Proclamaçaõ do Imperador da China

Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement de l'Empereur de la Chine, 1770
Vue perspective de la grande Ceremonie du Couronnement 
de l'Empereur de la Chine, 1770. 
Biblioteca Nacional de França

Eu Imperador (1), indigno successor de Meu Pay, tenho governado por espaço de 18 annos com toda a diligencia, e sem attender ao Meu proprio commodo. Quando subi ao Trono de Meu Pay já havia Pelinkiáus (2) estes excitavaõ sedições em 4 Provincias do Imperio, e o povo padecia por esta causa calamidades tamanhas, que a minha dor nem me permitte dizelas: para os destruir mandei Generaes, e depois de 8 annos de guerra começaram os rebeldes a submetter-se. Eu esperava, que depois viveria sempre alegre com o meu muito amado povo, e teria um Imperio feliz: mas outra vez se levantaram de repente aos 6 da Lua 9ª (29 Septembro, 1813) os sediciosos Tienlikiaus (3) na Cidade de Hoasien na Provincia de Honan, depois desde a Cidade de Xam-yuam na Provincia de Petecheli até a Cidade Tsaosien na Provincia de Chantong (4) 

Para dissipar esta segunda sediçaõ mandei ao Governador Ven-txuei, que marchasse com suas tropas sem perda de tempo, julgando, que os sediciosos estavaõ mil lis (72 legoas Portuguezas) distantes de Mim: porem de repente aos 15 da mesma Lua (8 de Outubro) o tumulto appareceo ao Meu lado, dentro do Meu mesmo Paço.

Mais de 70 rebeldes Tienlikiaus acometteram uma das portas (5) do Paço, entraram, feriram, mataram alguns soldados, e criados: 14 destes salteadores penetraram em uma das salas mais particulares: porém foram immediatamente prezos, 3 com bandeiras nas maõs subiram acima do muro querendo entrar no Tien Yam-xin (6) porem Meu Filho 2º tomou uma espingarda, e successivamente matou 2, e o Regulo (7) Mien-xê ferio o outro: os mais á vista disto começaram a retirar-se, e assim se restituio a tranquilidade do Paço: o que certamente se deve ao valor de Meu 2º filho. Com tudo fora da Porta Lum-tsum muitos Regulos, e Grandes Mamdarins mandavam e excitavam os soldados fuzileiros a trabalhar com todas as forças em destruir, buscar, e prender os restantes; e isto se executou taõ perfeitamente em dous dias, e uma noite, que nem um só escapou. (8)

O Meu Trono tendo sido estabelecido em Pekin há mais de 170 annos os Meus Grandes Ascendentes dotados de grandes, e solidas virtudes, amaram o seu Povo como filhos, de modo que nem Eu posso por miudo expor suas excelentes qualidades; mas se no meu governo me hé impossivel continuar o amor de meus pays para com o povo: comtudo nunca fui taõ cruel, que o maltratasse. Agora de repente succede este motim, e eu naõ conheço outra cauza senaõ a minha falta de virtude, e meus defeitos, que cada vez augmentaõ; convem por tanto, que eu me reprehenda a Mim mesmo.

Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.

Quanto a mim: Eu sem cessar avizava, e mandava até se cansar Minha lingua, e se me seccarem os labios: que havia eu fazer, quando os empregados naõ ouviaõ minhas vozes, e desprezavaõ seus deveres? Assim succedeo um attentado, que desde as dynastias de Han, Tam, Tsam, e Mim (9) até agora nunca se vio.

Hé verdade que reynando a Dynastia de Mim se deraõ algumas pancadas dentro do Paço: mas que comparaçaõ tem aquelle antigo com o prezente attentado? Fallo verdadeiramente constrangido: Eu somente me examino a mim mesmo para procurar emendar-me, para rectificar o meu coraçaõ, para em cima corresponder a misericordia do Ceo, e embaixo acommodar as queixas do Povo.

Se os empregados querem ser bons, e fieis ao meu serviço; hé necessario que procurem ter um coraçaõ fervorozo para com o Governo; hé precizo que empreguem todas as suas forças, e boa vontade para me admoestar dos meus erros, e mudar os costumes do povo: se porém antes querem o estado de vileza, e desprezo, peço-lhes instantemente; que dimittaõ os seus cargos, e acabem a sua vida civil (10): para que naõ suceda receberem o seu ordenado conservarem o estado de nobreza, e ao mesmo tempo como cadaveres nada fazerem; e augmentaõ ainda mais mais as minhas culpas.

As lagrimas correm pelo pincel abaixo, avizando a todo o povo, para que todos saibaõ.


