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Comida nas sepulturas e nos altares caseiros

Uma mulher visitando um cemitério. Jack Birns. Macau, 1949
Uma mulher visitando um cemitério. Macau, 1949
Jack Birns.

Realmente, cada religião tem as suas coisas. Parece estranho porem comida nas sepulturas e nos altares caseiros para honrar os mortos, uma vez que não vão comer. A esse respeito conta-se uma história com bastante lógica. Uma ocidental e uma chinesa encontram-se no cemitério, cada uma honrando os seus mortos. Acabadas as orações, a ocidental aproximou-se da chinesa e perguntou:

- Quando é que os seus mortos vêm comer a comida que lhes trouxe?

- Vêm quando os seus vierem cheirar as flores que lhes pôs, respondeu a chinesa.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

Não há estábulos em Macau

japoneses em Macau
Japoneses em Macau
Fundação Jorge Álvares

Vivi factos que não podia contar a ninguém. Factos perigosos, que combinei com o meu marido banir para sempre da nossa memória. Cumprimos o combinado. Nunca mais falámos desses assuntos. Era como se nunca tivessem existido. (…) Foi aquele filme que me fez reviver os factos, numa época em que tive as maiores preocupações, mas em que fui muito feliz também. (…)

Quando o António me perguntou se eu queria ir passar cinco anos a Macau, fiquei radiante. (…) Éramos felizes, mas a tentação do Oriente foi muito forte. Por isso abracei a ideia com alegria (…). Viagens pagas para toda a família, ordenado tentador. Pronto, iríamos para Macau. (…) Nesse tempo não se ia ao Oriente com a facilidade de hoje. Não havia carreiras aéreas, nem barcos portugueses. O Oriente era quase um mistério, que alguns tinham a sorte de desvendar. (…) Teria casa do Estado, mobilada.

A Segunda Guerra Mundial tinha começado. Os mares não eram seguros, muitas áreas estavam minadas, não havia cerimónias em bombardear um navio sobre o qual pendessem suspeitas. Mas nada disso me assustava. Contra os argumentos da família, eu argumentava que éramos neutros e o navio levava bandeiras bem grandes, pintadas no convés superior e nos costados. (…)

O António descobriu na segunda classe uma rapariga macaísta, meio chinesa, acabada de se formar em medicina, a Elsa. A moça sentia-se deslocada entre aquela gente doutra condição social. Era filha de uma das melhores famílias da sua terra, com quem nos demos depois. O pai era conde. (…)

Transbordámos para o barco que nos levaria a Macau (…), onde passei cinco anos de experiências nunca sonhadas, cinco anos de sustos, de aflições, cinco anos que apesar de tudo foram os mais felizes da minha vida. Macau tinha arranha-céus, coisas que não havia em Lisboa, e havia tanta gente. Os chineses não me fizeram impressão. Habituara-me a bordo com os criados. De princípio pareciam-me todos iguais, mas foi só de princípio. 

Tivemos logo o problema do alojamento. Em Lisboa, a Marinha tinha informado que teríamos casa mobilada e equipada. O capitão de porto cessante não estava. Partira para Saigão, sem deixar o apartamento desocupado no edifício da Capitania. Fomos portanto encaminhados para o único hotel português da colónia, o Bela Vista. Estava um tanto decrépito. Era explorado por duas irmãs que iam desistir e ficar apenas com uma casa de chá no centro, as Delícias. (…)

O outro comandante já não estava em funções. Devia retirar os seus pertences. Acordei na madrugada seguinte ao som de bois a mugir. (…) O António foi apresentar-se ao governador e eu, para entreter as crianças, fui visitar o estábulo.
- Qual estábulo?
- O estábulo, ouvi os bois a mugir, de manhã.
- Bois? Aqui não há bois. São as rãs, as rãs-boi.
Eram rãs. O barulho era de bois, de bois, mesmo. Extraordinário.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios

Menino da aristocracia com óculos de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.
Menino da aristocracia com óculos 
de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.

Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios, governados por excellentes leis e por magistrados rectos e humanos; porém alguns Europeos, que tem residido muito tempo na China, e outros, que tem atravessado aquelle vasto Imperio em toda a sua longitude, tem visto com muita frequencia que o forte opprime o fraco, e que todos os que tinhão alguma authoridade se servião della para molestar, vexar e atormentar o povo.

O Imperador exerce o poder mais absoluto; pôde derogar as leis, e estabelecer outras novas. O respeito que se lhe tem chega até á adoração; desobedecer-lhe é um crime imperdoavel. Quando se apresenta em publico, o que acontece raras vezes, apparece rodeado de uma pompa magestosa e respeitavel, e quando passa, todos lhe curvão o joelho; toma os titulos de filho do Ceο, e único Governador do mundo.

Envia o Imperador commissarios secretos para que examinem a conducta dos magistrados; mas os commissarios deixam-se corromper. O que tiver a manifestar alguma queixa ao Imperador, não pode dirigir-lh´a directamente, pois tem que recorrer aos ministros ou aos οfficiaes do palacio. Estreitamente ligadas entre si todas estas personnagens por motivos de interesse, não se dá andamento á demanda, nem nenhum dos litigantes chega a obter justiça. Os que obtem algum emprego, conseguem-no mimoseando os ministros, e procurão depois embolsar-se do que adiantárão. Sabem mui bem illudir as leis que prohibem aos agentes do poder ο aceitar presentes. As ordens do Principe são mal executadas, e frequentemente é illusoria a vigilancia reciproca dos seus mandatarios. Destes, os culpados são ás vezes exonerados e carregados de ferros, confiscando-se-lhes os bens; porém estes castigos, ainda que se annuncião na Gazeta Official de Pekin, não remedeião o mal. O suborno suspende-se momentaneamente; e tem-se visto os mesmos empregados destituidos tornarem outra vez a governar outras provincias, onde se indemnisão das perdas que soffrèrão na sua fortuna.

Demais, succede na China como em outras muitas partes; as leis são boas, disse um missionario; mas seria para desejar que fossem bem executadas. O Conselho ordinario do Imperador compõe-se de Calas, ou ministros. Seis tribunaes ou departamentos estão encarregados da administração do Imperio. Outro departamento occupa-se no que é concernente aos Principes do sangue e familia Imperial.

Os membros dos grandes tribunaes são metade Manchurios e metade Chinezes. Além daquelles seis tribunaes, ha o dos Censores publicos, cujos membros tem, juntamente com os presidentes dos outros, o direito de dirigir representações ao Imperador.

Os Europeos dão ο nome de Mandarins, derivado da palavra Hespanhola mandar, a todos os empregados publicos da China, tanto civis como militares. O seu nome chinez é Konan. Ο filho herda os bens do pai, mas não as suas dignidades. Os descendentes da familia reinante tem a cathegoria de Principes, desfructão rendas, porém não tem poder algum. Todo aquelle que é, ou foi mandarim, é considerado como nobre, o mesmo quando tenha obtido gráos, ou recebido do Imperador um titulo de honra, que se concede até aos antepassados das pessoas a quem o monarca quer honrar; este titulo não se transmitte aos filhos. Os bens distribuem-se por partes iguais. 

Α familia de Confucio é a única que gosa de um titulo de honra, que se transmitte á sua descendencia directa. Ha sete classes de cidadãos: mandarins, militares, letrados, sacerdotes, jornaleiros, lavradores e mercadores. Todos os que recebêrão os gráos academicos, depois de haverem feitο os exames necessarios, podem ser oppositores aos empregos ordinarios; em quanto aos de mais importancia, necessita-se, para consegui-los, talento, credito e serviços. Os mandarins são escolhidos de entre os letrados. 

Ha muitos sacerdotes, que sabem tirar partido da propensão dos Chinezes para a superstição; e estes possuem casas e terras. Ainda que a classe dos lavradores seja a mais protegida do Governo, é ao mesmo tempo a menos rica. Os mercadores são de pouca consideração, e até os que sahem da sua patria são despresados.

Raras vezes um filho exerce o officio ou profissão de seu pai, menos que não o obrigue a necessidade. Apenas um Chinez ajunta algum dinheiro, dedica-se ao commercio; e se consegue fazer-se mais rico, tracta, por meio de presentes, de obter um pequeno mandariato, para gosar com tranquilidade da sua fortuna; porque os agentes do governo julgão que lhes fazem sombra os particulares; que fazem ostentação da sua opulencia. Os comicos e gente libertina são reputados infames, e não são admittidos a exames para serem recebidos mandarins. Os verdugos e carcereiros são mal vistos; mas podem largar o seu officio quando tem com que viver. 

