Tse-ming-tchung ou os relógios na China

Estas engenhosas machinas de medir o tempo eram totalmente desconhecidas no celeste imperio, e foram os portuguezes os primeiros que alli as levaram, em dezembro de 1582 partiu de Macau o jesuita Roger, e levou, entre outros presentes, um relogio para o vice-rei de Cantão, a esse tem o residente em Tchao-king, que outro jesuita, o celebre Mattheus Ricci, havia trazido de Goa. O vice-rei ficou de tal modo maravilhado vendo funccionar o relogio, que, trocando em benevolencia a altivez desdenhosa com que recebera os estrangeiros, ou barbaros, na accepção chineza, permittiu, contra as leis do imperio, que Roger, Ricci e alguns missionarios portuguezes residissem em Tchao-king, a algumas legoas de Cantão, onde lançaram os fundamentos á primeira missão catholica que houve na China.

1620-1683. Casa-Museu Dr. Anastácio GonçalvesEm 1601 ja o padre Mattheus Ricci gozava de grande nomeada entre os mandarins do imperio, pelo seu grande talento e conhecimentos nas sciencias physicas e mathematicas. N'aquelle anno foi a Pekim, por consentimento expresso do imperador, curioso de ver os presentes de objectos da Europa, que o habil e perseverante missionario lhe destinava, como meio de penetrar n'aquella mysteriosa capital, e alli prégar o christianismo. Entre esses presentes muita sensação produziram alguns quadros grandes a oleo, que até excitaram certo temor, pela naturalidade das physionomias dos personagens, e sobre tudo pelos olhos cheios de animação e de vida. Os relogios, porem, é que mais extasiaram o imperador e a sua corte; e como estavam desarranjados pelo longo trajecto, logo foram nomeados tres eunucos para aprenderem o modo de os concertar, o que constituiu empregos a que se ligaram certas prerogativas e dignidades.

O receio que os eunucos tiveram de que os relogios se estragassem e os não podessem mais reparar, o que talvez lhes poria a vida em risco, fez com que influissem para que o imperador consentisse que o padre Ricci e o padre Didaco, que o acompanhára, ficassem residindo em Pekim, como estes tão ardentemente desejavam. Assim succedeu, apesar do ciume dos mandarins, e mesmo das representações dos tribunaes, fundadas nas leis do imperio, que prohibem a residencia permanente de barbaros ou estrangeiros no reino do meio. (1)

O imperador estava de tal modo encantado de possuir os relogios, que, segundo contaram os eunucos, occorreu a anecdota seguinte. A mãe do imperadar tendo ouvido fallar dos maravilhosos tse-ming-tchung, ou campainhas, que tocam por si mesmas, desejou muito vel-os, e pediu ao seu imperial filho que lhós mandasse. O imperador ficou consternado: por um lado não podia deixar de condescender com os desejos de sua mãe; mas por outra parte temia que ouvindo soar os relogios, a imperatriz quizesse ficar com elles, o que seria muito desagradavel. O astucioso filho do ceo, como verdadeiro chim, achou meio de se tirar maliciosamente d'este embaraço. Mandou-lhe os relogios, mas por meio da respectiva mola suspendeu-lhes o bater das horas. A imperatriz mãe, não ouvindo soar os afamados tse-ming-tchung, aborreceu-se d'elles, e os devolveu ao filho.

O imperador da China, esse poderoso monarcha que governava mais de trezentos milhões de vassallos, afora os povos tributarios, estava de continuo extasiado á vista dos seus tse-ming-tchung. Encerrado no centro do palacio, o seu maior deleite era ouvir bater as horas, e ver o movimento dos ponteiros sobre o mostrador. Julgava-se o mais feliz potentado da terra; mas como, segundo um antigo proverbio chinez «os homens morrem, e as cousas estragam-se» (Jon-yu-sse, u-yu-huaí), aconteceu que os relogios vieram a parar, e os eunucos encarregados da sua conservação não souberam como remediar esta fatalidade. Sua magestade imperial, no meio da mais profunda magoa, mandou chamar o padre Ricci, esperando que elle podesse restituir o movimento aos relogios, e com isso a felicidade ao filho do ceo.

O padre Ricci limpou as rodas dos tse-ming-tchung, os ponteiros andaram, e as campainhas bateram as horas, tudo com grande apllauso e viva satisfação do imperador, dos eunucos, das damas de honra, e de todos os habitantes do palacio. Desde então, para obviar a que se repetisse tal calamidade, decretou-se que os missionarios teriam livre entrada na corte para vigiar a conservação dos relogios. Este extraordinario favor, concedido a barbaros, deu muito que fallar em Pekim, e augmentou a consideração de que ja gozavam os dois jesuitas.

O padre Ricci viveu em Pekim até a sua morte, acontecida em maio de 1610, sempre honrado pelo imperador, e muito estimado na corte. Deixou alli fundada a missão catholica, que depois muito floresceu, e onde tantos serviços prestaram os nossos missionarios portuguezes. Os chins, apesar da sua aptidão para todas as artes, ainda até hoje não construíram relogios perfeitos. Importam-nos da Europa, o que constitue um ramo importante de commercio. Estimam muito os que tem figuras moveis no mostrador, sobretudo se ellas representam scenas sensuaes ou obscenas, e pagam estes por alto preço.

O modo mais commum de medir o tempo na China, é por meio dos pivétes, ou delgados rolos em espiral, formados de serradura de madeira e de certos ingredientes, que ardem a fogo lento com tal regularidade, que por meio de nós collocados entre si a eguaes distancias marcam com sufficiente exactidão as divisões de tempo decorridas desde um ponto dado. Em algumas provincias, principalmente entre a gente do campo, servem de relogio os olhos dos gatos; uso fundado na observação, de que a pupila ou parte negra concentrica dos olhos d'aquelles animaes se adelgaça á proporção que se aproxima o meio-dia, mostrando então apenas uma delgada linha, que váe depois successivamente engrossando desde aquella hora.

D'este modo a simples inspecção dos olhos de qualquer gato, quando os camponezes não podem regular-se pelo sol, faz conhecer aos experientes as horas que são. 

Esta descoberta chineza, se chega a introduzir-se e vulgarisar-se na Europa, onde tanto abunda a raça felina, quem sabe até que ponto prejudicará a industria da relojoaria, e o officio de relojoeiro? 

C. em Archivo Pittoresco, semanario illustrado. Vol. I e II, 1857-58.

(1) Os chinas denominam o seu paiz pelas differentes designações de reino do meio, imperio celestial, o reino das flores.

Imagem da Colecção de Porcelanas (1620-1683) da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

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