O Chim na Exposição Universal de Londres de 1851

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Palácio de Cristal, exposição universal de Londres, 1851
imagem de Dickinson Brothers

O mandarim Hing-she (...) mandou chamar á sua presença a Kiu-fáo-li-tsa, que significa homem habilidoso de mãos, e lhe falou assim: 
- Chegou-me aos ouvidos, que os povos do Occidente formaram o projecto de reunir os productos de sua industria, n'um ponto de uma cidade, apenas tão povoada como um bairro de Pekin, mas que é não obstante a maior desse cantinho da terra, menor que uma provincia do Imperio da Luz, e que se chama Europa. (...) Quero saber que idéa hei de formar da industria dos barbaros, e por isso te nomeei, Kiu-fáo-li-tsa, pela fama que tens de habilidoso de mãos, para me dares noticia da exposição de Londres. Está prompta uma embarcação; parte, e quanto antes me dá conta do que houveres visto.

Kiu-fáo-li-tsa era o primeiro fabricante de biombos da corte imperial. Desde a primeira dynastia tartara, seus avós, de paes a filhos, pintavam os dragões, as barcas, os cavallos, e os macacos, que adornam as paredes de papel dobradiças (...).
- Que nos importa isso! pensou lá comsigo Kiu-fáo-li-tsa; ha muito conhecemos a impericia desses barbaros; cinco ou seis mil annos primeiro do que elles, inventámos nós a imprensa, a pólvora de algodão, a bússola, a pintura a oleo, os poços artesianos, os carris de ferro. Os nossos avós, continuou Kiu-fáo-li-tsa, encaminhando-se para casa, os nossos avós, vestiram-se de seda e de lã, centenares e centenares de annos antes dos barbaros usarem as suas samarras de pelle de cabra e de carneiro. (...) Aqui me vejo eu na precisão de deixar a minha casinha de campo, e as minhas duas esposinhas (...) para cruzar os mares, e ir sepultar-me nessas cidades europêas, onde as mulheres têem pés como os dos homens (...); onde se me vae estragar o estômago com as comidas europêas. Adeus, ninhos de andorinhas, Adeus, olhos de papagaio, Adeus, barbatanas de tubarão, Adeus, fritadas de lagartas, Adeus, costeletas de cão, Tenho vontade de me lançar aos pés do sublime Hing-she, e pedir-lhe que incumba a outrem esta missão. Alto lá, que o sublime Hing-she, é capaz de me mandar metter na gaiola, se me eu mostrar descontente. Obedeçamos.

O homem habilidoso de mãos recebeu as ordens superiores (...). Foi para casa, fez os seus fardos, abraçou as suas mulheres, e metteu-se a bordo do navio. Dominado pelo espirito de commercio commum a todos os seus compatriotas, Kiu-fáo-li-tsa não se esqueceu de fazer um fardinho, composto de biombos, de leques, e de lanternas, que esperava de vender por bom preço, depois de terem figurado na exposição. (..)

O senhor Sallandrouze, e outros commissarios da exposição, o receberam, como merecia que o recebessem um homem de tão longe vindo, para misturar as suas lanternas na grande festa da industria das nações (taes foram as palavras do commissario inglez no seu speech, que todos os jornaes de Londres transcreveram); deram-lhe um excellente logar para dar ao manifesto os seus leques (...). O homem habilidoso de mãos não ficou deslumbrado com aquelle acolhimento (...). Cingiu-se á missão (...). Observou a exposição por todos os lados; examinou os productos de todos os paizes da Europa; e de tudo fez assento em umas notas, que serviram ao depois para a redacção do seguinte artigo, que appareceu n'um periodico de Pekin, e que foi traduzido por um sugeito muito versado no idioma da china.