Falla-se aos mandarins de joelhos, menos que se não tenha obtido um cargo que dispense disso. Jámais se apresentão aquelles em publico nos logares da sua jurisdicção, sem irem acompanhados de uma consideravel comitiva, e até formidavel. Ao aproximar-se, devem retirar-se todos, e parar respeitosamente com a cabeça direita e os braços encruzados até que acabe de passar a comitiva. Α dos mandarins consta de muitas pessoas: mas essas são mal pagas e mal sustentadas, e aquelles mesmos tem ordenados diminutos; por isso procurão tirar do povo quanto necessitão para a sua despeza. Ο Governo publicou sabios regulamentos para conter os seus agentes, e faze-los cumprir o seu dever; porém são tão mal observados que, segundo um proverbio Chinez, solta o Imperador tantos lobos e ladrões quantos mandarins cria.

Segundo são os gráos dos mandarins, assim são os seus trages. Um particular não se atreveria a trazer bordaduras de ouro, porque lhes é prohibido faze-lo. O Imperador, seus filhos e Principes de primeira ordem trazem sobre o vestido dragões bordados que se differenceão no numero de suas patas. Os principes do quinto gráo, e todos os mandarins usam do mang, que é uma especie de serpente de quatro patas. As grandes personagens do Imperio e os mandarins distinguem-se no vestido por uma chapa bordada, um cinturão e um botão posto sobre a ponta do gorro, que nos mandarins anda sempre coberto de uma borla encarnada. Um collar é o distinctivo dos grandes mandarins. A pluma de pavão real no gorro é o signal ostensivo da honra que dispensa o Imperador da sua propria mão. 

Μ. de Laplau, official de marinha Franceza, refere na sua viagem á roda do mundo, um rasgo de ousadia de um negociante Inglez, que mostra a insolencia dos mandarins. Este Inglez, chamado repentinamente á Cidade de Macáo, por negocios peremptorios e de summa importancia, vio-se obrigado, seguindo o curso de muitos canaes da China, a tocar n´uma aldêa em que residia um mandarim, que devia rever seus papeis, e perceber certo direito de passagem. O negociante representou que a menor demora podia causar-lhe um grande prejuizo, e o mandarim, sem embargo disso, negava-se a assignar-lhe o passaporte debaixo do pretexto de que estava descançando, e não era tempo. Depois de muitas e inuteis tentativas, irritado o Inglez, salta em terra, entra á força em casa do mandarim, e o encontra tranquilamente estendido sobre um colxão fumando opio. 

O reverendo mandarim, interrompido violentamentamente no seu extasis, levanta-se furioso, e ameaça grosseiramente a quem lhe fazia tão importuna visita; porém um tremendo bofetão o estirou no chão entre os pedaços do seu precioso cachimbo. O Inglez aproveitou-se da confusão e tumulto para tornar a embarcar-se, e continuar a sua viagem, chegando com felicidade ao seu destino, onde com segurança esperou o resultado das perseguições do mandarim. Dirigio-se com effeito uma queixa ao Vice-Rei, que, depois de uma ampla informação, e de ter ouvido e examinado as testemunhas, pedio á feitoria Ingleza que lhe fosse entregue o temerario. Porém tendo-se provado, por novas informações, que ο mandarim fumava opio, e que provavelmente estava embriagado quando se commetteu o delicto, mudou o negocio de aspecto. O mandarim recebeo um certo numero de varadas, e perdeo a sua dignidade. Se a causa não tivesse tido tão favoravel resultado, a viveza do viajante o teria posto no caso de abandonar a China para sempre, ou estar muito tempo encerrado, depois de pagar uma boa mulcta.

O Recreio, jornal das famílias, Tomo III. 1837

Abandono de cadáveres e de moribundos em Macau, séc. XIX

The redoubt of St. Peter, Praia Grande, Macao. 1830. George Chinnery
The redoubt of St. Peter, Praia Grande, Macao. 1830. 
George Chinnery

Occorrencias policiaes de 6 a 13 de Julho de 1872: (...) Appareceram em differentes pontos da cidade 11 cadaveres chinas, sendo 2 de crianças; que foram enterrados, depois de cumpridas as formalidades do costume.

Boletim da provincia de Macau e Timor, 13 de Julho de 1872.

Ofícios do Governador de Macau, António Sérgio de Sousa, para o superintendente da emigração chineza e procurador dos negócios sínicos

Nº 50. Ill.mo sr.- Tendo apparecido no anno ultimo um grande numero de cadaveres abandonados nas ruas d´esta cidade, e podendo attribuir-se que parte d´elles são provenientes dos estabelecimentos de emigração; ordena S. Ex.ª o Governador que v. sª previna os encarregados dos referidos estabelecimentos, de que provando-se, que por negligencia dos seus empregados, sejam abandonados quaesquer emigrantes invalidos, em logar de efectuarem a sua repatriação, como lhes cumpre, será o estabelecimento em que tal facto se der, immediatamente fechado, alem de qualquer procedimento judicial que porventura haja a promover contra aquelles que praticarem similhante acto de deshumanidade. Deus guarde a v. sª. Secretaria do governo de Macau, 16 de Janeiro de 1872. Henrique de Castro, secretario geral

Nº 51. Illmo sr. - Conhecendo-se pela estatistica obituaria do anno findo, terem apparecido um grande numero de cadaveres abandonados nas ruas d´esta cidade, e não podendo attribuir-se este facto senão ao costume dos chinas pobres abandonarem os moribundos; ordena S. Ex.ª o Governador que v. s.ª recommende aos cabeças de ruas, que quando encontrarem cadaveres abandonados, não se limitem só a participar similhante facto á policia, para serem enterrados, mas sim que procedam ás mais minuciosas investigações, a fim de se conhecer por quem foram expostos; fazendo v. s.ª bem publico, que serão castigados aquelles que pratiquem o acto deshumano de abandonar os enfermos, ou de depositar os cadaveres na rua, para se eximirem a enterral-os. Deus guarde a v. s.ª - Secretaria do governo de Macau, 16 de janeiro de 1872. Henrique de Castro, secretario geral

Boletim da Provincia de Macau e Timor de 29 de Janeiro de 1872.

Resposta da Procuratura dos negocios sínicos ao Governador, o Conde de S. Januário (Januário Correia de Almeida)

Nº 249. III.mo sr. - Tenho a honra de passar ás mãos de v. s.ª pedindo se digne fazer presente a S. Ex.ª o Governador o incluso mappa do movimento dos doentes no hospital china provisorio creado por ordem do mesmo Ex.mo Sr. para recolher os doentes encontrados nas ruas em estado de abandono. O hospital começou a receber doentes no meado de junho passado. Parece muito grande a mortalidade, mas ha a attender que todos os doentes recolhidos são desgraçados, a quem a familia abandonou na rua nos paroxismos da morte para poupar as despezas do enterro, ou fumistas d´opio, que reduzidos á ultima miseria cahem extenuados, e muitos para mais se não levantarem. Anteriormente á creação deste hospital eram estes doentes recolhidos em uma barraca de palha, onde lhe faltavam todos os recursos da medicina e até o comer, e d´onde geralmente nenhum sahia vivo. Comparado este estado de cousas com o actual vê-se que o hospital provisorio, com quanto não reuna todas as condições de um bom hospital, tem conseguido arrancar da morte algumas pessoas, que d´outro modo a teriam inevitavel. Para o futuro terei a honra de enviar mensalmente um mappa do movimento dos doentes a essa secretaria. Deus guarde a v. s.ª - Macau, 31 de agosto de 1872. - Ill.mo sr. Henrique de Castro, secretario geral. - Julio Ferreira Pinto Basto, procurador.

Boletim da provincia de Macau e Timor, 7 de Setembro de 1872.

Proclamaçaõ do Imperador da China

Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement de l'Empereur de la Chine, 1770
Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement 
de l'Empereur de la Chine, 1770. 
Biblioteca Nacional de França

Eu Imperador (1), indigno successor de Meu Pay, tenho governado por espaço de 18 annos com toda a diligencia, e sem attender ao Meu proprio commodo. Quando subi ao Trono de Meu Pay já havia Pelinkiáus (2) estes excitavaõ sedições em 4 Provincias do Imperio, e o povo padecia por esta causa calamidades tamanhas, que a minha dor nem me permitte dizelas: para os destruir mandei Generaes, e depois de 8 annos de guerra começaram os rebeldes a submetter-se. Eu esperava, que depois viveria sempre alegre com o meu muito amado povo, e teria um Imperio feliz: mas outra vez se levantaram de repente aos 6 da Lua 9ª (29 Septembro, 1813) os sediciosos Tienlikiaus (3) na Cidade de Hoasien na Provincia de Honan, depois desde a Cidade de Xam-yuam na Provincia de Petecheli até a Cidade Tsaosien na Provincia de Chantong (4) 

Para dissipar esta segunda sediçaõ mandei ao Governador Ven-txuei, que marchasse com suas tropas sem perda de tempo, julgando, que os sediciosos estavaõ mil lis (72 legoas Portuguezas) distantes de Mim: porem de repente aos 15 da mesma Lua (8 de Outubro) o tumulto appareceo ao Meu lado, dentro do Meu mesmo Paço.

