Macau n´um livro escripto em lingua sueca

Macau A Gruta de Camões
Camões em Macau
Como sei que o meu illustre amigo muito se interessa por tudo que diz respeito ao Oriente, e é verdadeiro enthusiasta por tudo quanto se refere á nossa bella colónia de Macau, venho falar-lhe de um livro que V. talvez desconheça, e que o acaso me deparou. Estando eu na livraria Pereira da Silva, da rua dos Retrozeiros, onde tenho o prazer de me encontrar com V. amiudadas vezes, alli me veiu ás mãos um livro escripto em lingua sueca, sem frontispicio e tendo na lombada o distico: Museum Utgifvet af Mellinoch Thomson e que por curiosidade adquiri. Contem este livro uma muito interessante collecção de monographias universaes, tendo algumas d'ellas por assumpto descripções de Lisboa e Macau, acompanhadas, além d outras, de três estampas que representam a cidade de Macau, a gruta de Camões e o retrato do nosso grande épico em corpo inteiro, de pé e junto á gruta. (…) Como possuo quasi todos estes exemplares, foi com grande satisfação que juntei á minha collecção o livro Museum, cuja traducção da referencia á obra do nosso Poeta, lhe envio para V. fazer o uso que entender. Com um aperto de mão, e com a maior consideração e estima, e mil agradecimentos por todos os obséquios por V. dispensados, creia-me De V., etc,
Luis do Rego B. da Fonseca Magalhães da Costa e Silva.

Traducção. 

Camões em MacauA estampa 195 representa a vista de Macau com o convento da Guia e fortaleza, assim como com o palacio episcopal n'uma das alturas. A cidade estende-se em semi-circulo, em volta duma bahia regular.

Encontram-se nella muitas egrejas e conventos. Não se pode vêr sem commoção, na egreja de S. Paulo, a sepultura que ainda ahi se conserva da joven russa, a qual n'ella descança, depois de ter seguido o audaz aventureiro conde Beniowski na sua fuga das prisões de Petropawlowski. Morreu ella de dôr, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificara patria e familia era casado (estas tristes aventuras são bem conhecidas até em toda a Suecia, para que tenhamos necessidade de n'ellas insistir).

Mas em Macau encontra-se ainda outra coisa digna de vêr-se, que desperta grandes recordações. No alto d'um rochedo existe um terraço coberto, do qual se gosa uma esplendida vista sobre Macau inteiro e a sua enseada coalhada de innumeraveis barcos. N'esse rochedo está escavada uma gruta. Junto d'ella vê-se um banco de pedra e alguns arbustos. É com commoção que ficámos sabendo ter ahi terminado o maior poeta de Portugal, Camões, a sua obra prima os Lusíadas (a mesma estampa). O nobre portuguez, inspirado pelo romantico cavalheirismo do seu tempo e pela fé piedosa, reuniu na sua epopeia os ensinamentos do christianismo e as figuras da mythologia, cantando a nova e maravilhosa natureza, que a coragem dos seus conterraneos lhe tinha feito conhecer. Foi um altivo sentimento de confiança na immortalidade da sua obra, que lhe fez palpitar o peito quando elle naufragou n'aquellas costas e abandonar tudo quanto possuia ás vagas, com excepção do manuscripto dos Lusiadas, ainda incompleto. Salvou-se a nado, levando a sua obra levantada sobre a agua.

Ainda que elle morreu mais tarde pobre e abandonado na sua patria, foi elle o mais distincto europeu que visitou esta terra. Damos (estampa 37) um esquisso do bello quadro de Gérard, representando o grande poeta no acto de compor o final da sua obra. O professor Forssel reproduziu o mesrno quadro n'uma explendida gravura digna do seu afamado buril
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Ta-ssi-yang-kuo, Archivos e annaes do extremo oriente portuguez, Série II. Vol III

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