A China em figuras de louça

loiça chinesa 
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o Deus da Guerra e typos da classe media abastada
vendedores ambulantes e idolo da invocação da entrada dos navios
um philosofo, um doutor, o criado de feiticeiro e o feiticeiro
um personagem importante, um mandarim e a esposa, um grupo de mandarins com suas esposas
um sapateiro, o freguez do sapateiro, assembleia de doutores presidida pelo feitiiceiro
um bonzo, oratorio, grupo de bonzos

A China é o phantastico paiz em que a louça tem alguma cousa de tão subtil, de tão precioso, que a propria Europa se curva, repudiando os Saxes e os Sèvres ante essas belleza que do Oriente vem. E como não se cança de apreciar essa louça chineza, em que ha trechos de paizagem contorcida, raros boccados de verdade, que aos olhos do europeu parecem prodigiosos, vae caindo no gosto do exotico, levada pela anciedade do inedito que os Goncourt souberam transportar em chinezices raras de estylo que geraram a corrente profundamente perturbadora da arte séria que a Europa ia seguindo.

As figuras chinezas são damas de olhos obliquos, um tanto vagas no azulado da porcellana, que teem vestes longas e sapatos minusculos, mal equilibradas na louça e na vida. Mas ha tanto de raro, de original e ao mesmo tempo de grave n´aquellas figurinhas que mais parecem estampadas que copiadas, que a Europa, farta das photographias quotidianamente cinematografadas, entrou a admirar, já saciada da brutalidade de todos os dias.

O chinez tem a psychologia de uma raça que tende conquistado uma civilisação a soube conservar n´uma muralha mais forte do que os diques que a occidental civilisação pespega em face dos mares. D’ahi, d´essa concentrada idéa, d´esse segredo fabuloso como o dos contos de fadas, saiu essa arte precisa, com alguma cousa de encantador e de vago que deu á louça chineza a soberba raridade ante a qual a Europa se amesquinha. Possuir a louça da China, apresentaI-a sobre o adamascado das toaIhas nas noites de festa, é prazer que na Europa caro se compra. Mas o chinez não é apenas o fazedor de bules, o criador das figuras phantasticas nos seus guardanapos de papel, o sonhador que, no meio das pequenas chinezas vestidas de seda, faz apparecer n´um rompante o dragão brutal que rabeia e é um idolo. N´elle ha o instincto da satyra mordaz, alguma cousa de subtil e de bello que o leva a desenhar os ridiculos d´esse imperio que os soberanos pretendem levar á Europa e que o proprio chinez nos envia nas figuras grotescas que a sua imaginação mais exagera.

Elle satyrisa a guerra, cobre de ridiculos d´esse imperio os ricos e os fortes: vae desde o vendilhão das ruas ao idolo da sua invocação, exactamente, guardadas as distancias, como Caran-d´ Ache e Foran fazem a critica boulevardeira com o seu lápis aparado, firme e delicioso. Na louça chineza veem satyrisados os altos personagens da côrte, os mandarins de botão de crystal e as suas esposas de pés delicados afeitos ao subtil sócco e ás branduras dos palanquins de cortinas de seda onde os dragões se espalmam. A propria sciencia é para o chinez motivo de esculptura; nada poupa ao seu desenho, colocando ao lado do medico o sapateiro, como a arte de curar um pouco se approxima da arte de calçar. Elle agarra no bonzo, no seu sacerdote, de tunica branca e ar grave, esquece os pagodes rendilhados, Confucio e os seis ceus, para apenas ter o prazer de esmaltar na fragilidade da sua ceramica tudo quanto ha na China de grande e de mesquinho, na soberba horrivel, transportando assim, em bibelots, os seus costumes, a sua raça, a sua civilização.

Ha uma velha lenda chineza que diz que nos velhos rios de Yang-te-Siang uma grande colonia de madreperola se fixara deixando que a translucidas aguas fossem como crystalinas vidraças para a sua eterna propagação. Essa lenda accrescenta que da madreperola mais gentil sahia uma mulher que com as suas mãos delicadas, foi tirando á propria construcção os elementos para gisar a primeira bandeja chineza. Da agua trouxe o azul, esse azul vago que seduz e encanta das lindas louças chinezas; dos coraes tirou o rubro com que coloriu as faces e tingiu os labios da primeira chineza que quiz reproduzir. Vestiu-a de nenuphares brancos, engrinaldou-a com a rara flôr do lotus e assim tendo esmaltado na madreperola o que se passava na sua phantasia, originou a primeira jarra exotica em que via o branco azulado da concha, a luz dourada do sol, o vermeIho carregado dos coraes que vivem no fundo dos rios tortuosos e baixos d´essa região do sonho.

Criada assim a louça, com a sua transparencia e com as suas figuras, ella foi segredo de seculares retiros onde os bonzos de mãos macias a preparavam no recato e no mysterio. Mas dentro em pouco, desvelado o segredo, atirado para a rua no empuxão forte das ambições, logo se foi a vulgarisar e o que até ahi era apenas arte logo se tornou em facil industria.

