O comité interparlamentar de Hain-You-Kia

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913 

Recebemos a visita do sr. Hain-You-Kia, jornalista chinez, que anda pela Europa no patriotico empenho de interessar pela sua joven republica os intellectuaes do velho mundo. Pensa o sr. Hain-You-Kia em organisar aqui um comité interparIamentar, analogo ao que organisou e está funccionando em Paris, e a nós parece-nos que a sua tarefa será extremamente facil. Agradecendo a amabilidade da visita, apresentamos ao íllustre hospede os nossos cumprimentos. (Da Lucta). 

O sr. Hain-You-Kia trazia na relação dos intellectuaes do velho mundo, o nome do sr. Brito Camacho, e assim que chegou a Lisboa dirigiu-se á redacção da Lucta em procura do chefe do partido unionista. O illustre chinez subiu ao primeiro andar e quando estava hesitando por qual das portas do sumptuoso palacio deveria entrar em busca do director d’aquelle sympathico diario, vendo um homenzinho encostado ao corrimão, descuidadamente catando o peito pela abertura da camisa, dirigiu-se-lhe pedindo obsequioso:
- Diz-me onde está o sr. Kiamatchum?

O eminente catador parou um momento na sua tarefa e, olhando mal humorado o seu interlocutor, retorquiu:
- E o que é que o cidadão lhe quer?
- Trago aqui o nome d’elle apontado como sendo um intellectual e desejava ouvil-o. Disseram-me lá fora que o sr. Kiamatchum é pessôa de grandes bases scientificas...
- Scientificas, scientiticas, não direi... Mas... Olhe, faça favor d´entrar.

O sr. Hain-You-Kia, acompanhado pelo seu guia, entrou n’um gabinete pequeno, onde grandes montes de livros e jornaes se encontravam adornando o chão.
- Obsequeie-me então chamando o sr. Kiamatchum, sim?
- O ... elle... Sou eu... Eu é que sou o Camacho...
- Oh!... Mas... Estava longe de suppôr..!
- Nada d’incommodos, senhor... Como é a sua graça?
- A minha quê?
- O seu nome … a alcunhasinha por que o cidadão é conhecido?
- Ah! Eu sou o Hain-You-Kia, jornalista chinez.
- Muito gosto, muito gosto em conhecer o colega. Pois faz favor de se sentar e pôr-se á sua vontade. Nada de cerimonias… arróte, cuspa … emfim o que lhe apetecer …
- Oh! Mas quem pensa o senhor que eu sou?
- Ora essa! Então os senhores na China não arrotam? Nem cospem? Nem … Pois olhe eu acho uma maçada estar constrangido. Com sua licença, sim? — e o eminente director da Lucta desabotoou o ultimo botão do colete e soluçou forte.

O jornalista chinez voltou disfarçadamente o rosto para o lado e logo que recuperou a serenidade necessaria declarou:
- Pois sr. Kiamatchum, eu vinha para…
- Para se inscrever na União, não é verdade? Com muito prazer. Já não é o primeiro chinez que cá tenho. Pois vem em excellente occasião porque nós estamos á bica do poder...
- Perdão, o fim da minha visita é outro... Desejava…
- Uma assignaturasinha da Lucta? Tambem serve. Um anno? Seis mezes? Provavelmente quer collecionar o folhetim do D. Quichote? Aqui para nós que ninguem nos ouve, a ideia do folhetim foi por piada ao Affonso...
- V. ex.ª está equivocado. A minha missão é differente... Queria conhecer...
- O João de Menezes, aposto? Olhe meu amigo, eu vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Aquelle pequeno foi durante muito tempo a minha esperança. Tinha-me habituado a elle quando era novo e, francamente, por mais desanimado que me encontrasse, o João tinha sempre forma de me dár energia. Mas ultimamente, desde que começou com o hysterismo…
- Repito que v. ex.ª está equivocado. Eu venho por causa do comité interparlamentar…
- Ah agora, entendo! Mas é justamente essa a minha especialidade. Olhe, para lh’o provar basta ver como eu manobro com o Affonso nas camaras. Provavelmente o amigo quer arranjar assim um combalachosinho lá na China e vem para eu lhe explicar...
- Ainda não é isso. Ora escute-me o sr. Kianiatchum um instante apenas. O meu desejo é de organisar hum comité como está funccionando em Paris...
- Paris! Paris! Ah! Meu caro collega, que recordações essa palavra veiu invocar no meu espírito?! Paris! Foi lá que eu soube o que era a vida, a verdadeira vida vista por todos os lados! Emfim, toda a medalha tem reverso, e a minha tem o reverso já bastante cheio de desilusões!... Perdõe, collega, perdõe este desabafo e continue... - e o sr. Camacho, vivamente comovido, limpou o nariz á manga do casaco.
- Em duas palavras exponho o resto. Esse comité tem por fim o estreitamento de relações entre a China e a Europa, e para conseguirmos esse desideratum muito util nos será que os intellectuaes do velho mundo, como v.ex.ª...
- Perdão, sr. Hain-You-Kia. Vejo que se enganou. Eu não sou do Mundo, sou da Lucta e nada quero com aquelles cavalheiros. Comprehende que depois do que se tem passado entre mim e o Borges …
- O Borges?! Não conheço…! Não sei…
- Pois não me fallou nos intellectuaes do Mundo? Intellectuaes?! Mas certamente é porque o meu amigo os não conhece! Olhe que são burríssimos…
- Ha certamente um novo equivoco. Eu refiro-me aos intellectuaes europeus...
- Ah! Ora... eu pensava... Pois ainda bem, porque então não tinhamos nada feito. É então um comité para estreitar relações com a China?
- Isso mesmo.
- Mas é extremamente facil...
- Tem então este paiz muitos intellectuaes?
- Este paiz é modo de dizer. A republica, o partido republicano, esse sim. Creio mesmo que não ha outro egual em toda a Europa. 
- Queira então ter a bondade de me indicar alguns, sim?
- Ora essa. Olhe, aponte lá já d’entrada esta meia duzia: Rodrigo Rodrigues, Nunes da Matta, Gastão Rodrigues, Celorico Gil, Thomaz da Fonseca, Souza Junior...

Minutos depois o Sr. Hain-You-Kia retirou-se da redacção da Lucta e no dia seguinte dirigiu-se ao ministerio do Interior a continuar a sua tarefa, conforme o apontamento fornecido pelo Sr. Brito Camacho.

Mas o Sr. Rodrigo Rodrigues pediu ao illustre chinez que esperasse um pouco emquanto elle attendia â correspondencia verbal e... o Sr. Kia fugiu espavorido n’essa mesma tarde, no Sud-Express, anotando na sua carteira:
- Ouvi dois e chegou-me para ficar perfeitamente inteirado.

O Thalassa, semanario humoristico e de caricaturas, 24 de Abril de 1913

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