Mostrar mensagens com a etiqueta curiosidades e episódios históricos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta curiosidades e episódios históricos. Mostrar todas as mensagens

Declaração de Vom-Chao-Ki

Ou o salvar a face ...

Tive a subida honra de ser escolhido e nomeado por meus amigos para dirigir os negocios da «Sociedade funeraria e de beneficencia denominada Ien-chae-sie.» Com quanto a falta de conhecimentos e habilitações fez com que eu nutrisse sempre o receio de dirigir mal esses negocios. Convenci-me finalmente que com trabalho e vontade talvez podesse chegar a desempenhar satisfatoriamente essa missão. 

Travessa do CalãoInesperadamente porém, aconteceu que, antes de se constituir esta sociedade, fosse eu acommettido d’uma infermidade n’uma perna que ao principio cuidei ser de pouca importancia e que ficaria curada em poucos dias; infelizmente porém não encontrei um bom médico nem um remedio eficaz para o meu padecimento. 

Tenho apenas a lastimar que não possua eu as virtudes de Iün-fu que foi um bom caminhante, visto que ha muito tempo que não consigo sahir.

Ainda que eu esteja muito animado em ser prestavel a esta sociedade não o posso ser em consequencia da minha infermidade e do desasocego em que vivo.

Se eu não desistir d’esse encargo receio que os negocios da dita sociedade venham a soffrer transtornos. Acabo agora de receber do ex.mo sr. procurador dos negocios sinicos a graça de ser exonerado d’esse cargo por tanto desejo que os negocios da referida sociedade sejam confiados a pessoas de reconhecida habilidade e que elles sejam muito prosperos e que todos os associados venham a ser ricos e tenham uma longa longevidade: mas não me caberá a honra de ter prestado semilhante serviço á sociedade.

Declaro finalmente que se por ventura eu ficar bom da minha enfermidade também não me occuparei em desempenhar o referido encargo.

VOM-CHAO-Kl.

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 23.Set.1893

O não perder a face ou salvar a face, tradução do inglês com que se tornou conhecida a ideia defendida a todo o custo pelos chineses, deve-se ao facto de face e reputação, fama, honra, nome ou prestígio ser representado pelo mesmo carácter. Quanto à ideia em si é muito difícil de aceitar por um ocidental, parece-me. Este texto mostra o porquê ...  

Retrato com exacta similhança

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 10.Nov.1892
Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 10.Nov.1892

A pátria honrai que a pátria vos contempla

3
Portas do Cerco
Ou ...
A escuridão das noites de luar

Graças ao progresso, já o arsenal de marinha está illuminado a gaz, e já o sr. visconde da Praia Grande de Macau póde soltar de casa os seus convivas, sem ser necessario mandar alumiar-lhes pelo seu criado até transporem a porta do estabelecimento. Não; que esta despeza era avultada e tornava-se mister economisal-a, porque quem não poupa reaes não junta cabedaes.

A vantagem para o estado é que foi consideravel; porque, até aqui, apenas se acendiam seis luzes amortecidas em todo o arsenal, e agora..., não só todo o arsenal esta ás claras, mas a casa do nobre ministro, desde o laboratorio culinario até a elegante sala de baile.

E isto deve-se ao progresso, ao emprego d'esse prodigioso antidoto das topadas!

Mas não é este o fim a que nos propunhamos, como se vê da epigraphe. Descupe-nos por tanto o benevolo leitor a lamuria preliminar em favor das economias.

Como iamos dizendo, foi illuminado a gaz o arsenal de marinha, e, em consequencia, o respectivo inspector, que é tão previdente e economico, fez publicar um ukase, no qual determina aos seus ajudantes, que os bicos dos candieiros de gaz só se acenderiam durante a escuridão das noites de luar.

Com a leitura de tal ukase todos ficaram ás escuras, ou olharam uns para os outros, como que pedindo explicação do enigma. A este tempo apparece um official de marinha, que tinha ido ao Brazil na corveta Sagres, e, para os tirar de difficuldades, conta o que lhe succedeu com uns individuos que visitaram o navio, e que, ao que parece, eram habeis em decifrar enigmas.

Quando entramos no porto do Rio de Janeiro, disse elle, inundou-se-nos a tolda de um sem numero de individuos anciosos de verem a Sagres. Appareciam aos bandos, como as rolas do Ribatejo. Cada grupo vinha capitaneado por um que parecia mais esperto que os restantes da comitiva: e, logo, o terceiro ou quarto dos cicerone dirigiu-se a mim pedindo-me licença para vêr o navio, e exigindo-me, á queima roupa, algumas explicações do que ia observando. Como me não achasse disposto a fazer relatorio circumstanciado das mais pequenas cousas de bordo, limitei-me á defensiva; isto é, respondia ao que me perguntavam. Apezar, porém, do firme proposito de me não arredar do que tinha mentalmente promettido, tive de dar vinte e cinco respostas desde o portaló até a pôpa. 

Como sabem, desde a primeira guerra punica, em que fômos vencedores, usamos nas rodas dos lemes dos nossos navios umas palavras fatidicas, que a mão de um poeta de nervo e lustre alli fez imprimir quando tomou as redeas do governo. Sabem a que me refiro... A patria honrae, que a patria vos contempla!

Chegados, pois, os visitantes a pôpa do navio, e dando com a legenda, tactearam-na mui delicadamente, e começaram a decompor as palavras, para as lerem por cima. Um honrado negociante de seccos e molhados, que fazia parte da comitiva, parecia ter descido até a escola de instrucção primaria pelo methodo repentino, visto a promptidão com que leu em voz alta; 
A patria honraé que a patria nos contempélla!

Feita a leitura, olhou triumphantemente para os seus companheiros, que procuravam na cara do seu perceptor a explicação do enigma, e disse, em tom de quem não quer ouvir replica: meus amigos, o que ellas querem dizer, é que honrem a patria, que ella vos honrará; e, virando-se para estibordo, resmungou ainda estas palavras:
- Não está direito, mas entende-se. 
Meus amigos, concluiu o official, appliquem o caso:
- os bicos de gaz só se accendem durante a escuridão das noites de luar
- não está direito, mas entende-se.

A esta conclusão todas as pessoas presentes soltaram estrondosas gargalhadas, e retiraram-se pensando ainda no melhor modo de pôr em execução aquella extraordinaria medida de economia, a qual mede bem a capacidade de quem a ordenou.

Nicolau Tolentino ou o Cabrion da litteratura de hoje: almanach para 1886, contendo 103 artigos de critica litteraria redigidos por alguns sócios da Academia dos Humildes e Ignorantes da Academia das Sciencias. 1867

Cule, culi, cooly, couli ou Ku Li, a força amarga

Hedda Morrison Hedda Morrison Hedda Morrison

CULE, Cúli (indo-ingl. cooly, indo-fr. couli). Operário, jornaleiro; mariola, moço de recados; portador de palanquim. O termo voga, alem da Índia, na China, na África Oriental, e em diversas outras regiões, adquirindo em algumas delas o significado especial de «operário emigrado da Índia ou da China para trabalhar nas plantações ou nas minas».

Glossário luso-asiático de Monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado, 1919

Ku li, em chinês, quer dizer «a força amarga», uma bela expressão feita de dois simples caracteres para sintetizar aquela condição de desesperados. (…)

Disse-me um adivinho, Em Viagem Pelos Mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani. 2014

imagens de Hedda Morrison

Uma tradução literal do chinês


Pátio do CordeiroAs diferenças entre o chinês e o português são tão profundas que um pequeno erro tem consequências imprevisíveis. Há tempos, houve um barbeiro em Macau que quis anunciar na montra os preços da lavagem e do corte de cabelo. Sabes o que ele escreveu? 

«Lava e corta cabeças – cinquenta patacas». 

É para veres.

