preciso ir mais longe para se compreender qual a sua verdadeira profissão. Afinal era um pirata. (…). Convidava o meu Avô, sempre que quisesse, a visitar os seus domínios. Havia ali muita caça e muita pesca e boas instalações de repouso. (…)
Partiu depois com a sua comitiva. O meu Avô regressou à casa de Jantar, sorrindo todo prazenteiro, trazendo o peixe e contando a surpreendente visita. Todos quiseram provar do peixe enorme (…) e mais surpreendidos ficaram, quando, ao cortar o peixe, saltou, dentro da carne suculenta, uma pulseira cravejada de brilhantes e pedras de jade que era o presente do pirata à minha Avó. (…)
Em Macau, era um cidadão pacífico, de bem com a lei e com os homens, que vivia numa casa ajardinada da Praia do Manduco, no meio do carinho de duas concubinas, comerciante registado, com loja e tudo. Na «terra-china», era um fora-da-lei, cuja cabeça, posta a prémio, estava chorudamente alvissarada. (…) A amizade entre os dois homens foi profunda e nunca vacilou. Disto teve a prova o meu Avô, mais uma vez, em certos delicados passos da sua vida.
Nam Van, contos de Macau de Henrique da Senna Fernandes. 1997