Os chineses e o progresso

Cotai
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No geral, estes homens amarelos não são nem místicos, nem fantasiadores, nem quiméricos. As suas melhores qualidades são o sentido das coisas práticas, a resistência para o trabalho, a honra nos negócios, a perfeita cortesia e, ainda, o espírito de assimilação. Toda a gente conhece a anedota do alfaiate cantonense. Um europeu leva-lhe um fato cheio de remendos e de manchas, como amostra. Ao fim de três dias o alfaiate tras-lhe o fato novo, e o europeu vê com assombro que, não só é uma imitação exacta como corte, mas que também tem os mesmos remendos e as mesmas manchas que o modelo. (…)

Nos compêndios milenares de moral, encontram-se razões para se oporem à menor reforma. Enquanto o povo principia a modificar a sua industria ou o seu comércio, o mandarim consulta os seus textos e ouve as vozes dos antepassados. O fanatismo pelos mortos é geral e, para não contrariarem a vontade dos seus avós, um chinês submete-se a qualquer ordem. A sua verdadeira pátria é o cemitério. O país, como grande berço da raça, é-lhe indiferente. Mais do que amor, há antipatia entre província e província. Além disso, não falam a mesma língua; cada comarca conserva os seus costumes e um homem de Cantão, por exemplo, sente-se estrangeiro em Pequim. A única coisa que os une é a fé comum e a ideia comum da protecção aos mortos. Veja que, quando um mandarim quer impedir que se construam caminhos de ferro, a primeira coisa que diz e faz constar é que isso vai perturbar o repouso dos cemitérios. No mesmo instante, o povo se mostra hostil. Assim, pois, enquanto os chineses estiverem dominados por idólatras que, como rotina, adoram os velhos textos, no farão grandes progressos. 

De Marsella a Tokio, sensaciones de Egipto, La India, la China y el Japón (tradução livre) de E. Gómez Carrillo, 19...

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Hoje um país que se encontre na encruzilhada entre a modernização-destruição e um isolamento que conserve a sua identidade não tem, de facto, escolha. Os outros já escolheram por ele. Os homens de negócios, os banqueiros, os peritos das organizações internacionais, os funcionários da ONU e os dos governos de meio mundo são actualmente profetas convictos do «desenvolvimento» a todo o custo; todos acreditam numa espécie de missão, em muitos aspectos semelhante à do general americano no Vietname, depois de ter arrasado uma aldeia ocupada pelos vietcongues, disse, com o orgulho próprio de quem está convencido de ter realizado uma obra meritória: «Tivemos de a destruir, para salvá-la». (…)

Já não há necessidade de catedrais nem de mesquitas. Os novos templos são os hotéis. É assim em quase toda a Ásia. Já não existem belos palácios nem pagodes a marcar o panorama das cidades. Só hotéis. Os hotéis são o centro da vida, os pontos de encontro, de reflexão, de diversão, de distracção, de prazer. Os hotéis são aquilo que eram antigamente os cafés, as igrejas, as praças, os teatros. Todos em um. Em Kuala Lumpur como em Hong Kong, em Seul como em Banguecoque. (…)

Na Ásia está-se sempre dentro deles. No hotel marca-se encontro, come-se, comemoram-se as festas e os aniversários. Vai-se ao hotel nadar, fazer as compras, dançar, casar. Os jovens abastados da nova Ásia quase não conhecem outra coisa. Para muitos deles, passear é andar de hotel em hotel, muitas vezes através de enormes shopping malls com pavimentos de mármore e árvores de plástico. (…) As árvores melhores, que se vêem agora por todo o lado, são as falsas, que não precisam de chuva, basta uma espanadela de vez em quando. (…)

Não suportava esta sociedade de taberneiros novos-ricos, que podiam permitir-se tudo menos pensar. Dava-me fastio a sua tacanhez e ostensiva arrogância, o facto de confundirem o produto interno bruto com o quociente de inteligência, o rendimento per capita com o progresso, o kitsch com o belo, a quantidade com a qualidade. (…)

Raramente a humanidade se encontrou, como hoje, privada de figuras inspiradoras, de faróis orientadores. Onde está um grande filósofo, um grande pintor, um grande escritor, um grande escultor? Os poucos que nos vêm à mente são sobretudo fenómenos de publicidade e de marketing...

Disse-me um adivinho, em viagem pelos mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani. 2014

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