Alguns dias antes da nossa partida de Cantão, encontrámos em casa um bilhete de visita deixado por Mowka, negociante de chá hong, com um convite para jantar. Este convite era escripto n’uma folha de papel vermelho extremamente fino, e muito maior que o de que se faz uso entre nós para o mesmo fim. Mowka é um dos mais jovens honguistas. Tem juz a trazer uma poupa branca no seu barrete (que me pareceu feita de marfim), e por conseguinte pertence á quinta classe dos Mandarins.
Pela volta das seis horas e meia da tarde nos encaminhámos para este banquete diplomatico, como diria um filhote de Londres. Criados, com enormes lanternas, nos precediam, e por cautela tínhamos enchido os ouvidos de algodão para nos pôr a salvo dos terríveis efeitos da música chinesa. O exterior da casa do nosso hóspede estava illuminado por uma multidão de lanternas, e uma orquestra de infernal harmonia saudou a nossa chegada. O dono da casa e seu filho estavam á porta para receber os convidados que, no meio de profundas zumbaias e comprimentos, conduzirão até ás cadeiras colocadas para elles na sala de recepção. O vestuário destes ricos Chineses era, nesta noite de festa, de uma extraordinaria magnificiencia. Por cima de seus vestidos tecidos da mais bella seda, e apertados por uma brilhante cinta da mesma fazenda, o jovem Mowka trazia um roupão de peles preciosas. Ambos conservarão na cabeça, sem nunca os tirar, os seus barretes de veludo adornados da poupa honorifica. Olhando para o todo, a sua apparencia era grave e magestosa. Logo que os convidados se sentarão em duas linhas parallelas, servio-se o chá em grandes chicaras sobre umas especies de pires muito chatos.
Tudo vinha em uma bandeja de ouro ou prata. É cousa sabia que tanto os Chinas como os Japonezes tomão o seu chá sem leite nem assucar. Deitão-se algumas folhas no fundo da chavena, e lança-se agua a ferver por cima; depois, logo que tem logar a infusão, se deita no pires o liquido que se bebe muito quente. O chá de que usão é em folhas inteiras; por isso a agoa ainda que com côr sufficiente, conserva-se com toda a transparência.
Em uma salla immediata estavão os musicos; havia, entre ellas, alguns cantores de fama. Tocárão e cantárão, sem cessar, durante toda a festa. Era, segundo disserão, uma especie de opera. O estrondo na verdade nada tinha de agradavel, porém os Chinas não davão a isso attenção aIguma: apenas nos intervalos de repouso, apanhavão algumas palavras soltas da cantoria para dellas fazerem um motivo de gracejos ou de observações.
Começou o banquete: fomos conduzidos a outra salla, onde estavão arranjadas em semicirculo varias mezas quadradas de seis logares cada uma. Ficárão desoccupadas da parte de dentro, porém por toda a parte guarnecidas de tapeçaria escarlate, ornada de soberbos bordados de ouro ou seda, representado flores do paiz com côres variadas. O dono da casa tomou um seu compatriota de fazer as honras de cada uma das outras.
Todas estavão guarnecidas de uma fileira de cestos cheios de frutas e flôres, e por detrás desta trincheira apetitosa, havia uma multidão de vasos e pequenos pratos com doces, tortas, manteiga, aves frias, salchichas, piramides de laranjas, e de ameixas, em uma palavra, infinidade de golodices. Havia, na exposição destas riquezas gastronomicas, uma arte maravilhosa, de que com razão se podia vangloriar o dono da casa.
Os Chinas nada fazem como os Europeos; por isso começamos pela sobremesa: havia diante de cada pessoa tres pequenas chicaras. A da esquerda continha o soy, molho aromatico com que os indigenas temperão todas as suas comidas; servem-se da do meio durante a comida, e sobre a terceira se pôe a colher de porcelana com que se costuma comer a sôpa. Dois pequenos páos arredondados nas pontas (as pessoas ricas tem-nos de marfim) estavão tambem diante de cada convidado. Custa muito aos estrangeiros servirem-se com estes páosinhos.
Era para os Chinas objecto de galhofa. - Vejão estes Europeos, aliàs gente sabia, dizião elles uns aos outros, que não sabem comer com aceio. Um de entre nós ouvio e comprehendeu perfeitamente este epigramma. Em lugar de guardanapos ha junto de cada talher uma porção de folhas de papel cortadas em triangulo e ornadas de margens vermelhas: com isto que limpão as mãos.