Os Comedores de Pérolas de João Aguiar, 1992

Lendas chinesas

Altar no Pátio da Horta Altar no Pátio da Horta
Altar no Pátio da Horta

As lendas populares são na China singelas, suaves e poeticas. O natural mistura-se ali com o maravilhoso, o povo acceita com profunda convicção estes legados de antigas aspirações e crendices. Não admira, attenta a boa fé d'aquella gente pacifica, cujo instincto os tem afastado sempre de enthusiasmos por conquistadores e guerreiros. No Celeste Imperio só o estudo e o trabalho enaltecem o homem e honram os caracteres; heroes militares e combates sangrentos não são o seu forte. (...)

Agora a curiosa lenda da amendoeira. Diz-se que na epocha bastante recuada da dynastia Shang, quinze seculos antes da nossa era, vivia nas terras de Setchuen uma rapariga formosa, rica e querida de todos, tanto pelos dotes e prendas physicas, como pelo seu extremoso carinho filial, mais valioso que os thesouros da celebrada pedra jada.

Um bello dia o pae da donzella desappareceu do sitio, sem que se pudesse atinar com a causa de tal facto. Pela manhã havia montado a cavallo e á tarde o rocim appareccêra em casa sem cavalleiro. A mãe julgou não sobreviver ao desgosto. A filha recusou-se a tomar alimento, vestiu-se de rigoroso luto e não consentiu em ver mais pessoa alguma sem saber do paradeiro do pae.

Assim decorreu um anno. Os ladrões das immediações, que frequentavam os sitios mais escusos, affirmavam não ter dado fé de tal homem. Os venerandos sacerdotes asseguravam que os Genios não o haviam levado para o céu. Não fora morto na guerra, nem tão pouco victima da peste!

Lancinada a mãe, tanto pela perda do marido, como pela dor que consumia a filha, fez um dia solemne voto de dar a rapariga em casamento a quem restituisse o marido ao lar domestico. Toda a gente das vizinhanças saiu para o campo, perguntou aos viandantes, calcurriou montes e valles. Não podia o premio ser mais tentador, porquanto a posse da amofinada menina fazia presuppor para o afortunado nas suas pesquizas, os gosos do céu na vida terrena.

Chegadas as cousas a este pé, aperceberam-se um dia de que o cavallo, em que saira o velho, estava inquieto á manjadoura, escarvava de continuo e fazia por partir as prisões. Ao cabo de afincado esforço, conseguiu o animal soltar-se, e partindo veloz, como um gamo, perdeu-se na imensidão dos arrozaes longinquos. Mais feliz do que as pessoas, logrou voltar ao povoado trazendo comsigo o velho tão insistentemente procurado. Posto o cavallo na cavallariça, todos o esqueceram, mercê da alegria, que lhes ia na alma; o animal, todavia, adoeceu desde logo. Não comia, nem bebia; de vez em quando apparecia triste, de outras feitas furioso; e continuamente voltava a cabeça para os aposentos da filha do dono. O ancião teve curiosidade de inquirir da irritabilidade do bicho e então a esposa revelou-lhe o voto feito por occasião do seu insolito desapparecimento.

«Taes promessas fazem-se e cumprem-se, disse o velho, quando se trata de homens, mas não a respeito de bestas. De hoje avante dê-se ao cavallo dobrada ração, quer de palha, quer de arroz. Em que cabeça humana entrou a possibilidade de casar uma rapariga com um quadrúpede?!» 

A despeito de tudo, o cavallo persistiu em não levantar o penso e, como tinha ouvido a conversação dos velhotes, mais se abispava ao passar próximo d'elle a formosa menina. Receioso o pae de que a attitude do cavallo acarretasse desgraças á família, resolveu matal-o, mettendo-lhe uma flecha no coração. Depois de morto o bucephalo, trataram os creados de lhe tirar a pelle e pozeram-n'a a seccar ao sol, pendurada n'uma arvore no meio do pateo da casa. Succedeu, porém, que, ao passar a rapariga por ali, se animaram de subito áquelles despojos e, envolvendo-a, levaram-n'a pelos ares, com grande admiração dos presentes. Dez dias depois apparecia a pelle estendida sobre a copada de outra arvore, até então desconhecida no paiz; das suas folhas nutria-se uma lagarta, que vomitava casulos de seda. Lá foram chorar-lhe junto ao tronco os desditosos páes da rapariga e, de então para cá, o povo deu áquella arvore o nome de Shang, palavra que em lingua chineza tem a dupla significação de amoreira e funeral.

Ninguém ousou duvidar de que a rapariga houvesse sido transformada em lagarta por falta do cumprimento da promessa; decorrido algum tempo appareceu aos páes uma deusa radiante de formusura e cercada de Genios magnificamente vestidos, envolta em nuvens de perfumes e montada no cavallo que havia sido morto. Era a filha, que, dirigindo-se-lhes, disse:
«Adorados páes! Mercê da minha piedade filial, pelo meu bom coração e fidelidade inconcussa, escolheu-me Deus para sua serva nos palacios do ceu, onde moram bem-aventurados, dando-me o dom da immortalidade. Não choreis por mim porque sou feliz.» 

O povo proclamou immediatamente a sua conterranea deusa das amoreiras e bichos de seda, e ainda hoje, em tres districtos da provincia de Setchuen, lhe consagram annualmente festas, durante as quaes abundam as offerendas nos pagodes e, entre nuvens de myrrha e incenso, sobem ao ceu orações, impetrando o seu favor para as amoreiras e fecundidade das lagartas. 

O pecegueiro, ou melhor, a sua flor, é, na China, o emblema da longevidade, assim como entre nós, os louros são o symbolo da gloria. Esta tradição tira origem da arvore dar flor pela epocha do anno novo, que corresponde sempre aos mezes de fevereiro e março, por coincidir com as proximidades do equinocio da primavera.

Outra allegoria póde ainda prender-se ao pecegueiro no Celeste Imperio. 

De tempos immemoraveis é a sua flor o symbolo do matrimonio, das virtudes conjugaes e, muito especialmente, dos deveres da mulher no seio da nova familia. Tal parece deprehender-se de uma obra poetica contida no She king, um dos antigos classicos, tido por sagrado d'entre os sábios chinas. D'esta notável poesia destacaremos a seguinte estrophe: «Florido e frondoso se ostenta o teu pecegueiro, oh marido afortunado! São suas flores radiantes e formosas. Parecem a casta virgem que veiu pôr ordem na tua casa e bemdizer o teu lar.» 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Macau pelo Conde de Lapérouse

As acusações que Lapérouse faz aos chineses, de nos cobrirem de injúrias justificadas pela fraqueza do governo português de Macau, não será completamente conforme a verdade. Por dentro de uma atitude há uma razão mais forte. Os portugueses foram em Macau hóspedes muito bem adaptados às leis da convivência, que não era, positivamente, feita de lições de honra. A corrupção era e é uma forma de linguagem. Com ela se ultrapassaram regras e se consolidaram acordos. Além disso, uma confiança feita na meia delinquência da cumplicidade é forte como o aço. Ela leva os homens a ser mais amigos do que se fossem unidos por laços de sangue.

A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999

Panorâmica de Macau na China.
Panorâmica de Macau na China. 
Desenho de Duché de Vanchy 
da 1ª ediçao da Voyage de La Pérouse autour du monde

Os chineses que nos guiaram ate frente a Macau recusaram-se a conduzir-nos ao ancoradouro da Typa (...); soubemos que se eles tivessem sido avisados, o mandarim de Macau ter-lhes-ia exigido a cada um deles metade da quantia que tinham recebido. Estes tipos de contribuição são de uma forma geral precedidos de várias pauladas; este povo cujas leis são tão gabadas na Europa, é talvez o mais infeliz, o mais humilhado e o mais arbitrariamente governado que há na Terra, se, contudo, se julgar o governo chinês pelo despotismo do mandarim de Macau. (…) 

Mandei a terra um bote comandado pelo Sr. Boutin para avisar o Governador da nossa chegada e anunciar-lhe que pretendíamos fazer uma estada na rada a fim de nos refrescarmos e dar descanso às nossas tripulações. O Sr Bernardo Aleixo de Lemos, Governador de Macau, recebeu este oficial da maneira mais cordial possível (…). Ancorámos ao lado de um navio da marinha francesa (…). 

