Macau, 11 de Junho de 1987.
Faço o que posso para entender esta terra, mas não consigo. É tudo tão enigmático, tão movediço, tão ambíguo, tão labiríntico, que o tino perde-se a cada passo. Procura-se Portugal angustiadamente e não se encontra, apesar de as ruas terem nomes de figuras nacionais e de a estátua de Vasco da Gama se erguer a dois passos do hotel. Ninguém fala português, a população é chinesa, nos templos reza-se a deuses que não vêm no catecismo. Um espírito que nos é alheio comanda todos os gestos e motiva todos os sorrisos.
Faço o que posso para entender esta terra, mas não consigo. É tudo tão enigmático, tão movediço, tão ambíguo, tão labiríntico, que o tino perde-se a cada passo. Procura-se Portugal angustiadamente e não se encontra, apesar de as ruas terem nomes de figuras nacionais e de a estátua de Vasco da Gama se erguer a dois passos do hotel. Ninguém fala português, a população é chinesa, nos templos reza-se a deuses que não vêm no catecismo. Um espírito que nos é alheio comanda todos os gestos e motiva todos os sorrisos.
Os exóticos, no meio da uniformidade amarela, somos nós. E, contudo, estamos aqui há quatrocentos anos. A fazer o quê? A construir o Farol de Nossa Senhora da Guia, o mais antigo das costas da China, que desde 1865 «ilumina com o seu brilho os mares circunvizinhos», a esculpir a fachada da igreja de S. Paulo, o mais extraordinário monumento sincrético do génio luso, e a teimar numa vocação ecuménica que nunca soube ser imperial. Temos febre de espaço, mas basta-nos a miragem da realidade. Corremos o mundo fantasmagoricamente, a deixar nele pegadas solâmbulas.
Diário de Miguel Torga. Vols XIII a XVI. 1999
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