Antonio Jose Telles de Menezes, capitão-mór de Macau

Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790
Vista da cidade de Macau, T.S. Parry. 1790

Um fim trágico: o casamento, a intriga dos jesuítas e a vingança da mulher

Corria o anno de 1757. A estrella dos jesuitas declinava, mas os reverendos padres da companhia ainda estavam longe de suppor que se preparava para tão breve o seu exterminio, como o grande marquez de Pombal o meditava nos seus profundos calculos politicos. (…). Entre as diversas partes do globo a que estendeu o seu dominio, a companhia tinha em grande conta a Africa meridional; partindo de ambas as costas, caminho do nascente e do poente, os seus missionarios, a principio apostolos e martyres, depois traficantes e enredadores, levaram a influencia da ordem aos desconhecidos sertões d´aquelle continente, e á sombra da humilde cruz da redempção ganharam, a par de alguns triumphos espirituaes, innumeras vantagens mundanas. No lado oriental fundaram elles um convento em Moçambique, a expensas de João Dias Ribeiro; casas conventuaes nas villas de Tete e de Sena, e vigariados nos sitios de Quiliniane, Caya e Luabo, districto de Rios de Cuama. Pingues terrenos constituiam o patrimonio de cada uma d´estas egrejas (…).

O praso ou ilha de Luabo, situado á beira do canal de Moçambique, entre duas boccas do rio Cuama, Sena ou Zambeze, era então possuido por D. Ignez Gracias Cardoso, que o obtivera, por carta de sesmaria, em recompensa dos serviços prestados por seu pae n´aquella colonia africana; e os padres da companhia, que tinham muita influencia sobre o espirito da orphã, tratavam de lhe aconselhar a abstinencia de pensamentos mundanos, sobretudo de casamento, com o fito em empolgarem a posse d´aquelle rico praso, na ausencia de legitimos herdeiros. Porém D. Ignez, respeitadora fiel do vigario jesuita de Sena, o padre Jose de Anchieta, seu director espiritual, apartou-se comtudo da opinião do reverendo n´este ponto de doutrina, e abraçou com todas as forças a idea, que lhe sorria, de consummar o sacramento do matrimonio, com algum esforçado fidalgo portuguez, que, unindo um nome illustre ao de Gracias Cardoso, desse novos heroes aos Rios de Sena, taes como haviam sido os seus antepassados.

Além do praso Luabo, D. Ignez possuia a terra de Inhacoche, nas visinhanças de Sena, e muitas outras n´aquelle fertil valle da Zambezina, com milhares de escravos e colonos; e por consequencia uma importante posição na capitania. A sua alliança era desejada pelas mais nobres familias de Moçambique e dos Rios; mas a orgulhosa donzella despresava todos os pretendentes da colonia, por que nenhum d´elles realisava o ideal de seus sonhos, um mancebo illustre, corajoso, gentil e de nomeada. 

D. Ignez não estava na juventude, nem era dotada de fascinadora belleza; mas, em toda a parte, a sua phiysionomia expressiva lhe attrahiria affeiçoados, e em Rios de Sena podia considerar-se uma creatura angelica, uma formosura excepcional. (...) Seu tio, D. Antonio Taveira, então arcebispo primaz do Oriente, se encarregara, a pedido de D. Ignez, de lhe descobrir um marido digno d´ella, entre os poucos fidalgos que ainda então iam militar á India; porém lançando os olhos pela roda de cavalleiros moços que em 1757 povoavam os palacios de Goa, o velho arcebispo não encontrava um só nas circunstancias indicadas.

A desgraça, todavia, arrastou n´esse anno á capital da India portugueza o infeliz Antonio Jose Telles de Menezes, fidalgo da casa de Villa Pouca, que desde I747 governava a cidade de Macau com o posto de tenente general (...), e que ora se via expulso d´aquella capitania pelo povo, em consequencia das crueldades que commettera, diz um escriptor muito parcial dos macaenses (…); bom ou mau, o ex-capitão geral da cidade do Santo Nome de Deus agradou ao prelado (...) e vendo elle que Antonio Jose Telles nenhum cabedal trazia da China, propoz-lhe a posse da mão e dos bens de sua sobrinha, fazendo-se o casamento por carta de ametade, segundo a ordenação do Reino.

