Chang-Li-Po em Lisboa

desenho de Abí-lio Mattos e Silva, sec XX, Museu Dr. Joaquim MansoNada ha que mais me embarace do que servir de cicerone a um estrangeiro de passagem em Lisboa. Nós, portuguezes, somos d´uma grande susceptibilidade patriotica. São nos cansamos, é verdade, de dizer mal das nossas coisas e da nossa gente; mas fazemol-o uns com os outros, cá em casa, em familia. Perante um estrangeiro, por mais que nos attribulem intimamente as deficiencias reconhecidas da nossa terra, mostramo-nos impavidamente optimistas, e não cessamos de espiar o momento em que da sua bocca se escape o indicio d´uma opinião irreverente para acudirmos logo: «Não é tanto assim...» e passamos a revolver na nossa memoria, atirando-lh´os á cara, todos os escandalos, os crimes, os ridiculos e os erros que a imprensa se tenha lembrado de referir a proposito da sua patria.

Na realidade, porém, Lisboa é uma cidade incaracteristica.

Paris tem o seu caracter. Desde o bulicio cosmopolita dos ‘boulevards’ até ao esmero architectonico das suas construcções, ao gosto e elegancia dos seus theatros, dos seus restaurantes e cafés, dos seus estabelecimentos, Paris é a capital do espirito e da arte. Londres na mancha sombria dos seus edificios sobrios e negros, na floresta ennevoada das suas chaminés, é o commercio, a industria, o ‘struggle for life.’ Berlim asseada, nova, rica, monumental, é a ordem, a disciplina, a harmonia. Lisboa no amontoado irregular das suas construcções, com as ruas mouriscas dos seus bairros antigos, no aspecto incolor da sua multidão a que só os carros eléctricos, as saias «entravées» e os luctadores do Coliseu dão, de passagem, uma nota estranha, Lisboa como capital, desde o piso primitivo e tosco das suas calçadas até á frontaria escorrida dos seus predios, póde perfeitamente comparar-se a qualquer villa estremenha - sem desdouro para a villa.

Por isso eu tremo sempre que as circumstancias me forçam a pôr um estrangeiro em contacto com ella. Mas ha tempos recebo uma carta de um amigo meu de Londres recommendando aos meus cuidados Chang-Li-Po, mandarim conta de crystal que partia para Lisboa em missão d’estudo.

Confesso que d’esta vez a tarefa me seduziu. Um chinez! … De mais a mais um mandarim, verdadeiro, authentico..., de rabicho e olhos de amendoa... ! Que aspectos novos de Lisboa e do nosso paiz não iri eu colher atravez do espirito perspicaz do chinez?

Chang-Li-Po não é um chinez vulgar. Ornado da penna de pavão, prova do seu merito, indigitado membro do Neiko, alto conselho politico do Celeste Imperio, Chang-Li-Po é um espirito culto, homem viajado, conhecedor da civilisação occidental que ha annos estuda na Europa e na America, desde que a China resolveu finalmente rejuvenescer a sua velha civilisação.

Esteve o homem ahi umas semanas, e já eu não pensava n´elIe quando um d´estes dias o correio me traz uma carta sua e juntamente um jornal com algumas passagens sublinhadas a lapis azul. Dizia-me Chang-Li-Po que fôra entrevistado por um jornalista estrangeiro, e como naturalmente eu tinha curiosidade de conhecer algumas das suas impressões do nosso paiz, m´andava no jornal que na mesma occasião deitava no correio.