O Sr. De Lemos recebeu-nos como compatriotas; todas as autorizações foram concedidas com uma honestidade que não há expressões para descrever; ofereceu-nos a sua casa; e como ele não falava francês, a sua esposa, jovem portuguesa de Lisboa, servia-lhe de intérprete; acrescentava às respostas do seu marido, uma graça e uma amabilidade muito próprias, e que os viajantes só muito raramente encontram nas principais cidades da Europa. 

Dona Maria de Saldanha tinha casado com o Sr. De Lemos em Goa havia doze anos e eu tinha chegado a esta cidade (…) pouco tempo depois do seu casamento: ela teve a bondade de me recordar este acontecimento que estava muito presente na minha memória (…), chamando de seguida todos os seus filhos (…). Em parte alguma do mundo se me ofereceu um retrato tão encantador; as mais belas crianças rodeavam e abraçavam a mais encantadora mãe; e a bondade e a meiguice desta mãe espalhava-se por tudo quanto a rodeava. (…) 

Como se está tão distante da China em Macau como na Europa, pela extrema dificuldade em penetrar neste Império (…) limitar-me-ei a descrever o relacionamento dos europeus com os chineses, a extrema humilhação que eles sofrem, a fraca protecção que podem receber da presença dos portugueses na costa chinesa, a importância, finalmente, que poderia ter a cidade de Macau para uma nação que se conduzisse com justiça, mas também com firmeza e dignidade, contra o talvez mais injusto, mais opressor e, ao mesmo tempo, mais cobarde governo que existe no mundo. (…) Não se bebe na Europa uma chávena de chá que não tenha custado uma humilhação aos que o compraram em Cantão, que o embarcaram, e navegaram metade do globo para trazer esta folha aos nossos mercados. (…) 

Os portugueses têm ainda mais razões de queixa dos chineses do que qualquer outro povo; sabemos a que título respeitável eles possuem Macau. A dádiva do estabelecimento desta cidade é um monumento do reconhecimento do imperador Camhy; ela foi dada aos portugueses por terem destruído, nas ilhas em redor de Cantão, os piratas que infestavam os mares e devastavam toda a costa da china. (…) Cada dia os chineses fazem-lhes novas injúrias, a cada instante anunciam novas pretensões; o governo português nunca ofereceu a mínima resistência e, este lugar, onde uma nação europeia que tivesse um pouco de energia, se imporia ao Imperador da China, mais não é que uma cidade chinesa, na qual os portugueses sofrem, apesar de terem o direito incontestável de aí mandar e os meios para se fazerem temer se mantivessem apenas uma guarnição militar de dois mil europeus, com duas fragatas, algumas corvetas e uma galeota armada. (…) 

A população inteira de Macau pode ser estimada em vinte mil almas, das quais cem portugueses por nascimento (reinóis?), dois mil mestiços ou portugueses indianos; idêntico número de escravos cafres que lhes servem de criados; o restante é chinês e ocupa-se do comércio e em diversas profissões o que torna estes mesmos portugueses tributários da sua indústria. Estes, embora quase todos mulatos, julgar-se-iam desonrados se exercessem algum ofício macânico e assim sustentassem a sua família; mas o seu amor-próprio não se revolta por solicitarem constante e importunamente a caridade dos trauseuntes. 

O Vice-rei de Goa nomeia todos os cargos civis e militares de Macau (…); os soldados estão armados de bastões, o oficial é o único com o direito a ter uma espada, mas em caso algum a pode usar contra um chinês. Se um ladrão desta nação for surpreendido a arrombar uma porta, ou a tirar algum bem, é necessário prendê-lo com a maior precaução; e se o soldado, ao defender-se do ladrão, tem a infelicidade de o matar, é entregue ao Governador chinês e enforcado no meio da praça do mercado, na presença da guarda à qual ele pertencia, de um magistrado português e de dois mandarins chineses que, depois da execução, são saudados com uma salva de canhão ao sairem da cidade, tal como o foram quando entraram: mas se, ao contrário, um chinês mata um português, é entregue aos juízes da sua nação, que depois de o terem espoliado, fingem cumprir com as formalidades da justiça mas deixam-no evadir-se, muito indiferentes às reclamações que lhes são dirigidas e que nunca mais darão lugar a qualquer satisfação. 

Os portugueses fizeram, nos últimos tempos, uma demonstração de força que ficará gravada no bronze dos registos do Senado. Um cipaio, que tinha morto um chinês, foi mandado fuzilar por eles, na presença dos mandarins, e recusaram-se a submeter a decisão deste caso ao julgamento dos chineses. (…) 

O aspecto da cidade é muito interessante. Da sua antiga opulência restam várias belas casas alugadas aos sobrecargas das diferentes companhias, que são forçados a passar o Inverno em Macau uma vez que os chineses os obrigam a deixarem Cantão assim que o último navio do seu país parte, só podendo regressar na monção seguinte, com os navios que chegam da Europa. 

A estada em Macau é muito agradável durante o Inverno porque os sobrecargas são, em geral, distintos, muito instruídos e têm um rendimento considerável para sustentar uma casa excelente. 

Le Voyage de La Pérouse, 1785-1788. Jean François Galaup, Conde de Lapérouse (tradução de Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Viagem por Macau, Vol I. 2014) 

Pintura chinesa: muito aquém da mediocridade europeia


Li Shangqing, pintor nascido em 1973
Na pintura estão muito áquem de qualquer mediocridade europea, e como o bello no homem e na mulher é mui differente do nosso, parecem-nos monstros as suas formosas concepções. 

O que o chim faz muito bem é imitar, - copiar, para melhor dizer. 

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854


imagem: Pintura tradicional chinesa, sec. XX (Li Shangqing, pintor nascido em 1973)

No Bazar vendem-se baratas fritas


Vamo-nos embrenhando nos dédalos do Bazar, que conduzem à Rua da Felicidade. As cosinhas, pelas travessas, abarrotam de freguezes que comem arroz, em tigelas, arroz simplesmente cozido e sem sal, que é o pão dos chineses, temperado com uns pingos de certos molhos exoticos, levando aos lados como que uns iscos doutros cozinhados, peixe ou carne bem como hostaliças cosidas num momento, em rápida fervura, tudo servido com mais ou menos temperos, conforme as moedas apresentadas pelos clientes. 

Beco da FelicidadeO fogareiro e a panela, encaixados numa espécie de mesa que serve de cosinha e balcão, a culinária pouco escropulosa em cuidados higiénicos, a que o chinês é extranho, os fai-t'chi erguidos, num vai-vem pressuroso, emquanto os comensaes repousam, de cócoras, sôbre toscos bancos, onde nós preferiríamos estar sentados, são quadros sugestivos da vida do Bazar, àquela hora no auge na animação festiva. 

A um canto, vendem-se baratas fritas, baratas de água, é certo, segundo nos diz o nosso amigo, mais profundo nos arcanos da culinária chinesa, mas semelhantes, em tudo, áqueles repugnantes animalejos que infestam grande parte das nossas casas e, na duvida, compramos alguns avos do precioso manjar que oferecemos ao vendedor que é um rapaz. 

