O theatro chinez é antiquissimo nos annaes deste povo

Travessa do Auto NovoNão ha edificio permanente para theatro (...); só em alguns grandes pagodes ha local, e construcções apropriadas para estes espectaculos, que em geral se representam n´um grande barracão com o tecto angular e muito elevado, coberto com esteiras ou colmo; o madeiramento é formado de bambus, fortemente ligados com fios de rotim; é aberto por todos os lados, e só tem uma fragil parede de taboas no fundo do que chamaremos palco, aos lados do qual correm parallelas uma especie de varandas ou trincheiras, com assentos para os espectadores, que os querem pagar (...). O espaço intermedio constitue a platêa, sem sobrado, nem amphitheatro, com a entrada toda aberta em frente do palco, gratuita para o povo, que vê o espectáculo de pé, e que sempre concorre em multidão. 

Os individuos que ficam na primeira fileira da platéa, são obrigados a apoiar-se com as mãos na extremidade do palco, que lhes fica na altura das cabeças, formando como um renque de escoras com os braços nús, para resistirem aos contínuos embates das ondas dos espectadores, os quaes, vistos das varandas, formam apinhados uma especie de pavimento composto de cabeças muito unidas, rapadas na maior parte do casco, e que ora são levadas todas n´uma direcção, ora n´outra, exactamente como as vagas de um mar banzeiro.

Se o espectador levanta a vista para o tecto vê um bando de attais (rapazes ou gaiatos chinas) de todos os tamanhos, pendurados, escarranchados, e a marinhar pelos bambús, semelhando ligeiros macacos, e que quando lhes dá a vontade ou o capricho ourinam sobre aquella respeitavel assembléa. 

Nestes theatros não ha panno de bocca: as decorações são muito singelas e grosseiras, e a poucas mutações na scena todas se fazem á vista do publico: de noite são illuminações com fachos e luzes sobre o tablado. 

Duram as representações de dia das 11 ás 5 da tarde, e continuam das 7 á meia noite, ou mais. A representação é continua, e não tem os intervallos dos nossos actos; mas ha scenas successivas que se vão annnunciando por uma espécie de cartaz, ou taboleta, que penduram n´uns barrotes, na posição que corresponderia ás columnas do proscenio. 

De dia dão-se quasi sempre peças serias ou históricas, reproduzindo os antigos acontecimentos do imperio, entrando o imperador e os seus ministros, e nas quaes de ordinario ha guerras, combates singulares, conspirações, traidores castigados, e pulos ou grandes exercicios gymnasticos, no que os Chinas são habilissimos, e mui superiores ao que neste genero se vê na Europa: os pulos com voltas duplas e triplas no ar, que apenas executa algum artista celebre europeu, vêem-se fazer como cousa commum por uma duzia de homens n'uma scena. De noite representam-se as peças jocosas ou entremezes, havendo quasi sempre uma cama no palco, e scenas lascivas tão ao vivo que offendem o gosto dos Europeus, e impedem que o theatro seja frequentado por mulheres decentes, macaenses ou chinas. (...)

As tres unidades são despresadas no theatro chinez, como na eschola romântica da Europa: uma mulher concebe, torna-se gravida, tem o filho, e cresce este, tudo em acto successivo. Vi uma scena em que uma mulher por ciumes matou o amante, sugando-lhe o sangue como um vampiro, depois lhe arrancou o coração e os intestinos, e veio passear pelo palco com as tripas penduradas da bocca, fazendo que as devorava com o praser de uma fera esfaimada. Tal scena parece-me que não lembrou ainda aos nossos romanticos exaggerados.

O theatro chinez é antiquissimo nos annaes deste povo, muito rico em producções dramaticas, e algumas se tem traduzido modernamente em inglez e francez que apresentam bastante merito e regularidade. Dizem que ha varias analogias entre o antigo teatro grego o o chinez: ha córos, musica, e as personagens que entram nas peças vem no principio declarar ao auditorio quem são, e o papel que vão representar. 

Certas qualidades do seu caracter, como a valentia, o saber, a fraquesa, a traição, etc., são reconhecidos pelo espectador por determinados distinctivos ou ornatos. Varias acções subentendem-se por signaes convencionados: por exemplo, o actor que tras um chicote suppõe-se que vem a cavallo, e quando o entrega é indicio que se apêa. 

A orchestra está no fundo do palco, e é composta de uma especie de rebecas, de gaitas com fórma e sons semelhantes á clarineta, e de bategas ou timbales, o que produz uma musica estrondosa e infernal, que acompanha quasi constantemente a declamação; junte-se a isto o frequente rebentar dos panxões ou estalos sobre a sobre a cabeça dos actores, admiravelmente a proposito no fim das fallas, ou nas passagens de maiores afectos; e fazer-se-ha idéa da bulha confusa e incommoda que se experimenta, e que cobre a voz dos actores, apesar de berrarem, ás vezes, extraordinariamente.

Os representantes são todos homens; vi aIguns de bastante merecimento, e que exprimiam bem no rosto e gesto, por onde eu só os podia avaliar, differentes affectos e paixões. Os vestuarios das altas personagens são magnificos, de ricas sedas e bordados. 

Estas companhias são ambulantes, e ajustam-se pelos dias de representação, segundo o merito dos actores e a riquesa da guarda-roupa: regulam de 50 até 200 patacas por dia. As representações tem Iogar de ordinario na occasião de festas nos pagodes, para o que concorrem os devotos como nas nossas funções de arrayal. Outras vezes os logistas de qualquer povoação ou bairro da cidade, cotisam-se só para o fim de haver theatro, ou fazem correr subscripções: de ordinario dura de 3 a 8 dias, e se construe diante de um pagode, de modo que o palco fique em frente dos idolos. 

Nas representações que vi em Macáo, nas aldêas de Patane e da Barra, o palco ficava sobre a agoa; porque os respectivos pagodes são situados á margem do rio, e succedia por vezes irem tomar de repente um banho alguns dos espectadores, que estando junto ao palco eram arrojados pela pressão enorme da multidão. No pagode da Barra presenciei uma representação, que teve logar ás 7 horas da manhã, de assumpto religioso, ou especie de oratoria, em que houve só mimica: varios grupos de mulheres (homens transvestidos), lindamente vestidas, formavam nas suas atitudes letras chinezas, exprimindo certos pensamentos, e epithetos das suas divindades: no fim do espectaculo uma figura, representando um deus do paganismo, lançou ás mãos cheias sapecas sobre a platéa; foi curiosa a scena de confusão que se seguio, ao serem apanhadas e disputadas pela multidão, não só por ser dinheiro, mas pelas idéas supersticiosas de felicidade que os Chinas ligavam á posse de taes sapecas. Uma grossa amarra formada de panxões, pendurada do tecto, começando a estourar veio ainda tornar mais grutesca e divertida a scena.

Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa de Carlos José Caldeira, 1853

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