Mais de 70 rebeldes Tienlikiaus acometteram uma das portas (5) do Paço, entraram, feriram, mataram alguns soldados, e criados: 14 destes salteadores penetraram em uma das salas mais particulares: porém foram immediatamente prezos, 3 com bandeiras nas maõs subiram acima do muro querendo entrar no Tien Yam-xin (6) porem Meu Filho 2º tomou uma espingarda, e successivamente matou 2, e o Regulo (7) Mien-xê ferio o outro: os mais á vista disto começaram a retirar-se, e assim se restituio a tranquilidade do Paço: o que certamente se deve ao valor de Meu 2º filho. Com tudo fora da Porta Lum-tsum muitos Regulos, e Grandes Mamdarins mandavam e excitavam os soldados fuzileiros a trabalhar com todas as forças em destruir, buscar, e prender os restantes; e isto se executou taõ perfeitamente em dous dias, e uma noite, que nem um só escapou. (8)

O Meu Trono tendo sido estabelecido em Pekin há mais de 170 annos os Meus Grandes Ascendentes dotados de grandes, e solidas virtudes, amaram o seu Povo como filhos, de modo que nem Eu posso por miudo expor suas excelentes qualidades; mas se no meu governo me hé impossivel continuar o amor de meus pays para com o povo: comtudo nunca fui taõ cruel, que o maltratasse. Agora de repente succede este motim, e eu naõ conheço outra cauza senaõ a minha falta de virtude, e meus defeitos, que cada vez augmentaõ; convem por tanto, que eu me reprehenda a Mim mesmo.

Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.

Quanto a mim: Eu sem cessar avizava, e mandava até se cansar Minha lingua, e se me seccarem os labios: que havia eu fazer, quando os empregados naõ ouviaõ minhas vozes, e desprezavaõ seus deveres? Assim succedeo um attentado, que desde as dynastias de Han, Tam, Tsam, e Mim (9) até agora nunca se vio.

Hé verdade que reynando a Dynastia de Mim se deraõ algumas pancadas dentro do Paço: mas que comparaçaõ tem aquelle antigo com o prezente attentado? Fallo verdadeiramente constrangido: Eu somente me examino a mim mesmo para procurar emendar-me, para rectificar o meu coraçaõ, para em cima corresponder a misericordia do Ceo, e embaixo acommodar as queixas do Povo.

Se os empregados querem ser bons, e fieis ao meu serviço; hé necessario que procurem ter um coraçaõ fervorozo para com o Governo; hé precizo que empreguem todas as suas forças, e boa vontade para me admoestar dos meus erros, e mudar os costumes do povo: se porém antes querem o estado de vileza, e desprezo, peço-lhes instantemente; que dimittaõ os seus cargos, e acabem a sua vida civil (10): para que naõ suceda receberem o seu ordenado conservarem o estado de nobreza, e ao mesmo tempo como cadaveres nada fazerem; e augmentaõ ainda mais mais as minhas culpas.

As lagrimas correm pelo pincel abaixo, avizando a todo o povo, para que todos saibaõ.


Observaçaõ. A precedente proclamaçaõ veio na gazeta; unico periodico da China: he ministerial, sahe diariamente em Pekin, e nada diz senaõ do interior do Imperio. Nella vem os Decretos Imperiaes; as partes ou reprezentaçoens dos mandarins; as representaçoens ou moniçoens dos Censores; que podem cada um em seu nome, ou tambem em nome de seus Collegas, e pessoalmente sem que nem o mais poderoso os possa embaraçar, chegar ate ao Imperador com suas censuras sobre o que he ou parece ser mal dirigido no Imperio; e os erros ou prevaricaçoens naõ só dos Vice Reis, e outros mandarins das Provincias; mas até dos maiores mandarins da Corte, e 1º ministros. O tal tribunal ou antes corpo censorio consta de mais de 70 censores dous dos quaes, que saõ grandissimos mandarins, saõ os principais, e immediatos ao Imperador, que neste corpo se reputa como prezidente. Hé este corpo mui temido, e quando algum mandarim, por algum Censor denunciado, tentasse vingança, a todos, e todo corpo teria contra si. O mesmo Imperador os respeita de modo totalmente singular; e já no actual governo succedeo, que tendo um censor representado contra o 1º Ministro, attribuindo-lhe 3 culpas, que depois se acharam calumniosas; neste Imperio onde os castigos saõ taõ faceis, e sem respeitos, no dicto cazo comtudo o Imperador só mandou publicar, que a censura se achára calumniosa, e que sendo delicto o calumniar ainda o mais infimo individuo, muito mais o era a um 1º ministro: porem que para tirar todo pretexto de escusa aos Censores em cumprir seu oficio, se naõ procedia a castigo. Traz tambem a gazeta todos os mandarins de novo feitos, e quando algum destes he elevado a maior gráo, ou privado de um ou mais gráos, que já tivesse, o que succede frequentemente; ou ainda maior castigo; tudo se publica na gazeta com expressaõ dos meritos, ou demeritos, que foraõ motivo. Tambem na gazeta se publicaõ todos os processos criminais; porque ainda o mais infimo, tenha sido condemnado á morte, ou desterro; tudo em detalhe; perguntas do Juiz, respostas do reo, &c. em fim sentença e pena.

Demais disto contem noticias de longevidades: e se o Imperador concedeo pensaõ ou inscriçaõ honorifica no portal de longevidade notavel como as vezes succede: Igualmente se uma mulher teve de um parto 3 crianças; e ter o Imperador mandado, como hé costume, dar-lhe um saco de arros cada mez sufficiente ao sustento de 3 pessoas por 3 annos, ainda que nesse meio tempo moresse alguma criança sem diminuiçaõ se continua.

Naõ obstante hé summa a venalidade dos magistrados, e a escravidaõ do povo. Tem, ao menos na pratica, dous principios injustos, e proprios de gente escrava, mas que pela sua mesma malignidade evitaõ muitos crimes. Um hé do mesmo Imperador á respeito dos empregados, que sempre que houve mao successo, ou estes sejaõ nelle culpados, ou naõ; sempre saõ castigados; fora algum cazo de palpavel evidencia: mas disto mesmo vêm outro naõ pequeno mal; que hé recurso a artificio para iIludir o Imperador; e capeando-se uns a outros lhe vendem por bom, o mào successo: e nas contas que tem a dar, pela maior parte tudo está bem, tudo vai bom: Outro hé dos Ministros sobre o povo; sempre que há crime, ou pretexto para perseguir alguem, fóra do Carcere, e depois no Carcere, se chega a cahir nesse na China inferno; o expremem até a ultima gota, singularmente se hé rico; de sorte que os que temem os crimes, e cair nas garras destes gavioens, saõ os ricos; ao contrario do que succede noutras partes. Nos carceres se daõ tormentos: que ordinariamente hé a arbitrio do Carcereiro agravar, ou aliviar; e na maior parte quanto assim se expreme o infeliz, naõ he crivel que páre só nos carcereiros.

Correio braziliense, ou Armazem literario. V.13, 1814.