Aquilo foi rápido: com um sorriso a brilhar-lhe nos olhos, como que descascou os animais, arrancando-lhe as pernas, e enguliu o resto, com sofreguidão! Observàmos, ainda, que havia duas espécies daquele piteu: uma maior e alourada, mais cara, outra preta, mais pequena, a preço mais módico. Luz, muita luz, brota a jorros, por toda a parte. São as casas de Fan-tan com as frontarias, as janelas e até, alguns telhados iluminados, os Cou-laus a luzir de lanternas, e lá dentro, a toada dolente e arrastada das cantigas das Pi-pai-chai. 

Cênas da Vida de Macau de Jaime do Inso. 1927

Uma pesca ao largo de Macau


O meu Avô Conde era um homem com defeitos e qualidades dum macaense dos tempos patriarcais. Rico e perdulário, vivia sumptuosamente, sem medir o dinheiro que esbanjava. Como os seus conterrâneos dos fins do século XIX, recebia muito, e a sua mansão à Praia Grande primava pela hospitalidade. (…) Entre os hóspedes e amigos que não se esqueciam do café do meu Avô, figurava, frequentes vezes, o Governador de então, o Sr Conselheiro Eduardo Galhardo que chegava na sua elegante cadeirinha do Palácio, seguido do seu ajudante de campo. (…) 

Os serões à Praia Grande decorriam muito agradavelmente. Havia sempre mesas para o gamão e, na sala vasta e confortável, pejada de sofás e poltronas victorianas, as senhoras preferiam o «bafá», em que se disputavam, ora com calma, ora excitadamente, gritando «Sete Preto!» e outros dizeres próprios do Jôgo, numa algaraviada em «patois» ou em português, tudo isto alumiado por uma profusa colecção de lâmpadas e candelabros de petróleo. (…) 

Na larga varanda, havia sempre um canto onde cavalheiros se reuniam para o puro prazer de conversar, essa arte que hoje praticamente se perdeu, na nossa era de televisão, de «pick-up» e doutros múltiplos passatempos. Dessa varanda invejável, como já as não há em Macau, admirava-se toda a graciosidade da baía, cujo traçado curvilíneo se estendia do Fortim de S. Francisco até os granitos de Bom Parto. 

A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os «dandies» percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até o Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e mui frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável «chaperone». Ao lusco-fusco, assistia-se ao acender dos candeeiros de petróleo públicos que o encarregado fazia, subindo por uma escada que arrastava consigo, às costas. Nos dias em que a banda do regimento tocava no coreto de S. Francisco, a música chegava claramente até à varanda, à mistura com os pregões tristes dos vendilhões de canja e sopa de fitas e dos achares chineses. Nas águas da baía, agitava-se o mundo flutuante dos juncos, das lorchas, das sampanas e dos tancares. Escutava-se a cada passo, o estralejar dos panchões, havia sempre o sonido dos gongos e o carpir duma flauta, o murmúrio dos rezos votivos para qualquer morto, perdido no mar. (…) 

A minha Avó era uma exímia pianista e encantava os ouvintes com trechos românticos de Chopin e de List. Depois, havia quem se lhe juntasse, com um violino ou um violoncelo (….). Não faltava quem praticasse o belo-canto, e a sala embebia-se de silencioso recolhimento, com os trinados de Verdi ou de Puccini. Outras vezes, patrioticamente, algum esbelto oficial de marinha, de bigodes frisados e barbicha em ponta, cantava fados tristonhos, cheios de mortes e facadas. As senhoras suspiravam e o oficial, pletórico de melancolias de exilado, recebia por fim, as felicitações. Também, amiúde, se recitava. Soares de Passos era um dos poetas favoritos (…). Às vezes, quando o número de convidados e amigos era maior que o habitual, iniciava-se um baile improvisado. (…) 

Embora tivesse pruridos de fidalguia (…), o meu Avô era afável, atraía as simpatias e possuía amizades em todas as camadas sociais. Quando o feriam nos seus pundonores, explodia com violência, mas as suas cóleras passavam tão rapidamente como tempestades de verão. 

Não tomava partido na verrinosa política local do seu tempo, onde tantos valores da terra se consumiam em disputas da lana caprina. Mantinha-se fora das rivalidades, não porque se julgasse superior aos outros, mas porque era simplesmente um epicurista. Gostava de gozar a vida, rodear-se de gente fraternal, e queria que todos se sentissem bem na sua companhia. (…) 

Educado em Inglaterra, adquirira certos hábitos ingleses. Era pontualíssimo, tomava o chá das cinco e, antes do jantar, o seu inevitável «scotch». Vestia-se, por outro lado, pelo melhor alfaiate inglês de Hongkong e nunca saía de casa sem uma refrescante flor na botoeira. 

Crente, sem ser beato, raça que detestava, tinha uma especial devoção por Nosso Senhor dos Passos. Na Procissão da Cruz, acompanhava o calvário do Senhor, com o respeito e a compunção dum pecador arrependido, desde Sto. Agostinho até à Sé, vestido de preto, a rigor. No dia seguinte, Domingo, dava um magnífico «chá gordo» para os convidados verem passar a procissão, costume este tão tradicional de Macau. A varanda cobria-se, então, de colgaduras (…) e a rua, a todo o comprimento da fachada da casa, ficava atapetado de flores, que seriam espezinhadas pelos penitentes da procissão. 

Extremamente rico, tinha excentricidades de rico. Gostava imenso de cães, que, duma feita e já noutra casa, atingiram o número de catorze, desde os pequineses felpudos e irritantes da minha Avó até as grandes feras que, nas horas mortas da noite, erravam pelo jardim, numa vigilância contínua e feroz, mostrando os focinhos anavalhados, sempre prontos para filarem a nádega dalgum imprudente. O seu criado de confiança era um antigo pirata regenerado que trouxera de Coloane, ainda nessa altura, valhacouto dos fora-de-lei. Era ele quem se encarregava da alimentação desses temíveis canzarrões e na comida misturava pólvora ou lá o que fosse, para os «tornar mais ferozes». E uma razão havia para emprego de tais métodos insólitos, porque, nas casas abastadas, pairava sempre a ameaça dum assalto da pirataria, seduzida por chorudos resgates. 

Como todo o macaense dos fins do século XIX, além do ténis, praticava dois desportos, em voga, a pesca e a caça. (…) Ora, numa dessas pescas ao largo de Macau (…) uma voz que vinha, a estibordo. (…) E, então, descobriram uma cabeça e um braço que se agitavam na tranquila ondulação das águas. 
- Salvem-me … 
O grito intercortado fora em chinês. (…) Um companheiro do meu Avô içou-o com dificuldade, pois o homem, em extremo esgotamento, parecia um peso morto. (…) 
- De onde vens? – inquiriu o meu Avô, em chinês (...). 
Durante compridíssimos segundos, não emitiu som algum. Arfava, com os lábios contraídos de fadiga. De compleição robusta, um homem alto, era, nesse momento, apenas um farrapo que tremia de frio. 
- Cubram-no. (…) 
- Esconda-me. Sou perseguido pelo barco da Alfândega. Prenderam o meu junco. Só tive tempo de me atirar ao mar. Já estou a nadar há muito … (…) 

O meu Avô hesitou e depois, num impulso generoso, decidiu-se. Com um berro, ordenou às tancareiras que rumassem o mais depressa para as águas de Macau, longe da jurisdição da Alfândega Chinesa. (…) 
- Eu simplesmente não fui capaz de atirá-lo borda fora nem de entrega-lo àquela gente. 

O homem, retirado do buraco, mal acreditava no milagre. (…) Quando o barco se acostou num certo cais do Porto Interior, mesmo diante da Praia do Manduco, o homem deu um salto para a terra e sumiu-se apressadamente, sem uma palavra, não fosse o meu Avô mudar de ideias (…). 

