Da nossa presença do Oriente pode dizer-se que foi trabalho de teimosia, que é trabalho de pirata e de santo. Ambos têm em vista lucros por demais abundantes que a retirada lhes parece insensata.
A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999
A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999
A bordo dos pequenos vapores em andares como os que navegam no Mississipi, e que fazem as carreiras regulares entre Macau, Cantão e Hong-Kong, os passageiros chinezes de 3ª classe são encerrados no porão, que não é fechado como o dos navios do alto mar, mas que têem largas janellas. No salão e junto do leme ha sempre armeiros com espingardas, revolvers, sabres e munições á mão dos passageiros europeus; e quando ha muitos chinezes a bordo são postadas sentinellas armadas junto das escotilhas gradeadas de ferro, e sempre fechadas a cadeado. A rasão d’este apparato bellico justifica-se pelos ataques que por varias vezes os piratas têem feito aos vapores, e em alguns d’elles com bom exito. A fórma d’esses ataques é, em geral, a seguinte: Os piratas embarcam como honrados passageiros, e sem inspirarem a mais leve suspeita, mas quando chegam a sitio isolado do rio, tiram de sob as cabaias as suas armas, e começam por atacar os homens do leme e da machina para que o navia pare; saqueiam o navio e roubam os passageiros que nem sempre lhes podem oppor uma resistencia séria, e saltam para os juncos que, sem serem vistos, os esperavam entre as ilhotas do rio.
Para evitar taes ataques é que encerram os chinezes no porão, na certeza de que á menor tentativa de revolta a bordo, não ha tripulante ou passageiro algum que não dê com prazer alguns tiros para o porão através das grades das escotilhas. E dizemos com prazer, porque n’aquella situação melhor é matar piratas que cair nas mãos de quem, com certeza, lhes não dará quartel. Não é nosso intento fallar aqui da energica acção dos inglezes para acabar com os piratas, nem tão pouco dos gloriosos feitos dos portuguezes que primeiramente conseguiram limpar de taes monstros estes mares, o que lhes permittiu estabelecerem-se na China. Assumpto é esse sobremodo importante que não póde ser aqui tratado ao correr da penna.
Diremos, comtudo, que antigamente as aldeias de pescadores estabelecidas nas numerosas ilhas que formam o litoral da China, eram constituidas por gente tão pobre e miseravel, que não podendo saciar a avidez dos mandarins, existiam fora da lei e da esphera das auctoridades, governando-se independentemente, e infectando os mares proximos por ser a pirataria mais lucrativa que o pequeno commercio de pesca. Foi talvez essa a causa do grande desenvolvimento que a pirataria tomou, e que tanto flagellava a China quando os portuguezes aqui aportaram. Isto pelo que se vê ainda hoje em muitos pontos, se bem que o governo chinez persegue bastante os piratas, não pelo facto de o serem, mas por se dedicarem ao contrabando, ou antes, para sermos mais exactos, por elles lançarem mão do contrabando para melhor exercerem o seu mister.
Que os piratas não fossem contrabandistas, e bem se importavam as auctoridades chinezas que elles saqueassem e incendiassem as povoações!
Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898
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