(1) Kia Kim he o seu nome desde que subio ao Trono: Cada Imperador toma outro nome como entre nós os Papas, com a diferença, que nunca um Imperador toma nome, que jà tivesse outro Imperador (...).Geralmente na China naõ se toma para uma pessoa nome que seja ou fosse d´outra: demais disto; he costume dos Chinas receberem 3 nomes differentes. O 1º recebem do pay, só os pays, avòs, ou tios, e tambem amos podem chámar com este nome. O 2º recebem do mestre, quando já vaõ a escola: e por este nome saõ chamados pelas pessoas superiores: e com este se assignaõ escrevendo a Superiores. O 3º que he imposto por pay, mestre, ou ainda por outrem aos 15 ou 10 annos serve para com iguaes; por este se assignaõ em escripturas &c. e escrevendo a iguaes, mesmo a inferiores, quando naõ sejaõ seus criados; comtudo em alguns lugares sò usaõ por escripto do 2º nome. Todos estes nomes se compoem de novo para cada pessoa; formaõ-se de letras (cada letra he uma sylaba, uma palavra) e sempre tem bellas significações. O nome de familia, que equivale ao nosso sobre nome ou antes prenome pois que sempre o dizem primeiro, sempre he um só, e de uma só letra. Tambem naõ póde o filho tratar seu pay pelo proprio nome nem no sobrescripto de uma carta; em tal caso ou o designa por titulo de honra se o pay o tem, ou pelas particulares circumstancias de sua habitaçaõ. 
(2) Seita Religiosa, e talvez politica. Tem grande cuidado em occultar seus dogmas; e se tem fins politicos naõ se sabe quaes sejam. Os Sectarios se ocultaõ de sorte que nem os pays sabem, que seus filhos sejam Pelinkiaus. Daqui vem o ter-se dito, que saõ os Framações da China
(3) Seguidores da razaõ celestial, ou Divina. Saõ os mesmos Pelinkiaus com o nome mudado. 
(4) Nenhuã das Cidades aqui nomeadas se vê no mapa: todas saõ cerca de Taiming, e Tsao, e na concurrencia das 3 Provincias de que aqui se falla. 
(5) No original vem porta vedada, havendo outro muro mais exterior onde se pode entrar, e até há ruas de habitaçaõ. Se chamaõ portas vedadas as 4 do muro por onde só entram Mandarins, e soldados de guarda. Ainda que se diga Paço desde o exterior muro; só desde o interior mais verdadeiramente o hé. 
(6) Tien yam-xin hé uma grande sala no meio do Paço, onde o Imperador no seu trono recebe as embaixadas, e em determinados dias dá audiencia aos Mandarins: mas os que saõ inferiores à 3ª ordem já ali naõ entram a naõ serem por motivo especial chamados, ou por algum dos Grandes ali introduzidos. Yam-xin (que quer dizer lugar de descanço ou desafogo) hé o nome proprio daquella principal sala do Paço. Tien convem a todas taes salas, o que tambem há nos Palacios dos Regulos, e nos grandes Pagodes, que constando de varias como capellas, só a principal no meio se diz Tien. 
(7) Regulos se chamaõ os Filhos, netos, e ternetos do Imperador constituindo 4 gráos. Estes precedem em honra a todos por grandes Mandarins, e primeiros Ministros que sejam. (…) Estes Regulos estaõ todos em Pekim, e quasi naõ saõ empregados. 3 saõ presidentes dos 3 tribunais scientificos, ou antes Academias, Matematica, Medicina, e Universidade. Mas pode-se notar, quanto a medicina; que os medicos na China naõ saõ examinados, nem tem alguma especie de doutoramento e o Imperador só pela maior fama de habilidade escolhe alguns em Pekim, que passaõ de 70, estes tem estipendio Imperial; e gráos como de Mandarins de 6ª, 7ª, ou menor ordem; entre elles um da 5ª hé o principal, e isto hé o que chamaõ Tribunal da Medicina, sob Presidencia de um Regulo, que de Medicina nada sabe: quanto a Universidade, naõ ha lentes, nem estudantes: mas uns 200 Doutorados, que melhor se distinguiram nos seus exames; e ficam em Pekim servindo, ou promtos a servir em materias de letras ao Imperador, de quem recebem estipendio; saõ a Universidade; estes saõ os que examinam os que recebem os gráos Doutoraes, que só se fazem de 3 em 3 annos, e entaõ tambem elles saõ examinados, cujo argumento ou ponto hé dado pelo Imperador; e as disertaçoens examinadas por grandes Mandarins (…). Os outros tambem saõ todos mui honrados, e tractados pelos Mandarins á proporçaõ como iguais; mas em ficando Mandarins, suas honras se limitaõ á ordem Mandarinica, que recebeo; tratando como superiores, e sendo tratados como inferiores pelos Mandarins, que os excedem em ordem. Seus estipendios saõ pequenos, mas alem de serem mui considerados saõ preferidos para os Mandarinatos na Corte, onde ha muitos lugares, singularmente nos Tribunais, que saõ muitos, e compostos de muitos Mandarins. Ao Doutoramento sobe-se por 3 gráos obtidos em 3 bons exames. Estes exames consistem em discursos eloquentes por escrito sobre pontos moraes; ou sobre leys; e bem governar os povos. (…) As ordem Mandarianicas saõ 9 (...). Tornando aos Regulos tambem alguns saõ chefes militares em Pekim; onde a tropa, que passa de 180.000 (...). Há demais 4 Reynos, que reconhecem alguma dependencia, quais saõ Cora, Siaõ, Liquoco (Ilhas a L. S. da China) e Tun Kim: com tudo esta jà naõ manda embaixada, nem reconhece superioridade á China.
(8) Parece demasiada exageraçaõ: e se apanharam todos quando muito seriaõ esses 70, que entraram; mas naõ os muitos, que deviaõ estar movendo motim exterior, e para cujo pertendido successo deviaõ ter as 3 bandeiras levadas acima do muro.
(9) 4 Dynasticas Chinas antecedentes á prezente Tartara, que se chama Xim Txáo. Houve outra Tartara dita Yuens, que precedeo a de Mim; e aqui se naõ nomea, talvez por ter sido de pouca duraçaõ, foi só de 90 annos. As Dynasticas do Imperio Chinez tem sido 23, e reynado até agora por 4.170 annos segundo sua historia. 
(10) Vaõ esconder sua vergonhosa baixeza nas paredes de suas cazas: naõ appareçaõ em publico. Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.

O Chim na Exposição Universal de Londres de 1851

Crystal_Palace_from_the_northeast_from_Dickinson's_Comprehensive_Pictures_of_the_Great_Exhibition_of_1851._1854
Palácio de Cristal, exposição universal de Londres, 1851
imagem de Dickinson Brothers

O mandarim Hing-she (...) mandou chamar á sua presença a Kiu-fáo-li-tsa, que significa homem habilidoso de mãos, e lhe falou assim: 
- Chegou-me aos ouvidos, que os povos do Occidente formaram o projecto de reunir os productos de sua industria, n'um ponto de uma cidade, apenas tão povoada como um bairro de Pekin, mas que é não obstante a maior desse cantinho da terra, menor que uma provincia do Imperio da Luz, e que se chama Europa. (...) Quero saber que idéa hei de formar da industria dos barbaros, e por isso te nomeei, Kiu-fáo-li-tsa, pela fama que tens de habilidoso de mãos, para me dares noticia da exposição de Londres. Está prompta uma embarcação; parte, e quanto antes me dá conta do que houveres visto.

Kiu-fáo-li-tsa era o primeiro fabricante de biombos da corte imperial. Desde a primeira dynastia tartara, seus avós, de paes a filhos, pintavam os dragões, as barcas, os cavallos, e os macacos, que adornam as paredes de papel dobradiças (...).
- Que nos importa isso! pensou lá comsigo Kiu-fáo-li-tsa; ha muito conhecemos a impericia desses barbaros; cinco ou seis mil annos primeiro do que elles, inventámos nós a imprensa, a pólvora de algodão, a bússola, a pintura a oleo, os poços artesianos, os carris de ferro. Os nossos avós, continuou Kiu-fáo-li-tsa, encaminhando-se para casa, os nossos avós, vestiram-se de seda e de lã, centenares e centenares de annos antes dos barbaros usarem as suas samarras de pelle de cabra e de carneiro. (...) Aqui me vejo eu na precisão de deixar a minha casinha de campo, e as minhas duas esposinhas (...) para cruzar os mares, e ir sepultar-me nessas cidades europêas, onde as mulheres têem pés como os dos homens (...); onde se me vae estragar o estômago com as comidas europêas. Adeus, ninhos de andorinhas, Adeus, olhos de papagaio, Adeus, barbatanas de tubarão, Adeus, fritadas de lagartas, Adeus, costeletas de cão, Tenho vontade de me lançar aos pés do sublime Hing-she, e pedir-lhe que incumba a outrem esta missão. Alto lá, que o sublime Hing-she, é capaz de me mandar metter na gaiola, se me eu mostrar descontente. Obedeçamos.

O homem habilidoso de mãos recebeu as ordens superiores (...). Foi para casa, fez os seus fardos, abraçou as suas mulheres, e metteu-se a bordo do navio. Dominado pelo espirito de commercio commum a todos os seus compatriotas, Kiu-fáo-li-tsa não se esqueceu de fazer um fardinho, composto de biombos, de leques, e de lanternas, que esperava de vender por bom preço, depois de terem figurado na exposição. (..)

O senhor Sallandrouze, e outros commissarios da exposição, o receberam, como merecia que o recebessem um homem de tão longe vindo, para misturar as suas lanternas na grande festa da industria das nações (taes foram as palavras do commissario inglez no seu speech, que todos os jornaes de Londres transcreveram); deram-lhe um excellente logar para dar ao manifesto os seus leques (...). O homem habilidoso de mãos não ficou deslumbrado com aquelle acolhimento (...). Cingiu-se á missão (...). Observou a exposição por todos os lados; examinou os productos de todos os paizes da Europa; e de tudo fez assento em umas notas, que serviram ao depois para a redacção do seguinte artigo, que appareceu n'um periodico de Pekin, e que foi traduzido por um sugeito muito versado no idioma da china.