Semanas depois, quando jantava com os seus inúmeros convidados, ouviu-se bater a aldrava da porta. Pouco depois, o seu criado de confiança vinha dizer-lhe que aparecera um chinês que lhe queria falar urgentemente. (…) Na sala, enfrentou um homem sumptuosamente vestido de cabaia comprida de cerimónia, o rabicho luzidio de óleo, as mãos metidas nas mangas largas. Em suma, um indivíduo alto e robusto, emanando saúde e riqueza. Mal avistou o meu Avô, o visitante curvou-se em mesuras solenes. O dono da casa, a princípio, surpreso, logo reconheceu nele o miserável evadido da justiça que pescara do mar. 

Vinha agradecer. No vestíbulo, postravam-se quatro cúlis, ladeando dois cestos enormes. Dentro destes, viam-se pernas de presunto, garrafas de Whisky, conhaque (…). O meu Avô, atrapalhado com aquelas dádivas, ainda descobria outro lacaio que segurava uma travessa enorme de prata. 
- É um peixe que ofereço à sua digníssima T´ai- t´ai (esposa). 
E, apontando para o criado de confiança do meu Avô, elucidou: 
- Ele sabe quem eu sou. 

Não foi preciso ir mais longe para se compreender qual a sua verdadeira profissão. Afinal era um pirata. (…). Convidava o meu Avô, sempre que quisesse, a visitar os seus domínios. Havia ali muita caça e muita pesca e boas instalações de repouso. (…) 

Partiu depois com a sua comitiva. O meu Avô regressou à casa de Jantar, sorrindo todo prazenteiro, trazendo o peixe e contando a surpreendente visita. Todos quiseram provar do peixe enorme (…) e mais surpreendidos ficaram, quando, ao cortar o peixe, saltou, dentro da carne suculenta, uma pulseira cravejada de brilhantes e pedras de jade que era o presente do pirata à minha Avó. (…) 

Em Macau, era um cidadão pacífico, de bem com a lei e com os homens, que vivia numa casa ajardinada da Praia do Manduco, no meio do carinho de duas concubinas, comerciante registado, com loja e tudo. Na «terra-china», era um fora-da-lei, cuja cabeça, posta a prémio, estava chorudamente alvissarada. (…) A amizade entre os dois homens foi profunda e nunca vacilou. Disto teve a prova o meu Avô, mais uma vez, em certos delicados passos da sua vida.

Nam Van, contos de Macau de Henrique da Senna Fernandes. 1997

Os riquexós não podem andar a par

Hedda Morrison
Hedda Morrison, Hong Kong. 1946-47


Um problema, os condutores de riquexós apressados ...


ADMINISTRAÇÃO DO CONCELHO DE MACAU. 

Albino Antonio Pacheco, advogado do auditorio d’esta comarca e administrador do concelho de Macau. Faço saber que se suscita a observancia dos artigos 9.º, 10.º, 11.º e 18.º, das posturas sobre jin-rick-shás, na qual se prohibe andarem os carros a par, correrem com grande velocidade, e se recommenda darem a direita quando passarem um pelo outro, sob pena de multa, e indemnização pelos prejuízos causados no caso de atropellamento.
Administração do concelho de Macau, 8 de agosto de 1892. O administrador, Albino Antonio Pacheco. 

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor de 11 de Agosto de 1892


ADMINISTRAÇÃO DO CONCELHO DE MACAU. EDITAL

Albino Antonio Pacheco, advogado do auditorio d’esta comarca e administrador do concelho de Macau. Faço saber que, para conveniencia do transito publico e segurança dos transeuntes, fica expressamente prohibido andarem a par os carros jin-rick-shás, nas ruas e estrades da cidade, desde a Fortaleza da Barra até as Portas do Cerco, com excepção da rua da Praia Grande. A transgressão do acima estipulado será considerada desobediencia aos mandados da auctoridade, e, como tal, punidos os transgressores. E para que chegue ao conhecimento de todos, se passou este, a fim de ser affixado nos logares publicos do estylo. 
Administração do concelho de Macau, 27 de agosto de 1892. E eu Euclides Honor Rodrigues Vianna, escrivão que o escrevi. O administrador, Albino Antonio Pacheco. 

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor de 1 Setembro de 1892

Os lavradores têm o primeiro lugar na China

Pátio da Pedra
Pátio da Pedra Pátio da Pedra 
Altar no Pátio da Pedra

O preceito essencial da sua religião, consiste na prática das virtudes sociaes. O culto interior é o amor de seus pais, vivos ou mortos; o exterior reduz-se ao amor do trabalho: reputam a cultura da terra pelo mais nobre, e honroso. Ainda reverenceam a generosidade de dois imperadores, que, preferindo o estado ás suas familias, excluiram do throno seus proprios filhos, para subirem a elle homens tirados da charrua! Veneram a memoria d'aquelles varões, por terem lançado nas entranhas da terra os germens da ventura; isto é, sementes, fonte inexhaurivel da producção das messes, e da multiplicacão dos homens. A exemplo d'aquelles dois lavradores, todos os imperantes da China se honram no exercicio d'essa arte sublime. 

A mais brilhante das funcções imperiaes é lavrar a terra, em dia solemne, para render culto á primeira das artes. Isto não é a fabula da Grecia, onde os numens guardavam os rebanhos dos principes; é o bemfeitor dos povos, que abrindo o seio da terra, mostra aos subditos os verdadeiros thesouros da nação. Os chinezes usam do adagio seguinte: «Vale mais um alqueire de arroz, do que dois de perolas.»

Os lavradores têm o primeiro logar, entre as classes productoras. O imperador convida, para dia assignalado, em cada anno, quarenta lavradores respeitaveis por merito, e idade, para o acompanharem n'aquella funcção. Dirige-se ao templo, dá graças a Deus, e sahe depois com os lavradores, principes, e presidentes dos tribunaes superiores, para o campo sagrado, levando cada um, em pequenas bocetas, sementes escolhidas. O Chou-Kin, segundo livro sagrado, diz que a origem mais pura, abundante, e capaz de fazer a prosperidade do estado, é a da generosa agricultura.

O imperador, entrando no campo, toma a rabiça do arado, e abre alguns regos: os principes, e coláos fazem o mesmo; depois, semêa o imperador o terreno, que lavrára; os principes seguem o exemplo do imperador; e os lavradores acabam de lavrar, e semear o espaço restante. Os europeus, que têm presenceado esta ceremonia, fallam d'ella com respeito: lamentam não ser esta funcção pública, cujo fim é promover o trabalho, substituida na Europa por tantas festas religiosas, que parecem inventadas pelo fanatismo, para esterilisar os campos. Este impulso dado aos costumes, é sustentado por saudaveis leis, e premios honorificos.

Os bonzos, sempre atrevidos em pretenções de interesse, na China não o podem ser. Abundam no imperio, mas vivem do suor do seu rosto: não recebem do estado pensão alguma, nem dos povos congrua obrigatoria. Uma nação esclarecida não podia deixar de considerar corrupto o bonzo, que pretendesse receber imposto, em razão do seu emprego. Quantos ha, vivem do seu trabalho, e da caridade dos seus devotos.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

Viveza e originalidade na música chineza

Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946
Hedda Morrison, 1933-1946

Ou uma melodia de caldeireiros ...

Os chinezes têem uma musica muito caracteristica, que não é destituida de uma certa viveza e originalidade. É, porém, a melodia das suas cornposições musicaes que póde sómente agradar ao ouvido do europeu. A harmonia é um horror, sendo todas as musicas acompanhadas de tan-tans, dos sons seccos de umas pancadas sobre uma semi-esphera de madeira forrada de couro com taxas de ferro, e de sons fanhosos de clarinetes, de flautas e de instrumentos de corda. São estes instrumentos geralmente primitivos. Os arcos das rabecas consistem em um simples bambu curvado pelos fios de crina resinada; as cravelhas dos outros instrumentos de corda são de um acabamento tosco; emfim, a instrumentação chineza está á altura dos instrumentos.