Fragmentos do relatório de Kiu-fáo-li-tsa (...). sobre A exposição dos bárbaros em LONDRES.
Excellencia: Estes homens de cabello loiro, são doidos varridos. Sabeis qual é o objecto que mais admiram na sua exposição? nunca o adevinhareis. É um diamante. Dão-lhe o nome de montanha luminosa, porque esta pedra tem um brilho, que não é nada ao pé da mais pequena das minhas lanternas. A gente apinha-se á roda do diamante. Fizeram-lhe uma especie de altar, mesmo no meio da exposição, e é alli adorado por todos os fieis. Tomara eu saber que relação tem um diamante com a industria. Desde o principio do mundo se filtraram duas pingas de agua pelas rochas das montanhas Azues. Uma das gotas enfadava-se de atravessara dura rocha, para cair n'um terreno areento; e um dia pegou em si, e foi-se queixar a Bouddha.
- Em que te posso fazer bem? perguntou o deus.
- Podes transformar-me em rio, lhe respondeu a gota de agua. Ardo em desejos de me estender pelos campos, decorrer por entre as abundosas searas, de saltar do alto das cascatas, passar por baixo de pontes gigantescas, e de açoitar as praias, levantando escarceos até ás nuvens...
- És ambiciosa... E tu, accrescentou Bouddha, faltando á outra gota, e tu que pedes?
- Nada. Dessedento a formiga, refresco o musgo; estou contente.
-Tens bastante paciencia...
Far-se-ha como uma e outra quereis, acudio Bouddha. Abrindo as paredes da rocha á gota impaciente, deixou-a cair de saliencia em saliencia, até um deposito, onde se ouvia o murmurio das aguas, n'uma concavidade do tamanho da palma da mão. A gota viu que se ia afogar; tornou a soccorrer-se a Bouddha.
- Deus, disse ella, Deus Omnipotente! Vou cair n'uma cova, onde morrerei antes de me tornar em rio.
- Os rios são compostos de muitos milhões de gotas de agua, lhe respondeu Bouddha; o castigo que os ambiciosos merecem, é perderem-se no rio da propria ambição.
Bouddha foi no mesmo instante para o cume do Himalaya. A outra gota de agua ia sempre resumando da pedra, para dessedentar a formiga, e refrescar o musgo. Bouddha olhou para ella com enternecimento. 
- Tiveste paciencia, lhe disse, gotinha de agua olvidada e perdida; quero dar-te o premio que á paciencia cabe. E transformou-a em diamante.
Ora eis-aqui está a origem do diamante. Não vejo pois o motivo por que a montanha luminosa apparece na exposição.

O segundo objecto, que attráe a attenção e admiração dos barbaros, é um destes instrumentos musicos, chamados orgãos. Vossa excellencia não faz idéa do prazer, que estes homens do occidente experimentam, quando ouvem o orgão. Quando se abre a Exposição, começa elle a tocar, e não acaba senão quando se fecha a porta. Se os europeus fizessem uso do orgão para metter medo ao sol, e fazer com que elle nos não escondesse a lua, ainda, ainda; porém estão tão atrazados em astromonia, como em tudo, que se não querem capacitar de que a musica evita os eclipses. (...)

Como não têem logica, estes homens occidentaes, não sabem nada o que seja synthese. Eis-aqui a prova. Uma parte da Exposição é toda destinada para os phosphoros. Apparecem de todos os feitios. Não vol-os posso descrever. Depois das estrellas do Céo, e das areias do mar, são os phosphoros as cousas mais numerosas que ha. Pois, de todos os povos que exposeram phosphoros, nem um só foi capaz de fazer um fusil. Modelos não faltam, mas nenhum satisfaz. 

Já que fallámos dos phosphoros, e do fusil, não quero passar em claro pelo charuto, que é causa e objecto dos phosphoros. O charuto figura na Exposição, como producto da industria. O charuto é um pequeno cylindro de tabaco enrolado, que os europeus costumam fumar em maior, ou menor quantidade. Preparado assim, o tabaco apresenta uma infinidade de inconvenientes, cujos principaes são os seguintes: Torna os dentes negros. Esfola as gengivas. Corrompe o halito. Põe mau cheiro no fato. Antes de se costumarem ao charuto, todos semtem enjoos de estomago, que apresentam symptomas de envenenamento. O charuto tem acção no cerebro. Torna a intelligencia preguiçosa. Os sabios, de quem todos fallam, mas que ninguem escuta, attribuem a degeneração physica das raças occidentaes, ao uso do tabaco de rôlo. Ha neste paiz immensa gente, que se não contenta com fumar o tabaco. Pessoas ha que o mastigam. Outras o sorvem pelo nariz. E apesar de tudo, nos censuram, porque engolimos algumas fumaças de opio, purificado pelo fogo.

Um paiz insignificante, e que apenas tem os seus trinta milhões de habitantes, a França, mandou para a Exposição fazendas para vestir mulheres. Parece que a cassa e a tragedia são as especialidades deste povo, que é tido pelo mais futil do universo. (...) O que os francezes mais estimam, são os desenhos com que pintam as suas fazendas. Riem-se dos meus leques, e dos meus biombos; e pensam que sabem imitar melhor a natureza. (...) A arte não serve para imitar. Não se consegue nunca aformosear a natureza; é preciso por tanto afeial-a. De que servem rosas pintadas, quando ha tantas rosas naturaes; de que servem homens e cavallos desenhados, quando a toda a hora se vêem os modelos? Os olhos não gostam do que é verdadeiro. Se queremos pintar creaturas humanas, pássaros, flôres, devemos apresental-os com figuras extravagantes. O espirito humano gosta de caricaturas. A arte consiste no impossivel, e no phantastico. Os melhores operarios de Lyão não são capazes de representar a menor chimera. Como não tratam senão do que é real, a imaginação se lhes ossifica; copiam, mas não inventam. Tanto isto assim é que os proprios francezes, ao menos os que são ricos, e sabem dar valor ao que é bom, não fazem caso das fazendas, que os seus fabricam, e dão rios de dinheiro por aquellas que nós inventámos. (...) 

