Não há estábulos em Macau

japoneses em Macau
Japoneses em Macau
Fundação Jorge Álvares

Vivi factos que não podia contar a ninguém. Factos perigosos, que combinei com o meu marido banir para sempre da nossa memória. Cumprimos o combinado. Nunca mais falámos desses assuntos. Era como se nunca tivessem existido. (…) Foi aquele filme que me fez reviver os factos, numa época em que tive as maiores preocupações, mas em que fui muito feliz também. (…)

Quando o António me perguntou se eu queria ir passar cinco anos a Macau, fiquei radiante. (…) Éramos felizes, mas a tentação do Oriente foi muito forte. Por isso abracei a ideia com alegria (…). Viagens pagas para toda a família, ordenado tentador. Pronto, iríamos para Macau. (…) Nesse tempo não se ia ao Oriente com a facilidade de hoje. Não havia carreiras aéreas, nem barcos portugueses. O Oriente era quase um mistério, que alguns tinham a sorte de desvendar. (…) Teria casa do Estado, mobilada.

A Segunda Guerra Mundial tinha começado. Os mares não eram seguros, muitas áreas estavam minadas, não havia cerimónias em bombardear um navio sobre o qual pendessem suspeitas. Mas nada disso me assustava. Contra os argumentos da família, eu argumentava que éramos neutros e o navio levava bandeiras bem grandes, pintadas no convés superior e nos costados. (…)

O António descobriu na segunda classe uma rapariga macaísta, meio chinesa, acabada de se formar em medicina, a Elsa. A moça sentia-se deslocada entre aquela gente doutra condição social. Era filha de uma das melhores famílias da sua terra, com quem nos demos depois. O pai era conde. (…)

Transbordámos para o barco que nos levaria a Macau (…), onde passei cinco anos de experiências nunca sonhadas, cinco anos de sustos, de aflições, cinco anos que apesar de tudo foram os mais felizes da minha vida. Macau tinha arranha-céus, coisas que não havia em Lisboa, e havia tanta gente. Os chineses não me fizeram impressão. Habituara-me a bordo com os criados. De princípio pareciam-me todos iguais, mas foi só de princípio. 

Tivemos logo o problema do alojamento. Em Lisboa, a Marinha tinha informado que teríamos casa mobilada e equipada. O capitão de porto cessante não estava. Partira para Saigão, sem deixar o apartamento desocupado no edifício da Capitania. Fomos portanto encaminhados para o único hotel português da colónia, o Bela Vista. Estava um tanto decrépito. Era explorado por duas irmãs que iam desistir e ficar apenas com uma casa de chá no centro, as Delícias. (…)

O outro comandante já não estava em funções. Devia retirar os seus pertences. Acordei na madrugada seguinte ao som de bois a mugir. (…) O António foi apresentar-se ao governador e eu, para entreter as crianças, fui visitar o estábulo.
- Qual estábulo?
- O estábulo, ouvi os bois a mugir, de manhã.
- Bois? Aqui não há bois. São as rãs, as rãs-boi.
Eram rãs. O barulho era de bois, de bois, mesmo. Extraordinário.

Eu também estive em Macau durante a guerra de Maria Clementina de Andrade e Silva, 2016
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