Fragmentos do relatório de Kiu-fáo-li-tsa (...). sobre A exposição dos bárbaros em LONDRES.
Excellencia: Estes homens de cabello loiro, são doidos varridos. Sabeis qual é o objecto que mais admiram na sua exposição? nunca o adevinhareis. É um diamante. Dão-lhe o nome de montanha luminosa, porque esta pedra tem um brilho, que não é nada ao pé da mais pequena das minhas lanternas. A gente apinha-se á roda do diamante. Fizeram-lhe uma especie de altar, mesmo no meio da exposição, e é alli adorado por todos os fieis. Tomara eu saber que relação tem um diamante com a industria. Desde o principio do mundo se filtraram duas pingas de agua pelas rochas das montanhas Azues. Uma das gotas enfadava-se de atravessara dura rocha, para cair n'um terreno areento; e um dia pegou em si, e foi-se queixar a Bouddha.
- Em que te posso fazer bem? perguntou o deus.
- Podes transformar-me em rio, lhe respondeu a gota de agua. Ardo em desejos de me estender pelos campos, decorrer por entre as abundosas searas, de saltar do alto das cascatas, passar por baixo de pontes gigantescas, e de açoitar as praias, levantando escarceos até ás nuvens...
- És ambiciosa... E tu, accrescentou Bouddha, faltando á outra gota, e tu que pedes?
- Nada. Dessedento a formiga, refresco o musgo; estou contente.
-Tens bastante paciencia...
Far-se-ha como uma e outra quereis, acudio Bouddha. Abrindo as paredes da rocha á gota impaciente, deixou-a cair de saliencia em saliencia, até um deposito, onde se ouvia o murmurio das aguas, n'uma concavidade do tamanho da palma da mão. A gota viu que se ia afogar; tornou a soccorrer-se a Bouddha.
- Deus, disse ella, Deus Omnipotente! Vou cair n'uma cova, onde morrerei antes de me tornar em rio.
- Os rios são compostos de muitos milhões de gotas de agua, lhe respondeu Bouddha; o castigo que os ambiciosos merecem, é perderem-se no rio da propria ambição.
Bouddha foi no mesmo instante para o cume do Himalaya. A outra gota de agua ia sempre resumando da pedra, para dessedentar a formiga, e refrescar o musgo. Bouddha olhou para ella com enternecimento. 
- Tiveste paciencia, lhe disse, gotinha de agua olvidada e perdida; quero dar-te o premio que á paciencia cabe. E transformou-a em diamante.
Ora eis-aqui está a origem do diamante. Não vejo pois o motivo por que a montanha luminosa apparece na exposição.

O segundo objecto, que attráe a attenção e admiração dos barbaros, é um destes instrumentos musicos, chamados orgãos. Vossa excellencia não faz idéa do prazer, que estes homens do occidente experimentam, quando ouvem o orgão. Quando se abre a Exposição, começa elle a tocar, e não acaba senão quando se fecha a porta. Se os europeus fizessem uso do orgão para metter medo ao sol, e fazer com que elle nos não escondesse a lua, ainda, ainda; porém estão tão atrazados em astromonia, como em tudo, que se não querem capacitar de que a musica evita os eclipses. (...)

Como não têem logica, estes homens occidentaes, não sabem nada o que seja synthese. Eis-aqui a prova. Uma parte da Exposição é toda destinada para os phosphoros. Apparecem de todos os feitios. Não vol-os posso descrever. Depois das estrellas do Céo, e das areias do mar, são os phosphoros as cousas mais numerosas que ha. Pois, de todos os povos que exposeram phosphoros, nem um só foi capaz de fazer um fusil. Modelos não faltam, mas nenhum satisfaz. 

Já que fallámos dos phosphoros, e do fusil, não quero passar em claro pelo charuto, que é causa e objecto dos phosphoros. O charuto figura na Exposição, como producto da industria. O charuto é um pequeno cylindro de tabaco enrolado, que os europeus costumam fumar em maior, ou menor quantidade. Preparado assim, o tabaco apresenta uma infinidade de inconvenientes, cujos principaes são os seguintes: Torna os dentes negros. Esfola as gengivas. Corrompe o halito. Põe mau cheiro no fato. Antes de se costumarem ao charuto, todos semtem enjoos de estomago, que apresentam symptomas de envenenamento. O charuto tem acção no cerebro. Torna a intelligencia preguiçosa. Os sabios, de quem todos fallam, mas que ninguem escuta, attribuem a degeneração physica das raças occidentaes, ao uso do tabaco de rôlo. Ha neste paiz immensa gente, que se não contenta com fumar o tabaco. Pessoas ha que o mastigam. Outras o sorvem pelo nariz. E apesar de tudo, nos censuram, porque engolimos algumas fumaças de opio, purificado pelo fogo.

Um paiz insignificante, e que apenas tem os seus trinta milhões de habitantes, a França, mandou para a Exposição fazendas para vestir mulheres. Parece que a cassa e a tragedia são as especialidades deste povo, que é tido pelo mais futil do universo. (...) O que os francezes mais estimam, são os desenhos com que pintam as suas fazendas. Riem-se dos meus leques, e dos meus biombos; e pensam que sabem imitar melhor a natureza. (...) A arte não serve para imitar. Não se consegue nunca aformosear a natureza; é preciso por tanto afeial-a. De que servem rosas pintadas, quando ha tantas rosas naturaes; de que servem homens e cavallos desenhados, quando a toda a hora se vêem os modelos? Os olhos não gostam do que é verdadeiro. Se queremos pintar creaturas humanas, pássaros, flôres, devemos apresental-os com figuras extravagantes. O espirito humano gosta de caricaturas. A arte consiste no impossivel, e no phantastico. Os melhores operarios de Lyão não são capazes de representar a menor chimera. Como não tratam senão do que é real, a imaginação se lhes ossifica; copiam, mas não inventam. Tanto isto assim é que os proprios francezes, ao menos os que são ricos, e sabem dar valor ao que é bom, não fazem caso das fazendas, que os seus fabricam, e dão rios de dinheiro por aquellas que nós inventámos. (...) 

Noutro paiz pequenissimo, chamado Allemanha, formou-se uma sociedade de homens caridosos, e de bons propositos, que procuram impedir que as nações façam guerra umas a outras. Chama-se esta reunião o Congresso da paz. A Exposição veio substituir o congresso da paz. É este, dizem as pessoas caritativas, o mais certo meio de acabar com a guerra e os seus estragos. No palacio de crystal acham-se mais de trezentos modelos de espingardas, cujo principal merecimento consiste em matar com mais rapidez e certeza. Muitos membros do Congresso da paz fazem parte do jury da Exposição. Na sua qualidade de commissarios, hão-de ser obrigados a classificar, segundo a superioridade respectiva, estes instrumentos de guerra aperfeiçoados; hão-de-os enumerar entre as invenções uteis. Mais outro exemplo da logica destes homens occidentaes.

Parece que os homens não têem aqui outro intento, senão diminuir o tempo e o espaço. Inventaram o vapor. Machinas para imprimir, n'um instante, centenares de jornaes. Machinas para andar, em poucas horas, centenares de leguas. Machinas para fabricar centenares de coisas, de uma vez. Navios, carruagens, officinas, tudo anda por vapor. Andar depressa é o meio de viver pouco. A sapiencia dos nossos antepassados repelliu sempre estes meios de imaginaria perfeição, que elles conheceram muito antes que os barbaros os conhecessem. (...)

Não faltam na Exposição cabelleiras. Os povos deste paiz tornam-se calvos em curta idade; procuram então supprir o cabello fugitivo, e como toda a sua mania e crer que se imite a natureza, inventaram o chinó. (…)
- Meu senhor, disse-me elle, não me dirá o para que lhe serve essa cauda, que lhe nasce no alto da cabeça?
Respondi cortezmente a este seccante:
A experiência fez ver aos nossos maiores, que o homem não desfructa por muito tempo as vantagens exteriores, que a natureza lhe doou; os desvelos que estas vantagens exigem tornam de mais a mais o homem molle, e efeminado. Uma vez que os cabellos nos hão-de deixar, deixemol-os nós primeiro. Eis-aqui a rasão, porque rapamos as cabeças, ficando só uma trança, por onde nos agarre o anjo da morte, quando nos arrebatar ao céu.
O bárbaro poz-se a rir (...). 

De quanto vi na Exposição, só uma coisa me encantou deveras. Vi umas caixinhas tão bonitas, e cheias de uns fructos tão appetitosos, que eram capazes de tentar o próprio deus Boudha. Não me pude conter; metti a mão, tirei, levei á bocca. Oh! que deliciosa coisa! Dirigi-me a um sabio de cabellos loiros: - Que é isto? disse eu. São ameixas doces, disse elle. Quem as faz? disse eu. As damas, disse elle. Que se intende por damas? disse eu. São arvores, que dão assucar, disse elle. E onde se dão essas arvores? disse eu. Em Portugal, disse elle. De tudo isto lavrei auto n'umas folhinhas de madrepérola, em que escrevia lembranças. Perguntei-lhe depois onde ficava o paiz afortunado, onde nasciam coisinhas tão boas. Isso não é nada, respondeu-me elle; se um dia por lá passar, amigo chim, então verá o bom e o bonito!

