Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios

Menino da aristocracia com óculos de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.
Menino da aristocracia com óculos 
de Clarence Eugene Lemunyon. Pequim, 1910.

Algums escriptores tem pintado a China como um povo de sabios, governados por excellentes leis e por magistrados rectos e humanos; porém alguns Europeos, que tem residido muito tempo na China, e outros, que tem atravessado aquelle vasto Imperio em toda a sua longitude, tem visto com muita frequencia que o forte opprime o fraco, e que todos os que tinhão alguma authoridade se servião della para molestar, vexar e atormentar o povo.

O Imperador exerce o poder mais absoluto; pôde derogar as leis, e estabelecer outras novas. O respeito que se lhe tem chega até á adoração; desobedecer-lhe é um crime imperdoavel. Quando se apresenta em publico, o que acontece raras vezes, apparece rodeado de uma pompa magestosa e respeitavel, e quando passa, todos lhe curvão o joelho; toma os titulos de filho do Ceο, e único Governador do mundo.

Envia o Imperador commissarios secretos para que examinem a conducta dos magistrados; mas os commissarios deixam-se corromper. O que tiver a manifestar alguma queixa ao Imperador, não pode dirigir-lh´a directamente, pois tem que recorrer aos ministros ou aos οfficiaes do palacio. Estreitamente ligadas entre si todas estas personnagens por motivos de interesse, não se dá andamento á demanda, nem nenhum dos litigantes chega a obter justiça. Os que obtem algum emprego, conseguem-no mimoseando os ministros, e procurão depois embolsar-se do que adiantárão. Sabem mui bem illudir as leis que prohibem aos agentes do poder ο aceitar presentes. As ordens do Principe são mal executadas, e frequentemente é illusoria a vigilancia reciproca dos seus mandatarios. Destes, os culpados são ás vezes exonerados e carregados de ferros, confiscando-se-lhes os bens; porém estes castigos, ainda que se annuncião na Gazeta Official de Pekin, não remedeião o mal. O suborno suspende-se momentaneamente; e tem-se visto os mesmos empregados destituidos tornarem outra vez a governar outras provincias, onde se indemnisão das perdas que soffrèrão na sua fortuna.

Demais, succede na China como em outras muitas partes; as leis são boas, disse um missionario; mas seria para desejar que fossem bem executadas. O Conselho ordinario do Imperador compõe-se de Calas, ou ministros. Seis tribunaes ou departamentos estão encarregados da administração do Imperio. Outro departamento occupa-se no que é concernente aos Principes do sangue e familia Imperial.

Os membros dos grandes tribunaes são metade Manchurios e metade Chinezes. Além daquelles seis tribunaes, ha o dos Censores publicos, cujos membros tem, juntamente com os presidentes dos outros, o direito de dirigir representações ao Imperador.

Os Europeos dão ο nome de Mandarins, derivado da palavra Hespanhola mandar, a todos os empregados publicos da China, tanto civis como militares. O seu nome chinez é Konan. Ο filho herda os bens do pai, mas não as suas dignidades. Os descendentes da familia reinante tem a cathegoria de Principes, desfructão rendas, porém não tem poder algum. Todo aquelle que é, ou foi mandarim, é considerado como nobre, o mesmo quando tenha obtido gráos, ou recebido do Imperador um titulo de honra, que se concede até aos antepassados das pessoas a quem o monarca quer honrar; este titulo não se transmitte aos filhos. Os bens distribuem-se por partes iguais. 

Α familia de Confucio é a única que gosa de um titulo de honra, que se transmitte á sua descendencia directa. Ha sete classes de cidadãos: mandarins, militares, letrados, sacerdotes, jornaleiros, lavradores e mercadores. Todos os que recebêrão os gráos academicos, depois de haverem feitο os exames necessarios, podem ser oppositores aos empregos ordinarios; em quanto aos de mais importancia, necessita-se, para consegui-los, talento, credito e serviços. Os mandarins são escolhidos de entre os letrados. 

Ha muitos sacerdotes, que sabem tirar partido da propensão dos Chinezes para a superstição; e estes possuem casas e terras. Ainda que a classe dos lavradores seja a mais protegida do Governo, é ao mesmo tempo a menos rica. Os mercadores são de pouca consideração, e até os que sahem da sua patria são despresados.