Antonio Jose já não era rapaz; mas tendo vivido dez annos no clima, comparativamente bom de Macau, parecia mais joven de que os reinoes fidalgos que residiam em Goa (…). Vendo-se pobre e perseguido, o filho da casa de Villa Pouca acceitou o consorcio que lhe proporcionava a posse de uma riqueza colossal, e o casamento effectuou-se por procuração da parte de D. Ignez, na capital do já então muito abatido estado da India.

Esta resolução, porém, abalava pelos fundamentos todos os calculos da companhia de Jesus (…), ainda diligenciaram os padres, por diversos meios, não muito christãos, impedir que se effectuasse o casamento; e (…) os seus esforços dirigiram-se a desunir os cônjuges, para evitar que tivessem descendencia.

O padre Manuel Barradas (...) foi (...) enviado, a titulo de visitador, para Sena, partindo em companhia de Antonio Jose de Telles de Menezes (...). Durante o trajecto (…), o ardiloso filho de S. Ignacio de Loyola soube insinuar-se á maravilha no animo do fidalgo, e indispol-o desde logo contra D. Ignez, pintando-lhe com cores aterradoras a vida dissoluta das mulheres de Sena, em geral, e o caracter imperioso, feroz e vingativo de sua esposa, em particular; de sorte que, chegando a Moçambique, já pouca vontade tinha o general de seguir para Quilimane. 

Ao mesmo tempo o padre Jose de Anchieta não perdia occasião de fallar a D. Ignez nas maneiras brutaes e nos habitos de mando absoluto que adquiriam os fidalgos do reino nos governos de ultramar, lamentando que uma senhora costumada ao livre uso das suas acções, se fosse escravisar, entregando a sua pessoa e bens a um pobretão. (…)

Finalmente chegou o dia de se avistarem os esposos, e de receberem as bençãos nupciaes na egreja de Santa Catharina de Sena. Celebrou-se a ceremonia com todo o luzimento, apparecendo D. Ignez litteralmente coberta de diamantes e perolas, engastados em oiro e prata da Mocaranga e da Chicova, e D. Antonio trajando o rico e pittoresco uniforme dos generaes d´aquelle tempo, adornado com o botão de mandarim que recebera do celestial imperador, em paga de algumas baixezas, que é como tambem lá se alcançam as dignidades: á saida, porém, do templo, todos os convidados notaram uma extrema frieza de parte a parte entre os conjuges, mal disfarçada pelas maneiras fidalgas de um Menezes, mas patente nos ademanes grosseiros de uma selvagem dos sertões africanos. (…)

O plano dos jesuitas fora bem concebido (…). O ciume, ou a vaidade, de Antonio Telles, levaram-no a dizer palavras menos cortezes a sua esposa, logo nos primeiros dias do consorcio; e D. Ignez, de genio arrebatado (…), fugiu para a sua terra de Inhacoche, resolvida a vingar-se do marido de uma maneira horrorosa. Sabendo que sua mulher contava muitos parciaes em Sena, incluindo o velho brigadeiro David Marques Pereira, então general dos Rios, retirou-se o pobre Menezes para a ilha do Luabo, cujo praso lhe havia sido doado causa dotis, julgando estar assim mais seguro, entre os colonos da terra e os padres da egreja da Saude.

Despedindo-se de Anchieta, que ia acompanhar no exilio a sua confessada D. Ignez, Manuel Barradas (…) dizia estas palavras (…): «É preciso, a todo o custo, alcançar a posse total do Luabo para a ordem (…), e portanto, encaminhar D. Ignez á pratica de todos os excessos (…)».