Observaçaõ. A precedente proclamaçaõ veio na gazeta; unico periodico da China: he ministerial, sahe diariamente em Pekin, e nada diz senaõ do interior do Imperio. Nella vem os Decretos Imperiaes; as partes ou reprezentaçoens dos mandarins; as representaçoens ou moniçoens dos Censores; que podem cada um em seu nome, ou tambem em nome de seus Collegas, e pessoalmente sem que nem o mais poderoso os possa embaraçar, chegar ate ao Imperador com suas censuras sobre o que he ou parece ser mal dirigido no Imperio; e os erros ou prevaricaçoens naõ só dos Vice Reis, e outros mandarins das Provincias; mas até dos maiores mandarins da Corte, e 1º ministros. O tal tribunal ou antes corpo censorio consta de mais de 70 censores dous dos quaes, que saõ grandissimos mandarins, saõ os principais, e immediatos ao Imperador, que neste corpo se reputa como prezidente. Hé este corpo mui temido, e quando algum mandarim, por algum Censor denunciado, tentasse vingança, a todos, e todo corpo teria contra si. O mesmo Imperador os respeita de modo totalmente singular; e já no actual governo succedeo, que tendo um censor representado contra o 1º Ministro, attribuindo-lhe 3 culpas, que depois se acharam calumniosas; neste Imperio onde os castigos saõ taõ faceis, e sem respeitos, no dicto cazo comtudo o Imperador só mandou publicar, que a censura se achára calumniosa, e que sendo delicto o calumniar ainda o mais infimo individuo, muito mais o era a um 1º ministro: porem que para tirar todo pretexto de escusa aos Censores em cumprir seu oficio, se naõ procedia a castigo. Traz tambem a gazeta todos os mandarins de novo feitos, e quando algum destes he elevado a maior gráo, ou privado de um ou mais gráos, que já tivesse, o que succede frequentemente; ou ainda maior castigo; tudo se publica na gazeta com expressaõ dos meritos, ou demeritos, que foraõ motivo. Tambem na gazeta se publicaõ todos os processos criminais; porque ainda o mais infimo, tenha sido condemnado á morte, ou desterro; tudo em detalhe; perguntas do Juiz, respostas do reo, &c. em fim sentença e pena.

Demais disto contem noticias de longevidades: e se o Imperador concedeo pensaõ ou inscriçaõ honorifica no portal de longevidade notavel como as vezes succede: Igualmente se uma mulher teve de um parto 3 crianças; e ter o Imperador mandado, como hé costume, dar-lhe um saco de arros cada mez sufficiente ao sustento de 3 pessoas por 3 annos, ainda que nesse meio tempo moresse alguma criança sem diminuiçaõ se continua.

Naõ obstante hé summa a venalidade dos magistrados, e a escravidaõ do povo. Tem, ao menos na pratica, dous principios injustos, e proprios de gente escrava, mas que pela sua mesma malignidade evitaõ muitos crimes. Um hé do mesmo Imperador á respeito dos empregados, que sempre que houve mao successo, ou estes sejaõ nelle culpados, ou naõ; sempre saõ castigados; fora algum cazo de palpavel evidencia: mas disto mesmo vêm outro naõ pequeno mal; que hé recurso a artificio para iIludir o Imperador; e capeando-se uns a outros lhe vendem por bom, o mào successo: e nas contas que tem a dar, pela maior parte tudo está bem, tudo vai bom: Outro hé dos Ministros sobre o povo; sempre que há crime, ou pretexto para perseguir alguem, fóra do Carcere, e depois no Carcere, se chega a cahir nesse na China inferno; o expremem até a ultima gota, singularmente se hé rico; de sorte que os que temem os crimes, e cair nas garras destes gavioens, saõ os ricos; ao contrario do que succede noutras partes. Nos carceres se daõ tormentos: que ordinariamente hé a arbitrio do Carcereiro agravar, ou aliviar; e na maior parte quanto assim se expreme o infeliz, naõ he crivel que páre só nos carcereiros.

Correio braziliense, ou Armazem literario. V.13, 1814.


