Duas especies de casamento na China Imperial


casamento.bmpHa na China duas especies de casamentos. O primeiro chama-se legitimo. Por esta união a mulher é elevada á hierarchia e honras de seu marido; só pode ser repudiada em varios casos, escrupulosamente previstos na lei. O outro chama-se casamento de segunda mão, e não passa de ser a concubinagem legal. N´este a mulher toma o nome de mulher de segunda classe, e está sempre subjeita ás ordens e caprichos da mulher de primeira classe. Comprehender-se-hia quanto será difficil a vida para taes mulheres, cuja felicidade desperta sempre as paixões ciosas das suas rivaes e senhoras, e que o amor do marido não pode sufficientemente proteger. 

A lei china escreve em grossos caracteres que a polygamia é permittida; e comtudo esta disposição legislativa não é verdadeira no rigoroso sentido da palavra. Ali não pode haver duas mulheres de primeira classe; em toda a casa não pode haver mais d´uma senhora suprema, associada á hierarchia e honras do marido, ao passo que pode ter tantas de segunda classe quantas puder sustentar. (…)

As ceremonias do casamento dividem-se em duas partes: esponsaes e casamento. Ninguem ignora a condição das mulheres na China. Sabe-se que passam a vida encerradas nos gyneceos, longe da vista dos homens, que devem ser banidos da presença d´ellas em quanto não casam. É preciso empregar-se pois o meio de mulheres interventoras, e porque se não pode ver a mulher com quem se vae casar, tudo se reporta ao credito da pessoa corretora. Quando um mancebo deseja casar, depois de pedir e obter o consenso dos respectivos paes, encarrega uma corretora de sollicitar o dos parentes da noiva, e quando ella não tem parentes, do prefeito da cidade. A intervenção da autoridade entra no espirito da legislação china. O imperador é ali considerado como o pae e a mãe do seu povo, e por isso a sua autoridade é suppritiva da paterna. Os prefeitos, que são os legaes representantes, exercem em seu nome essa autoridade. 

Alcançado o consentimento, os parentes da rapariga communicam-lhe as propostas, e induzem-na a reflectir seriamente na escolha que pode fazer, porque é principio assentado não constranger uma rapariga a casar. Depois de reflectir na proposta, se annue, deve enviar ao mancebo um bilhete contendo oito caracteres. O mancebo leva este papel ao adivinho, que lança esses caracteres n´um vaso e os vae retirando um a um. Se elles assim retirados dão sentido rasoavel, é preciso continuar logo o casamento, e no caso contrario abster-se d´elle. Estes oito caracteres são extrahidos do Iking, um dos livros sagrados da China; dois relativos ao mez, dois ao dia, dois á hora, e dois aos minutos do nascimento da rapariga. Por outros termos, estes oito caracteres representam na China o mesmo que a certidão de edade entre nós; mas como teem duplo sentido podem prestar-se a outra interpretação.

O adivinho não pode abusar do seu ministerio ao ponto de levar a desordem ao seio das familias; porque a sua missão é de simples traductor. Só o acaso é que faz sair estes caracteres mais n´uma ordem do que em outra. Se desse uma traducção falsa, a verificação era facil, e o tribunal instituido para este fim punil-o-hia com o rigor da lei. O mancebo, saindo de casa do adivinho, se a sorte lhe foi favoravel, envia presentes á desposada. Estes presentes chamam-se heoi-Ii, o que quer dizer presente de noivado. Quando a rapariga os acceita está irrevogavelmente casada, por que ali a acceitação dos presentes significa o sim.

Toda a mulher, diz o codigo, que recusar unir-se ao homem com quem voluntariamente se desposa, será severamente punida e casada por força. Na tarde do dia em que o mancebo enviou os presentes de noivado, é convidado e mais os parentes para um festim pelos parentes da rapariga. Ella não deve assistir. No fim do banquete, chamado dos esponsaes, e que se escolhe um dia reconhecido feliz para a celebração do casamento, porque a superstição dos chinas é tão forte, que nunca se viu exemplo de casamentos contractados durante os dias que se declaram nefastos. Ordinariamente põe-se o intervallo de alguns dias entre os desposorios e o casamento, mas é raro differil-o por muito tempo. Depois, quando chega o dia, o mancebo, montado a cavallo, e bem vestido dirige-se ao domicilio da desposada. Adiante d´elle vae uma cadeirinha coberta com flores e sedas: é a cadeira para receber a desposada, e chama-se a cadeira nupcial. 

Em seguida vem muitos musicos que fazem resoar as fanfarras, e depois segue-se o mancebo, acompanhado de numeroso cortejo de parentes e amigos. A sua chegada, é recebido pelos paes da rapariga, que esperam no limiar da porta, e conversam com elle em quanto a desposada, coberta com um veo, se mette na cadeirinha nupcial. Fecha-se então a cadeira, e entrega-se a chave ao noivo, que assim fica proprietario do que ella encerra. Acontece muitas vezes que durante o trajecto o marido abre a cadeirinha para ver se a correctora o enganou; e se julga que foi illudido despede a cadeirinha com a rapariga para casa dos parentes, e o casamento tica roto. A mulher não tem esta faculdade. 

Depois abala novamente o cortejo, e volta para o domicilio do mancebo, onde se conclue a ceremonia. Chegados a casa apoiam-se, vão comprimentar o pae e a mãe do mancebo, aos quaes promettem amor e obediencia. D´ahi passam á sala dos antepassados, onde a rapariga se prostra humildemente. Vão depois a camara nupcial onde se celebra a ceremonia da taça. Um dos parentes do mancebo oflerece-lhe uma taça cheia de vinho, este chega-a aos labios, e levantando pela primeira vez o veo á noiva, estende-lhe o copo. A rapariga bebe a seu turno, e entrega depois a taça ao noivo, que immediatamente a parte para attestar que ninguem beberá mais pela taça que os uniu. 

Depois, um magnifico banquete põe fim a estas ceremonias.

C. J. Caldeira em A Illustração luso-brazileira, Jornal Universal.Vol.2, 1858
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