D. Ignez pleiteara nos tribunaes de Moçambique a revindicação da posse do desejado praso; mas tanto no juizo ecclesiastico como no civil, obteve o marido sentenças favoraveis; e foi encarregado o sargento-mor das terras de Sena, Cypriano Jose Chorão, de dar definitiva posse do praso do Luabo ao seu legitimo donatario Antonio Jose Telles de Menezes. (…)

O padre Manuel Barradas escreveu logo ao irmão Anchieta, ordenando-lhe que (…) aconselhasse a D. Ignez Gracias todo o genero de violencia, ao que ella facilmente accederia, attento o seu caracter indomavel. (…) D. Ignez fez armar quatro mil escravos, dependentes das terras que possuia em Sena, e confiou a direcção d´esta phalange ao seu criado e secretario intimo Sebastião Antonio de Sousa. Uniu a estes os cafres de outro potentado dos Rios, seu alliado, o senhor Bernardo Caetano de Sá Botelho; e ainda alguns vadios e malfeitores do districto, alistados por Carlos da Cunha, outro parcial da megera (…). Desceu o Zambeze, seguida de uma immensa frota de embarcações miudas, que transportavam o sedicioso exercito. (…) 

D. Ignez recommendava coragem e fidelidade, e promettia largo despejo no saque da sua propria casa, aonde residia Antonio Jose. Quando desciam o rio, já nas proximidades do seu delta, avistaram um cocho que vogava com difficuldade contra a corrente: dirigiram-se a elle, e reconheceram que conduzia o sargento-mor das terras, o mal aventurado Chorão, regressando do Luabo, aonde fora cumprir o seu dever official de metter de posse do praso o legitimo emphiteuta! A ordem de atacar foi dada sem hesitação por D. Ignez, e uma nuvem de flechas caiu immediatamente sobre a embarcação do governo. O sargento-mor resistiu galhardamente, desmentindo o seu appellido de familia. Em quanto teve polvora e balas fusilou os inimigos (…). Conseguiram pois assassinal-o, e a sua cabeça foi collocada em um poste na margem do rio, como padrão de vingança e de despreso pela lei e seus executores! Era apenas o primeiro acto da tragedia! …

Continuando a descer o Cuama, chegou a esquadrilha a Luabo. Antonio Jose vivia ali socegado (...). Avistando, com assombro, a grande frota capitaneada por D. Ignez, o fidalgo mandou reunir os cafres do praso; mas não achou um só que cumprisse a ordem, antes todos correram para a praia a juntar-se á sua senhora, cujos caprichos estavam costumados a respeitar. A chusma desembarcou atroando os ares com gritos espantosos, segundo o uso cafreal; e D. Antonio que se via só, tratou de reunir alguns objectos de mais valor, pensando em salvar-se na residencia sagrada dos seus amigos da companhia de Jesus. Louco! Quando quiz fugir com aquelles valores, já a sua casa era presa das chamas!... Aterrado, abandonou tudo, para correr mais ligeiro, porém uma setta lhe alcançou o braço esquerdo, e com difficuldade pode chegar á vista da capella da Saude. (…) As portas da residencia dos jesuitas estavam fechadas, e das janellas choveu sobre o misero fidalgo outra nuvem de settas. (…) Ensanguentado, sem protecção, sem conselho, Antonio Jose correu para o rio, talvez com o pensamento de dar fim a seus males, suicidando-se; mas a Providencia, ou o acaso, lhe deparou na praia uma pequena almadia, para dentro da qual saltou, e que fez vogar, com toda a força que o perigo lhe ministrou, para longe dos seus assassinos. Aproximava-se a noite, mas o fogo da sua habitação allumiava-lhe o caminho. (…)

Entrou victoriosa nas suas terras de Inhacoche! (…) D. Ignez não desistiu de perseguir o marido (...). O desgraçado desembarcara na terra firme, quando fugiu do Luabo, e passando fomes e sedes, ora embrenhado em selvas povoadas de feras, ora vadeando riachos de perigosa corrente, nua a fronte e exposta por muitos dias aos raios do ardente sol dos tropicos, chegou emfim a Quilimane, roto, descalço, e por tal forma desfigurado que ninguem o reconhecia! Vestido e alimentado de esmolas, o fidalgo da nobre casa de Villa Pouca luctava com as febres do paiz em uma palhota de Quilimane, nutrindo, como unica consolação, a idea de que estava livre das garras de D. Ignez ... mas n´isso mesmo se enganava. A humilde barraca ardeu poucos dias depois de lhe servir de guarida, e foi ainda sua mulher que a mandou incendiar. Assim o declarou Carlos da Cunha, preso e processado por esse crime. (…)

