O bárbaro costume que estraga os pés das mulheres

grupo de chinesas com pés pequenos
11.Nov.1908, álbum de viagens. biblioteca da univ. de Leiden

Ao circular pelas ruas de Pequim senti imediatamente certa curiosidade que faz olhar para o chão todos os estrangeiros. Desejava ver os pés das chinesas. Uma das primeiras reformas da República foi abolir o bárbaro costume que estraga os pés das mulheres para fazê-los extremadamente pequenos. Agora, existe já toda uma geração de adolescentes com os pés intactos, iguais aos das outras mulheres; mas, poucos dias depois da minha chegada, ao circular por Pequim vão-se encontrando damas da burguesia e da aristocracia com as extremidades desfiguradas por tão absurdo costume, muitas delas ainda jovens, de vinte e oito e trinta anos de idade. 

Esta deformação não é de origem antiquíssima como se imagina. Data do século X e não se compreende como se pode generalizar em tão vasto império. Os invasores tártaros tiveram o bom senso de não imitar dito uso dos vencidos e as suas mulheres, nova aristocracia do país, deixaram crescer os seus pés em liberdade, sem serem consideradas por isso menos formosas que as chinesas tradicionais. O mais censurável foi que as mulheres do povo, por imitação, comprimiram igualmente os pés das suas filhas, e milhões de mulheres tiveram que ganhar a sua subsistência com trabalho, apesar de lhes faltar um sólido apoio por causa das suas extremidades deformadas. 

Todos sabem como se processa esta tortura (...). Os dedos dobram-se e atrofiam-se, deixando-os unidos às plantas dos pés, e estes não são, no fim de contas, mais que dois cotos dentro de um calçado que pela sua forma redonda se assemelha a cascos de certos animais. As mulheres que sofrem tal mutilação andam com uma dificuldade que ao observador causa certa angústia a primera vez que as vê. Avançam com igual movimiento que uma pessoa montada em andas; parece que os seus joelhos não podem dobrar-se; balançam dengosamente de uma forma grotesca, semelhante ao andar do pato. E, no entanto, os poetas chineses têm cantado no decurso de séculos este andar torpe, comparando-o com o balançear da flor, com o salgueiro-chorão, etc. 

Apesar da dificuldade que sofrem nos seus movimentos, sempre estão as chinesas dispostas a passear, e o que lamentam é que os seus maridos e pais não lhes concedam mais liberdade. Não é a deformação dos seus pés o que as faz sedentárias, mas a dureza do regime familiar. Todas usam calças de seda azul, muito largas o que dá um aspecto muito cómico e triste ver sair da dita perna das calças, esvoaçante, uma perna magra, só pele e osso, com meia branca, rematada por um casco de cetim negro, presa por ligaduras que fazem de sapato. 

Segundo alguns que pelas suas observações íntimas podem estar bem informados, esta estúpida amputação pedestre endurece a barriga das pernas das mulheres, fazendo-a de uma magreza esquelética, mas, em compensação, engrossa o músculo o resto da perna, uma particularidade plástica que parece estar muito de acordo con a estética chinesa. 

Encontrei nos museus e jardins que foram imperiais muitas destas damas balanceantes e quase sem pés. Riam com certa vaidade ao notar a nossa surpresa e a atenção com que olhávamos as suas extremidades. Exageravam os seus movimentos para que não tivéssemos dúvida alguma sobre a sua agilidade. Faziam toda a espécie de trejeitos e gracinhas, como meninas travessas.

La vuelta al mundo de un novelista (tradução livre) de Vicente Blasco Ibáñez. 1924
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