O hospital militar de Macau e os operarios chinas

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(…) Tem sido varia, mas quasi sempre prospera, a vida d´aquella nossa importantissima possessão, que já em 1583 era denominada Cidade do nome de Deus do porto de Macau. Esta formosa cidade está assente na pequena peninsula, que fôrma a parte meridional da grande ilha de Hiang-chon ou Hian-son. Tem oito milhas de circumferencia, tres na direcção NE-SE, e uma na sua maior largura; em 22° 10' 30” de latitude Norte e 113° 32' O” de longitude Este de Greenwich, ficando a mil e quatrocentas leguas de Lisboa, e a tres mil e dozentas leguas de navegação pelo cabo da Boa Esperança.

O solo de Macau é de formação granitica; a cidade edificada sobre as sinuosidades e encostas dos montes apresenta, vista do porto, um espectaculo deslumbrante aos olhos do europeu que contempla as suas elegantes casarias, igrejas e fortalezas, onde muitas vezes tem de admirar a elegante e phantasiosa architectura chineza. Em 1860 contavam-se 85:470 habitantes n´aquella possessão, incluindo chinas, parses, mouros e christãos novos, sendo apenas 5:239 da cidade propriamente dita, isto é, das tres freguezias Sé, Santo Antonio e S. Lourenço, de que ella se compõe. E claro que só por calculos aproximados se póde dizer qual a população chineza, que é impossivel trazer a um recenseamento (...).


O clima de Macau é ameno e agradavel aos europeus. (...)

As obras publicas têem tido grande desenvolvimento. No dia 1 de dezembro de 1872 lançou-se a primeira pedra para a construcção do grandioso edificio que representa a estampa - o Hospital de S. Januario - copia fiel de uma photographia existente no ministerio da marinha. Em 6 de janeiro de 1874 inaugurava o governador de Macau, o sr. visconde de S. Januario, fazia benzer pelo governador do bispado, o sr. Antonio Luiz de Carvalho, e entregava ao sr. dr. Lucio Augusto da Silva, chefe do serviço de saude, aquelle hospital destinado ao tratamento dos doentes militares. Assenta elle no monte de S. Jeronymo, ao SO do reducto de S. Jeronymo, um dos sitios mais ventilados da cidade, e por isso o mais apropriado para uma construcção hospitalar. 

Foi delineado pelo sr. barão do Cercal, vice-presidente da camara municipal e natural de Macau. (...)

Attendeu-se n´esta edificação a todas as regras o preceitos da hygiene, dotando-a com ar e luz na maxima abundancia. Foi calculado para o tratamento de 120 doentes, mas em casos extraordinarios pódem ali recolher-se 200 enfermos. A construcção foi arrematada por 38:500 patacas; juntando porém as quantias despendidas com o preparo do terreno e com outros accessorios importantes, devera montar toda a despeza a 50:000$000 réis.

Á luz d´este seculo não sabemos de estabelecimentos que mais possam nobilitar qualquer cidade do que a escola, o hospital e o asylo: estes são os nossos conventos. Cada época tem as suas glorias representadas em symbolos ou padrões diversos; os marcos do seculo XIX mostram com o carril de ferro, com a chaminé do vapor, e com o cabo telegraphico, a divisa da caridade bemdita que abre a escola, constroe o hospital e edifica o asylo. Macau, que tantos titulos tem do gloria, póde justamente ufanar-se quando mostrar ao estrangeiro as suas velhas fortalezas, a gruta de Camões e o hospital militar de S. Januario.


MARX DE SORI em Artes e letras, 1874.

EDIFICIO DE UTILIDADE PUBLICA. O NOVO HOSPITAL DE MACAU

São tão poucos os edificios publicos construidos em Portug
al n´este seculo, que apresentem, pela sua bem delineada planta, aspecto grandioso e agradavel perspectiva, e sobretudo offereçam as condições reunidas ás mais apropriadas de sua especial destinação, que nos surprehendeu sobremaneira quando recebemos do distincto governador de Macau, o ex.mo sr. Visconde de S. Januario, digno socio da Real Associação dos Architectos e Archeologos Portuguezes, uma photographia tirada d´um hospital militar, que por iniciativa e sob a illustrada inspecção de s. ex.ª foi construido no presente anno n´aquella colonia portugueza.
Examinámos com satisfação o prospecto de tão magnifica fabrica, e posto que nos ufanassemos de se haver executado tão longe da metropole um edificio d´esta ordem (pois alem da sua reconhecida utilidade e merecimento architectonico, faz tambem honra á nação a que pertence, e attrahe merecida gloria ao esclarecido promotor d´este grande melhoramento, o qual era ha muito reclamado para beneficio da humanidade e credito do governo): parecia-nos quasi impossivel ter-se podido executar n´esta epocha tão vasto edificio, com as condições essenciaes de bem entendida distribuição, de grandioso aspecto, assás esbelto, notando-se-lhe sobretudo bastante novidade na sua geral configuração. 