Noutro paiz pequenissimo, chamado Allemanha, formou-se uma sociedade de homens caridosos, e de bons propositos, que procuram impedir que as nações façam guerra umas a outras. Chama-se esta reunião o Congresso da paz. A Exposição veio substituir o congresso da paz. É este, dizem as pessoas caritativas, o mais certo meio de acabar com a guerra e os seus estragos. No palacio de crystal acham-se mais de trezentos modelos de espingardas, cujo principal merecimento consiste em matar com mais rapidez e certeza. Muitos membros do Congresso da paz fazem parte do jury da Exposição. Na sua qualidade de commissarios, hão-de ser obrigados a classificar, segundo a superioridade respectiva, estes instrumentos de guerra aperfeiçoados; hão-de-os enumerar entre as invenções uteis. Mais outro exemplo da logica destes homens occidentaes.

Parece que os homens não têem aqui outro intento, senão diminuir o tempo e o espaço. Inventaram o vapor. Machinas para imprimir, n'um instante, centenares de jornaes. Machinas para andar, em poucas horas, centenares de leguas. Machinas para fabricar centenares de coisas, de uma vez. Navios, carruagens, officinas, tudo anda por vapor. Andar depressa é o meio de viver pouco. A sapiencia dos nossos antepassados repelliu sempre estes meios de imaginaria perfeição, que elles conheceram muito antes que os barbaros os conhecessem. (...)

Não faltam na Exposição cabelleiras. Os povos deste paiz tornam-se calvos em curta idade; procuram então supprir o cabello fugitivo, e como toda a sua mania e crer que se imite a natureza, inventaram o chinó. (…)
- Meu senhor, disse-me elle, não me dirá o para que lhe serve essa cauda, que lhe nasce no alto da cabeça?
Respondi cortezmente a este seccante:
A experiência fez ver aos nossos maiores, que o homem não desfructa por muito tempo as vantagens exteriores, que a natureza lhe doou; os desvelos que estas vantagens exigem tornam de mais a mais o homem molle, e efeminado. Uma vez que os cabellos nos hão-de deixar, deixemol-os nós primeiro. Eis-aqui a rasão, porque rapamos as cabeças, ficando só uma trança, por onde nos agarre o anjo da morte, quando nos arrebatar ao céu.
O bárbaro poz-se a rir (...). 

De quanto vi na Exposição, só uma coisa me encantou deveras. Vi umas caixinhas tão bonitas, e cheias de uns fructos tão appetitosos, que eram capazes de tentar o próprio deus Boudha. Não me pude conter; metti a mão, tirei, levei á bocca. Oh! que deliciosa coisa! Dirigi-me a um sabio de cabellos loiros: - Que é isto? disse eu. São ameixas doces, disse elle. Quem as faz? disse eu. As damas, disse elle. Que se intende por damas? disse eu. São arvores, que dão assucar, disse elle. E onde se dão essas arvores? disse eu. Em Portugal, disse elle. De tudo isto lavrei auto n'umas folhinhas de madrepérola, em que escrevia lembranças. Perguntei-lhe depois onde ficava o paiz afortunado, onde nasciam coisinhas tão boas. Isso não é nada, respondeu-me elle; se um dia por lá passar, amigo chim, então verá o bom e o bonito!

Por falta de espaço, não transcrevemos mais. Eis-aqui porém o resumo do relatório do homem habilidoso de mãos: (...) Os bárbaros são bárbaros. Tal foi o juizo, que fez sobre a Exposição de Londres (...). Chegado que foi á pátria, poz-se a pintar monstros, macacos, e diabos verdes, como os pintara o avô de seu avô, e como os ha-de pintar seu filho.

O mandarim, intendente das artes e officios, outorgou uma grande recompensa a Kiu-fáo-li-tsa; deu-lhe licença para usar de um botão de cristal. O homem habilidoso de mãos achou que as duas mulheres lhe tinham sido fieis. Antes de partir de Londres, tinha vendido, por bom dinheiro, todos os biombos, leques, e lanternas, ao presidente da sociedade, encarregada de proteger a industria. 

Revista popular; semanario de litteratura e industria. Vol 5, 1852
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