

Langdon Warner 1923-24
Biblioteca de Harvard
Arribado na década de cinquenta à então província ultramarina de Macau, fui de imediato conquistado pela cidade, pela sua maneira de viver e, principalmente, pela sua gente. Fadado (ou condenado), pela sorte ou pela geopolítica, a cadinho de culturas e etnias, o minúsculo enclave acabou por ser um porto de abrigo para gentes de mundos vários que aqui vieram parar por desvairadas razões: espírito de aventura e ambição pelo lucro fácil, refúgio às convulsões político-sociais da região e à loucura de uma guerra que lançara o mundo em fogo, evasão a problemas pessoais ou familiares ou inútil fuga aos demónios próprios de cada um. Ou, mais prosaicamente, por motivo de uma transferência administrativa decidida em algum poeirento gabinete do Ministério do Ultramar, sob as arcadas pombalinas do Terreiro do Paço. Foi o meu caso.
E assim foi que me vim a encontrar neste pequeno mundo de gente que me fascinou: a população chinesa fervilhante e laboriosa, refugiada numa cultura milenária (a meus olhos, ingénuos e ainda pouco tolerantes, impenetrável e algo barbárica), que ainda nessa época não cedia a valores ocidentais, a comunidade macaense, decaída de riqueza mas continuando a exibir uma certa prodigalidade e ostentação fidalga de outros melhores tempos, a minúscula comunidade de portugueses metropolitanos um tanto arrogantes na sua pseudo-pureza ariana e na posição funcional administrativa, e os demais elementos de tantas outras nacionaliades, etnias e culturas que, pelos azares da vida, tinham vindo aportar a Macau.
Duas palavras a jeito de prefácio em Requiem por Irina Ostrakoff de Rodrigo Leal de Carvalho. 1993
Sem comentários:
Enviar um comentário