Ilustrações do Livro Desseins des edifices, meubles, habits, machines et ustenciles des Chinois;
gravés sur les originaux dessinés à la Chine par Mr. Guillaume Chambers;
auxquels est ajoutée une description de leurs temples,
de leurs maisons, de leurs jardins, &c. 1757
Uma travessa íngreme que, antigamente, ladeava o Correio Velho, levou-nos em breve a um recanto medieval, para os lados de S. Lourenço, onde os passos ressoavam, como um éco assustado, sôbre as pedras ajardinadas peIas ervas nos intervalos da calçada, restos, talvez, dum cenário de Macau do tempo das naus da prata...
Ressoou a aldraba, pesadamente, na porta verde da habitação recatada, e um china impassível, leve como um fantasma, apareceu a informar-nos:
- Cabeça, nan tem! - o que, em línguágem corrente, queria dizer que o cabeça, ou o dono da casa, não estava. (...)
Entretanto, um companheiro do amigo ausente, convida-nos a entrar no recinto velado que servia de átrio àquela habitação, onde tudo era silencio, luz discreta e se encontravam, como em recolhido museu, várias obras de arte chinesa, daquele estilo estranho, que oferece figuras obsecantes, animals terríficos, de olhos esbugalhados e bocas hiantes, escamosos e tão agressivos à nossa sensibilidade, que a um amigo de cultura invulgar e que conhece o Oriente, apenas, pelas descrições, ouvimos classificar, ao referir-se a certas produções da arte oriental, com o sugestivo epíteto de monstros cheios de bicos e picos, uma tradução feliz do irredutível antagonismo entre o Oriente e o Ocidente.
Efectivamente, era de bicos e picos a sensação desconfortante que sentiria qualquer europeu, não iniciado no culto da arte oriental, ao entrar naquela casa, onde se respirava uma atmosfera tão saturada de sentimento chinês, desde os demónios - ou figuras equivalentes - vermelhos e dourados, que ornavam a entrada da porta, aos sombrios dragões serpenteando pelos desenhos da alcova. Figuras, bronzes, boiões, velharias carcomidas, como despojos dos séculos da China, perdidos na eternidade, tudo mergulhado na mesma luz sombria e velada das lanternas, chegou a causar-nos um suspiro de alívio, quando nos encontramos, de novo, na claridade viva da rua.
Não estava o nosso amigo e, àquela hora, talvez andasse deambulando pelo Bazar, mergulhado na obsecação da China, ou percorrendo os Tin-Tins - mixto de antiquários e ferros-velhos - de Santo António.
Fomos, pois, a caminho do Bazar.
Cênas da Vida de Macau de Jaime do Inso. 1927





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