Raras vezes um filho exerce o officio ou profissão de seu pai, menos que não o obrigue a necessidade. Apenas um Chinez ajunta algum dinheiro, dedica-se ao commercio; e se consegue fazer-se mais rico, tracta, por meio de presentes, de obter um pequeno mandariato, para gosar com tranquilidade da sua fortuna; porque os agentes do governo julgão que lhes fazem sombra os particulares; que fazem ostentação da sua opulencia. Os comicos e gente libertina são reputados infames, e não são admittidos a exames para serem recebidos mandarins. Os verdugos e carcereiros são mal vistos; mas podem largar o seu officio quando tem com que viver. 

Falla-se aos mandarins de joelhos, menos que se não tenha obtido um cargo que dispense disso. Jámais se apresentão aquelles em publico nos logares da sua jurisdicção, sem irem acompanhados de uma consideravel comitiva, e até formidavel. Ao aproximar-se, devem retirar-se todos, e parar respeitosamente com a cabeça direita e os braços encruzados até que acabe de passar a comitiva. Α dos mandarins consta de muitas pessoas: mas essas são mal pagas e mal sustentadas, e aquelles mesmos tem ordenados diminutos; por isso procurão tirar do povo quanto necessitão para a sua despeza. Ο Governo publicou sabios regulamentos para conter os seus agentes, e faze-los cumprir o seu dever; porém são tão mal observados que, segundo um proverbio Chinez, solta o Imperador tantos lobos e ladrões quantos mandarins cria.

Segundo são os gráos dos mandarins, assim são os seus trages. Um particular não se atreveria a trazer bordaduras de ouro, porque lhes é prohibido faze-lo. O Imperador, seus filhos e Principes de primeira ordem trazem sobre o vestido dragões bordados que se differenceão no numero de suas patas. Os principes do quinto gráo, e todos os mandarins usam do mang, que é uma especie de serpente de quatro patas. As grandes personagens do Imperio e os mandarins distinguem-se no vestido por uma chapa bordada, um cinturão e um botão posto sobre a ponta do gorro, que nos mandarins anda sempre coberto de uma borla encarnada. Um collar é o distinctivo dos grandes mandarins. A pluma de pavão real no gorro é o signal ostensivo da honra que dispensa o Imperador da sua propria mão. 

Μ. de Laplau, official de marinha Franceza, refere na sua viagem á roda do mundo, um rasgo de ousadia de um negociante Inglez, que mostra a insolencia dos mandarins. Este Inglez, chamado repentinamente á Cidade de Macáo, por negocios peremptorios e de summa importancia, vio-se obrigado, seguindo o curso de muitos canaes da China, a tocar n´uma aldêa em que residia um mandarim, que devia rever seus papeis, e perceber certo direito de passagem. O negociante representou que a menor demora podia causar-lhe um grande prejuizo, e o mandarim, sem embargo disso, negava-se a assignar-lhe o passaporte debaixo do pretexto de que estava descançando, e não era tempo. Depois de muitas e inuteis tentativas, irritado o Inglez, salta em terra, entra á força em casa do mandarim, e o encontra tranquilamente estendido sobre um colxão fumando opio. 

O reverendo mandarim, interrompido violentamentamente no seu extasis, levanta-se furioso, e ameaça grosseiramente a quem lhe fazia tão importuna visita; porém um tremendo bofetão o estirou no chão entre os pedaços do seu precioso cachimbo. O Inglez aproveitou-se da confusão e tumulto para tornar a embarcar-se, e continuar a sua viagem, chegando com felicidade ao seu destino, onde com segurança esperou o resultado das perseguições do mandarim. Dirigio-se com effeito uma queixa ao Vice-Rei, que, depois de uma ampla informação, e de ter ouvido e examinado as testemunhas, pedio á feitoria Ingleza que lhe fosse entregue o temerario. Porém tendo-se provado, por novas informações, que ο mandarim fumava opio, e que provavelmente estava embriagado quando se commetteu o delicto, mudou o negocio de aspecto. O mandarim recebeo um certo numero de varadas, e perdeo a sua dignidade. Se a causa não tivesse tido tão favoravel resultado, a viveza do viajante o teria posto no caso de abandonar a China para sempre, ou estar muito tempo encerrado, depois de pagar uma boa mulcta.

O Recreio, jornal das famílias, Tomo III. 1837
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