Antonio Jose Telles de Menezes morreu, não consta como nem aonde; mas poucos mezes sobreviveu de certo a este ultimo desgosto, porque logo no principio do anno seguinte appareceu uma doação do praso do Luabo, feita por D. Ignez... e não foi aos jesuitas! (…)

Logo depois dos horriveis successos que temos relatado, chegou á Zambezia um novo general dos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, nomeado pelo governador de Moçambique, e encarregado de activar o processo de rebellião, incendio e mortes perpetradas pelos parciaes de D. Ignez, e de mandar presa para a capital da colonia a protagonista d´este tremendo drama; porém D. Manuel de Almeida tinha genio conciliador. Vendo morrer na miseria o fidalgo portuguez (talvez seu parente), volveu olhos piedosos para a viuva, e nem a physionomia de D. Ignez, nem a sua immensa riqueza lhe desagradaram; portanto escreveu ao governador de Moçambique um officio (que existe no respectivo archivo) dizendo que a pobre senhora era innocente, que fora enganada por maus conselheiros, e … emfim, não a mandou prender! 

D. Ignez morreu tranquilla no seu leito, em Março do seguinte anno, 1758, na villa de Sena, capital do districto dos Rios, deixando, em seu testamento, o praso do Luabo ao muito nobre general dos mesmos Rios, D. Manuel Antonio de Almeida, e o resto da sua colossal riqueza a uma filha de Bernardo Caetano de Sá Botelho (…) talvez amante feliz da heroina ...

F. M. Bordalo em A lllustração luso-brazileira, Jornal Universal. Vol. II, 1858

Em 1747 tomou posse da capitania de Macau, António José Telles de Menezes, o qual tinha um decidido empenho em sacudir o jugo chinez. Tornou varias medidas decisivas e arrojadas contra os mandarins, mas nos conflictos, que houve, nunca encontrou ao seu lado os membros do senado. Estes temiam os mandarins, e tantos enredos urdiram para Gôa, que António José Telles de Menezes foi mandado retirar sob custodia. Deu tristissimos resultados o pusillanime proceder do senado. Os chinas recrudesceram na oppressão; de 1748 a 1750 tornaram effectivas todas as prohibições feitas e augmentaram algumas exigencias.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

30 de Agosto de 1747 - Toma posse do governo e capitania geral de Macau Antonio José Telles de Menezes.

8 de Junho de 1748 - "Em a noite d'este dia, prendeu a ronda dois chinas, que levou ao Monte. O governador (Antonio José Telles de Menezes) os mandou entregar ao procurador, que era André Martins. Deram-lhos os soldados e o alferes tantas pancadas que um cahiu môrto á porta do Manuel Corrêa, e, chegando a casa do procurador, este não quiz receber, nem o vivo, nem o môrto, dizendo que tornassem a leva-l'os para o Monte que elle de manhã iria. Chegados que foram, e dando parte ao governador, mandou elle metter os chinas na mina, e jamais houve noticia de nenhum; -dizem uns que ali mesmo os enterrára a ambos, e outros que os mettêra em jarras e os mandára deitar no mar. Indo o procurador no outro dia, disse-lhe o governador que os chinas tinham desapparecido, e que dissesse ao mandarim, quando elle viesse, que taes chinas não havia, ainda que os chinas da travessa dos Cules tinham visto passar o morto. O procurador ficou n'isto."

Esta noticia vem assim referida na Collecção de varios factos que hão acontecido n´esta cidade de Macau (...).

6 de Novembro de 1748 - Mandara o governador de Macau, Antonio Jose Telles de Menezes, advertir ao juiz, Antonio Pereira Braga, que attendesse ás partes, por quanto se lhe queixavam que elle juiz nem as meras petições queria despachar. Não fez o juiz caso da advertencia, e, como se amiudassem as queixas, o governador o mandou chamar n´ este dia á sua habitação, na fortalesa do Monte, e, tirando-lhe o espadim e a bengala, o maltratatou severamente de pancadas. 

Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos. A. Marques Pereira, 1868
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