Os mercadores mahometanos que cruzavam os mares azues d´essa China legendaria trouxeram até á Europa os exotismos d´uma industria que seria dentro em pouco o maior provento da China. Dos simples pratos, dos chazeiros esphericos, das chavenas minusculas, passaram então a crear alguma cousa de menos util, mas de mais original: a reproducção de todos os costumes da China, transmittidos assim para a civilisação occidental. E nós que rimos em face dessas mulhersinhas de cara avermelhada, olhos em alongamento de amendoa, de cabellos presos no alto onde dois palitos de marfim se cruzam; nós que riamos deante d´esses labios tranquilos, mal esboçados na porcelana fina, nós que desdenhávamos da modesta e gentil flôr do chá estrelada nos bojudos jarrões, mal pensávamos que um dia d´essa industria utilitaria, sob o ponto de vista domestico, viria breve e resaltante toda uma arte reproductora dos seos costumes, das suas paizagens, dos seus idolos, dos seus cerimoniaes complicados e da sua fé no inconfundivel Deus chinez. Entraram então a dar, com attitudes, para nós exoticas, figuras esguelhadas em que ha, no emtanto, expressões que só quem as analysou de perto póde achar verdadeiras.

São sempre recuados os planos em que os guerreiros ageis despedem as suas setas e cortam o lar com as suas espadas recurvas e bem temperadas; são sempre mesquinhas as copias d´esses personagens que se agitam, se movem, trabalham ou apenas pousam como os feiticeiros, os cultivadores ou os idolos. O chinez desenhou-os assim porque assim os viu, talvez porque os seus olhos obliquos assi mostram a a paisagem, os seres, as cousas naquella pinitura já caracteristica na arte chineza. Mas é curioso como, nas suas miniaturas transportadas para a Europa nas louças preciosas e na figurinhas, nos acostumamos a amar os palanquins altos, as vestes bordadas, os dragões fortes, os bonzos graves, os estandartes franjados, os rostos curiosos e até os pendidos bigodes dos mandarins n´essas estatuetas onde elles souberam reproduzir o que a sua vista observou na vida oriental, nos costumes e até nos ritos que modelam, porque não raro nos idolos da sua invocação a mão aristocratica e catholica d´uma linda mulher europêa vae tocar quando levanta, nos seus dedos finos, a chavena por que bebe n´algum five ó clock tea de embaixada.

E poem n´isto os chinezes a sentida, hunanisada a seu modo, criam elles as figuras de vulto para que a Europa civilisada continue a chamar-lhes eternamente chinezices. Mas as figurinhas de louça, que os estatuarios chinezes fabricam, com o seu feitio particular, reproduzindo esculpturalmente os mesmos desenhos dos pratos e das chavenas, essas, com as suas fórmas originaes e o seu colorido vivo, são verdadeiras obras d´arte, - uma arte singular e exotica, sem duvida, que offerece aos nossos olhos uma impressão exquisita, seguramente, mas que os alegra e encanta, que os prende n´um requintado prazer espiritual inteiramente novo. Desde os mais altos personagens da hierarchia chineza até ao mendigo da rua, desde o feiticeiro até ao vendedor ambulante, desde o bonzo até ao cultivador e ao operario, tudo, todos os typos, todos os costumes foram reproduzidos pelos artistas chinezes com uma graça caracteristica, ás vezes uma evidente intenção caricatural espirituosissima.

E a imaginação do escultor, quando cria personagens fabulosos, a que concepções estranhas não ascende! Vejam, por exemplo, aquelle terrivel idolo da guerra, com as suas monstruosas armaduras, o seu ar terrivel, os seus olhos fuzilantes. Se póde conceber-se coisa mais pavorosa! E, ao mesmo tempo, não parece que o artista o afeiçoou com um pensamento irónico, que Ihe quer expressar no rosto qualquer geito de ameaça ridicula? Tal intuito denuncia-se de um modo flagrante até. Mas o gosto que faz vêr todas essas graciosas figurinhas de mulheres, com os seus rostos risonhos, os seus vestuarios originalissimos, os seus inevitaveis leques de papel!

E os bonzos, os ministros da religião chineza, com as suas physionomias satisfeitas, alguns de mãos postas – o mesmo gesto da imploração christã, - mas sem signal algum de extase ou commoção devota? O intuito satyrico do artista é claro em quasi todos os exemplares. A reunião dos doutores, a que o feiticeiro preside, não é menos expressiva, nem menos interessante. O esculptor enrugou as testas de todos, deu a todos um ar intellectual, mas em cada um com o seu feitio especial. Parece mesmo que os tratou com especial respeito, apesar de n´um ou n´outro rosto ser facil tambem aperceber um traço caricatural.

Todas, emfim, sem excepção, são figuras curiosas e interessantes, que gostamos de contemplar, que nos prendem a attenção, e essas pequenas esculpturas de louça, algumas attingindo tamanhos minusculos, suggerem nos a evocação de toda a vida particular d´esse mundo tão differente do nosso, nos habitos, nos costumes, nos sentimentos, que é o grande imperio do Meio. A serie de figuras que hoje apresentamos aos nossos leitores, a quem os recentes acontecimentos de Macau, tem naturalmente attrahido o interesse para as coisas da China, pertencem à collecção que possue a Sociedade de Geographia de Lisboa, e que bem vale ser vista, pelo valioso documento ethnographico que constitue, e ainda pela sua incontestavel curiosidade artistica. As nossas photographias dão uma idéa já do que, sob ambos esses pontos de vista, vale a collecção da Sociedade de Geographia de Lisboa, e por isso estamos certos de que despertarão o interesse dos nossos leitores. Mas, merece bem a pena ir vêr as proprias figurinhas de louça, fabricadas pelos ceramistas chinezes, que são de uma graça e um encanto sui generis.

Illustração Portugueza de 11 de Janeiro de 1909

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