Portugal no extremo Oriente

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Macau - a Monaco do Oriente - Ihe chamam os extrangeiros, sem o jogo do fantan seria tão mesquinha como o principado dos tragicos suicidios sem a roleta devastadora. As noites de Macau, luminosas e lindas, teem a brutalidade extranha para os espiritos occidentaes de mysterios entrevistos em livros perturbantes escriptos pelos que fumaram vagamente as cânulas d´opio e dormiram attribulados nos braços abaçanados das orientaes. 

É a Monte Carlo, onde se teem vagares e cautellas de conspiradores para fazer sumir os vultos nos humbraes das casas de jogo, onde se chocalha a sphapecka ou nos limiares dos predios suspeitos onde a chineza os espera perfumada e amante. Caminha-se tranzido de medo, um medo que existe no ar, vindo do desconhecido que é tudo isso, todo esse movimento da rua da Felicidade, e cá de baixo da Praia Grande, onde se deixam os amigos e onde fica a nossa civilisação. AIi, cada um, que é artista e sente bem, official de marinha ou funccionario, está como no extremo d´uma estrada mysteriosa; dum lado a vida até então seguida, do outro - e basta empurrar uma porta - toda a attracção aventurosa que dá o mysterio. É como se fossemos conjurar, pela noite alta, n´uma terra de sonho, a saber duma nova religião, ou d´um nove regimen, vestidos n´um trajo de desconfianças, e amando já mais o que não se conhece, pela curiosidade, do que tudo aquillo a que nos ligam seculos de atavismo dos quaes desejamos deaembaraçar-nos como se nos vestissem as armaduras pesadas dos nossos avoengos.

Vem a ancia d´uma cabaia de seda dentro da qual se olvida a civilisação regrada; a vontade de adorar Brahma, a suprema incarnação, e uma garota pintada de tintas finas, pequena como uma creança, com seu traço leve a nankin nas sobrancelhas ausentes, a suprema loucura do desconhecido e de, deitados em brancas esteiras, falar do azul - o Lame – e esquecer de bom grado o ouro - o Tcha-me-cam, ouvil-as falar do seu arroz leve como um mimo, do seu Fame querido, e pomo-nos a amal-as como se ama a novidade.

Depois, essa Macau tem em si a legenda de piratas que veem de longinquas aguas, soberbos e embuçados como principes revolucionarios, tomar o chá consolador ou o opio da embriaguez, nas casas do fantan ou nas locandas do goso, tem em si toda a attracção duma terra onde passam rapidos os ringchows na luz polychroma dos balões e em que as lojas teem sobre as portas nomes tão celestiais - o Paraiso eterno, a FeIicidade sonhada, que se julga viver n´um paiz onde as nuvens tornem ligeiro o caminho dos nossos pés mortificados pelos passeios banaes do occidente.

Pois essa cidade assim entrevista n´uma impressão só digna d’artistas - resto d´um mundo que antes morra do que venha a adaptar-se - foi um logar de mercancias portuguesas, em que um ou outro heroismo faz perder a ambição. D´um lado existe o europeu com o seo uniforme branco, vaguear-se nas ruas, fazendo picnics nas onze mesas, visitando os padres na ilha Verde, bailando com as nhonhós, de pernas lindas, dominando e estragando o ar com as chaminés das fabricas que ergue; do outro vive o chinez, sob os seus enormes parasoes com dragões e aves phantasticas, mandarins ou coolies, jogando ou trabalhando, fumando ou queimando panchões: vive a prostituta desolada e a trabalhadora tanqareira, a mulher que vae remando nas barcas, muda e a envelhecer, comida pela lucta e pelos soes, sem outro abrigo que o seu bote, sem outro prazer que a belleza do céu d´onde espera a felicidade.

O europeo despresa o chinez; este ri do europeo mesmo ao saudal-o porque na sua raça e nos seus costumes tem a força que o subjuga se acaso elle, n´uma curiosidade d´arte, sonha em perscrutar-lhes a alma vivendo no seu meio. O chinez tem o fantan e tem o opio, as duas cousas vingadoras, os dois supplicios feitos de goso, bem proprios de divindades terriveis como são os idolos dos seus pagodes.

E emquanto socialmente, rindo, mascando betel, andando na sombra dos seus palanquins, geram o mal, politicamente, esquecendo os nossos feitos, sonham em guardar apenas para si essa Monaco do Oriente onde descançam os piratas e folgam os mandarins.

É crivel que um pequeno tubo, com o seu deposito de metal, onde a agua côa o opio gere um dominio, mas não se concebe que ao cabo da tradição extranha dos portuguezes o Filho do Ceu, esse imperador de tres annos, seja o senhor da Monaco Oriental por direito de conquista. Se d´essa tentação do sonho, d´essa loucura do opio, o portuguez se livra mais do que outro qualquer europeu, das tricas chinezas ou das suas armas, elle, o heroe de sempre, saber-se-ha defender melhor. Macau não é esse territorio chinez que se julga apenas concedido com clausulas, é antes o territorio onde os mercadores portuguezes fundaram Santo Nome de Deus de Macau quando o imperador Chetseug lh´o doou após uma batida homerica da nossa gente no pirata Chau-silau, que singrava com as suas fustas nos rios azues de Cantão. Em todo o caso o governo da India só para ali enviava funccionarios que pelo seu porte eram difficilmente contidos na colonia então bem prospera. Camões era um dos insubordinados, um d´esses homens que mal se aturavam na sede do governo e d´ahi o enviarern-no com Fernão Martins para Macau, onde, depois de batalhar, devia buscar o repouso amigo, no fundo fresco d´uma gruta, deante do mar calmo, repassado de tristezas, desolado, evocar além toda a epopeia d´uma patria ingrata e distante, e, feito provedor de defuntos, escrever a epopeia heroica d´uma grande vida nacional, sonhando, talvez, com delicias de fumador d´opio, nos seus amores infelizes. 