Afóra os grandes tan-tans e bategas, consistem aquelles instrumentos na Pi-pá, grande guitarra que se toca com palheta, no It-cam, guitarra chata e circular, no lot-sam, e Ghi-in, instrumentos de arco de uma fórma extraordinaria, na Si-u, flauta com muitos orificios, em mais dois clarinetes, o Ti-ek e o Ghi-von, e, finalmente, no Pon-Ku, pequeno tan-tan, que se toca com duas vaquetas de bambu. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Quanto á musica, cujo gosto terás ouvido contar como geral entre os chins, posso dizer-te o que presenceei nos theatros, nos arrayaes, e outras festas populares. Dos saraus de Pekin nada direi, mas creio que não será melhor ahi, porque as senhoras não vão a bailes, nem mesmo a teatros (…). As peças dramaticas são, em parte cantadas, e mesmo os recitativos teem o competente acompanhamento de musica, mas musica que fere um ouvido europeu, por mais duro que elle seja.

Os nomes dos instrumentos não sei, mas similham á gaita de folles, á rebeca de uma só corda tangida por musico inexperiente, e outros não se parecem com cousa alguma do nosso conhecimento; mas o que predomina a toda a orchestra, e faz a delicia das festas populares, é a bátega - especie de bacia de metal, d´onde á pancada se tira um som aspero e agudo - a tal melodia de caldeireiros!

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854

Visconde de S. Januario, chinez ou homo monstrosus


O actual sr. governador de Macau e Timor, sua excellencia o sr. visconde de S. Januario, está dando ás colonias portuguezas, á metropole e á sciencia uma interessante medida de quanto pode sobre um ser organico a influencia do «meio», do solo, do clima, da latitude. É curioso observar na historia dos actos do dito sr. governador como a força de residir nas regiões asiaticas, sua excellencia se vae tornando progressivamente chinez... Chinez ou homem monstruoso, homo monstrosus, de Linneu! 

.-.-.-.Ultimamente o sr. visconde de S. Januario mandou responder a conselho de guerra um facultativo militar, redactor do Oriente, jornal de Macau, accusado pelo sr. governador de ter exorbitado da liberdade do imprensa, em um artigo a respeito de irmãs da caridade!

Depois o mesmo sr. visconde dispensou o jornalista de responder a conselho e condemnou-o summariamente a dez dias de prisão! Por ultimo o dito sr. governador, sempre pelo mesmo delicto de imprensa, mandou o jornalista desterrado para Timor! Não sabemos se depois das ultimas noticias s. ex.ª teria mandado applicar ao delinquente o grande ou o pequeno bambú, as bastonadas, a canga, ou a pena ultima. Vemos já em todo o caso que o sr. governador está, pela sua comprehensão da justiça, na legislação plenaria do celeste imperio. Somos levados a crér que s. ex.ª faz já preceder o seu palanquim pelos dois mil guardas portadores das differentes chinesices que servem de emblemas ao despotismo oriental na passagem do filho do céo pelas ruas de Pequim. Mais nos auctorisa s. ex.ª a suppôr que botou rabicho. Quem sabe, de resto, se s. ex.ª não estará já sendo, como todos os chins: de porcelana!

Quem sabe se Sua Magestade el-rei se não verá em pouco tempo obrigado a transferir de Macau este seu delegado para o collocar no seu proprio palacio, em um logar de honra – como jarra! ?... Se não fôr antes sua magestade a rainha quem definitivamente venha a adoptal-o, com outros mandarins, - em leque. 

A instabilidade e as vicissitudes dos destinos chinezes são taes que mal nos atrevemos a conjecturar qual virá a ser, pelo caminho que leva, o futuro do sr. visconde de S. Januario. Dizemos temerariamente jarra e dizemos leque! Bem pode ser no fim de contas que os deuses Fo e Tao-tse estejam preparando lentamente em s. exª - um bule.

E que aquelle que começou por lançar exterminios, acabe por deitar chá preto!

As Farpas, chronica mensal da política das letras e dos costumes, Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz. 2.° anno, Dezembro de 1872

Um incêndio em Macau e a proclamação de D. Pedro V

Macau é sem duvida a cidade mais pacifica d´Asia Oriental. Ordinariamente occupada com o commercio que a sustenta, não offerece nos estreitos limites do seu pequeno territorio nenhum objecto de distracção. Apenas ahi chega uma vez por mez o correio da Europa, que leva mais de mil noticias diversas de todos os paizes: nesse dia chega a curiosidade geral ao seu paroxismo pela novidade; porém no dia seguinte cada um toma o seu estado habitual, e não pensam mais em cousa alguma que não seja no seu negocio.
Travessa dos Bombeiros
Foram pois dias de movimento extraordinario e de emoções insolitas aquelles em que os habitantes de Macau proclamaram em grande pompa a elevação do Sr. D. Pedro 5º ao Trono de Portugal. A festa começou em 26 de Dezembro de 1855 e durou tres dias consecutivos: logo na manhã do dia 26 as antigas fortalezas onde o celebre Camões servio como simples soldado, annunciaram o dia com numerosas salvas d´artilharia, ás quaes responderam os navios de guerra surtos no porto.

Pelo meio dia o governador acompanhado do corpo diplomatico e de todas as authoridades civis e militares, se dirigiram á casa da camara aonde o busto de D. Pedro estava collocado sobre um docel, e aproximando-se da galeria principal que dá para a grande praça do senado, elle proclamou por tres vezes o novo Soberano em presença de uma multidão immensa de povo, do qual a alegria se manifestou por diversas ovações enthusiasticas. 

Depois da proclamação official as authoridades se dirigiram para a cathedral onde o Bispo entoou um Te-Deum em honra do novo Monarcha. Notaram-se n´esta ceremonia o conde de Courey e todos os representantes da legação Franceza, o contra Almirante Guerim, assim como os commandantes e officiaes das Fragatas Francezas Virginia e Constantina aos quaes o governador tinha enviado cartas de convite.

Á noite, a iliuminação mais brilhante que se tem visto em memoria de homem, dava á cidade um aspecto grandioso que fazia lembrar as festas da mãi patria.

Os proprios chinezes quizeram rivalisar com os portuguezes fazendo no seu estilo varios fogos d´artificio e armando diversas barracas illuminadas de differentes cores: é verdade que depois da suppressão do Mandarim de Macau os chinezes nascidos naquela cidade podem-se julgar como subditos de Sua Magestade Fidelissima. Porém de todos os edificios publicos e particulares, o que se distinguio com mais luxo pela riqueza e bom gosto de suas decorações era a residencia do Barão de Cercal, consul geral do Brasil. Perto de 3,000 luzes estavam habilmente dispostas, segundo um elegante desenho que o filho do Barão tinha traçado, semelhante aos que tinha visto em Paris, donde tinha regressado de completar os seus estudos; só lhe faltavam vidros de cores para representar em menor escala as bellas illuminações dos Campos Elysios. Assim se continuaram até o dia 28 as salvas d´artilharia, concertos públicos, paradas, illuminações e bailes. Mas apenas o echo destas festas retinio uma calamidade inesperada veio subitamente espalhar por toda a cidade o terror e afflicção.

Será bom lembrar aqui ao leitor, que sendo a cidade de Macao construida sobre uma lingua de terra, tendo menos de um kilometro de largura; está quasi longitudinalmente dividida em duas partes, sendo uma habitada pelos portuguezes e outra pelos chinezes; a parte habitada pelos portuguezes, a qual dão o titulo de cidade Europêa, estende-se do lado do sul á margem de uma bella praia, do qual se vê o ancoradouro exterior, composta de casas edificadas de tijolos, de um ou mais andares, tendo um aspecto de riqueza e elegancia que se admira em todas as colonias intertropicaes; a cidade Chineza ao contrario fórma do lado do norte uma aglomeração de casebres desalinhados, da qual os bicos estreitos e tortuosos vão remeter ao porto interior; as casas são pela maior parte construidas de madeira, baixas, escuras, encostadas umas ás outras por tanto mal arejadas. Ali, amontoam-se em alpendres escuros e humidos as provisões alimentares de toda as qualidades, não sómente a população de toda a cidade como tambem os navios e juncos (1) surtos no porto, aonde tambem se acham as madeiras de construcção, maçames, breus, combustivel e em geral todos os materiaes maritimos, sem contar as mercadorias em deposito que chegam constantemente do interior da China para serem exportadas. 