Por falta de espaço, não transcrevemos mais. Eis-aqui porém o resumo do relatório do homem habilidoso de mãos: (...) Os bárbaros são bárbaros. Tal foi o juizo, que fez sobre a Exposição de Londres (...). Chegado que foi á pátria, poz-se a pintar monstros, macacos, e diabos verdes, como os pintara o avô de seu avô, e como os ha-de pintar seu filho.

O mandarim, intendente das artes e officios, outorgou uma grande recompensa a Kiu-fáo-li-tsa; deu-lhe licença para usar de um botão de cristal. O homem habilidoso de mãos achou que as duas mulheres lhe tinham sido fieis. Antes de partir de Londres, tinha vendido, por bom dinheiro, todos os biombos, leques, e lanternas, ao presidente da sociedade, encarregada de proteger a industria. 

Revista popular; semanario de litteratura e industria. Vol 5, 1852

O bárbaro costume que estraga os pés das mulheres

grupo de chinesas com pés pequenos
11.Nov.1908, álbum de viagens. biblioteca da univ. de Leiden

Ao circular pelas ruas de Pequim senti imediatamente certa curiosidade que faz olhar para o chão todos os estrangeiros. Desejava ver os pés das chinesas. Uma das primeiras reformas da República foi abolir o bárbaro costume que estraga os pés das mulheres para fazê-los extremadamente pequenos. Agora, existe já toda uma geração de adolescentes com os pés intactos, iguais aos das outras mulheres; mas, poucos dias depois da minha chegada, ao circular por Pequim vão-se encontrando damas da burguesia e da aristocracia com as extremidades desfiguradas por tão absurdo costume, muitas delas ainda jovens, de vinte e oito e trinta anos de idade. 

Esta deformação não é de origem antiquíssima como se imagina. Data do século X e não se compreende como se pode generalizar em tão vasto império. Os invasores tártaros tiveram o bom senso de não imitar dito uso dos vencidos e as suas mulheres, nova aristocracia do país, deixaram crescer os seus pés em liberdade, sem serem consideradas por isso menos formosas que as chinesas tradicionais. O mais censurável foi que as mulheres do povo, por imitação, comprimiram igualmente os pés das suas filhas, e milhões de mulheres tiveram que ganhar a sua subsistência com trabalho, apesar de lhes faltar um sólido apoio por causa das suas extremidades deformadas. 

Todos sabem como se processa esta tortura (...). Os dedos dobram-se e atrofiam-se, deixando-os unidos às plantas dos pés, e estes não são, no fim de contas, mais que dois cotos dentro de um calçado que pela sua forma redonda se assemelha a cascos de certos animais. As mulheres que sofrem tal mutilação andam com uma dificuldade que ao observador causa certa angústia a primera vez que as vê. Avançam com igual movimiento que uma pessoa montada em andas; parece que os seus joelhos não podem dobrar-se; balançam dengosamente de uma forma grotesca, semelhante ao andar do pato. E, no entanto, os poetas chineses têm cantado no decurso de séculos este andar torpe, comparando-o com o balançear da flor, com o salgueiro-chorão, etc. 

Apesar da dificuldade que sofrem nos seus movimentos, sempre estão as chinesas dispostas a passear, e o que lamentam é que os seus maridos e pais não lhes concedam mais liberdade. Não é a deformação dos seus pés o que as faz sedentárias, mas a dureza do regime familiar. Todas usam calças de seda azul, muito largas o que dá um aspecto muito cómico e triste ver sair da dita perna das calças, esvoaçante, uma perna magra, só pele e osso, com meia branca, rematada por um casco de cetim negro, presa por ligaduras que fazem de sapato. 

Segundo alguns que pelas suas observações íntimas podem estar bem informados, esta estúpida amputação pedestre endurece a barriga das pernas das mulheres, fazendo-a de uma magreza esquelética, mas, em compensação, engrossa o músculo o resto da perna, uma particularidade plástica que parece estar muito de acordo con a estética chinesa. 

Encontrei nos museus e jardins que foram imperiais muitas destas damas balanceantes e quase sem pés. Riam com certa vaidade ao notar a nossa surpresa e a atenção com que olhávamos as suas extremidades. Exageravam os seus movimentos para que não tivéssemos dúvida alguma sobre a sua agilidade. Faziam toda a espécie de trejeitos e gracinhas, como meninas travessas.

La vuelta al mundo de un novelista (tradução livre) de Vicente Blasco Ibáñez. 1924

Duas especies de casamento na China Imperial


casamento.bmpHa na China duas especies de casamentos. O primeiro chama-se legitimo. Por esta união a mulher é elevada á hierarchia e honras de seu marido; só pode ser repudiada em varios casos, escrupulosamente previstos na lei. O outro chama-se casamento de segunda mão, e não passa de ser a concubinagem legal. N´este a mulher toma o nome de mulher de segunda classe, e está sempre subjeita ás ordens e caprichos da mulher de primeira classe. Comprehender-se-hia quanto será difficil a vida para taes mulheres, cuja felicidade desperta sempre as paixões ciosas das suas rivaes e senhoras, e que o amor do marido não pode sufficientemente proteger. 

A lei china escreve em grossos caracteres que a polygamia é permittida; e comtudo esta disposição legislativa não é verdadeira no rigoroso sentido da palavra. Ali não pode haver duas mulheres de primeira classe; em toda a casa não pode haver mais d´uma senhora suprema, associada á hierarchia e honras do marido, ao passo que pode ter tantas de segunda classe quantas puder sustentar. (…)

As ceremonias do casamento dividem-se em duas partes: esponsaes e casamento. Ninguem ignora a condição das mulheres na China. Sabe-se que passam a vida encerradas nos gyneceos, longe da vista dos homens, que devem ser banidos da presença d´ellas em quanto não casam. É preciso empregar-se pois o meio de mulheres interventoras, e porque se não pode ver a mulher com quem se vae casar, tudo se reporta ao credito da pessoa corretora. Quando um mancebo deseja casar, depois de pedir e obter o consenso dos respectivos paes, encarrega uma corretora de sollicitar o dos parentes da noiva, e quando ella não tem parentes, do prefeito da cidade. A intervenção da autoridade entra no espirito da legislação china. O imperador é ali considerado como o pae e a mãe do seu povo, e por isso a sua autoridade é suppritiva da paterna. Os prefeitos, que são os legaes representantes, exercem em seu nome essa autoridade. 

Alcançado o consentimento, os parentes da rapariga communicam-lhe as propostas, e induzem-na a reflectir seriamente na escolha que pode fazer, porque é principio assentado não constranger uma rapariga a casar. Depois de reflectir na proposta, se annue, deve enviar ao mancebo um bilhete contendo oito caracteres. O mancebo leva este papel ao adivinho, que lança esses caracteres n´um vaso e os vae retirando um a um. Se elles assim retirados dão sentido rasoavel, é preciso continuar logo o casamento, e no caso contrario abster-se d´elle. Estes oito caracteres são extrahidos do Iking, um dos livros sagrados da China; dois relativos ao mez, dois ao dia, dois á hora, e dois aos minutos do nascimento da rapariga. Por outros termos, estes oito caracteres representam na China o mesmo que a certidão de edade entre nós; mas como teem duplo sentido podem prestar-se a outra interpretação.

O adivinho não pode abusar do seu ministerio ao ponto de levar a desordem ao seio das familias; porque a sua missão é de simples traductor. Só o acaso é que faz sair estes caracteres mais n´uma ordem do que em outra. Se desse uma traducção falsa, a verificação era facil, e o tribunal instituido para este fim punil-o-hia com o rigor da lei. O mancebo, saindo de casa do adivinho, se a sorte lhe foi favoravel, envia presentes á desposada. Estes presentes chamam-se heoi-Ii, o que quer dizer presente de noivado. Quando a rapariga os acceita está irrevogavelmente casada, por que ali a acceitação dos presentes significa o sim.

Toda a mulher, diz o codigo, que recusar unir-se ao homem com quem voluntariamente se desposa, será severamente punida e casada por força. Na tarde do dia em que o mancebo enviou os presentes de noivado, é convidado e mais os parentes para um festim pelos parentes da rapariga. Ella não deve assistir. No fim do banquete, chamado dos esponsaes, e que se escolhe um dia reconhecido feliz para a celebração do casamento, porque a superstição dos chinas é tão forte, que nunca se viu exemplo de casamentos contractados durante os dias que se declaram nefastos. Ordinariamente põe-se o intervallo de alguns dias entre os desposorios e o casamento, mas é raro differil-o por muito tempo. Depois, quando chega o dia, o mancebo, montado a cavallo, e bem vestido dirige-se ao domicilio da desposada. Adiante d´elle vae uma cadeirinha coberta com flores e sedas: é a cadeira para receber a desposada, e chama-se a cadeira nupcial. 

