O governador Gabriel Maurício Teixeira


O governador, o seu secretário e todas as poucas vergonhas

Tivemos um convite para um jantar no palácio do governo. (…) O governador estava no cimo das escadas, recebendo os convidados, acompanhado por vários homens. Apresentaram-me a toda a gente. (…) Em casa, trocámos impressões sobre o jantar e e como não tinha fixado o governador, perguntei ao António qual era. 
-Essa é boa! Estiveste toda a noite a falar com ele e perguntas qual era?
governador Gabriel Maurício TeixeiraO governador nunca me perdoo. Estava habituado a que as mulheres se derretessem e eu, publicamente, não lhe ligara. Foi involuntariamente, mas ainda bem que aconteceu, porque depois de o conhecer, nem de vê-lo gostava. 

A Miuska entrou em amizade com uma filha dele, e foi convidada a ir lá lanchar. À chegada, cumprimentou o governador. Mais tarde, estando as crianças sentadas a brincar, ele entrou. Imediatamente os filhos se puseram de pé. O governador saiu e a filha interpelou a Miuska.
- Porque não te levantaste? 
- Não me levantei porque não vi motivo. Já tinha falado ao teu pai.
- E depois? Nós levantamo-nos sempre que ele está.
- Levantam-se porquê?
- É o governador.
(...)

O racionamento de luz foi terrível para quem dependiam da energia eléctrica. Eu cozinhava a electricidade e tive de deixar de fazê-lo. Também tinha um fogão a lenha que tive de pôr de parte. A lenha vinha rio abaixo, em barcos. Os japoneses ocuparam a área e os barqueiros tinham que pagar tributo. (…) Todos os que tentavam escapar sem pagar, eram mortos com uma rajada de metralhadora. Acabou a lenha. Passámos a cozinhar a carvão. As reservas de carvão esgotaram-se, porém. Então apareceu a indústria dum combustível feito de pó de carvão, lama ou barro, nem sei. Aquilo era vendido em bolas que, depois de secas, ardiam e era o que interessava. Apareceram uns fogareiros para tal combustível. (…) O Inverno era rigoroso e tivemos que desistir de ligar os radiadores. Com mais umas camisolas, íamos resistindo. (…)

No entanto, o governador e os seus apaniguados tinham todas as luzes e radiadores ligados. Os portugueses, que já tinham muitas razões de queixa, juntaram mais esta. Em segredo, começaram a reunir-se e a conspirar para o destituir. (…) O governador era um vendido, tal como o seu secretário e o comandante da polícia. Faziam tudo por dinheiro. (…) O governador tinha espiões em todos os serviços, sabia como o detestavam. Assim, soube desta conspiração e prendeu, instaurou processos sem ter provas e não fuzilou porque não era de lei.

Os japoneses não gostavam nem desgostavam dele. Não lhe ligavam, o que o enfurecia. (…) Com o tempo todos se afastaram do governador e só ficou rodeado pelos que eram tão malandros como ele. Para isso contribuíram factos vários, entre eles a protecção escandalosa às malandrices dos amigos, e também o facto de ter seduzido e engravidado uma linda garota, filha dum militar reformado. A pequena, que estava noiva, ficou com o casamento desfeito e uma filha nos braços, devido à lascívia do governador. Ostensivamente, o governador mandava o secretário no carro (era proibido gastar gasolina, para os outros) levar-lhe presentes. Os filhos dele, apesar desta proibição, eram levados ao liceu de carro, assim como a mulher e as mulheres dos amigos, que iam às compras de carro. (...)

Entre os grandes amigalhaços do governador, estava o seu secretário. Cada um encobria o outro. O secretário tinha fama e proveito de aceitar todos os negócios ilícitos que lhe dessem lucro. Um sargento foi abordado por um chinês que para uma negociata qualquer, mas precisava da colaboração do secretário. Ao sargento sorriu a ideia de ganhar uma porção de dinheiro, mas não se queria queimar. Resolveu mandar a filha falar com o secretário, como se o negócio fosse dela. A rapariga era bonita e jovem, ainda menor de idade. O secretário ouviu a proposta. Receberia uma boa quantia, se desse uma licença proibida para a exportação dum produto que não devia sair da colónia. Concordou com a proposta da pequena e, habituado que estava a todas as poucas vergonhas, agarrou-se à moça aos beijos, e dizia «que bom é ter-te nos braços. Deixa-me beijar-te, sabes lá o que é estar casado com um estupor como é a minha mulher», e arrastava-a para o sofá.A rapariga, aflita, vendo que o homem não a largava, disse-lhe que, se ele não parasse, gritava por socorro. Vendo que não conseguia os seus intentos, largou-a, dizendo que era brincadeira, que voltasse no dia seguinte para ultimarem o negócio. Não sabia, porém, que a conversa estava a ser ouvida por funcionários seus. 

No dia seguinte a rapariga voltou, convencida que o pai iria ganhar uns cobres. O capitão recebeu-a muito bem e mandou-a sentar-se. Começou: 
- Então a menina ainda está disposta a dar-me uma quantia para eu entrar num negócio proibido? 
- Pois é, senhor capitão, se o senhor assinar.
O capitão levantou-se, afastou o reposteiro e disse:
- Como os senhores ouviram, esta mulher veio subornar-me. Peço que levantem um auto.

O velhaco, não conseguindo dela o que queria, vingou-se. Mas tudo se sabe nas colónias, e o certo é que a rapariga relatou ao tribunal o comportamento dele com todos os pormenores, incluindo o que ele tinha dito a respeito da própria mulher. A pobre senhora, que na verdade era feia e vesga, ficou com a alcunha de «estupor». (…) O secretário alegou que os beijos «eram de pai», e o governador mandou arquivar o processo. Os funcionários que tinham ouvido a conversa durante o primeiro encontro prestaram depoimento no tribunal. Só o sargento foi responsabilizado, porque a filha era menor. Foi demitido e processado.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016

imagem do Gov. Gabriel Maurício Teixeira
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