(1) Kia Kim he o seu nome desde que subio ao Trono: Cada Imperador toma outro nome como entre nós os Papas, com a diferença, que nunca um Imperador toma nome, que jà tivesse outro Imperador (...).Geralmente na China naõ se toma para uma pessoa nome que seja ou fosse d´outra: demais disto; he costume dos Chinas receberem 3 nomes differentes. O 1º recebem do pay, só os pays, avòs, ou tios, e tambem amos podem chámar com este nome. O 2º recebem do mestre, quando já vaõ a escola: e por este nome saõ chamados pelas pessoas superiores: e com este se assignaõ escrevendo a Superiores. O 3º que he imposto por pay, mestre, ou ainda por outrem aos 15 ou 10 annos serve para com iguaes; por este se assignaõ em escripturas &c. e escrevendo a iguaes, mesmo a inferiores, quando naõ sejaõ seus criados; comtudo em alguns lugares sò usaõ por escripto do 2º nome. Todos estes nomes se compoem de novo para cada pessoa; formaõ-se de letras (cada letra he uma sylaba, uma palavra) e sempre tem bellas significações. O nome de familia, que equivale ao nosso sobre nome ou antes prenome pois que sempre o dizem primeiro, sempre he um só, e de uma só letra. Tambem naõ póde o filho tratar seu pay pelo proprio nome nem no sobrescripto de uma carta; em tal caso ou o designa por titulo de honra se o pay o tem, ou pelas particulares circumstancias de sua habitaçaõ. 
(2) Seita Religiosa, e talvez politica. Tem grande cuidado em occultar seus dogmas; e se tem fins politicos naõ se sabe quaes sejam. Os Sectarios se ocultaõ de sorte que nem os pays sabem, que seus filhos sejam Pelinkiaus. Daqui vem o ter-se dito, que saõ os Framações da China
(3) Seguidores da razaõ celestial, ou Divina. Saõ os mesmos Pelinkiaus com o nome mudado. 
(4) Nenhuã das Cidades aqui nomeadas se vê no mapa: todas saõ cerca de Taiming, e Tsao, e na concurrencia das 3 Provincias de que aqui se falla. 
(5) No original vem porta vedada, havendo outro muro mais exterior onde se pode entrar, e até há ruas de habitaçaõ. Se chamaõ portas vedadas as 4 do muro por onde só entram Mandarins, e soldados de guarda. Ainda que se diga Paço desde o exterior muro; só desde o interior mais verdadeiramente o hé. 
(6) Tien yam-xin hé uma grande sala no meio do Paço, onde o Imperador no seu trono recebe as embaixadas, e em determinados dias dá audiencia aos Mandarins: mas os que saõ inferiores à 3ª ordem já ali naõ entram a naõ serem por motivo especial chamados, ou por algum dos Grandes ali introduzidos. Yam-xin (que quer dizer lugar de descanço ou desafogo) hé o nome proprio daquella principal sala do Paço. Tien convem a todas taes salas, o que tambem há nos Palacios dos Regulos, e nos grandes Pagodes, que constando de varias como capellas, só a principal no meio se diz Tien. 
(7) Regulos se chamaõ os Filhos, netos, e ternetos do Imperador constituindo 4 gráos. Estes precedem em honra a todos por grandes Mandarins, e primeiros Ministros que sejam. (…) Estes Regulos estaõ todos em Pekim, e quasi naõ saõ empregados. 3 saõ presidentes dos 3 tribunais scientificos, ou antes Academias, Matematica, Medicina, e Universidade. Mas pode-se notar, quanto a medicina; que os medicos na China naõ saõ examinados, nem tem alguma especie de doutoramento e o Imperador só pela maior fama de habilidade escolhe alguns em Pekim, que passaõ de 70, estes tem estipendio Imperial; e gráos como de Mandarins de 6ª, 7ª, ou menor ordem; entre elles um da 5ª hé o principal, e isto hé o que chamaõ Tribunal da Medicina, sob Presidencia de um Regulo, que de Medicina nada sabe: quanto a Universidade, naõ ha lentes, nem estudantes: mas uns 200 Doutorados, que melhor se distinguiram nos seus exames; e ficam em Pekim servindo, ou promtos a servir em materias de letras ao Imperador, de quem recebem estipendio; saõ a Universidade; estes saõ os que examinam os que recebem os gráos Doutoraes, que só se fazem de 3 em 3 annos, e entaõ tambem elles saõ examinados, cujo argumento ou ponto hé dado pelo Imperador; e as disertaçoens examinadas por grandes Mandarins (…). Os outros tambem saõ todos mui honrados, e tractados pelos Mandarins á proporçaõ como iguais; mas em ficando Mandarins, suas honras se limitaõ á ordem Mandarinica, que recebeo; tratando como superiores, e sendo tratados como inferiores pelos Mandarins, que os excedem em ordem. Seus estipendios saõ pequenos, mas alem de serem mui considerados saõ preferidos para os Mandarinatos na Corte, onde ha muitos lugares, singularmente nos Tribunais, que saõ muitos, e compostos de muitos Mandarins. Ao Doutoramento sobe-se por 3 gráos obtidos em 3 bons exames. Estes exames consistem em discursos eloquentes por escrito sobre pontos moraes; ou sobre leys; e bem governar os povos. (…) As ordem Mandarianicas saõ 9 (...). Tornando aos Regulos tambem alguns saõ chefes militares em Pekim; onde a tropa, que passa de 180.000 (...). Há demais 4 Reynos, que reconhecem alguma dependencia, quais saõ Cora, Siaõ, Liquoco (Ilhas a L. S. da China) e Tun Kim: com tudo esta jà naõ manda embaixada, nem reconhece superioridade á China.
(8) Parece demasiada exageraçaõ: e se apanharam todos quando muito seriaõ esses 70, que entraram; mas naõ os muitos, que deviaõ estar movendo motim exterior, e para cujo pertendido successo deviaõ ter as 3 bandeiras levadas acima do muro.
(9) 4 Dynasticas Chinas antecedentes á prezente Tartara, que se chama Xim Txáo. Houve outra Tartara dita Yuens, que precedeo a de Mim; e aqui se naõ nomea, talvez por ter sido de pouca duraçaõ, foi só de 90 annos. As Dynasticas do Imperio Chinez tem sido 23, e reynado até agora por 4.170 annos segundo sua historia. 
(10) Vaõ esconder sua vergonhosa baixeza nas paredes de suas cazas: naõ appareçaõ em publico. Ainda que esta calamidade se declarou de repente; comtudo já há muito tempo se fermentava, e a cauza unica desta grande desgraça hé a demasiada condescendencia, e preguiça dos Governadores assim na Corte como fora.
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