Dia a dia, Macau tornou-se um emporio, que os japonezes cobiçavam e que João Pereira, um negociante, defendia. Depois os chineses, falando de extorsões no seu solo, limitaram o que nos pertencia; ergueram a porta de Kuan Chap ou do limite, por nós chamada a porta do Cerco. Em 1583 estabelecia-se o governo municipal, fundava-se a Mizericordia e os hospitais de S. Raphael e de S. Lazaro e em 1586 davam-se á cidade regalias eguaes ás de Evora.

Ali iam cada vez mais accumular-se os productos do grande commercio que fariamos com a China e o Japão. As ordens religiosas estabeleciam-se na região; os jesuitas levavam comsigo a imprensa, os outros frades fundavam hospitaes, até que no começo do seculo XVI começaram as desavenças que já-mais deviam terminar.

O Japão fizera comnosco as pazes, mas tivemos de renunciar ao seu commercio, visto os chinezes começarem por sua vez com exigencias a que o senado não sabia ou não podia responder. De resto a cidade era nossa, fora-nos dada, os proprios chinas o reconheciam desde que faziam a porta de limite perto da qual, em 1849, devia passar-se a tragedia historica na qual pereceu um valoroso portuguez que bem quiz honrar o nome de Portugal e firmar poderosamente o nosso dominio.

Com o nosso desdem pelas cousas coloniaes não demos governador á cidade já poderosa. Os holandezes quizeram bombardear a terra portugueza, que foi defendida. Segunda vez tentaram o assalto, que o macaista Thomaz Vieira repelliu, e assim, de tempo em tempo, os chinezes iam tomando folego, buscando intervir no que era nosso, encontrando pela frente apenas gente burgueza do Leal Senado, a ponto de se estabelecer, em 1688, um hopa, alfandega, na região, sem que lhe resistissemos. D´ahi as exigencias continuas, os escarneos, as negociações frouxas, a que só uma embaixada pomposa de D. João V devia pôr termo, para d´ahi a pouco voltarem as pretenções.

Macau era anciosamente desejada pelos chinezes. Não queriam que construissemos estradas, obrigavam-nos a expulsar do porto os navios que Ihe faziam sombra ao seu commercio, arrasavam o que se erguia, prohibiam aos chinezes que pegassem nas nossas cadeirinhas e foram até ao ponto de protestarem energicamente contra a abertura do porto livre que decretámos em virtude de vêrmos desviado o commercio para Hong Kong recentemente fundado. Era já no anno de 1846 e foi norneado governador João Maria Ferreira do Amaral, pae do actual presidente do conselho. Era um bravo que servira a causa liberal, que no Rio de Janeiro fizera o assombro dos officiaes francezes e inglezes entrando com o seu barco Urania contra o vento na bahia, após um baile dado a bordo e em que ficára cançada a guarnição. Ao mesmo tempo que a sua bravura, era já legendaria, as suas aventuras amorosas e as suas excentricidades emprestavam-Ihe um brilho galante. Eram tão celebres as proezas guerreiras do almirante como as suas conquistas amorosas. Como Nelson, ficára sem um braço na guerra, mas isso não o impedia de apertar ao peito com o maior ardor as mais lindas mulheres que lhe amavam a fórma galharda, o ar atrevido, a gloriosa tradição que o fazia querido. Batera-se contra os negreiros e por sua vez capturava corações, proclamava-se defensor dos escravos e ia escravisando aquellas beldades que a sua ancia amorosa cobiçava. Ninguem melhor do que elle podia ir governar Macau e impor ali toda a força do poderio portuguez.

O valente official foi assassinado pelos chins, que o atacaram quando ia a passeio, e logo após a sua morte correram ás armas, entrincheiraram-se em Passaleão, que Vicente Nicolau de Mesquita devia tomar apenas com 12 soldados, um obuz e algum povo, sob o tiroteio inimigo. Tambem este heroe morreu mais tarde victima da loucura que o fez gerar a mais terrivel tragedia domestica, mas viu Macau prosperar, encher-se de edificios pomposos, recolher n´um largo periodo os colonos chinas e japonezes que ficavam ali em vez de irem para a Australia, tornar-se finalmente n´essa cidade onde se descança e se folga, onde o dominio portuguez se acentuou tanto que hoje difficilmente se poderia apagar. 

A ultima questão que surgiu entre Portugal e a China ácerca de Macau, a proposito do apresamento do Tsatu-Maru, não é mais do que a repetiçao dos sonhos largos que os botões de crystal do Grande Conselho de Pekin costumam ter falando em nome de Confucio e dos tratados, chupando no tubo do cachimbo e bebendo o aromatico chá, pensando nos olhos obliquos das gaiatas dos harems com o mesmo fervor que o Theodoro do Mandarim punha ao arrastar a generala dos seus amôres para a sombra negra dos sycomoros. Sonhos... apenas sonhos...

lllustração portugueza, nº 147 de 14 de Dezembro de 1908

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