As acusações que Lapérouse faz aos chineses, de nos cobrirem de injúrias justificadas pela fraqueza do governo português de Macau, não será completamente conforme a verdade. Por dentro de uma atitude há uma razão mais forte. Os portugueses foram em Macau hóspedes muito bem adaptados às leis da convivência, que não era, positivamente, feita de lições de honra. A corrupção era e é uma forma de linguagem. Com ela se ultrapassaram regras e se consolidaram acordos. Além disso, uma confiança feita na meia delinquência da cumplicidade é forte como o aço. Ela leva os homens a ser mais amigos do que se fossem unidos por laços de sangue.
A Quinta Essência de Agustina Bessa-Luís. 1999
Panorâmica de Macau na China.
Desenho de Duché de Vanchy
da 1ª ediçao da Voyage de La Pérouse autour du monde
Os chineses que nos guiaram ate frente a Macau recusaram-se a conduzir-nos ao ancoradouro da Typa (...); soubemos que se eles tivessem sido avisados, o mandarim de Macau ter-lhes-ia exigido a cada um deles metade da quantia que tinham recebido. Estes tipos de contribuição são de uma forma geral precedidos de várias pauladas; este povo cujas leis são tão gabadas na Europa, é talvez o mais infeliz, o mais humilhado e o mais arbitrariamente governado que há na Terra, se, contudo, se julgar o governo chinês pelo despotismo do mandarim de Macau. (…)
Mandei a terra um bote comandado pelo Sr. Boutin para avisar o Governador da nossa chegada e anunciar-lhe que pretendíamos fazer uma estada na rada a fim de nos refrescarmos e dar descanso às nossas tripulações. O Sr Bernardo Aleixo de Lemos, Governador de Macau, recebeu este oficial da maneira mais cordial possível (…). Ancorámos ao lado de um navio da marinha francesa (…).
O Sr. De Lemos recebeu-nos como compatriotas; todas as autorizações foram concedidas com uma honestidade que não há expressões para descrever; ofereceu-nos a sua casa; e como ele não falava francês, a sua esposa, jovem portuguesa de Lisboa, servia-lhe de intérprete; acrescentava às respostas do seu marido, uma graça e uma amabilidade muito próprias, e que os viajantes só muito raramente encontram nas principais cidades da Europa.
Dona Maria de Saldanha tinha casado com o Sr. De Lemos em Goa havia doze anos e eu tinha chegado a esta cidade (…) pouco tempo depois do seu casamento: ela teve a bondade de me recordar este acontecimento que estava muito presente na minha memória (…), chamando de seguida todos os seus filhos (…). Em parte alguma do mundo se me ofereceu um retrato tão encantador; as mais belas crianças rodeavam e abraçavam a mais encantadora mãe; e a bondade e a meiguice desta mãe espalhava-se por tudo quanto a rodeava. (…)
Como se está tão distante da China em Macau como na Europa, pela extrema dificuldade em penetrar neste Império (…) limitar-me-ei a descrever o relacionamento dos europeus com os chineses, a extrema humilhação que eles sofrem, a fraca protecção que podem receber da presença dos portugueses na costa chinesa, a importância, finalmente, que poderia ter a cidade de Macau para uma nação que se conduzisse com justiça, mas também com firmeza e dignidade, contra o talvez mais injusto, mais opressor e, ao mesmo tempo, mais cobarde governo que existe no mundo. (…) Não se bebe na Europa uma chávena de chá que não tenha custado uma humilhação aos que o compraram em Cantão, que o embarcaram, e navegaram metade do globo para trazer esta folha aos nossos mercados. (…)
Os portugueses têm ainda mais razões de queixa dos chineses do que qualquer outro povo; sabemos a que título respeitável eles possuem Macau. A dádiva do estabelecimento desta cidade é um monumento do reconhecimento do imperador Camhy; ela foi dada aos portugueses por terem destruído, nas ilhas em redor de Cantão, os piratas que infestavam os mares e devastavam toda a costa da china. (…) Cada dia os chineses fazem-lhes novas injúrias, a cada instante anunciam novas pretensões; o governo português nunca ofereceu a mínima resistência e, este lugar, onde uma nação europeia que tivesse um pouco de energia, se imporia ao Imperador da China, mais não é que uma cidade chinesa, na qual os portugueses sofrem, apesar de terem o direito incontestável de aí mandar e os meios para se fazerem temer se mantivessem apenas uma guarnição militar de dois mil europeus, com duas fragatas, algumas corvetas e uma galeota armada. (…)
A população inteira de Macau pode ser estimada em vinte mil almas, das quais cem portugueses por nascimento (reinóis?), dois mil mestiços ou portugueses indianos; idêntico número de escravos cafres que lhes servem de criados; o restante é chinês e ocupa-se do comércio e em diversas profissões o que torna estes mesmos portugueses tributários da sua indústria. Estes, embora quase todos mulatos, julgar-se-iam desonrados se exercessem algum ofício macânico e assim sustentassem a sua família; mas o seu amor-próprio não se revolta por solicitarem constante e importunamente a caridade dos trauseuntes.
O Vice-rei de Goa nomeia todos os cargos civis e militares de Macau (…); os soldados estão armados de bastões, o oficial é o único com o direito a ter uma espada, mas em caso algum a pode usar contra um chinês. Se um ladrão desta nação for surpreendido a arrombar uma porta, ou a tirar algum bem, é necessário prendê-lo com a maior precaução; e se o soldado, ao defender-se do ladrão, tem a infelicidade de o matar, é entregue ao Governador chinês e enforcado no meio da praça do mercado, na presença da guarda à qual ele pertencia, de um magistrado português e de dois mandarins chineses que, depois da execução, são saudados com uma salva de canhão ao sairem da cidade, tal como o foram quando entraram: mas se, ao contrário, um chinês mata um português, é entregue aos juízes da sua nação, que depois de o terem espoliado, fingem cumprir com as formalidades da justiça mas deixam-no evadir-se, muito indiferentes às reclamações que lhes são dirigidas e que nunca mais darão lugar a qualquer satisfação.
Os portugueses fizeram, nos últimos tempos, uma demonstração de força que ficará gravada no bronze dos registos do Senado. Um cipaio, que tinha morto um chinês, foi mandado fuzilar por eles, na presença dos mandarins, e recusaram-se a submeter a decisão deste caso ao julgamento dos chineses. (…)
O aspecto da cidade é muito interessante. Da sua antiga opulência restam várias belas casas alugadas aos sobrecargas das diferentes companhias, que são forçados a passar o Inverno em Macau uma vez que os chineses os obrigam a deixarem Cantão assim que o último navio do seu país parte, só podendo regressar na monção seguinte, com os navios que chegam da Europa.
A estada em Macau é muito agradável durante o Inverno porque os sobrecargas são, em geral, distintos, muito instruídos e têm um rendimento considerável para sustentar uma casa excelente.
Le Voyage de La Pérouse, 1785-1788. Jean François Galaup, Conde de Lapérouse (tradução de Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Viagem por Macau, Vol I. 2014)

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