Foi no dia 4 de Janeiro a uma hora da tarde que o fogo se descobrio nas casas cobertas de folhas de palmeira, perto da antiga alfandega, para a extremidade do norte da cidade chineza, porém como o vento soprava fortemente do nordeste, as chammas precipitaram-se com violencia sobre as casas visinhas, e em poucos momentos o incendio se ateou ao mesmo tempo em diversos pontos, dirigindo-se por numerosas faiscas para o interior do basar (2). As fortalezas portuguezas deram logo o signal d´alarme, e os bombeiros mecanistas no mesmo instante se prepararam para livrar das garras do gigante destructor a cidade chineza que já se achava em lamentosas circumstancias, porém que poderiam elles fazer com duas ou tres bombas que datam de D. José 1º, tendo as rodas baixas como os antigos carros de bois, com mangas que não fazem vacuo, e com canos endurecidos que se não podem desenrolar; desta sorte ainda não era bem noite e já o incendio ateado pelas materias inflamaveis, encerradas em grande quantidade do bazar, se alongava a margem do mar até á praça central do Senado, ameaçando de destruir não só a cidade chineza, da qual a sorte estava fatalmente decidida, como tambem a cidade Europêa toda inteira.

Por mercê de Deos que as fragatas francesas Virginia e Constantina que se achavam fundeadas no ancoradouro, ao primeiro tiro de soccorro o contra-Almirante Guerim apressou-se a mandar a terra 250 homens munidos de todos os utensilios necessarios para afastar o progresso da chamma. O plano de operação estava traçado, a cidade Chineza estava já considerada perdida, por isso era necessario tratar de salvar a Europêa, e foi para esse fim que foram dirigidos todos os esforços. As casas chinezas da praça e rua do Senado que podiam communicar o incendio para o sul, foram completamente demolidas antes que o fogo lhe tivesse chegado, e outras das quaes as chammas já lambiam o convento, e igreja de S. Domingos, foram cobertas d’agua pela acção das bombas sobre toda a linha central de separação entre as duas cidades, afastando desta sorte a invasão do elemento destructor. N´umo palavra o Macau Portuguez ficou em pé no entanto que o Chinez estava como um mar de fogo d’onde nada mais podia escapar.

A uma voz todos asseveravam, que os marinheiros francezes pela coragem illimitada que costumam mostrar nestas occasiões, que era incontestavelmente a elles que a nossa colonia deve o não estar toda inteira um montão de ruinas fumegantes. O incendio durou toda a noite do dia 4 até a do dia 5: noite assustadora em que, quando apenas se contemplava o luar sinistro das chammas e os gritos de toda a população reducida a mais completa miseria, milhares de ladrões armados faziam gelar de medo os corações dos mais corajosos. 

Emfim, na noite do dia 5 que a devastação parecia estar inteiramente acabada e que os salteadores, que tinham chegado de vespera destinados á pilhagem, lançarem fogo a um grande circo exclusivamente habitado pelos barqueiros chinezes do porto interior; centenares de casas que ahi se achavam grupadas, construidas unicamente de madeira e colmo, tornaram-se em poucos momentos presa das chammas, porém aqui a perda material foi pequena em comparação das victimas que temos a lamentar, o circo não tinha em toda a sua circunferencia, senão uma porta e esta estava fechada a chave. 

Ao primeiro grito de alarme, que se ouviu, todos os moradores se precipitaram para a porta, afim de se salvarem, porém, antes que a porta se arrombasse, grande numero de individuos foram apanhados e devorados pelas chammas, e outros foram sufocados e esmagados aos pés da multidão: appareceram quarenta e cinco cadaveres deste ultimo incidente. Os ladrões tinham, sem duvida, calculado, que favorecidos pela desordem que causasse este inexperado incendio, elles poderiam mais facilmente pôr em pratica a sua obra lançando assim o fogo em um quarteirão, que com numerosos estorços se tinha acabado de salvar. Felizmente, não aconteceu assim; porque as tropas portuguezas chegaram a proposito de os apanharem em flagrante delicto, malogrando assim esse plano de expolio. (...)

Entretanto como ha desastres de que resultam utilidades, este incendio foi causa de que se podem aproveitar as autoridades para fazerem observar na reconstrucção da cidade, as leis de salubridade que pede o calor do clima, a aglomeração dos habitantes e a mal apropriação inherente aos costumes chinezes. 

Rio de Janeiro, Julho de 1856. Tradução de Francisco Coelho Martins da Costa.

(1) Embarcação Chinezas
(2) Mercado no Oriente

A Saudade, Jornal do Gremio Litterario Portuguez. Domingo, 20 de Julho de 1856

Portugal não tem costumes chinezes

G. E. Morrison, China, finais do séc XIX e inícios séc XX
G. E. Morrison. 
China, finais do séc XIX e inícios séc XX

2ª Repartição. N°6

Ill.mo e Ex.mo Sr. - S. Exª o Ministro e Secretario d´Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar a quem foi presente o officio de V. Exª de 26, de 22 de março proximo passado, no qual V. Exª apresenta duvidas sobre se os filhos adoptivos dos chins estão sujeitos ao pagamento da contribuição de registo pelas heranças de seus paes adoptantes, encarrega-me de communicar a V. Exª que a adopção de filhos, segundo os usos e costumes chinezes está riscada das nossas leis. O codigo civil (artigos 119º e seguintes) autorisa a legitimação e a perfilhação, e se o mesmo codigo, applicado por decreto de 18 de novembro de 1869 ás províncias portuguezas do ultramar, obedece a certas excepções, a execpção consiginada no § 1.º do artigo 8.º do citado decreto não abrange o reconhecimento de consanguinidade no filho adoptivo segundo os referidos usos e costumes chinezes para o effeito da gradação da contribuição de registo em caso de herança.

O filho adoptivo é um estranho, ou parente em qualquer grau menos o de filho; porque, se fora filho entraria, podendo, na cathegoria de legitimado ou perfilhado. São acceites e acatados os usos e costumes dos chinezes nas relações entre elles mas para com o estado, o subdito chinez, em Macau, tem os direitos e deveres geraes de qualquer outro estrangeiro. O decreto de 4 de agosto de 1880 mandou regular pelos usos e costumes chinezes as heranças dos chins estabelecidos em Macau e ali naturalisados cidadãos portuguezes, excepto quando elles requeiram que á transmissão se applique a legislação portugueza; se um subdito chinez, naturalisado portuguez adoptar um filho como é uso na china, poderá fazel-o, mas dentro de Portugal que não tem usos nem costumes chinezes, o filho adoptado que tiver partilha da herança de quem o adoptou, não deixa de ser um estranho perante a lei da contribuição de registo. 

Deus guarde a V. Exª. – Secretaria d´Estado dos Negocios da Marinha e UItramar, 30 de Junho de 1890. – Ill.mo e Ex.mo Sr. Inspector de fazenda da provincia de Macau e Timor . – O director geral, Francisco J. da Costa e Silva

Boletim da Provincia de Macau e Timor. 7 de Agosto de 1890

Hua das cauzas da decadencia de Macao he as molheres religiosas


Providencias sobre a entrada pª freiras e casamento de mulheres com dote

Madre Maria de São José, Religiosa Carmelita Descalça de autor desconhecido (séc. XVIII - XIX). Museu de ÉvoraPor q. Sou infomado q. hua das cauzas da decadencia da Cid.e de Macao he a falta de moradores Portuguezes, e q. esta procede da quantid.e q tendo dótes cõ que poder cazar, se meterõ a mayor parte Freiras, e p.ª evitar este prejuizo ordeno e mando q. estando completo o numero de Religiozas do Conv.to daquela cidade se naõ recebaõ nelle mais molheres p.ª Religiosas, e ʃe caze cõ os dotes q. tivere cõ os Portuguezes q. se achare na dita Cidade, p.a aʃy se remediar a falta q. esta experimenta de moradores, e ʃe frequente o Comercio, e ʃe augm.te a trrª e o govr.or da Cidade de Macao e o Senn. da Camara della daraõ inviolável execuçaõ desta minha orde.

Goa sete de Mayo de 1718. Conde Dom Luis de Menezes. R.da por my Escrivaõ da Camr.ª Abaixo aʃinado. Macao 26 de 9.bro de 1718. Manuel Pires de Moura.

Arquivos de Macau. Junho de 1929.

imagem: Madre Maria de São José, Religiosa Carmelita Descalça de autor desconhecido (séc. XVIII - XIX). Museu de Évora

O amor dos chins pelos filhos do sexo masculino

Hedda Morrison
Hedda Morrison. Pequim, 1933-1946

Todavia, forçoso é confessal-o, outras virtudes compensam em parte os defeitos d’este povo: taes como, o patriotismo e o amor pelos filhos do sexo masculino. Emquanto professam uma grande indifferença, e mesmo desgosto pelas filhas, orgulham-se e enthusiasmam-se os chins pelo nascimento de um filho, que virá um dia a ser o seu herdeiro, herdeiro dos haveres, dos principios, das tradições de seu pae. E por isso a distincção, que antigamente só era concedida a quem provinha de nobre jerarchia e occupava um logar importante no imperio, isto é, o uso do bigode e da pera, era tambem concedida ao mais miseravel pescador, ou culi, que fosse pae e avô de individuos do sexo masculino. Emquanto se ensoberbeciam, quando tinham um ou muitos filhos procuravam ao mesmo tempo desfazer-se das pobres raparigas, que não era raro immolarem, matando-as moral ou physicamente, isto é, lançando-as á prostituição, ou mandando-as para o outro mundo para acompanharem e fazerem no céu a côrte a algum parente fallecido. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

O Governo dos chins e a cautela com os estrangeiros

A ordem, o governo, os mandarins e a muralha da China num relato do século XVI 

Na policia dos Chins ha todavia algumas cousas bem notaveis; e a que mór louvor merece é a grande ordem d'esta machina de ministros, e sujeição que uns têm aos outros, e todos ao rei, o qual de tal maneira o é, que não ha em toda a China um só palmo de terra de que não seja proprio senhor, ou onde outrem tenha algum modo de jurisdicção, poder e autoridade, mais que os seus mandarins, a quem a elle dá. Porque ainda que haja muita nobreza, fazendas grossas, e morgados ricos e antigos com successão de pais e avós a filhos e a netos, não são porém duques, nem condes, como entre nós (…). 
Travessa das Venturas
Os mandarins sómente governão e meneião tudo com tão grande autoridade, que mais os tratão os outros Chins como a idolos, que como a homens da sua mesma nação e natureza. Ninguem requer ante elle senão com ambos os joelhos em terra; a linguagem não é a vulgar, mas como entre nós a latina, e aquella só corre por todo o reino, havendo muitas particulares e proprias, que se praticão n´umas provincias, e não nas outras; posto que o que se escreve por as lettras serem jerogliphicas, e mais figuras das cousas, que signaes das palavras, igualmente o entendem todos os que o lêm.

Sahem os mandarins em ricos andores com grande côrte e acompanhamento, e para se fazerem mais temer levão diante a guarda de homens d'armas, e os algozes ordinarios, a que chamão upos. Vão estes dando brados espantosos em signal de vir, ou passar o mandarim, aos quaes a gente se retira, e deixa a rua despejada, e os que acaso acertão de se encontrar com elle, não o esperão em pé, senão que afastando-se a uma parte se poem de joelhos até o perderem de vista. Trazem os upos (…) uns mólhos de bambús, ou cannas massiças de largura de tres e quatro dedos, e de comprimento de uma braça, com que os mandarins fazem mui facilmente açoutar toda a pessoa, e são os açoutes tão crueis, que poucos bastão para deixar um homem aleijado das pernas, e muitos com uma duzia de golpes deixão a vida. 

Mas tornando ao que começavamos a dizer da ordem que ha entre todos estes ministros e o rei, escrevia o padre Alexandre que em uma religião muito bem governada a não podia haver maior entre os subditos, prelados, particulares, e geral. O rei, posto que em tudo soberano e absoluto, nenhuma cousa faz senão segundo a disposição das leis, e accordo do conselho do Estado. Ao qual os vice-reis das provincias seguem tão pontualmente como se não tiverão outro entendimento, nem inclinação; e com a mesma obediencia lhe respondem a estes os a elles sujeitos e subordinados, correndo-se, e entendendo-se todos entre si com tanta facilidade e suavidade, que lhe parecerá, a quem o bem considerar, meneio de uma casa e familia de pouca e boa gente; e não, como o é, governo de um imperio o maior, e dos mais maliciosos idolatras do mundo. Conforme a esta ordem e obediencia é incrivel a presteza da execução de quanto se ordena; a que serve um infinito numero de correios d'el-rei estando sempre a ponto com cavallos, que mudão ás postas, ondeantes de chegarem fazem signal com a trombeta, como se costuma entre nós, para lh'os terem prestes; por elles dão os vice-reis todos os mezes conta ao conselho do Estado de quanto passa em cada provincia, recebem da côrte os despachos ordinarios, e mandão executar os proprios nas cidades e lugares de suas governanças.

E como nem para as despezas d'estes ministros, nem para os gastos do que se manda falte dinheiro, ou outra alguma cousa, em todas fica sendo quasi o mesmo o dizer e o fazer, ou sejão fabricas e edificios mui custosos, ou exercitos por terra de um e dous milhões de homens, com tudo quanto hão mister para comer, marchar e pelejar, ou armadas de quinhentas e mais velas grossas cheias de mantimentos, munições, artilharia, gente de mar e de guerra. Depois d´esta ordem, obediencia e presteza tão importante a todo bom governo é maravilhosa a cautela e resguardo com que tratão no seu os Chins da paz e quietação da republica, não se velando n'esta parte menos dos proprios naturaes do mais interior do reino, que dos imigos fronteiros. Para que todo o Estado em roda ficasse quanto podia ser seguro, e fechado pelos confins da terra, alevantárão contra os Tartaros, na parte onde lhes faltavão montes, um muro de cantaria a cuja sombra nada montárão nem os de Babylonia , nem todas as fabricas de piyramides e colisêos que os poetas celebrárão por milagres do mundo. 

Corre o monstruoso edificio quasi por trezentas leguas, até ir dar as mãos a duas altissimas serranias, e fechar com ellas de uma banda e da outra tudo o que ha da China ao poente. É a obra tão forte, alta, e larga, que como suppre, assim arremeda a firmeza, altura e vastidão dos montes. Não deixando de ter suas torres a passos, e gente de guarnição em todas ellas, como se sómente fôra cerca de um castello, ou cidade pequena. E ninguem se espante dos Chins continuarem as montanhas com muros na terra firme, pois não duvidárão de a poder unir ás ilhas bem distantes com navios no mar. 

Padre João de Lucena, excerptos seguidos de uma noticia sobre sua vida e obras, um juízo critico, apreciações de belezas e defeitos e estudos de língua (1550-1600). Edição de 1868