Para começar, o dono da casa nos convidou a que escolhessemos do melhor. Em quanto comiamos, chamava elle a nossa atenção sobre o sabor de tal fruta, ou sobre a raridade de tal ave. Assim se passou a primeira coberta.
Os Chinas não usão de toalha; porém levantárão tudo quanto havia sobre as mêzas, e substituirão novos acepipes. Ao mesmo tempo se pôz mais uma chavena a cada pessoa. Era para beber o samtschú, licôr formado pela fermentação do arroz, e que faz as vezes do vinho nas mezas chinezas. Os criados correm de umas a outras pessoas, levando grandes vasos de prata onde se conserva o samtschú a ferver. Esta bebida não me pareceu de grande prazer; ha com tudo de varias especies e gastos, entre ellas provei algumas que se podião assaz comparar á melhor agoardente.
Os Chinas são muito attenciosos. Quando querem beber desafião-se amigavelmente uns aos outros, desejando-se felicidade e saúde. Cada um toma a sua chavena com ambas as mãos, despeja-a de uma vez, e quando acaba, volta a bôca da chavena para aquelle a quem desafiou, para lhe mostrar que não ficou nada na chicara. É forçoso imita-lo sob pena de passar por incivil.
Ao segundo serviço que comprehenderia bem 60 pratos differentes, succederião as sôpas. Estas vem em terrinas pequenas, que se pôem no meio da meza, e donde cada pessoa tira a sua porção com a colher de porcelana, de que já se fallou. Tivemos assim 5 ou 6 differentes sôpas entremeadas com varios guisados, pasteis, conservas, picados, etc.
O chá servia de intermédio, assim como o tabaco. Por esta forma se recobravão as forças, para começar novamente até ao fim. A final, depois de muitas cobertas, a qual mais abundante, armárão-se outras cinco mezas no espaço vazio diante daquellas em que estavamos. Cobrirão-se de assados: com especialidade carne de porco e aves. Dez cozinheiros vestidos com gosto e uniformidade, entrárão então na sala, e se pozerão a trinchar. Havia dois para cada meza, e que desempenhavão mui dextramente a sua tarefa. Outros criados nos servião os pratos que fazião os primeiros. Foi forçoso continuar ainda a comer. No fim da meza tornárão a apparecer os cozinheiros, e dirigirão á companhia respeitosos e humildes agradecimentos pela honra que lhes havião feito de approvar os seus guisados. Levantamo-nos então da meza.
Havia 6 horas que nos tinhamos sentado, e centos de pratos havião successivamente passado diante de nós. Os Inglezes, e sobre tudo os Allemães fazem consistir o seu principal prazer na profusão e duração de uma boa meza; porém os Chinas lhes levão muito a palma; é o povo mais apurado, mais glotão, e mais voraz que até agora se tem conhecido.
Tudo comem, diz o doutor Mager. Pelas ruas e pelas praças de Cantão, se vê um perpetuo mercado de comestiveis; por toda a parte se encontrão viandas que entre nós estão bem longe de serem de bom gosto; falcões, môchos, aguias, cegonhas. Nada diverte tanto os Europeos como o vêr andar um China trazendo ao hombro um páo de que pendem duas gaiolas cheias de cães e gatos em logar de galinhas ou pombos. Ha uma espécie de cão fraldeiro que é muito procurado para guizar. Os cães vão muito sossegados dentro destas prisões portáteis, porém os gatos fazem uma bulha tal que parece pressentirem o seu destino. A carne delles, quando estão bem gordos, gosa de estimação geral, mas, pelo seu preço, só costuma ir á meza dos ricos.
Não acontece assim com os ratos, que são o alimento dos pobres. O vendedor de ratos chega ao mercado com grande numero destes animaes espetados em páos, como se fossem coelhos. – O espectáculo deve ser pouco appetitoso ao viajante, cujo paladar está ainda costumado ás exquisitices Europeas!
Comtudo a glotoneria chineza tem os seus castigos. Além das indigestões que o chá nem sempre previne, conta-se que os cães tem tomado em horror este povo carnívoro. Reconhecem pelo faro os glotões amigos da sua carne, juntão-se á roda delles, perseguem-os a ladrar, e muitas vezes, se podem, os apalpão com os dentes. Extravagante condição dos costumes humanos! O cão é para alguns povos um amigo, para outros um Deos, para os Chinas uma comida delicada!
O Recreio, jornal das familias, Tomo II. 1836
Sem comentários:
Publicar um comentário