Ardendo em curiosidade rasguei a cinta do jornal, desdobreio-o sobre uma mesa, e eis o que eu li:
- Gostou então muito de Portugal?
- Oh! sem duvida... Portugal é um paiz bello, encantador...
- Que foi que o impressionou mais?
- O que mais me impressionou foi aquelle preceito religioso - supponho que é um preceito religioso - que impede os sexos de se misturarem, pelo menos nos logares publicos.
- Como assim?!
Sim, as mulheres não podem andar por onde quizerem, mas os homens não; os homens são obrigados a andar sempre atraz das mulheres. E isto deve ser uma imposição da religião d´elles porque vi que cumpriam este dever religiosamente.
É curioso! Mas isso deve causar embaraços na vida social…
- Não sei, não tive tempo de o averiguar, mas uma vez observei até um caso muito interessante. Por uma das ruas da cidade subia apressadamente um cavalheiro, typo de homem de negocios, correctamente vestido de sobrecasaca e chapeu alto, levando debaixo do braço uma pasta cheia de papeis. Via-se bem pelas suas feições que o homem ia com pressa e preoccupado... Quem sabe? Talvez um negocio importante a concluir, uma decisão seria a tomar... Na sua frente vinha uma dama elegante, formosa, como vi depois. Mas imagine que fatalidade! Esta parou na vitrine d´uma loja de modas a vêr uns chapeus! Pois foi o suficiente para o cavalheiro apressado parar tambem, observál-a com curiosidade e começar a gritar: «Ai que linda... que linda… mas que linda mulher!» Parece que estas são as palavras que o ritual indica para estes casos. E depois, coitado, lá continuou - fiel ao dever - atraz d´ella, em passo de cortejo, parando quando ella parava, andando quando ella andava, com os olhos insistentemente fixos n´ella - suppondo que a pedir licença para ir tratar dos seus negocios, o que não vi que acontecesse.
- Mas talvez isso se faça por amor …
- Ah! Não … por amor não … O amor é prohibido em Portugal.
- É estranho!...
Que, na verdade, ninguem m´o disse, mas conclue-se. Comprehende que se isso não fosse prohibido os portuguezes não tinham necessidade de o occultar. Ora o portuguez que ama occulta-se. É um crime punido com as mais severas penas; em geral é o desterro para o Brazil ou para a Africa.
Não se casa então?
Isso é outra coisa... Casamentos ha. Quando elle ou ella são ricos fazem-se então uns contractos em que duas pessoas de sexo diferente se ligam para constituir uma firma commercial. Mas a despeito d´isto tudo, ha uns incorriveis que persistem em amar. Esses incorrigiveis fundaram uma corporação chamada dos «guarda-nocturnos», para servirem de seus cumplices. São estes agentes que lhes facilitam as myteriosas emprezas nocturnas, - porque, como todos os criminosos, tambem estes preferem as trevas da noite para as suas proezas. Quando podem correspondem-se com as suas amadas por cartas que os guardas-nocturnos fazem chegar ao seu destino, outras vezes é por annnncios em cifra nos jornaes. 
Ha então muitos jornaes? 
Ha; ha muitissimos.
Lê-se bastante...
- Não, ninguem sabe lêr...
- Mas então esses jornaes …
- Esses jornaes teem muitos assignantes. Ser assignante d´um jornal é conquistar o direito d´elle dizer quando se chega, quando se parte, quando se faz annos, e acima de tudo ser tratado nas suas columnas por «o nosso amigo». Como sabe, isto é o mais elevado titulo a que póde aspirar um portuguez.
Mas há-de haver outros titulos ...
Sim, ha. Ha, por exemplo, o de Marquez de Pombal, que pertence só aos grandes estadistas; é a consagração final de todos os politicos, e dá direito a expulsar os jesuitas, a ter o projecto d´uma estatua, e o nome n´uma praça publica.
Ha agricultura?
Ha; o sol, a terra, o clima que se encarregam d´isso, espontaneamente.
E industrias? Qual é a mais florescente?
A industria mais florescente é a do papel. Toda a gente faz o seu papel. Ouve-se frequentemente dizer: «A... faz um lindo papel! B… faz um rico papel…», mas o melhor é ainda o das fabricas. Em geral cada um faz o seu papel.
Mas em que se gasta tanto papel?
Em «cartas d´empenho».
O que é isso de cartas de empenho?
É um documento que é preciso apresentar sempre que qualquer individuo tem de entrar em relações com a administração publica. Chama-se «carta» em homenagem á constituição do Estado, a «Carta»; de «empenho» porque traduz sempre o empenho que tem o seu portador em servir desinteressadamente o Estado.

N´esta altura não resisti mais... Peguei no jornal, atirei-o pela janella fóra e resolvi definitivamente nunca mais servir de cicerone a chinezes.

João A. Pestana de Vasconcellos em Do Rocio ao Chiado: visões e fantasias. 1912

desenho de Abílio Mattos e Silva, sec XX. Museu Dr. Joaquim Manso
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