Em seguida vem muitos musicos que fazem resoar as fanfarras, e depois segue-se o mancebo, acompanhado de numeroso cortejo de parentes e amigos. A sua chegada, é recebido pelos paes da rapariga, que esperam no limiar da porta, e conversam com elle em quanto a desposada, coberta com um veo, se mette na cadeirinha nupcial. Fecha-se então a cadeira, e entrega-se a chave ao noivo, que assim fica proprietario do que ella encerra. Acontece muitas vezes que durante o trajecto o marido abre a cadeirinha para ver se a correctora o enganou; e se julga que foi illudido despede a cadeirinha com a rapariga para casa dos parentes, e o casamento tica roto. A mulher não tem esta faculdade. 

Depois abala novamente o cortejo, e volta para o domicilio do mancebo, onde se conclue a ceremonia. Chegados a casa apoiam-se, vão comprimentar o pae e a mãe do mancebo, aos quaes promettem amor e obediencia. D´ahi passam á sala dos antepassados, onde a rapariga se prostra humildemente. Vão depois a camara nupcial onde se celebra a ceremonia da taça. Um dos parentes do mancebo oflerece-lhe uma taça cheia de vinho, este chega-a aos labios, e levantando pela primeira vez o veo á noiva, estende-lhe o copo. A rapariga bebe a seu turno, e entrega depois a taça ao noivo, que immediatamente a parte para attestar que ninguem beberá mais pela taça que os uniu. 

Depois, um magnifico banquete põe fim a estas ceremonias.

C. J. Caldeira em A Illustração luso-brazileira, Jornal Universal.Vol.2, 1858

Antonio Jose Telles de Menezes, capitão-mór de Macau

Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790
Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790

Um fim trágico: o casamento, a intriga dos jesuítas e a vingança da mulher

Corria o anno de 1757. A estrella dos jesuitas declinava, mas os reverendos padres da companhia ainda estavam longe de suppor que se preparava para tão breve o seu exterminio, como o grande marquez de Pombal o meditava nos seus profundos calculos politicos. (…). Entre as diversas partes do globo a que estendeu o seu dominio, a companhia tinha em grande conta a Africa meridional; partindo de ambas as costas, caminho do nascente e do poente, os seus missionarios, a principio apostolos e martyres, depois traficantes e enredadores, levaram a influencia da ordem aos desconhecidos sertões d´aquelle continente, e á sombra da humilde cruz da redempção ganharam, a par de alguns triumphos espirituaes, innumeras vantagens mundanas. No lado oriental fundaram elles um convento em Moçambique, a expensas de João Dias Ribeiro; casas conventuaes nas villas de Tete e de Sena, e vigariados nos sitios de Quiliniane, Caya e Luabo, districto de Rios de Cuama. Pingues terrenos constituiam o patrimonio de cada uma d´estas egrejas (…).

O praso ou ilha de Luabo, situado á beira do canal de Moçambique, entre duas boccas do rio Cuama, Sena ou Zambeze, era então possuido por D. Ignez Gracias Cardoso, que o obtivera, por carta de sesmaria, em recompensa dos serviços prestados por seu pae n´aquella colonia africana; e os padres da companhia, que tinham muita influencia sobre o espirito da orphã, tratavam de lhe aconselhar a abstinencia de pensamentos mundanos, sobretudo de casamento, com o fito em empolgarem a posse d´aquelle rico praso, na ausencia de legitimos herdeiros. Porém D. Ignez, respeitadora fiel do vigario jesuita de Sena, o padre Jose de Anchieta, seu director espiritual, apartou-se comtudo da opinião do reverendo n´este ponto de doutrina, e abraçou com todas as forças a idea, que lhe sorria, de consummar o sacramento do matrimonio, com algum esforçado fidalgo portuguez, que, unindo um nome illustre ao de Gracias Cardoso, desse novos heroes aos Rios de Sena, taes como haviam sido os seus antepassados.

Além do praso Luabo, D. Ignez possuia a terra de Inhacoche, nas visinhanças de Sena, e muitas outras n´aquelle fertil valle da Zambezina, com milhares de escravos e colonos; e por consequencia uma importante posição na capitania. A sua alliança era desejada pelas mais nobres familias de Moçambique e dos Rios; mas a orgulhosa donzella despresava todos os pretendentes da colonia, por que nenhum d´elles realisava o ideal de seus sonhos, um mancebo illustre, corajoso, gentil e de nomeada. 

D. Ignez não estava na juventude, nem era dotada de fascinadora belleza; mas, em toda a parte, a sua phiysionomia expressiva lhe attrahiria affeiçoados, e em Rios de Sena podia considerar-se uma creatura angelica, uma formosura excepcional. (...) Seu tio, D. Antonio Taveira, então arcebispo primaz do Oriente, se encarregara, a pedido de D. Ignez, de lhe descobrir um marido digno d´ella, entre os poucos fidalgos que ainda então iam militar á India; porém lançando os olhos pela roda de cavalleiros moços que em 1757 povoavam os palacios de Goa, o velho arcebispo não encontrava um só nas circunstancias indicadas.

A desgraça, todavia, arrastou n´esse anno á capital da India portugueza o infeliz Antonio Jose Telles de Menezes, fidalgo da casa de Villa Pouca, que desde I747 governava a cidade de Macau com o posto de tenente general (...), e que ora se via expulso d´aquella capitania pelo povo, em consequencia das crueldades que commettera, diz um escriptor muito parcial dos macaenses (…); bom ou mau, o ex-capitão geral da cidade do Santo Nome de Deus agradou ao prelado (...) e vendo elle que Antonio Jose Telles nenhum cabedal trazia da China, propoz-lhe a posse da mão e dos bens de sua sobrinha, fazendo-se o casamento por carta de ametade, segundo a ordenação do Reino.

Antonio Jose já não era rapaz; mas tendo vivido dez annos no clima, comparativamente bom de Macau, parecia mais joven de que os reinoes fidalgos que residiam em Goa (…). Vendo-se pobre e perseguido, o filho da casa de Villa Pouca acceitou o consorcio que lhe proporcionava a posse de uma riqueza colossal, e o casamento effectuou-se por procuração da parte de D. Ignez, na capital do já então muito abatido estado da India.

Esta resolução, porém, abalava pelos fundamentos todos os calculos da companhia de Jesus (…), ainda diligenciaram os padres, por diversos meios, não muito christãos, impedir que se effectuasse o casamento; e (…) os seus esforços dirigiram-se a desunir os cônjuges, para evitar que tivessem descendencia.

O padre Manuel Barradas (...) foi (...) enviado, a titulo de visitador, para Sena, partindo em companhia de Antonio Jose de Telles de Menezes (...). Durante o trajecto (…), o ardiloso filho de S. Ignacio de Loyola soube insinuar-se á maravilha no animo do fidalgo, e indispol-o desde logo contra D. Ignez, pintando-lhe com cores aterradoras a vida dissoluta das mulheres de Sena, em geral, e o caracter imperioso, feroz e vingativo de sua esposa, em particular; de sorte que, chegando a Moçambique, já pouca vontade tinha o general de seguir para Quilimane. 

Ao mesmo tempo o padre Jose de Anchieta não perdia occasião de fallar a D. Ignez nas maneiras brutaes e nos habitos de mando absoluto que adquiriam os fidalgos do reino nos governos de ultramar, lamentando que uma senhora costumada ao livre uso das suas acções, se fosse escravisar, entregando a sua pessoa e bens a um pobretão. (…)

Finalmente chegou o dia de se avistarem os esposos, e de receberem as bençãos nupciaes na egreja de Santa Catharina de Sena. Celebrou-se a ceremonia com todo o luzimento, apparecendo D. Ignez litteralmente coberta de diamantes e perolas, engastados em oiro e prata da Mocaranga e da Chicova, e D. Antonio trajando o rico e pittoresco uniforme dos generaes d´aquelle tempo, adornado com o botão de mandarim que recebera do celestial imperador, em paga de algumas baixezas, que é como tambem lá se alcançam as dignidades: á saida, porém, do templo, todos os convidados notaram uma extrema frieza de parte a parte entre os conjuges, mal disfarçada pelas maneiras fidalgas de um Menezes, mas patente nos ademanes grosseiros de uma selvagem dos sertões africanos. (…)

O plano dos jesuitas fora bem concebido (…). O ciume, ou a vaidade, de Antonio Telles, levaram-no a dizer palavras menos cortezes a sua esposa, logo nos primeiros dias do consorcio; e D. Ignez, de genio arrebatado (…), fugiu para a sua terra de Inhacoche, resolvida a vingar-se do marido de uma maneira horrorosa. Sabendo que sua mulher contava muitos parciaes em Sena, incluindo o velho brigadeiro David Marques Pereira, então general dos Rios, retirou-se o pobre Menezes para a ilha do Luabo, cujo praso lhe havia sido doado causa dotis, julgando estar assim mais seguro, entre os colonos da terra e os padres da egreja da Saude.

