A medicina chinesa por Castro Sampaio

Macau Macau

N’uma obra recentemente publicada em Macáo pelo Sr. ManoeI de Castro Sampaio - Os Chins de Macau - encontramos a seguinte curiosa noticia da medicina chinesa. Eil-a:

Os livros de medicina existem entre os chins desde uma época muito remota. O primeiro individuo que tratou deste assumpto, foi o soberano Fuhy. A sua obra, que não passa de um imperfeito tratado de botanica, escreveu-a 2852 annos antes de Christo. O successor deste principe, que foi Inty, o soberano Xennung, cognominado pelos chins o divino agricultor, não o succedou sómente no governo da China, mas tambem na propensão para a medicina. Assim, tomando por base o tratado do seu predecessor, deu-se a diversos estudos, e compoz uma arte de curar. Desde então tem apparecido na China um sem numero de obras medicas, escriptas por differentes auctores; mas os tratados considerados como principaes são apenas cincoenta e sete, sendo de maior credito e nomeada o do medico Hoat’o, nascido no tempo da dynastia Han, que começou 202 annos antes da era vulgar. Por estes tratados estudam os que se dedicam á profissão de curar, mas o estudo que fazem é particular, recebendo explicações dos que já se acham em exercicios clinicos, e praticando mesmo com elles, porque nenhuma escola há, onde possam ter um curso regular. 

Sómente os que são destinados para medicos do paço do imperador é que cursam os estudos com alguma regularidade, porque são admitidos no collegio imperial, onde, na qualidade de estudantes e praticantes, vão, sob a direcção de medicos que alli ha, adquirindo a teoria de envolta com a pratica, até que, sendo julgados com habilitações bastantes, passam por um exame. E uma vez aprovados, o parecer dos examinadores é submetido á sancção do imperador, o qual ordinariamente os manda nomear medicos ajudantes no aludido collegio, para mais tarde passarem a medicos do paço imperial.

Os facultativos chinezes são chamados em Macau mestres chinas. Há muitos residentes nesta cidade (…) e alem destes, ainda diversos outros por aqui apparecem de visita de tempos em tempos. Em todos elles ha um manifesto charlatanismo. Porém as doenças triviaes curam-nas bem e com facilidade. Para tratar de entorses, deslocações e fracturas, são verdadeiramente habeis. Ha casos de fracturas em braços e pernas, em que qualquer facultativo europeu votaria immediatamente pela amputação; e comtudo elles lhes sabem dar cura com admiravel resultado. 

Os mestres chinas capitulam as doenças, como os medicos europeos, isto é, pela historia pregressa dellas e pelo quadro symptomatico, observando o pulso, a lingua, etc. É curiosa a maneira porque tomam o pulso. Com a mão direita tomam o pulso esquerdo, e com a esquerda, tomam o direito, fasendo a sua observação com tres dedos, o índex, o do meio e o annelar. Com o index, que dos tres é o que deve ficar sempre mais proximo da mão do doente, na direcção do dedo pollegar e junto á articulação radio-carpica - o facultativo observa em geral o estado do thorax ou peito, e em especial o dos pulmões e do coração. Com o dedo medio observa em geral o estado do abdomen ou ventre, e em especial o do estomago, do figado e do fel. Com o dedo annelar finalmente observa em geral o estado do pelvis ou bacia, e em especial o dos intestinos, dos rins e da bexiga. Pelo que respeita ao baço e diversas outras entranhas, parece estarem ellas ainda fóra do alcance da medicina chineza.

Todos os tratados principaes fallam destas regras de tomar o pulso. O primeiro auctor que as apresentou foi Hoangty no seu livro, intitulado Questões Simples. E o primeiro, que as poz em pratica foi Ghiniuejen auctor do tratado, denominado Questões Difficeis. Os auctores são unanimes em dizer que no pulso existem tres pontos distinctos, pelos quaes se póde com os tres precitados dedos fazer as observações que acabamos de referir. (…)

Nas suas prescripções medicas, os principios medicamentosos são sempre acompanhados dos dieteticos. Os seus medicamentos são quasi todos vegetaes. Destes conhecem eIles um numero infinito; mas pouquissimos são os remedios animaes e mineraes que conhecem, e esses raras vezes os applicam. Tambem não têem conhecimento de operações, apenas fazem uma especie de acupuncturas, rompendo a derme com umas agulhas especiaes. Mesmo para tirar dentes nos consta que nem sempre empregam ferros. Dizem que, por meio de uns pés mui subtis que applicam ao dente que devem tirar, conseguem fazel-o cahir, e informam-nos de que estes pés são compostos de ossos humanos e urina de camello.

As sangrias e sanguesugas são applicações que elles não fazem, até ignoram. Applicam sudorificos, purgantes, vomitorios, adstrigentes, tonicos e emollientes; e bem assim differentes topicos, como ventosas, vesicatorios, emplastros, cataplasmas e fricções seccas ou com algum liquido espirituoso, etc. Finalmente applicam tambem banhos, e aconselham passeios ou agasalho e resguardo das intemperies atmosphericas, usando de boas palavras, que consolem e animem os enfermos. Os mestres chinas, porém, não se applicam geralmente ao tratamento de todas as doenças: há uns que se dedicam particularmente á cura de umas, e outros á de outras. Assim ha facultativos para doenças internas, ha outros para as externas, outros para o tratamento de creanças, outros para o de adultos, outros para o dos velhos e até alguns se applicam sómente a tratar das doenças do sexo feminino.

Archivo de Pharmacia e Sciencias Accessorias da India Portugueza, 1869

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