O amigo china pega do chá preto e engomma-o...

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Vista Alegre.1893-1899 
(Porcelana, ouro e vidrado-litografia e pintura com aguada)
Palácio Nacional de Sintra

TODOS nós portuguezes, povo por excellencia para beber chá, sabemos como por cá se tem passado sempre este caso. Está a mesa aberta, o competente candieiro, e oito ou nove pessoas reunidas a passar a noite, conversando e bocejando em quanto não chega o bule. Tudo parentes, e pessoas de amizade. (…) 
Entra o chá.
Que saudades do apparato antigo, - as estreitas fatias com manteiga, a que chamavam hostias, finas, finas, a embrulhar-se umas nas outras: e os bolos d´especie no prato grande do Japão; e uma creada armada sempre da thesoura para velas, espevita aqui, espevita alli, recebendo na bandeija as chicaras vasias, fazendo tudo n´uma volta de mão, e esbogalhando os olhos a ver quem requeria mais chá pelo facto de não metter a colher na chavena.
Hoje torradas de um lado, bolachas inglezas do outro, dois bules ao centro, e está dito tudo.
- Preto ou verde? pergunta a dona da casa com sorriso complacente. 
Uma das visitas encarrega-se da parte historica: 
- O chá verde é artificial; agradavel, mas falso. Um sophisma! O amigo china pega do chá preto, que é o chá natural, o verdadeiro chá, besunta-o de azul da Prussia, de saes de cobre, depois engomma-o...
- Como, engomma-o? 
- Não o engomma a ferro...
- Ah !
- Mas mette-o em agua de gomma, e põe-o depois no forno a seccar!
- Fica uma pessoa com a entranha engommada a lustro!...
- Puro polimento!...
- O que não impede que os chinas bebam chá tres vezes ao dia, pelo menos: a gente rica, muitas mais. Conta n´uma carta o nosso cunhado o governador, que não só o chá é alli circumstancia indispensavel nas ceremonias religiosas, mas que não ha ir de visita a qualquer casa sem que logo se offereça d´elle uma chavena ou duas.
- No Japão, reduzem o chá a pó; deitam nas chicaras agua a ferver, e uma pitada do pó em cada uma!
- A arvore que produz o chá é tão bonita! exclama a poetisa. E um arbusto sempre virente, que tem parecenças com a murta!
As senhoras parecem enfadar-se com este rasgo de erudição, e olham para a musa de revez. Tudo que eleva alguem acima do vulgo, nascimento, riqueza, formosura, talento, ou poder, tem de pagar patente ás invejinhas e a malquerença publica. Por isso um semsaborão que alli se encontra, redargue logo para lisongear o despeito dos prosaicos:
- A arvore boi, que produz bifes, não é talvez peor, apezar de não se parecer com a murta.
- Mas não tem influencias para a politica! Acode um deputado, trincando uma bolacha. Em quanto que o chá... Estavam bem aviadas as reuniões nocturnas da maioria no ministerio do reino se elle faltasse! O chá ministerial!... 
Seguem-se os protestos em favor do chá que se acha presente; que é muito bom, que é o melhor de todos, que não se encontra egual em Lisboa: as vezes dão logar a um desafio essas discussões, desafio amavel já se vê:
- No sabbado, se fizerem favor de ir a nossa casa, hão de experimentar o chá que lá temos, offerta do mandarim Tzig-sau ao nosso cunhado governador...
E estabelece-se concurso, e manda-se buscar o chá a outra casa, e nomeia-se juiz, e estabelecem-se jurados, e ha advogados e accusador. 
É por entre a agitação d´estes cataclismos, que, de uma vez ou d´outra, a creada estonteada na balburdia das vozes e dos argumentos, vira a bandeja, quebra as chavenas, e rega o tapete com os restos d´aquelle chá... judiciario.

A chavena quebrada, Júlio Cesar Machado em Artes e letras. 1873.
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