Não é de certo um typo architectonico, que possa servir de modelo para estudo d´arte, nem tão pouco ser citado como offerecendo o caracter mais proprio para um hospital; não obstante, não se podem recusar elogios á feliz intelligencia de quem compoz o conjuncto das suas fachadas, muito embora ellas lembrem um pouco as construcções orientaes, e ao mesmo tempo apresentem reminiscencia das edificações britannicas; talvez por estar n´aquella região, e na proximidade das possessões inglezas: todavia essa construcção mixta foi calculada para produzir agradavel effeito, ainda que independente da sua determinada applicação. Sendo, pois, considerado sob este ponto de vista, reconhece-se muito merecimento na sua composição architectonica, e tem novidade esta recente construcção. (…)


Felicitámos, pois, o ill.mo sr. capitão Dias de Carvalho, pela intelligente distribuição do plano; assim como receba encomios o ex.mo sr. barão de Cercal pelo encantador aspecto com que delineou os alçados do hospital de S. Januario; o que fará sem duvida lembrar com maior reconhecimento aos habitantes de Macau qual a solicitude do esclarecido governador, o ex.mo sr. visconde de S. Januario, por ter dotado aquella cidade com um tão necessario melhoramento publico.

Achamos curioso fazer alguns extractos da excellente memoria publicada pelo sr. capitão Carvalho, em que descreve a distribuição d´este hospital, havendo-se inspirado para traçar a sua planta do afamado hospital de S. Raphael da Belgica; e tambem nos dá informações do modo como os operarios chinas executam estas obras, tanto em relação aos costumes d´aquella região, como pela maneira original de se contratarem com elles as construcções n´aquelle paiz. (…)

Entre os chinas ha tres classes de operarios. Pertencem á mais inferior os que trabalham em alicerces ou muros d´alvenaria, e são conhecidos por pedreiros de pedra: á segunda os que trabalham em paredes de tijolo ou em telhados, e a estes denominam pedreiros de tijolo; finalmente a classe mais elevada e a dos que trabalham em molduras, estuques, e ornatos, são os mais peritos; e causa admiração a paciencia que consomem n´esta especie de trabalho, e os utensilios ordinarios de que se servem. (…)

No officio ha quatro cathegorias distinctas; cabeça, cabecilha, officiaes e serventes. O cabeça, superintendente em todas as obras do officio, recebe tantos por cento dos salarios de seus officiaes e serventes. Os cabecilhas não são mais que directores de tarefa. Cada official tem á sua disposição dois serventes. Calculam-se 9 horas de trabalho em cada dia.

Chamam-se picadores na China aos cabouqueiros e canteiros. O seu trabalho é muito imperfeito pela falta de conhecimentos d´este officio, e sobretudo pela grosseira ferramenta de que se servem. O picador em geral é mentiroso e mandrião; existem todos associados, e nunca tomam trabalhos, já principiados pelos seus companheiros, por expressa prohibição da sua associação.

N´esta classe distinguem-se tambem cabeça, officiaes e aprendizes. O cabeça em geral só delineia pela manhã os trabalhos dos officiaes, porque fuma quasi todo o dia. Os officiaes precisam duas horas durante o dia para fumar opio. São estes os operarios que na China teem maior salario, recebendo sem distincção 282 réis. Os carpinteiros compõem uma forte associação, são os operarios mais serviçaes, trabalham sempre de bom grado, são activos e os seus trabalhos são os mais perfeitos de todos os officiaes que entram na construcção.

O officio é de 5 annos e adquirem conhecimentos de geometria. O seu salario é tambem de 282 réis. Os cabeças descontam-lhes uma certa quantia para a sua associação. Os officiaes de ferreiro recebem a paga do seu trabalho pela differença que ha entre o peso bruto do ferro e aquelle da obra acabada, que corresponde ao feitio. Está ainda em muito atrazo este officio. 

Os salarios dos pintores são baratissimos: alguns d´estes muito perfeitos e com bastante habilidade, costumam primeiro acharoar a preto os objectos que têem de ser dourados.

A cal superior é muito fina, mas é n´esta qualidade que se encontra mais fraude, porque lhe misturam farinha de arroz, ou uma qualidade de terra mui branca. Conforme na argamassa entra algodão, papel ou palha, os chinas empregam a cal algodão para superiores estuques; cal papel para rebocos: o seu preço varia conforme a qualidade, como o peso de 133 libras custa de 121 a 344 réis. Os pedreiros empregam nos trabalhos cal muito pisada com palha, a qual chamam cal peluro. A argamassa para unir ladrilhos e composta de limalha de ferro e azeite de pau (de mendoim).

Entre as madeiras de que se servem os chinas para as suas construcções, taes que pau ferro, teca, madeira de Singapura, entena (vigas), pinho da China; é, porém, de veneração para elles aquella madeira designada pelo nome de Chau, madeira escura, bastante pesada, a qual é empregada como pau de fileira; sobre elle lançam grandes tiras de panno, a fim de afugentar os maus espiritos, e chamar a felicidade para as suas construcções.

Esta resumida noticia a respeito da pericia dos diversos officios dos operarios, seus salarios e o modo de usar dos materiaes, na China, julgamos seria interessante para nós, architectos da Europa, podermos avaliar melhor a perfeição do trabalho e o custo da obra, em referencia á quantia despendida no novo edificio do hospital que foi ultimamente construido na cidade de Macau.

O architecto J. da Silva em Boletim de architectura e de archeologia da Real Associação dos Architectos civis e Archeologos Portuguezes, 1876.

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