Romagem à ilha de Sanchoão

Sanchoão
Sanchoão
Logar na ilha de Sanchoão, onde primeiro foi sepultado S. Francisco Xavier. Foi tirada na occasião da visita dos romeiros que, em novembro do anno ultimo, alli se dirigiram, idos de Macau. (...)

Um dos romeiros, que suppomos ser o rev. Padre Joaquim José de Affonseca e Mattos, professor distincto no seminario de Macau, descreveu nos seguintes termos aquella notavel romaria, que tantas e tão gloriosas recordações historicas suscita do nosso antigo padroado do Oriente, e do zelo dos nossos maiores pela dilatação da fé:

«Era pela meia noite do dia 19 de novembro de 1864, quando o vapor Hankow, levando a bordo cento e trinta romeiros, pouco mais ou menos, no meio dos signaes da mais expansiva alegria, sulcava as aguas da hahia de Macau, e dobrando a ponta de Ka-hó, se dirigia á desejada ilha de Sanchoão. A lua que, surgindo no extremo horisonte, subia pelo ceo azulado e puro, prateava com sua pallida luz, sempre cheia de poetica melancolia, as aniladas aguas do mar. A serenidade do ceo, o silencio da noite, a frescura da viração, a placidez das ondas, tudo concorria para augmentar as doces commoções da nossa alma, occupada na contemplação das grandezas divinas. N'esta occasião verdadeiramente solemne, reinava entre os romeiros aquella paz e serenidade da alma, aquelle puro e ineffavel prazer que a fé incute, e que o coração dos romeiros experimentou, mas que a nossa penna não póde expressar, porque é coisa mais que humana. As amigaveis conversas que travavam, ás vezes, os passageiros, não tinham outro thema senão a vida do grande Xavier, apostolo do Oriente, e a sua morte em Sanchoão.

Notavam todos a singular coincidencia do dia em que se effectuava a nossa romaria com o que o santo tinha escolhido para sua vinda a estas terras em direitura a Cantão, que foi exactamente o dia 19 de novembro. Não deixavam tambem de notar que o dia que se seguiu á projectada partida do santo foi um domingo, 20 de novembro, no qual dia o santo celebrou pela ultima vez a missa em suffragio de um defuncto, e adoeceu d'aquella fatal enfermidade que o levou a sepultura: e este era o dia escolhido não por nós, mas pela Providencia, que queria honrar ao seu fiel servo com uma solemnidade commemorativa do ultimo acto da sua vida apostolica, e do principio da sua mortal enfermidade. N'estas considerações e affectos, as horas voaram como instantes, e já pelas 6 da manhã o vapor deitava ferro na bahia de Sanchoão. Eramos chegados á terra suspirada; mas qual não foi o nosso embaraço, quando entre tantos romeiros não encontrámos um só que soubesse indicar-nos com exactidão o sitio da sepultura?... Isto não era de admirar, visto que n'este seculo só por duas vezes se fez a romaria, uma em 1813, e a ultima em 1810; e desde então aquellas praias nunca mais foram visitadas pelos devotos do grande apostolo. Enviou-se então á terra um bote com 5 romeiros para se informarem sobre o logar da sepultura; e nós fomos do numero d'estes.

Ao desembarcar encontrámos um china, o qual, perguntado se sabia da sepultura de um santo europeo ahi enterrado, havia 300 annos, respondeu-nos que existia, a pouca distancia do logar onde estavamos, uma sepultura que tinha uma lapida com uma inscripção européa. Offereceu-se-lhe uma remuneração, se elle quizesse mostrar aquelle sitio, ao que promptamente annuiu. Depois de andar alguns minutos pela praia, chegamos ás faldas de um oiteiro sobranceiro ao mar, do lado de N. E., que fecha d'aquelle lado a bahia. Subimos pela encosta, e a uma altura de 40 a 50 metros acima da praia, parou o nosso guia, e indicou-nos um logar, a pequena distancia, onde se divisava, por entre pandóes (certas cannas ou plantas), uma lapida. Ahi corremos logo, e vimos que essa pedra era o padrão levantado em 1639, pelos jesuitas, em memoria de S. Francisco Xavier. Imaginem qual não seria a nossa alegria quando tivemos a certeza de ter encontrado a sepultura do santo!... O padrão estava quasi em posição vertical. Na parte dianteira, por ser mais exposta á intemperie do tempo, apenas podémos decifrar a data em china, emquanto que, no reverso do padrão, a inscripção em portuguez era perfeitamente legivel. (...)