Despedindo-se de Anchieta, que ia acompanhar no exilio a sua confessada D. Ignez, Manuel Barradas (…) dizia estas palavras (…): «É preciso, a todo o custo, alcançar a posse total do Luabo para a ordem (…), e portanto, encaminhar D. Ignez á pratica de todos os excessos (…)».

D. Ignez pleiteara nos tribunaes de Moçambique a revindicação da posse do desejado praso; mas tanto no juizo ecclesiastico como no civil, obteve o marido sentenças favoraveis; e foi encarregado o sargento-mor das terras de Sena, Cypriano Jose Chorão, de dar definitiva posse do praso do Luabo ao seu legitimo donatario Antonio Jose Telles de Menezes. (…)

O padre Manuel Barradas escreveu logo ao irmão Anchieta, ordenando-lhe que (…) aconselhasse a D. Ignez Gracias todo o genero de violencia, ao que ella facilmente accederia, attento o seu caracter indomavel. (…) D. Ignez fez armar quatro mil escravos, dependentes das terras que possuia em Sena, e confiou a direcção d´esta phalange ao seu criado e secretario intimo Sebastião Antonio de Sousa. Uniu a estes os cafres de outro potentado dos Rios, seu alliado, o senhor Bernardo Caetano de Sá Botelho; e ainda alguns vadios e malfeitores do districto, alistados por Carlos da Cunha, outro parcial da megera (…). Desceu o Zambeze, seguida de uma immensa frota de embarcações miudas, que transportavam o sedicioso exercito. (…) 

D. Ignez recommendava coragem e fidelidade, e promettia largo despejo no saque da sua propria casa, aonde residia Antonio Jose. Quando desciam o rio, já nas proximidades do seu delta, avistaram um cocho que vogava com difficuldade contra a corrente: dirigiram-se a elle, e reconheceram que conduzia o sargento-mor das terras, o mal aventurado Chorão, regressando do Luabo, aonde fora cumprir o seu dever official de metter de posse do praso o legitimo emphiteuta! A ordem de atacar foi dada sem hesitação por D. Ignez, e uma nuvem de flechas caiu immediatamente sobre a embarcação do governo. O sargento-mor resistiu galhardamente, desmentindo o seu appellido de familia. Em quanto teve polvora e balas fusilou os inimigos (…). Conseguiram pois assassinal-o, e a sua cabeça foi collocada em um poste na margem do rio, como padrão de vingança e de despreso pela lei e seus executores! Era apenas o primeiro acto da tragedia! …

Continuando a descer o Cuama, chegou a esquadrilha a Luabo. Antonio Jose vivia ali socegado (...). Avistando, com assombro, a grande frota capitaneada por D. Ignez, o fidalgo mandou reunir os cafres do praso; mas não achou um só que cumprisse a ordem, antes todos correram para a praia a juntar-se á sua senhora, cujos caprichos estavam costumados a respeitar. A chusma desembarcou atroando os ares com gritos espantosos, segundo o uso cafreal; e D. Antonio que se via só, tratou de reunir alguns objectos de mais valor, pensando em salvar-se na residencia sagrada dos seus amigos da companhia de Jesus. Louco! Quando quiz fugir com aquelles valores, já a sua casa era presa das chamas!... Aterrado, abandonou tudo, para correr mais ligeiro, porém uma setta lhe alcançou o braço esquerdo, e com difficuldade pode chegar á vista da capella da Saude. (…) As portas da residencia dos jesuitas estavam fechadas, e das janellas choveu sobre o misero fidalgo outra nuvem de settas. (…) Ensanguentado, sem protecção, sem conselho, Antonio Jose correu para o rio, talvez com o pensamento de dar fim a seus males, suicidando-se; mas a Providencia, ou o acaso, lhe deparou na praia uma pequena almadia, para dentro da qual saltou, e que fez vogar, com toda a força que o perigo lhe ministrou, para longe dos seus assassinos. Aproximava-se a noite, mas o fogo da sua habitação allumiava-lhe o caminho. (…)

Entrou victoriosa nas suas terras de Inhacoche! (…) D. Ignez não desistiu de perseguir o marido (...). O desgraçado desembarcara na terra firme, quando fugiu do Luabo, e passando fomes e sedes, ora embrenhado em selvas povoadas de feras, ora vadeando riachos de perigosa corrente, nua a fronte e exposta por muitos dias aos raios do ardente sol dos tropicos, chegou emfim a Quilimane, roto, descalço, e por tal forma desfigurado que ninguem o reconhecia! Vestido e alimentado de esmolas, o fidalgo da nobre casa de Villa Pouca luctava com as febres do paiz em uma palhota de Quilimane, nutrindo, como unica consolação, a idea de que estava livre das garras de D. Ignez ... mas n´isso mesmo se enganava. A humilde barraca ardeu poucos dias depois de lhe servir de guarida, e foi ainda sua mulher que a mandou incendiar. Assim o declarou Carlos da Cunha, preso e processado por esse crime. (…)

Antonio Jose Telles de Menezes morreu, não consta como nem aonde; mas poucos mezes sobreviveu de certo a este ultimo desgosto, porque logo no principio do anno seguinte appareceu uma doação do praso do Luabo, feita por D. Ignez... e não foi aos jesuitas! (…)

Logo depois dos horriveis successos que temos relatado, chegou á Zambezia um novo general dos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, nomeado pelo governador de Moçambique, e encarregado de activar o processo de rebellião, incendio e mortes perpetradas pelos parciaes de D. Ignez, e de mandar presa para a capital da colonia a protagonista d´este tremendo drama; porém D. Manuel de Almeida tinha genio conciliador. Vendo morrer na miseria o fidalgo portuguez (talvez seu parente), volveu olhos piedosos para a viuva, e nem a physionomia de D. Ignez, nem a sua immensa riqueza lhe desagradaram; portanto escreveu ao governador de Moçambique um officio (que existe no respectivo archivo) dizendo que a pobre senhora era innocente, que fora enganada por maus conselheiros, e … emfim, não a mandou prender! 

D. Ignez morreu tranquilla no seu leito, em Março do seguinte anno, 1758, na villa de Sena, capital do districto dos Rios, deixando, em seu testamento, o praso do Luabo ao muito nobre general dos mesmos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, e o resto da sua colossal riqueza a uma filha de Bernardo Caetano de Sá Botelho (…) talvez amante feliz da heroina ...

F. M. Bordalo em A lllustração luso-brazileira, Jornal Universal. Vol. II, 1858

Em 1747 tomou posse da capitania de Macau, António José Telles de Menezes, o qual tinha um decidido empenho em sacudir o jugo chinez. Tornou varias medidas decisivas e arrojadas contra os mandarins, mas nos conflictos, que houve, nunca encontrou ao seu lado os membros do senado. Estes temiam os mandarins, e tantos enredos urdiram para Gôa, que António José Telles de Menezes foi mandado retirar sob custodia. Deu tristissimos resultados o pusillanime proceder do senado. Os chinas recrudesceram na oppressão; de 1748 a 1750 tornaram effectivas todas as prohibições feitas e augmentaram algumas exigencias.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

30 de Agosto de 1747 - Toma posse do governo e capitania geral de Macau Antonio José Telles de Menezes.

8 de Junho de 1748 - "Em a noite d'este dia, prendeu a ronda dois chinas, que levou ao Monte. O governador (Antonio José Telles de Menezes) os mandou entregar ao procurador, que era André Martins. Deram-lhos os soldados e o alferes tantas pancadas que um cahiu môrto á porta do Manuel Corrêa, e, chegando a casa do procurador, este não quiz receber, nem o vivo, nem o môrto, dizendo que tornassem a leva-l'os para o Monte que elle de manhã iria. Chegados que foram, e dando parte ao governador, mandou elle metter os chinas na mina, e jamais houve noticia de nenhum; -dizem uns que ali mesmo os enterrára a ambos, e outros que os mettêra em jarras e os mandára deitar no mar. Indo o procurador no outro dia, disse-lhe o governador que os chinas tinham desapparecido, e que dissesse ao mandarim, quando elle viesse, que taes chinas não havia, ainda que os chinas da travessa dos Cules tinham visto passar o morto. O procurador ficou n'isto."

Esta noticia vem assim referida na Collecção de varios factos que hão acontecido n´esta cidade de Macau (...).

6 de Novembro de 1748 - Mandara o governador de Macau, Antonio Jose Telles de Menezes, advertir ao juiz, Antonio Pereira Braga, que attendesse ás partes, por quanto se lhe queixavam que elle juiz nem as meras petições queria despachar. Não fez o juiz caso da advertencia, e, como se amiudassem as queixas, o governador o mandou chamar n´ este dia á sua habitação, na fortalesa do Monte, e, tirando-lhe o espadim e a bengala, o maltratatou severamente de pancadas. 

Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos. A. Marques Pereira, 1868