A captura dos piratas do Namoa

Li, mandarim de primeira classe, presidente do ministerio de guerra, e Vice-Rei dos dois Quangs por Sua Magestade Imperial da dynastia Ta-tsing.
Ao Ex.mo Sr. Custodio Miguel de Borja, governador de Macau e Timor.
Recebi o officio de V. Ex.ª dizendo que em additamento aos seus officios sobre a captura dos piratas de Namoa tinha a honra de me communicar que em virtude das ordens por V. Ex.ª dadas e devido a grande actividade da policia maritima de Macau, conseguiu-se aprisionar uma embarcação com a familia d’um dos indigitados criminosos do vapor Namoa por nome Ho-Fat-To; que soube-se que este estava refugiado na ilha de Man-san pelo que foi communicado este facto ás auctoridades chinezas de Chin-san, ordenando V. Ex.ª ás suas auctoridades que se prestasse todo o auxilio; e que consta que, devido a isso, se effectuára já a prisão do referido Ho-Fat-To; e diz mais V. Ex.ª que pelo que ficava exposto poderia eu avaliar quanto tinha V. Ex.ª diligenciado auxiliar os esforços que se têem feito para perseguir e prender os piratas por mim indicados, dando assim uma prova bem evidente do desejo que V. Ex.ª nutre de estreitar as nossas boas relações.
Fico sciente do contheudo do officio.
É verdade que a respeito dos piratas de Namoa, muitos d’elles foram presos em consequencia de diligencias ordenadas por V. Ex.ª, e folgo de vêr que além d’isso V. Ex.ª mandou prestar toda a coadjuvação ás auctoridades chinezas para effectuar a captura de Ho-Fat-To, o que demonstra claramente as intenções amigaveis de V. Ex.ª e o desejo sincero de coadjuvar para reprimir os malfeitores, os quaes, tendo esta noticia, hão de certamente retrahir-se, de modo que os negociantes poderão ter paz e segurança.
Estou muito penhorado pelo que V. Ex.ª tem feito, e, accusando agora a recepção do seu officio, desejo-lhe prosperidades.
20 da 1ª lua do anno 17.° de Kuang-su, 28 de fevereiro de 1891.
Traduzido por mim. - Macau, Repartição do expediente sinico, 6 de março de 1891.- Pedro Nolasco da Silva, 1º interprete.

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 12 de Março de 1891

3ª Repartição. N° 48

Sendo em grande parte devida ao zeloso e intelligente serviço da policia maritima do porto de Macau a captura de varios piratas que haviam assassinado o commandante e varios passageiros do vapor ingles Namoa, e se tinham apossado de importantes valores a bordo do dito vapor; Manda Sua Magestade El-Rei, pela secretaria d’estado dos negocios da marinha e ultramar que em seu Real Nome sejam louvados, pela energia, coragem e habilidade com que se houveram na diligencia de que foram encarregados o chefe de secção, Bellino Sergio Rodrigues, o cabo nº 2, Evandro Pereira, o loucane Leong-Sam-Fai, e bem assim as praças do corpo de policia que concorreram para o bom resultado d´aquella diligencia.
Paço. Em 26 de maio de 1891, Julio M. de Vilhena.

Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 9 de Julho de 1891



A 10 de dezembro de 1890, o navio Namoa, que duas vezes por mês transportava mercadorias e passageiros entre Hong Kong e Shantou, foi tomado de assalto por piratas. A bordo encontravam-se 5 passageiros europeus, 250 emigrantes que regressavam de S. Francisco e outros de Malaca com todas as suas poupanças e, durante a hora do almoço, alguns dos passageiros, disfarçados de soldados e outros que se encontravam em juncos, uns quarenta ou cinquenta piratas, diz-se, armados até aos dentes com armas de fogo e catanas, começaram a disparar vários tiros no convés e, repentinamente, dominaram todo o navio, apoderando-se das suas armas e munições. Morreu o capitão e um dinamarquês da tripulação, um passageiro malaio que foi atirado ao mar e outro que veio a falecer no hospital e foram feridos os 2 cozinheiros chineses e vários passageiros. 

Foram roubadas jóias, relógios, dinheiro e outros objectos de valor, sendo saqueadas as cabines e desviado o navio para a ilha de Ping Hoi, onde, ao que parece, se fixava o covil dos piratas. Só na manhã do dia seguinte abandonaram o navio que pode, assim, voltar a Honk Kong, onde a notícia, com todos os detalhes, encheu as páginas dos jornais.

Em Cantão, ao almirante chinês Yao Fong (ou Fong Yu) foi atribuída a missão de capturar os implicados e, com a intervenção das autoridades portuguesas que capturaram Mau Lau Yune (ou Mau Ayune ou, ainda, Paul Lau Yune), o cabecilha, foram detidos 23 suspeitos. Mau Lau Yune suicidou-se na sua cela com veneno e o seu irmão, Ho Fat To ou Ho Fat Cheong, quando capturado no porto interior, tinha escondido na popa do seu barco muito dinheiro e muitos dos objectos roubados. 

Os jornais de Hong Kong dizem que os piratas capturados em Macau não figuraram entre os condenados à morte pelo tribunal de Cantão, em Abril de 1891. Oito, incluindo Chun Yin Fuk, identificado como o que baleou o capitão, tinham participado no ataque; outros oito estavam a bordo dos juncos que fizeram a abordagem ao navio e um outro foi considerado o financiador da operação. Foram decapitados com outros condenados por pirataria, conforme se poderia ler nas cangas que traziam penduradas ao pescoço. 

O tribunal britânico não realizou o julgamento porque o crime não ocorrera em Hong Kong e porque, de acordo com os (então recentes) tratados sino-britânicos, os súbditos de cada uma das monarquias seriam julgados, em caso de crime, pelos tribunais do seu país, comprometendo-se as partes a cooperar com a extradição de suspeitos. E assim, um pelotão de soldados chineses, comandados pelo coronel Leung Tuow, acompanhado por um magistrado local e um carrasco com dois assistentes, executaram a sentença de morte por decapitação, tendo assistido jornalistas dos principais diários de Hong Kong que publicaram as imagens e tudo relataram ao pormenor. 

Os britânicos que constam das fotografias foram descritos como pertencendo à alfândega marítima imperial e é por aparecerem europeus nas imagens que, ainda hoje, muita tinta vai correndo, mostrando-se indignados certos chineses com o que dizem ser a justiça colonialista. A verdade, porém, é outra. 

E indignados ficaram na época os europeus com as imagens que aqui vemos e que se tornaram muito conhecidas porque serviram para se imprimir postais, ilustrar jornais e livros de viagens, e para mostrar ao mundo a crueldade chinesa (dos piratas e da justiça), sendo mais umas das muitas imagens que, aproveitando a chegada à China da impressão fotolitográfica, revelaram os usos e costumes chineses de uma forma tão realista que não dava azo a qualquer contestação pelo impacto incomparável com as descrições dos residentes e viajantes. E inevitavelmente serviram para sustentar o discurso orientalista.

Execução dos piratas do Namoa em Kowloon a 11 de Maio de 1891
Au pays des Pagodes de A. Raquez
Piratas do Namoa Execução piratas do Namoa

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