Desemharcaram os mais romeiros com todos os arranjos precisos para construir a tenda e levantar os altares. A comitiva dos romeiros era composta de portuguezes, hespanhoes, inglezes, irlandezes, italianos, francezes, chinas, americanos, allemães, indios, peruanos e armenios, sendo naturalmente de portuguezes o maior numero, 90 a 95, pouco mais ou menos. Era bello ver como todos, sem distincção nem excepção alguma, se afadigavam a transportar pela encosta as caixas, a cortar o mato, a aplainar o logar, a armar a capella e levantar altares. Em menos de uma hora tudo estava prompto para a celebração da sacrificio divino. Pelas 9 e meia se disseram tres missas a um tempo nos tres altares erigidos em roda do sepulchro; acabadas as quaes se cantou a missa solemne, continuando comtudo as missas rezadas nos altares lateraes. A musica era bella e devota, e as vozes argentinas dos meninos do seminario de S. José nunca nos pareceram tão suaves e harmoniosas como n'esta occasião. O sr. Antinori a dirigia, acompanhando-a com uma serafina, ou harmonio.

Recitou o sr. padre Fancisco Xavier Rondina um breve discurso, em que expressou os sentimentos de que então estava possuido o seu espirito em vista d'aquelle santo logar, discurso que commoveu os assistentes, e fez derramar lagrimas a todos pelo convencimento intimo e pela uncção com que foi proferido. Era pouco depois das 11 horas quando acabaram as dez missas que se celebraram ao pé da sepultura. Fazia sol ardente; comtudo, demorámo-nos alguns minutos mais para tirar duas vistas photographicas do logar. Ao meio dia já todos estavam a bordo do Hankow, dando por terminada a romaria. Nenhum accidente nem desastre aconteceu; tudo correu tranquilamente.

O vapor, depois de uma viagem de pouco mais de 6 horas de tempo, veiu fundear na Praia Grande, o os romeiros desembarcaram cheios de saudade do sitio em que passaram momentos tão felizes, n'esse abençoado dia 20 de novembro de 1864, para sempre memoravel. Segundo as informações que obtivemos em Sanchoão, ha na ilha a população de 2:000 almas, que vivem da agricultura e da pesca. Não existe ahi auctoridade alguma mandarina; quem governa as aldeias são os anciãos. Alguns habitantes da ilha com os quaes fallámos tinham perdido toda a tradição a respeito de S. Francisco Xavier (...)

O monte em que está a sepultura do santo chama-se, como ahi nos disseram os chinas, Tai-hó-xan, muito bom monte. (...) Terminaremos esta succinta narração transcrevendo a inscripção que o rev. padre Rondina fez gravar n'uma lapida de marmore, que foi collocada junto a uma das paredes que acima mencionamos. Eil-a:


A data d´esta lapida (trabalhada e collocada gratuitamente por pedreiros chinas pagãos, mettendo até alguns d'elles empenhos para isso!) é de 24 de maio do corrente anno; porque estava determinado ser então collocada; mas isso não se póde realisar, e foi collocada no dia 20 de novembro. Parece-nos a proposito fazer esta declaração para impedir por ventura futuras questões entre os devotos que nos succederem na romagem a Sanchoão. A traducção da inscripção china é a seguinte: «Antiga sepultura do santo europeo S. Francisco Xavier, da Companhia de Jesus

Esta lapida foi levantada pelos seus correligionarios no dia 17 da 4ª lua do anno Chiatzu, reinando o imperador Tum-chi, da dynastia Ta-chim. 

Archivo Pittoresco, semanario illustrado, Vol VIII, 1865

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