A trança do Mandarim


O MANDARIM Tchi-Kao governava o districto de Siu, um dos mais importantes do imperio chinez. Devia este cargo elevado á habilidade que tinha desenvolvido, como general, na ultima guerra contra os tartaros occidentaes - e ao abdómen. Tchi-Kao nunca tinha perdido uma batalha. (...) Os seus subditos, esses andavam satisfeitissimos com o seu governo. (...) De tempos a tempos, manifestava-se Tchi-Kao aos seus administrados por meio de proclamações em papel de côr, que eram lidas nas praças com signaes do mais profundo respeito. (...). Um dia viram os socegados habitantes de Siu, affixado em todas as portas da cidade, e nas muralhas dos pagodes, um edital vermelho, em estylo menos academico do que o costume, e que pela sua natureza prendia mais fortemente a attenção das turbas. O edital era concebido nestes termos:

...«Tchi-Kao, mandarim de 1ª classe, sempre victorioso, espada do celeste imperio, braço direito do filho do céu (1). A todos os que o presente lerem, tchin tchin (2), e prosperidade durante dez mil annos. Considerando que o cabello é o mais bello ornamento do homem; Considerando que, em contrario ás recommendações formaes do Livro dos Ritos, e ás tradições dos antepassados, a maior parte dos habitantes do districto de Siu, despresam o seu cabello, e não dão á trança nacional o devido desenvolvimento; Considerando que uma negligencia tão culpavel poderia comprometter o patriotismo dos habitantes e deshonrar o districto aos olhos dos outros districtos; Querendo todavia proceder a estas reformas por meios suasorios, como bom pae, e não pelo rigor; ordeno:

1º - Ao habitante do districto de Siu, que ao expirar da terceira lua, se conhecer que possue a trança mais comprida, e o cabello mais luzidio, será concedido comer arroz e beber chá á mesa do general Tchi-Kao, e além disto se lhe darão cem taéis, em recompensa; 2º - O concurso terá logar no pateo do palacio do mandarim. O proprio Tchi-Kao será o juiz. (...) Segunda lua, primeiro dia, dia feliz. Techi-Kao.»

Julgue-se do effeito produzido por este edital. (...) 
- Que excellente mandarim que nós temos! dizia um. - Não ha outro como Tchi-Kao. (...)
- Tchi-Kao é benemerito da patria. 
- E dos barbeiros! Viva Tchi-Kao!

Mas o enthusiasmo não se limitou a palavras. Decidiu-se, por acclamação, que a corporação dos barbeiros se apresentasse naquella mesma noite, levando a respectiva bandeira á frente, e com uma formosa illuminação de lanternas, no palacio do mandarim, para lhe fazer os devidos cumprimentos, e offerecer diversos presentes, e, entre outros, uma grande navalha de cabo de marfim, cuja inscripção consistia na data do immortal decreto. (...) A numerosa corporação (...) rompeu a marcha, precedida das bandeiras, e d'uma orchestra terrivel, horripilante, para um europeu - magestosa, deliciosa mesmo, para ouvidos chinezes. Varias tranças, admiravelmente penteadas e perfumadas, iam atadas com fitas a altissimos bambous, que levavam alçados os principaes barbeiros da cidade. Seguiam-se depois os presentes n'um rico andor com elegante docel de seda, e alumiado de riquissimas lanternas. (...) O valente general preferira que o não incommodassem a simiIhante hora; contudo ordenou que mandassem entrar a deputação, e elle proprio levantou-se, e foi até o vestibulo, com o cachimbo na mão, como quem não estava para muitas demoras. Depois de um largo murmurio de tchin tchin, e de uma pantomima, das mais respeitosas, começou o syndico dos barbeiros a leitura da mensagem. (...)

Tchi-Kao (...) interrompeu a leitura no ponto mais pathetico, e dirigindo-se á deputação, disse, já se sabe em prosa: 
- Meus bons amigos, muito folgo que vos apraza o decreto. O meu secretario me lerá esses versos. Quanto á vossa navalha, acceito-a de bom grado, e se cortar melhor que as minhas, prometto que me hei de servir della. Entretanto, voltae tranquillamente para casa: não vá a vossa alegria perturbar o socêgo publico. (...) A intenção é boa, mas assim perdeis o tempo, que é tão precioso. Ide barbear, meus amigos; haveis de ter muito que fazer; e eu estimo muito.

Depois desta breve alocução, em que o mandarim provou ter mais juizo que eloquencia, retiraram-se os barbeiros, gritando ainda:
- Viva Tchi-Kao, o victorioso!

