Supplicio da canga

o suplício da canga
Imagem de Au pays des Pagodes de A. Raquez, 1900

Os chins alem da pena de morte, que fazem executar de diversas maneiras, quer mandando degolar ou estrangular o criminoso, quer cortando-o, como dizem, em dez mil pedaços, usam de outros castigos secundários. Alguns criminosos são condemnados a arrastar as barcas reaes, outros marcados nas duas maçãs do rosto, outros obrigados a levar á cabeça volumosas pedras que ás vezes chegam a pesar sete ou oito libras, outros finalmente açoitados com o pan-tsé, espécie de bambu: todos estes castigos reparte-os o mandarim com equidade, segundo a gravidade dos delictos; porém o mais usado, e ao mesmo tempo o mais caracteristico, é aquelle a que damos o nome de cangas. 

A sua efficacia consiste menos na dor do que na infâmia que causa. Compoem-se a canga de duas pranchas com um buraco redondo no meio, por onde cabe o pescoço do reu, que, depois de unidas, não é senhor de ver os pés, nem de levar as mãos á boca, e carece que outrem lhe ministre a comida. Em ambas as faces da canga costumam grudar umas tiras largas de papel em que estão escriptos em grandes caracteres o delicto que se pretende castigar e o tempo que deve durar a pena para que qualquer viandante possa ler: é um ladrão, ou um sedicioso, ou um jogador, condemnado a trazer a canga dois ou tres mezes na praça de ...

Não é preciso dizer que sempre são preferidos os logares de maior concurrencia, as praças, as encrusilhadas, a porta d'alguma cidade ou templo. Corresponde este castigo ao da gotlilha, porém aggravado, e espaçado inconvenientemente, por que nós limitamo-nos a expor o culpado á vergonha o tempo restrictamente necessário para que aprenda a conhece-la e a recea-la, porém na China dão-lhe tempo para se familiarisar com ella, e avesar-se a vence-la e olha-la com despreso. 

Todavia a canga causa tormentos physicos, e mau é porem-lha aos hombros, pois ha-de forçosamente traze-la de dia e de noite até o momento designado para lho darem a liberdade. O peso ordinario da canga anda por cincoenta até sessenta libras; mas quando os delictos são gravissimos chega a ser de dusentas libras. Em taes circumstancias acontece muitas vezes, que a tristesa, a confusão, a dor, a falta de alimento e de somno, junctos á penosa oppressão da carga, podem causar a morte do infeliz a quem já não é dado esperar piedade. 

E verdade que ha meios engenhosos de diminuir o rigor do castigo, mas nem todos podem emprega-los. Alguns descançam a canga sobre uma mesa ou um banco; outros mandam fazer uma cadeira em que estão sentados entre quatro columnas d´igual altura, que servem para suspender a colleira; os mais descarados deitam-se de barriga, e servem-se do buraco onde teem o pescoço como de uma janella para verem quem passa. Alguns gosam a sociedade dos seus parentes e amigos, que os acompanham, e revesam-se para alternadamente os ajudarem a levar a carga ignominiosa. Findo o praso prescripto pelo mandarim, tornam os seus officiaes a levar o culpado á sua presença, e aquelle, depois de exhorta-lo á emenda, manda-o embora, porém quasi nunca antes de lhe ter mandado dar, como correcção final, umas vinte bastonadas, tempero necessario de todos os actos da justiça n'um paiz de que se pode dizer que o governo não sabe andar senão encostado a um pau.

O Panorama: jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis. Vol II, 1838

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