Lin Fong, um dos principaes templos

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Saí logo de madrugada para as Portas do Cerco. De entre os templos da religião chineza em Macau é o d’este logar um dos principaes. Levanta-se em um grande adro, cercado por uma vedação de cantaria, onde se ostentam umas velhas arvores. O edificio, que tem accesso por uma escada de cantaria bem lançada, guardada de cada lado por um dragão de pedra, apresenta o typo caracteristico da architectura chineza, e tem entrada por tres portas, formando-lhe a fachada tres corpos, dos quaes o do centro é mais elevado. Animaes phantasticos e monstros impossiveis, estão alastrados pelas paredes, em estuques ou pinturas, e grande numero de tábuas vermelhas têem escriptas, em caracteres chinezes, maximas e sentenças da religião de Budha, ou pensamentos e theses da sabedoria chim. Nos altares, ornados com esculpturas de madeira e douradas, queimam-se em grandes vasos de cobre, alguns de fórmas elegantes, papeis encarnados ou pequenas vélas, a que chamam lamp-choes, e uns pivetes de côr. Os bonzos, que são os sacerdotes da religião chim, e que andam rapados e sem rabicho, perpassam por ali com a mesma irreverencia, com que os nossos sacristães andam nas igrejas portuguezas como em sua casa. Os devotos batem cabeça, ou jogam com um pausinho, que atiram repetidas vezes ao chão, e que, da maneira por que fica, tiram auspicios e agouros para o assumpto que os preoccupa. A grande batega, ou tam-tam, pende de um lado do tecto, emquanto do outro está suspensa urna sineta.
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Sobre os altares ostentam-se os mais extraordinarios e risiveis idolos, ou mettidos em nichos, affectando umas formas iracundas, flamejantes e de sobr´olho carregado, ou bonacheirões e felizes, com um riso alvar. Tem tudo aquillo um aspecto muito singular, mas que nem aos chins, nem aos estrangeiros infunde respeito ou veneração. 

Comecei os meus trabalhos sob um calor intenso, e cercado de uma infinidade de creanças, quasi todas nuas, e a quem de vez em quando dava algumas moedas de 10 avos. As creanças corriam loucas de contentamento com o seu thesouro, e as velhas, tostadas e miseraveis, com quem tinha iguaes generosidades, não se cansavam de fazer-me mesuras, e de soltarem exclamações monosyllabicas, gutturaes e desagradaveis. É que, depois do jogo, a maior paixão do chim é a do dinheiro.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896.

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