O general, esse, tornou a accender o cachimbo, que por mais infelicidade se apagara, e voltou para os seus aposentos (...).

Logo no dia seguinte áquelle em que se affixára o edital, cada um tratou de se habilitar a ganhar o premio dos cem taéis. (...) As lojas dos barbeiros estavam sempre atulhadas. Fazia-se empenho para apanhar os primeiros logares; nas ruas onde os havia era um concurso numeroso; os barbeiros não tinham mãos a medir: e olhem que cada vez havia maior numero d´elles, porque o officio tornára-se dos melhores (...). Mas a navalha só não bastara; eram necessarias essencias, pomadas, unguentos, para apressar o crescimento dos cabellos, e dar-lhe grande lustro. Appareceram então pelas esquinas cartazes grandes, pequenos, encarnados, pretos, azues, ornados de vinhetas, etc, annunciando a descoberta e as maravilhosas virtudes d'uma nova pomada (...).

Tchi-Kao, recolhido no seu palacio, pouco lhe importava o movimento que ia por todo o districto; de vez em quando traziam-lhe os mandarins inferiores os cartazes mais recentes, e elle ria a bom rir, quando os lia. (...)

É pois necessario que eu revele o segredo. O general, bem mau grado meu o digo - era calvo! (...) Namorára-se o general d'uma menina de boa familia, que residia n'um districto muito arredado, e com quem desejava casar. O prestigio das suas gloriosas campanhas, a sua dignidade de mandarim, o seu ventre respeitavel, permittiam-lhe apresentar-se vantajosamente aos paes da tal menina. Todavia imaginava elle, que o seu triumpho seria ainda mais completo, se a tantas qualidades eminentes reunisse o merito d'uma trança irreprehensivel. Chang correra todas as lojas de cabeleireiros; mas não encontrara cousa que lhe parecesse digna do general. A final, Tchi-Kao, desesperado, pensou: Para que hei de eu estafar o pobre Chang, e mortificar-me tanto. Quero possuir, antes de quatro mezes, o mais bello cabello do meu districto. E hei de conseguil-o. Em resultado appareceu o celebre decreto. (...)

No dia fixado, apresentou-se a multidão no pateo do palacio em que morava o mandarim. As tranças desenrolam-se e caem pelas costas dos numerosos concorrentes. (...) Então Tchi-Kao desceu gravemente as escadas do seu palacio, e tractou de começar a revista, seguido pelo secretario A-Tchi, e por Chang. O seu porte era verdadeiramente digno da occasião – resplandecente de justiça e de bondade! Era um juiz que ia lavrar uma sentença! Tchi-Kao mandou alinhar a sua gente, depois aproximando-se do grupo procedeu lentamente ao respectivo, minucioso exame. (...)

Os vencidos retiravam-se soltando gritos de desespero; tambem quanto tempo, quantas pomadas perdidas! (...)
- Então está decidido, exclamou o mandarim: 
- Á da esquerda os cem taéis! A-Tchi tomae-lhe o nome, e convidae-o a jantar esta tarde comigo, em cumprimento do que se disse no decreto.

A hora do costume o vencedor no concurso das tranças foi introduzido na sala de jantar do mandarim. Era um fabricante de queijos, que se chamava Ta-Tong, individuo muito pouco conhecido na cidade de Siu, mas cujo nome andava na bôcca de todos desde aquella manhã. A mesa de Tchi-Kao era sumptuosamente servida. Não faltava alli nenhum dos petiscos tão apetecidos dos chinezes, até os celebrados ninhos de andorinhas, gelados, cremes, doces. De espaço a espaço enchiam os criados os copos de sam-chou. A timidez de Ta-Tong em breve desappareceu na presença das boas maneiras do general, que não se cançava de referir as suas campanhas e as suas famosas victorias. Pela sua parte o fabricante de queijos comia e bebia como quem nunca passara do vulgarissimo arroz e agua. Quando terminou o jantar Tchi-Kao mandou entrar o cidadão queijeiro n'um gabinetesinho em que se encontrava já prompto o chá, e os cachimbos carregados; depois despediu os criados e fechou-se. Depois de fumar um pedaço, o mandarim abriu um armario, donde tirou mysteriosamente duas bandejas de charão dourado, em que estavam varios utensilios, que fizeram estremecer Ta-Tong: - eram cachimbos para opio.
- Usaes d'isto? disse-lhe Tchi-Kao.
- Por meus avós, respondeu Ta-Tong, todo tremulo, eu sempre fui respeitador das leis, e por consequencia nunca os meus labios tocaram similhante cousa.
- Pois bem, haveis de tomar agora uma fumaça.
- Excellencia, vós quereis deitar-me a perder! O opio é prohibido debaixo das mais severas penas, e se o filho do céu soubesse…
- Bom Ta-Tong, acudiu o general, aprecio os vossos escrupulos; mas ainda aprecio mais o opio. Ora pois, amigo, tomae o vosso cachimbo.

