O tabaco e o ópio entre os chineses

Hedda Morrison Hedda Morrison Hedda Morrison
Hedda Morrison. China, 1933-46

Os chinas são acoimados pelos europeus de extremamente viciosos e, em verdade, têem uma grande tendencia para adquirir habitos surperfluos ou depravados; todavia não devemos julgal-os em abstracto; taes vicios têem-se enraizado mais em consequencia de factos alheios áquello povo. Assim a mentira, a deslealdade e a hypocrisia, são filhas n'elles de causas puramente históricas; significam, para assim dizer, o unico desforço que elles podem tirar, como povo essencialmente pacifico, da invasão dos tartaros e do assedio dos europeus aos seus portos de commercio.

Deve notar-se que os primeiros escriptos sobre a China não apontam a existencia de taes e tão grandes defeitos. A Hespanha, para alargar o consumo dos seus tabacos, tornou-os fumadores; vem a Inglaterra, impellida pela sua ganancia commercial, declara-lhes uma guerra para introduzir o opio no Celeste Imperio; Portugal, com vergonha o dizemos, faz de Macau a Mónaco do oriente!! O que ha de fazer o povo chinez, que, como bom oriental, é propenso aos gosos dos sentidos, se os seus governos o abandonam á lucta pela existencia sem protecção, nem guia, escravisando-o a mercê do seu egoista systema, se na familia não ha aconchego, mutualidade de affectivos sentimentos?! Lastimemol-o antes de o censurar. (...)

Toda a população de Macau, homens, mulheres e creanças, fuma cachimbo. Usam as mulheres, na maioria, um cachimbo de metal, em cuja parte inferior ha um deposito de agua, através do qual passa o fumo; as de baixa classe fumam cigarros e as velhas grandes cachimbos de madeira ou bambu, que lhes servem accumulativamente de bordões para se apoiarem. 

Os homens abastados fumam em cachimbos luxuosos, mas os trabalhadores apresentam-nos ainda maiores variedades em apparelhos de bambu; ha cachimbos muito compridos, outros muito curtos; estes de pipo de pequeno diametro, aquelles avantajadissimos n'esta parte, etc, etc.

Costumam trazer o cachimbo á cintura, preso do cordão com que apertam os calções, ou na cabeça, enrolado com o rabicho. As mortalhas não entraram ainda na circulação para os chins; empregam papel commum nos cigarros, que se compram baratissimos; são mulheres e creanças que se occupam em os fazer e que os vendem pelas ruas. (...) 

O funesto vicio do opio, que ataca todas as classes da sociedade chineza, tem alastrado tambem em Macau, onde constitue importante ramo de commercio. Conhecem-se facilmente os fumadores de opio. São magros, amarellecidos, de aspecto doentio, de movimentos lentos; arrastam as pernas para andar; a cara escaveirada apresenta-nos os pomolos salientes, os labios lividos e os olhos brilhantes, como os dos febricitantes; perdem o appetite, manifestando particular preferencia pelos doces. O opio produz a perda da memoria e a suspensão das funcções cerebraes. A tudo isto acresce o seu elevado preço.

O jornal de dois ou tres dias de um operario dá-lhe apenas para fumar opio uma só vez. D'aqui á fome em casa pouco vae. Esta droga fuma-se por um tubo de bambu de uns dois decimetros de comprido, o qual terá de diametro a decima parte, quando muito; um dos topos é fechado e no outro ha um orificio. Junto ao extremo fechado existe uma abertura no tubo destinada a receber e sustentar o deposito para o opio. Este deposito é formado por um cylindro de metal, de barro ou porcellana, de pequenas dimensões, de sorte que a pasta de opio que póde conter é diminuta. 

O fumador deita-se n'uma espécie de tarimba e ao lado da cabeceira põe uma lamparina alimentada por azeite de coco. As operações para fumar são as seguintes: com um arame péga-se num pedaço de opio viscoso que se agarra pelo contacto, chega-se á lampada até que a pasta de negra passe a avermelhada, depois com o auxilio do mesmo arame deita-se a droga dentro do deposito do cachimbo, que se approxima do lume, aspirando-se sempre o fumo que exhala.

Os negociantes, que têem este desgraçado vicio, precisam de ser estimulados pelo fumo para que possam tratar dos seus negocios. 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Sem comentários: