Europeus portuguezes
Este grupo é constituido principalmente pelos funccionarios publicos, civis e militares, podendo aggregar-se-lhes alguns, mas pouquissimos, negociantes. Estes elementos formam, por assim dizer, uma sociedade á parte; vivem uns com outros e conservam em geral, quasi todos os hábitos pátrios, com pequenas differenças, absolutamente impostas pelas condições do clima, etc, etc.
A cozinha é pouco mais ou menos a que temos por cá; o vestuario pouco varia, a não ser no verão, em que se usam fatos brancos. Os homens passam as noites no club, ou no gremio militar, sociedades onde ha bilhares e partidas de jogo de vasa, cavaco, jornaes, e terraços para se tomar o fresco no estio. Hoje ha reunião em casa d´este, amanhã d'aquelle; de quando em quando, organisam-se diversões e merendas no campo, caçadas, etc, etc.; aos domingos toca a musica da guarda policial no passeio publico, etc, etc.
Bastantes dos funccionarios públicos são convidados para casa dos macaistas e vão a festas, casamentos ou banquetes, dados pelos chins ricos. Os creados que nos servem são todos chinas, tornando-se difficil ao europeu obter creados, mas arranjando-se em compensação, bons cozinheiros e espertos ataes (rapazitos), que remedeiam perfeitamente. A necessidade de lidar com serviçaes chinezes obriga a dizer algumas palavras em china, quando elles não fallam portuguez. Eis as principaes cousas que é preciso aprender:
Conclusão - Uma vez que acabámos de esboçar a traços largos os característicos dos habitantes de Macau, parece lógico que fechemos o trabalho por uma rápida vista de olhos sobre o conjuncto da cidade, que serve de theatro e albergue a todas estas manifestações de vida e tem permittido a perpetuação dos costumes e tradições a que nos referimos.
A cidade do Santo Nome de Deus é de um accidentado, que torna pittoresca a sua topographia; cingida entre a rada e o porto interior, e ligada á terra firme por um del- gado isthmo, logra desfructar das eminências panoramas variados, ora aprazíveis, ora grandiosos. (…)
Se os acontecimentos, a fabrica de casas, a construcção de ruas e os limites antigos estremam Macau em cidade christã e bazar, não é menos certo que a labuta da vida, o transito, os pregões, as lojas, etc, etc, imprimem tambem cunho diversissimo ás duas partes heterogeneas da população. Concedamos mesmo que haja um campo neutro, representado pela confluencia das primeiras arterias do bazar com as vias publicas limitrophes da area christã, ainda assim, não poderemos deixar de ver extremados os dois burgos. Aqui teremos todos os topicos de uma antiga povoação portugueza, com as suas casas alvas, passeio publico, calçadas e calçadinhas, igrejas typicas e repiques de sinos; acolá um pequeno Cantão, onde avulta o commercio, se põem em evidencia panchões, papeis encarnados, bambus, letreiros exoticos e balões de illuminação.
Na cidade christã, a placidez dos habitos portuguezes, porventura ostentosos por fora, todavia pautados pela suave apparencia do viver de familia; no ambito do bazar, o movimento, o ruido, a azafama e o tumultuar de ambições, escondendo muita miseria e ignominia. E eis, em resumo, as duas feições de Macau.
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897
Apresentou-se-me hoje um filho do antigo general de engenheiros, Azevedo e Cunha, que vive em Macau ha longos annos. É sympathico este moço e parece intelligente, mas está prematuramente gasto e envelhecido, e a sua longa permanencia na China tem-lhe feito adquirir habitos puramente chinezes, fallando já correctamente o chinez, e trajando como um verdadeiro filho do Celeste Imperio. (…)
Depois de haver visitado diversos estabelecimentos chins, achando-me já fatigado e sob a impressão de um calor tropical, que me trazia offegante e em um completo banho de suor, voltei ao hotel para, á hora conveniente, me dirigir ao palacio do governo. O jantar, a que assistiram duas damas e oito a dez convidados, correu deleitosamente, tendo tido mais uma vez occasião de apreciar a distincção e a delicadeza com que o governador fazia as honras da casa. (…) De entre os cavalheiros que me foram apresentados deverei especialisar o consul de Hespanha, D. Enrico Gaspar, litterato distincto e espirito vivo, gracioso e fino; o tenente Talone, official da armada, tão intelligente como modesto; o tenente Bento da França, filho do mallogrado e sympathico official do corpo do estado maior, Salvador da França. Estes foram convivas ao jantar, e fazem parte da sociedade mais intima e dilecta do governador. (…)
Nas horas vagas dos meus trabalhos procurava os cavalheiros que me haviam cumprimentado, e acceitava os jantares com que me obsequiavam. Eram jantares familiares muito agradaveis, mas que me contrariavam por me fazerem alterar o meu proposito de viver isolado. Jantares bem servidos, com a cozinha genuinamente portugueza, e de uma abundancia de assustar um frade. Todavia, esses jantares poupavam-me as horas amarguradas do meu hotel, onde me via completamente só e isolado. (…)
No club chinez, onde entrámos, fomos recebidos com todas as demonstrações de consideração e amabilidade pela fina sociedade chineza de Macau, que o frequenta. Ali se joga, toma chá, fuma-se opio e trata-se de negocios. Alguns d´estes homens têem maneiras distinctas e physionomias sympathicas e intelligentes. (...)
No largo do Senado. O largo em que está este edificio é pequeno e triangular, ficando-Ihe proximo e nas trazeiras da rua dos Mercadores o mercado da cidade. (…) a agua e a lama corre por toda a parte; e, comtudo, a concorrencia é enorme, o bulício de ensurdecer, e a abundancia e a variedade de objectos à venda extraordinaria, muito especialmente peixes, vivos, mortos, seccos ou salgados, das mais variadas e exquisitas fórmas, cores e feitios.
No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896


Sem comentários:
Enviar um comentário