Ta-Tong recebeu-o da mão do general, e começou a fumar. Dalli a pouco começavam pelos effeitos daquelle poderoso narcotico. (...) Tchi-Kao, levantando as mãos ao céu, exclamou no enthusiasmo de mal soffrida alegria: 
- Finalmente! é minha! é minha!
E ao mesmo tempo, tirando da algibeira uma thesoura, cortou, ainda que com bastante difficuldade, a trança do desgraçado Ta-Tong, que sonhava naquella occasião com o seu triumpho. (...)

O mandarim chamou o seu fiel Chang, confessou-lhe tudo, o pensamento que inspirara o decreto, a nuca deshonrada de Ta-Tong; e disse-lhe:
- Afreta um junco; leva esse pobre homem para cem leguas d'aqui; dá-lhe cem taéis, mil taéis, quantos elle quizer, com a condição de que não ha de pôr mais os pés no districto de Siu. Não percas tempo - conto comtigo. Vae e volta o mais breve que poderes. Hei de ser-te grato. Farei com que saias mandarim!

Chang não disse uma palavra. Agarrou n'umas poucas de barrinhas de ouro, que lhe dera Tchi-Kao para pagar as despezas da viagem, e comprar o silencio de Ta-Tong, foi fazer todos os preparativos necessarios, e nessa mesma noite partiu. (...)

No dia seguinte ao do concurso, em quanto o povo, reunido na praça de pagode, maldizia o seu mandarim, e que os agitadores (...) preparavam quasi uma revolta, sae subitamente d'uma rua visinha, que ia ter ao rio, um homem a gritar, e levando muitas vezes a mão a um penachinho de cabello que, de indignação, se lhe erguia na cabeça. Cercou-o immediatamente a multidão, e elle referiu com ar de muito commovido o seu triumpho da vespera, o seu jantar com o mandarim e a indignissima emboscada em que caíra a sua trança. «Vingança, bradou elle, vingança contra o infame Tchi-Káo!»

Aos agitadores só faltava um pretexto plausivel (...), foram arrastando o povo para o palacio do mandarim. (...) O povo entrou tumultuariamente no pateo, arrombou as portas, desarmou as sentinellas, espalhou-se pelo palacio, e penetrou até aos aposentos do mandarim. Este, alterado, de tanto barulho, ainda tentou uma retirada (...), mas (...) foi descuberto e preso pela gentalha furiosa, capitaneada por Ta-Tong, que era o mais assanhado de todos. Ta-Tong dirigiu-se então ao gabinete em que se consumara o crime, abriu o armario do opio, onde teve a fortuna de encontrar a sua trança. Do palacio espalhou-se o tumulto por toda a cidade, e desta por todo o districto. Foi necessario que o mandarim do districto proximo, prevenido a pressa, marchasse para Siu, a fim de restabelecer a ordem publica, e instaurar o processo regular contra o seu antigo collega, accusado de ter cortado a trança do chinez Ta-Tong, e de usar do opio. 

Quinze dias depois comparecia Tchi-Káo no tribunal superior de Pekin. (...) Ao lado de Tchi-Káo estava A-Tchi, seu antigo secretario, e agora seu advogado. Na frente, no banco dos accusadores, Ta-Tong, e varios habitantes do districto de Siu. Aquelle trazia comsigo as peças de accusação, a trança que lhe fora tão cruelmente roubada, e a thesoura instrumento do crime. (...)

Pronunciou-se o julgamento. Tchi-Káo, declarado criminoso, foi condemnado a degradação immediata, e perda de todos os seus empregos. Por uma segunda sentença, cousa que ninguem esperava, Ta-Tong, convencido de se haver embriagado com o opio, foi condemnado ao confisco da sua trança, e a ser calvo perpetuamente. Já não lhe restava senão fazer-se bonzo! Alguns más linguas disseram que o presidente do tribunal, condemnado pela natureza ao uso d'uma trança postiça, não podéra resistir ao desejo de confiscar em seu proveito a trança do infeliz Ta-Tong. 

Revista popular; semanario de litteratura e industria. Vol.s 1 e 2, 1849-50


(1) Nome que se costuma dar ao imperador da China. 
(2) Espécie de cumprimento
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